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ANO XXI – EDIÇÃO Nº251 – FEVEREIRO 2026
Quilombo dos Palmares: quando a organização coletiva desafiou a colônia

[Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Foto: Tereza Cidade]
Por Iago Filgueiras – A história do Brasil é uma história construída sobre a violência, mas é também uma história de resistência. Em uma nação forjada pelo tráfico de pessoas negras, arrancadas de suas terras e transportadas à força para serem submetidas ao trabalho escravizado em outro continente, os quilombos são uma expressão da luta, da rebeldia e da recusa à lógica colonial imposta. Onde houve escravidão, houve resistência. A recusa ao trabalho forçado, a diminuição consciente da produtividade, a sabotagem de ferramentas ou a fuga foram formas historicamente empregadas pela população escravizada para romper com o domínio do colonizador. Os quilombos surgem, justamente, como uma expressão dessa resistência, vinculada a um processo de organização, acolhimento e construção coletiva de uma alternativa à violência a que os escravizados estavam submetidos. Ao longo dos séculos, diversos quilombos foram formados em todo o território brasileiro. Vítimas da violência colonial, alguns foram brutalmente exterminados; outros se consolidaram como comunidades tradicionais. Quando falamos sobre os quilombos no Brasil, é quase impossível não lembrar do Quilombo dos Palmares e de nomes como Zumbi e Dandara. Costumamos aprender que eles foram uma experiência marcante do período colonial brasileiro e da escravidão, mas é quase como se eles ficassem restritos a um passado muito distante. Vistos como simples espaços de fuga, os quilombos foram muito além disso — eles subverteram a lógica colonial e estabeleceram um modo de vida comunitário, centrado na terra e na ancestralidade, uma verdadeira ameaça ao projeto civilizatório europeu. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Instituto conhecimento Liberta (ICL).
Como o legado dos Panteras Negras renasce contra a violência do ICE
Quando agentes federais do ICE (Serviço de Imigração e Controle Alfandegário) desceram sobre Minneapolis no início deste ano, resultando na morte de Renee Nicole Good, uma mãe de três filhos, durante um protesto, as imagens de violência pareceram ecoar um passado distante. Para muitos, foi um lembrete brutal de que a máquina de repressão estatal continua a operar, frequentemente direcionada às mesmas comunidades marginalizadas de sempre. Para comunidades de cor, a linha entre a polícia local e as forças do ICE tornou-se cada vez mais tênue. O alvo imediato pode ser diferente — imigrantes —, mas o mecanismo de medo, violência e desintegração familiar é o mesmo que comunidades negras enfrentam há gerações. Nesse cenário, uma resposta organizada surgiu nas ruas, não apenas em Minneapolis, mas da Filadélfia a Los Angeles. Indivíduos portando armas e vestindo insígnias características apareceram para confrontar agentes do ICE e proteger bairros. Eles se identificam como o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa e afirmam ser uma continuação direta do movimento revolucionário negro fundado por Huey Newton e Bobby Seale em 1966, em Oakland. Esse renascimento não é um exercício de nostalgia, mas uma resposta tática a uma realidade urgente: a escalada de violência e deportações sob a atual administração federal, que levou a ações como a criação de “zonas livres do ICE” em Los Angeles e Chicago. Leia a matéria completa. Fonte: Pátria Latina.
Rosane Borges: “Se não disputarmos o imaginário, o racismo vence”
Por Laila Nery – A professora e pesquisadora Rosane Borges escolheu a 2ª Marcha das Mulheres Negras para lançar o seu livro “Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”. Em 2015, mesmo impedida de estar fisicamente em Brasília para a primeira marcha, foi uma das mentes que deram corpo ao movimento: integrou a organização nacional, articulou debates, e é dela a redação final do documento histórico que sintetizou as vozes das mais de 50 mil mulheres que ocuparam a Esplanada naquele novembro. Dez anos depois, Rosane retornou à marcha, agora presencialmente, trazendo a mesma força intelectual, política e afetiva que acompanhou, à distância, no primeiro grande levante. Vanguardista, a jornalista escolheu o Cine Brasília para apresentar o novo livro, já pensando nos próximos dez anos e nas inspirações que a presença de milhares de mulheres reunidas contra o racismo na capital pode gerar nas novas gerações de mulheres que estarão em Brasília em 2035. Rosane conversou com a Gênero e Número sobre o reposicionamento das mulheres negras no Brasil, democracia, disputa institucional e como projetar 2035 a partir das conquistas – e dos enfrentamentos – do presente. Leia a matéria completa. Fonte: Gênero e Número.
Segurança pública dominará 2026: disputa de poder sobre quem mata e quem morre no Brasil
Por Cecília Olliveira – Não há mais dúvida: a segurança pública será o tema central das eleições de 2026. Não porque a violência tenha explodido de forma inédita, nem porque o país esteja diante de uma crise fora de controle, mas porque o medo se consolidou como o principal ativo político do Brasil contemporâneo. A segurança deixou de ser uma política pública entre outras para se tornar uma linguagem de poder, uma estratégia eleitoral e, cada vez mais, um modelo de governo. Prova disso são os posts e anúncios marqueteiros de compra de “armas pesadas”, descolados de planos de segurança, sem a possibilidade de mensurar real custo e impacto. Os candidatos já estão em campanha. E isso responde aos brasileiros, que elegeram a segurança como sua maior preocupação nas últimas pesquisas. Leia o artigo na íntegra. Fonte: The Intercept Brasil.
Cabeças de Ifé: desafiando os mitos europeus sobre a arte africana
Por Estevam Silva – Em 1938, uma descoberta intrigante causou perplexidade entre arqueólogos e historiadores. Durante as obras de construção de um conjunto residencial em Ifé, no estado de Osun, no sudoeste da Nigéria, operários desenterraram um conjunto de 18 cabeças esculpidas em liga de cobre. Marcadas por um naturalismo refinado e produzidas com técnicas metalúrgicas avançadas, as cabeças de Ifé contrariavam frontalmente os estereótipos raciais e coloniais, que negavam às sociedades africanas a capacidade de produzir artefatos complexos e sofisticados. Durante algum tempo, estudiosos europeus forjaram explicações extravagantes para justificar a existência dessas obras — incluindo, até mesmo, tentativas de atribuí-las a escultores da Grécia Antiga. Os estudos posteriores, no entanto, consolidaram o que muitos se recusavam a reconhecer: as cabeças de Ifé eram testemunhos de uma tradição artística autônoma africana, produzidas pelo povo Yorubá entre os séculos 13 e 15. A descoberta das 18 cabeças de Ifé em 1938 foi o segundo grande achado arqueológico de obras dessa tipologia. Um primeiro lote dessas esculturas já havia sido encontrado em 1910, durante escavações conduzidas pelo etnólogo alemão Leo Frobenius. As peças encontradas em 1938, no entanto, estavam mais bem conservadas e congregavam exemplares de extrema beleza. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Opera Mundi.
Como a classificação penal afeta os dados sobre feminicídio no Brasil
Por Camila Sousa e Lucia Eilbaum – Os números de violência contra a mulher e feminicídios no Brasil são alarmantes. Quase diariamente, a imprensa noticia novos casos que chocam não apenas pela frequência, mas também pela brutalidade. No entanto, para além das estatísticas e das histórias individuais de sofrimento, existe um elemento menos visível, porém decisivo, na compreensão desse fenômeno. A forma como esses crimes são classificados pelo sistema de justiça criminal. A tipificação penal adotada por policiais, promotores e juízes não apenas determina os rumos dos processos judiciais e impacta os números oficiais que embasam políticas públicas, mas também influenciam e são influenciados pelo reconhecimento social da violência de gênero. Em 2015, a Lei do Feminicídio, que o tornou uma qualificadora do crime de homicídio doloso, deu destaque a esses crimes no debate público sobre a violência de gênero. Mais recentemente, em 2024, a Lei nº 14.994 tornou o feminicídio um crime autônomo. Além de estabelecê-lo como um tipo penal próprio, a nova legislação também ampliou a pena prevista, que passou de reclusão de 12 a 30 anos para 20 a 40. Leia o artigo na íntegra. Fonte: The Conversation Brasil.
Dez anos da líder indígena Milagro Sala como prisioneira política
Por Emilia Trabucco – Em 16 de janeiro de 2026, completam-se dez anos desde a prisão ilegal de Milagro Sala, uma década em que seu encarceramento se tornou um elemento estrutural do regime de disciplina política e judicial na Argentina. Milagro foi presa após liderar um acampamento pacífico e um protesto em frente à Casa do Governo de Jujuy, exercendo um direito constitucional. Esse evento desencadeou uma série de processos judiciais, longas prisões preventivas e reclassificações processuais que mantiveram sua prisão em um contexto democrático, apesar das denúncias de organizações internacionais que consideraram sua detenção arbitrária. A persistência dessa prisão revela o funcionamento estável de um aparato de perseguição política que combina judicialização, assédio e humilhação pública. Na Argentina, a prisão de Milagro Sala se encaixa no mesmo padrão da guerra judicial contra Cristina Fernández de Kirchner, que foi condenada e impedida de ocupar cargos públicos em um caso com provas insuficientes e com um timing político cuidadosamente orquestrado. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Telesur.
“Pão e rosas”: os ecos das lutas operárias na nova esquerda dos EUA
Por David Brooks | Tradução: Beatriz Cannabrava – A reaparição da frase “pão e rosas”em posses de jovens prefeitos socialistas nos EUA sinaliza mais que nostalgia: indica a retomada de uma tradição operária que articula sobrevivência material e dignidade. O lema, evocando a histórica greve têxtil de Lawrence, Massachusetts, em 1912, liderada por mulheres imigrantes e marcada pela solidariedade internacional — uma ação trabalhista que também ficou conhecida como “a greve cantante”. E eles venceram. No dia 12/01, completou-se 114 anos dessa luta. Faz parte do anúncio da chegada de algo notável, novo e surpreendente nesta conjuntura política estadunidense — e isso apesar de essa expressão ter surgido há mais de um século. A nova esquerda resgata um horizonte político que enfrenta o capitalismo não só por salários, mas por beleza, comunidade e sentido de vida — uma memória de luta que volta a ecoar em meio à feiura do presente. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Diálogos do Sul Global / La Jornada.
EXPEDIENTE
MÍDIA NEGRA E FEMINISTA
Boletim Eletrônico Nacional
Periodicidade: Mensal
EDITOR
Valdisio Fernandes
EQUIPE
Allan Oliveira, Ana Santos, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Davino Nascimento, Denilson Oliveira, Enoque Matos, Flávio Passos, Glauber Santos, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Jeane Andrade, Josy Andrade, Josy Azeviche, Leila Xavier, Luan Thambo, Lidia Matos, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Naira Silva, Patricia Jesus, Poliana Silva, Ronaldo Oliveira, Roselir Baptista, Silvanei Oliveira, Tamiris Rizzo.




