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São Francisco do Paraguaçú
Boqueirão - Resistência e Luta
"Todos nós franciscanos somos quilombolas, independente da cor dos cabelos, dos olhos... não é preciso ter nascido aqui. Tem que aceitar nossa forma de vida. Somos por toda nossa raiz familiar, todos nossos antepassados fizeram parte dessa linhagem.
Liberdade!!!
É o que nos faz diferente".


Roseni Santana

No dia 20 de julho de 2008 o Instituto Búzios em parceria com a Associação Quilombola de São Francisco do Paraguaçu conduziu a essa comunidade uma caravana constituída pelo coletivo negro da entidade, lideranças do movimento negro e assessores de projetos. A visita teve como objetivo a demonstração de solidariedade e a articulação de ações de apoio à luta quilombola. O quilombo de São Francisco do Paraguaçu existe, desde 1.600 segundo os relatos dos mais idosos. Na área adjacente foi construído um dos primeiros engenhos de açúcar do Brasil, pioneiro na exportação do produto para a Europa. Ali se pratica um modo de vida fruto de uma longa tradição deixada pelos ancestrais. Na Floresta são extraídas a Piaçava, o Dendê, a Castanha, e tantos outros produtos. Diferentes tipos de cipós são usados para fazer cofos, cestos e outros artesanatos aprendidos a muitas gerações. A organização da luta pelos seus direitos, tem contado com o apoio constante da Comissão Pastoral dos Pescadores – CPP através dos assessores Zezé e Marcos, da ajuda da Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais – AATR e do Secretario de Promoção da igualdade do Estado da Bahia, Luiz Alberto. A própria forma de ocupação livre e comum do espaço - sem preocupação com delimitação e formalização de títulos individuais - e o desconhecimento dos direitos territoriais por parte da comunidade abriu brechas para que vários grupos se arvorassem na condição de proprietários forjando títulos de propriedade nos cartórios. É uma violação de direito bastante comum nos territórios tradicionais e que mereceu tratamento explicito no artigo 17 da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil. A família de Ivo Santana, tendo a frente o filho Lú Cachoeira lidera os fazendeiros da região nas várias ameaças e investidas contra a comunidade utilizando, capangas, pistoleiros, a atuação clandestina de policiais militares não fardados, violentando crianças, perseguindo idosos, com o cercamento do manguezal e a destruição de colheitas. Coagidos pelos fazendeiros, por meio de relações de compadrio e dependência financeira [não efetivando pagamento por serviços realizados] alguns membros da comunidade rejeitam sua identidade quilombola. A comunidades quilombola fortalece a cada dia sua articulação com as organizações negras, ciente que o caminho de reparação das injustiças raciais é irreversível e que o direito constitucional à propriedade de seus territórios secularmente ocupados será efetivado com a continuidade da luta. Evani Lima e Valdisio Fernandes.

Movimentos sociais mobilizam-se em defesa de São Francisco do Paraguaçú-Boqueirão
Lançamento do filme "Maria do Paraguaçú"

Entidades do movimento negro e movimentos sociais realizaram no dia 27 de novembro de 2008, em Salvador, um encontro de solidariedade com a comunidade quilombola de São Francisco do Paraguaçú-Boqueirão. Estiveram presentes representantes de organizações negras como o terreiro da Casa Branca, Movimento de pescadores, Movimento Vozes de Salvador, Fórum A Cidade é Nossa, acadêmicos, quilombolas, ambientalistas, estudantes e assessores de instituições parceiras nas lutas do povo negro. O evento teve o objetivo de divulgar os conflitos que os quilombolas enfrentam há muitos anos com os fazendeiros e a luta para obter o reconhecimento e a titularidade das terras ocupadas por seus ancestrais. Foi promovida uma “Mostra de Produtos Cultivados na Comunidade”, vendendo-se mandioca, aipim, milho, azeite de dendê, jaca, pimenta e produtos derivados. Em seguida houve o lançamento do filme / documentário “Maria do Paraguaçú”, que faz um relato da história dos remanescentes do quilombo do Paraguaçu-Boqueirão. O filme aborda ainda a criminalização do movimento pela Rede Globo e a viagem de representantes dos quilombos a Brasília para apresentar suas demandas ao governo federal. Uma delegação de lideranças de São Francisco participou dos debates e esclareceu dúvidas dos presentes. A iniciativa expôs às cerca de 50 pessoas presentes um estilo de vida onde são priorizados princípios de proteção e respeito à natureza e uso sustentável do território. Visando arrecadar recursos para a construção da sede da associação do Quilombo, foi lançada uma camisa que pode ser reproduzida e comercializada pelas entidades solidárias, destinando-se os ganhos para a comunidade. Ao final, os representantes de São Francisco do Paraguaçú fizeram uma oração em solidariedade às vitimas dos temporais de Santa Catarina, demonstrando que essas comunidades estão conectadas com realidade do país e apesar das dificuldades no seu dia a dia, cultivam o sentimento de solidariedade. O evento foi organizado pela Associação dos Remanescentes do Quilombo de São Francisco do Paraguaçu Boqueirão; CPP - Comissão Pastoral dos Pescadores; Instituto Búzios; CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço e HEIFER. Fonte: Valdisio Fernandes, Instituto Búzios e Andréa Fernandes, CESE.


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