Boletim Mensal do Instituto Búzios – Mídia Negra e Feminista

 

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ANO XXII – EDIÇÃO Nº255 – JUNHO 2026

Rick Azevedo, do Movimento Vida Além do Trabalho: semeou a maior redução de jornada no Brasil desde 1988

Por Rute Pina e Mariana Schreiber – Quando denunciava a exaustão da escala 6×1 em suas redes sociais, o então balconista de farmácia Rick Azevedo não imaginava que ele seria o pontapé de uma nova discussão nacional sobre a redução da jornada de trabalho no país. A pauta rapidamente chamou a atenção de partidos e movimentos sociais de esquerda, que já vinham tentando atualizar o tradicional discurso sindical com a discussão em torno dos direitos trabalhistas de entregadores e motoristas de aplicativo. Um ano depois da publicação do desabafo, aos 30 anos, Azevedo foi eleito como o vereador mais votado do PSOL do Rio de Janeiro, com mais de 29 mil votos. Em Brasília, a pauta ganhou tração quando Erika Hilton decidiu transformá-la em proposta legislativa. O texto inicial era mais ambicioso do que a proposta aprovada agora: previa uma jornada semanal de 36 horas, sem redução salarial, abrindo espaço para um modelo de quatro dias de trabalho. Em abril deste ano, Lula encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei com a proposta. O governo passou a defender uma versão mais moderada do projeto: jornada semanal reduzida de 44 para 40 horas, garantia de dois dias de descanso (modelo 5×2), proibição de redução salarial. No dia 27/05/2026, a Câmara dos Deputados aprovou, por 461 votos a favor e apenas 19 contra, o projeto que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e substitui o modelo 6×1 por cinco dias de trabalho e dois de descanso remunerado. O texto agora segue para o Senado Federal, onde precisará do apoio de 3/5 dos parlamentares (49 votos dos 81 senadores). O governo Lula aposta no apelo popular da proposta para pressionar os senadores — dois terços das vagas do Senado estarão em disputa em outubro. Leia a matéria completa. Fonte: BBC Brasil e Mundo Negro.

Trabalho, raça e gênero no Brasil

Por Carlos Vasques – O capitalismo brasileiro funciona através de um contínuo expropriatório-doméstico que distribui diferentes graus de exploração, coerção e invisibilidade conforme classe, raça e gênero. O capitalismo contemporâneo não funciona apenas por meio da exploração do trabalho assalariado. Essa é apenas sua face mais visível, mais legalizada e socialmente reconhecida. Sob ela, coexistem outras formas de extração de riqueza e administração da vida que permanecem parcialmente invisíveis: o trabalho expropriado e o trabalho domesticado. A crença de que o capitalismo opera exclusivamente por meio do contrato salarial impede compreender como sociedades profundamente desiguais, como a brasileira, continuam dependendo da coerção, da racialização e da invisibilização sistemática de determinados corpos para manter sua estrutura de funcionamento. O salário não aboliu a violência. Apenas reorganizou socialmente quem pode ser protegido dela e quem continuará exposto. No Brasil contemporâneo, basta observar a organização concreta do trabalho para perceber que diferentes grupos sociais ocupam posições radicalmente distintas dentro da ordem econômica. Há aqueles inseridos na esfera relativamente protegida do trabalho formal; há os permanentemente ameaçados pela superexploração e pela informalidade; e há ainda os que permanecem próximos de zonas onde a própria condição humana se torna precária: trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão, migrantes submetidos à coerção econômica extrema, mulheres negras encarregadas do trabalho invisível de reprodução da vida. Leia o artigo na íntegra. Fonte: A Terra é Redonda.

Colonização dizimou diversidade do DNA indígena nas Américas

A colonização europeia reduziu o DNA indígena na América Latina a uma fração da sua diversidade genética original. É o que revelou um estudo publicado em abril na revista científica Nature por pesquisadores de universidades do Brasil, Espanha, Alemanha e outros nove países, sob a liderança da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona. Análise revela variações ao longo de 15 mil anos. Onda migratória recente do México à América do Sul teria alterado mapa genético. Trata-se da maior base genômica já reunida sobre populações indígenas americanas, historicamente sub-representadas no mapa genômico humano. “Pela primeira vez reunimos genomas completos de um grande número de populações indígenas contemporâneas de grupos que nunca haviam sido estudados antes. É um avanço sem precedentes”, segundo Marcos Araújo Castro e Silva e Tábita Hünemeier, cientistas afiliados à USP e à UPF. Leia a matéria completa. Fonte: Deutsche Welle.

Línguas indígenas do mundo inteiro se revitalizam com uso de dicionários multimídia

Por Ana Vilacy Galúcio e Erika Morhy – A importância de se preservar, revitalizar e promover as línguas indígenas no mundo, tanto para os povos falantes quanto para a humanidade, ganhou uma chancela significativa em 2019, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período de 2022 a 2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas. A iniciativa pretende aumentar a conscientização global sobre a importância dessas línguas para o bem viver dos povos ao redor do globo e para o risco iminente de desaparecimento de muitas das 7.674 línguas identificadas atualmente. Muitas dessas línguas estão em vias de desaparecer, na medida em que as novas gerações não aprendem a língua de seus ancestrais. Com permanentes pressões econômicas, ambientais e sociais, os povos indígenas no Brasil sofrem o mesmo risco de extinção de suas línguas. O trabalho desenvolvido por linguistas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e de instituições científicas parceiras se insere neste cenário há mais de 50 anos, sempre direcionando esforços para a Amazônia Legal. Leia o artigo na íntegra. Fonte: The Conversation Brasil.

Lima Barreto, cronista das cidades desiguais

Por Camille Bropp – Pesquisa desenvolvida por Milena Dantas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob orientação do professor Andre Luiz Cavazzani, analisa vida e obra do escritor que narrou a criação e presença do subúrbio, após o “bota-abaixo” que projetou o Rio na “modernidade”. O trem como laboratório social de personagens e histórias. E a educação como escape, em uma sociedade recém-saída da escravidão. Foi por meio de um “bota-abaixo” que o Rio de Janeiro do início do século XX decidiu ingressar na modernidade. Mais de 500 prédios e casarões demolidos para dar lugar a uma arquitetura inspirada na parisiense explicam a expressão popular, que, em sentido figurado, também revela as mudanças sociais higienistas que ocorreram no período. A reforma do prefeito Pereira Passos dividiu a então capital do país em duas, criando o subúrbio que o escritor Lima Barreto viu surgir na juventude e onde viveu a maior parte da vida. O Subúrbio era o território dos que nunca tiveram oportunidade (caso dos escravizados e dos seus descendentes recém-libertos) e dos que até tiveram alguma, mas não conseguiram aproveitá-la. Para ambos, sobrava a vida no “refúgio dos infelizes”, na expressão barretiana. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

A hierarquia da existência

Por Henrique Matthiesen – A história da humanidade é, ao mesmo tempo, uma narrativa de ascensão biológica e de decadência moral. Desde que o Homo sapiens emergiu, segundo a ciência, entre 400 mil e 100 mil anos atrás, como um dos últimos ramos da grande árvore evolutiva, carregamos conosco não apenas a capacidade singular do raciocínio abstrato, da linguagem complexa e da cooperação social, mas também uma marca sombria: a tendência a hierarquizar a própria espécie. Os estudos mais aceitos hoje apontam que os humanos modernos surgiram de processos múltiplos e interconectados de evolução na África, Ásia e Europa, misturando-se geneticamente e demonstrando, desde os primórdios, que somos resultado de miscigenação, hibridismo e encontro. Ainda assim, por mais que a biologia revele nossa unidade, a cultura construiu muros. (…) O Renascimento, ao descobrir o indivíduo, não descobriu a igualdade; descobriu apenas o homem europeu como medida de todas as coisas. O Iluminismo proclamou a liberdade e a razão universais, mas as colônias ardiam, os povos originários eram exterminados e a economia global se alimentava da escravidão atlântica. A modernidade criou direitos humanos, mas também os instrumentos de sua negação. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Brasil 247.

A primeira vitória de João Cândido contra a Marinha na Justiça, 115 anos após a Revolta da Chibata

Por Vitor Tavares – A Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou no dia 21/5 a Marinha brasileira por ataques à memória de João Cândido, conhecido como o “Almirante Negro” e líder da Revolta da Chibata, em 1910. A liderança de Cândido no motim que combateu as punições físicas como o uso de chibatas contra marinheiros — em sua maioria, negros — o fez se tornar um ícone das mobilizações antirracistas no Brasil após a abolição da escravidão. A Ação Civil Pública foi movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a União após o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, utilizar termos como “abjetos” e “reprovável” para descrever os líderes da revolta em uma carta à Câmara dos Deputados, em 2024, em um debate sobre a inclusão de Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Para o juiz Mario Victor de Souza, o uso das palavras extrapolou o debate técnico para atingir a honra dos anistiados e reproduz um “racismo institucional”, já que foi dirigido a um grupo de homens negros que lutavam contra a tortura física nas Forças Armadas. Leia a matéria completa. Fonte: BBC Brasil.

A ferida e a máquina racista no século XXI

Por Thiago Gama – Pensadora decolonial, Françoise Vergès vê, na resistência palestina, um teste decisivo para a humanidade. Cresceu em meio às lutas de libertação africana. Aos 16, já figurava em relatórios policiais. Enquanto Vaticano pede perdão e “vigília” contra a escravidão, ela exige abolição real. Vergès nasceu em Paris de pai reunionês e mãe francesa — ambos militantes comunistas anticoloniais. Cresceu na Ilha da Reunião, território oficialmente francês desde 1642, onde o colonialismo nunca foi passado: é a estrutura do presente. Seu pai, Paul Vergès, cofundou o Partido Comunista da Reunião em março de 1959, aos 34 anos, e foi seu secretário-geral por décadas. Sua mãe, Laurence Deroin-Vergès, era jornalista do diário comunista Témoignages e liderança da União das Mulheres Reunionesas. Françoise cresceu recebendo em casa publicações de movimentos de libertação nacional de todo o mundo — e sendo acompanhada, desde cedo, pela polícia colonial. Seu trabalho sobre o capitalismo racial como “máquina de morte” — conceito que ela radicaliza a partir de sua própria infância sob vigilância colonial na Reunião — chega a estas páginas com uma urgência que o documento papal, involuntariamente, amplifica. Leia a entrevista de Françoise Vergès. Fonte: Outras Palavras.

Fanon: a cinebiografia de Jean-Claude Barny

Por Hugo Pontes – “Fanon também entendeu que o colonialismo é uma epistemologia, uma maneira de dividir o mundo entre quem pensa e quem é pensado. A violência colonial não é um excesso do sistema, ela é o sistema. Estudo lutas anticoloniais há anos, mas o cinema faz algo que às vezes os livros não conseguem: nos obriga a sentir o que já sabemos. O que Fanon nos ensina em seus textos ganha na tela uma dimensão visceral que nenhuma citação reproduz. Há uma cena no filme que não sai da cabeça. Soldados coloniais chegam a um vilarejo argelino procurando um líder insurgente. Não o encontram. Então escolhem alguém da multidão, aleatoriamente, e atiram na cabeça dessa pessoa na frente de todos. Sem julgamento, sem justificativa, sem hesitação”. Confira a resenha completa. Fonte: Blog da Boitempo.

EXPEDIENTE

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA

Publicação nacional digital online

Periodicidade: Mensal

EDITOR

Valdisio Fernandes

EQUIPE

Allan Oliveira, Ana Santos, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Davino Nascimento, Denilson Oliveira, Enoque Matos, Flávio Passos, Glauber Santos, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Jeane Andrade, Josy Andrade, Josy Azeviche, Leila Xavier, Luan Thambo, Lidia Matos, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Naira Silva, Patricia Jesus, Poliana Silva, Ronaldo Oliveira, Roselir Baptista, Silvanei Oliveira, Tamiris Rizzo.

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