Boletim Mensal do Instituto Búzios – Mídia Negra e Feminista

 

Download: INSTITUTO BUZIOS INFORME_253 ABRIL 2026

ANO XXI – EDIÇÃO Nº253 – ABRIL 2026

 

Documentos sobre escravidão e pós-abolição: a inserção dos negros no mercado de trabalho

[Foto: Embarque do café no Porto de Santos 1880, Marc Ferrez]

Por Marcos Santos – Projeto de pesquisa coleta dados históricos em fazendas para saber como ocorreu a consolidação do trabalho durante o período da escravidão e pós-abolição no Brasil. A escravidão, o baixo crescimento demográfico e alta taxa de mortalidade infantil contribuíram negativamente para a entrada do negro no mercado de trabalho rural, no período pós-abolição. Esses dados são preliminares e constam no projeto de pesquisa Quando o interior conta, que analisa documentos encontrados em sete propriedades rurais e núcleos coloniais, no Estado de São Paulo e na parte fluminense do Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, do final do século 19 até meados do século 20. A iniciativa é coordenada pelos professores Bruno Gabriel Witzel de Souza, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e Thales Augusto Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP). “Temos algumas evidências de que existiam fazendas que usavam o trabalhador imigrante e o trabalhador nacional, que potencialmente era um ex-escravizado. Não foi simplesmente um grupo que entrou e outro que saiu, como aprendemos anteriormente”, comenta Thales Augusto. Para Bruno Gabriel, “Isso vai mudar, naturalmente, as perspectivas que temos sobre a escravidão e o pós-escravidão. Queremos saber, por exemplo, o nível de produtividade de descendentes de italianos e de descendentes de escravizados. Leia a matéria completa. Fonte: Jornal da USP.

Escravidão explica PIB per capita persistentemente baixo na história do Brasil

Pesquisa estima o PIB per capita do Brasil do período colonial à República, entre 1574 e 1920, conduzida pelos historiadores econômicos Guilherme Lambais, da Universidade Lusíada de Lisboa, e Nuno Palma, da Universidade de Manchester. Uma primeira versão do artigo “How a nation was born: Brazilian economic growth, 1574-1920” (“Como nasceu um país: crescimento econômico do Brasil”), contendo os achados da pesquisa, tem circulado entre economistas brasileiros nas últimas semanas. Segundo Lambais e Palma, o grande motor dessa história, causa dos movimentos mais importantes do PIB per capita brasileiro desde o século do descobrimento, é a escravidão. Os pesquisadores argumentam que a adoção do trabalho escravo e o enorme afluxo de trabalhadores sequestrados na África e vendidos no Brasil explicam a “armadilha de baixo salário, baixa tecnologia (com baixa produtividade) e baixo desenvolvimento” que marca grande parte da história do país. A existência de trabalho escravo abundante barateava todo tipo de trabalho não qualificado na colônia, depreciando também os salários dos homens livres pobres -que eram muitos, a maioria da população, já que a elite proprietária era pequena. Leia a matéria completa. Fonte: Folha de São Paulo.

Escravidão, o crime mais grave contra a humanidade e o pagamento de reparações

A 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas adotou no dia 25/03/2026 a Resolução sobre a qualificação do tráfico de escravizados/as africanos/as e a escravização racializada de africanos/as como o mais grave crime contra a humanidade (A/80/L.48). A medida simbólica, mas histórica, proposta por Gana com o apoio de 40 países da União Africana (UA), foi apoiada por 123 países, incluindo o Brasil, enquanto Israel, Estados Unidos e Argentina votaram contra, e a Alemanha e outros 51 países se abstiveram. A aprovação ocorre no 25º aniversário da Declaração e Programa de Ação de Durban. As resoluções da Assembleia Geral não são juridicamente vinculativas. O texto afirma que a escravização de africanos e o tráfico transatlântico de escravos devem ser considerados o crime mais grave contra a humanidade devido à escala, duração, natureza sistêmica, brutalidade e consequências duradouras desses crimes. Estima-se que mais de 15 milhões de pessoas tenham sido deportadas ao longo de 400 anos. A Declaração prevê pedido de desculpas pelo tráfico de escravos iniciado no Século 15 e um fundo de reparações. A medida abre o caminho legal para que governos, organizações antirracistas e de direitos humanos articulem pedidos de reparação aos países colonizadores europeus, estimadas pela consultoria Brattle Group em centenas de bilhões de dólares. Organizações do movimento negro, como a Coalizão Negra por Direitos e o Instituto de Referência Negra Peregum, realizaram uma agenda de incidência política em apoio à iniciativa do governo de Gana junto às Nações Unidas. A mobilização incluiu reuniões e interlocução com diferentes órgãos do Estado brasileiro. Leia a matéria completa. Fonte: Instituto Búzios e BBC.

Da renda à ciência, desigualdade racial segue moldando o Brasil

Entre avanços e permanências, estudos do Ipea revelam como as disparidades raciais atravessam o cotidiano, as instituições e a produção do conhecimento no país. A desigualdade no Brasil persiste não apenas nos indicadores, mas nas estruturas que atravessam o tempo e organizam silenciosamente a vida social. Como resume o economista Mário Theodoro — ex-pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e uma das principais referências no tema —, “a pobreza, a miséria e, principalmente, a desigualdade são fenômenos que remontam à própria criação do Brasil e têm raízes na questão racial”. Os dados mais recentes do Ipea não deixam espaço para dúvida: mesmo diante de avanços importantes nas políticas públicas, a desigualdade racial permanece como uma presença constante. Ela não se limita a um campo específico — infiltra-se na renda, atravessa o acesso a serviços, delimita trajetórias e chega, inclusive, à forma como o país produz e organiza seus próprios dados. Mais do que um desvio ou uma exceção, trata-se de um padrão que se repete. Uma engrenagem que se ajusta ao tempo, mas não se desfaz, e que segue desafiando tanto a ação do Estado quanto a capacidade de compreender, em profundidade, o Brasil que se constrói todos os dias. Leia a matéria completa. Fonte: IPEA.

Segurança: Para tirar a esquerda do labirinto

Por Luiz Eduardo Soares – A sete meses das eleições, faltam horizonte e projeto em tema central. Do encarceramento em massa à impunidade dos crimes policiais; da militarização aos salários arrochados dos PMs – tudo precisa ser revisto. Eis uma proposta de roteiro. Há três perguntas diferentes sobre as mudanças desejáveis na segurança pública: (A) O que devemos construir nessa área, a longo prazo, em paralelo à redução das desigualdades e ao enfrentamento ao racismo estrutural, para que a democracia brasileira se consolide e aprofunde? (B) O que se deve propor ao futuro governo Lula, a partir de 2027, considerando a manutenção de uma correlação de forças que limite a vontade progressista? (C) Qual deve ser o discurso sobre segurança pública na campanha de 2026? As três questões são importantes e não podem ser confundidas. E atenção: sem resposta à primeira indagação, ficaremos sem rumo, sem projeto estratégico, sem horizonte. Sem visão estratégica, permaneceremos girando em falso, condenados a decisões reativas, a movimentos erráticos e defensivos, a iniciativas fragmentárias no varejo das conjunturas, seja quanto ao próximo governo, seja quanto à própria campanha eleitoral. Por isso, aqui me detenho no desenho geral do projeto estratégico, que só virá quando a correlação de forças permitir, o que, por sua vez, terá sido consequência da redução das desigualdades e da reconfiguração do quadro hegemônico hoje vigente. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

I Conferência Internacional Antifascista: Carta de Porto Alegre

Documento aprovado por centenas de organizações e movimentos sociais propõe luta comum contra a ultradireita, forma comitê internacional e propõe encontros nacionais e regionais – além de uma conferência latinoamericana, na Argentina.

Manifesto pela unidade contra o fascismo e pela soberania dos povos – Reunidos em Porto Alegre – cidade símbolo das lutas internacionais, de importantes tradições e aspirações democráticas – milhares de ativistas de mais de quarenta países dos cinco continentes, celebrando nossa unidade na diversidade, buscando avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva. Nessa mesma semana, ocorreu o comboio Nuestra America a Cuba, tivemos mais de um milhão de pessoas nas ruas da Argentina, lutando pela memória e contra Javier Milei; houve centenas de milhares na convocação antifascista do Reino Unido e especialmente a grande e histórica manifestação “No Kings” nos Estados Unidos que com milhões de estadunidenses reunidos em centenas de cidades, declarando uma vez mais Donald Trump como inimigo da humanidade. O sistema capitalista-imperialista vive uma profunda crise e uma acentuada decadência econômica, social e moral. A resposta das potências imperialistas ao seu declínio tem sido o fomento do fascismo em toda parte, a imposição de políticas neoliberais, agressões militares às nações mais fracas e a sua recolonização. Leia a carta na íntegra. Fonte: A Terra é Redonda.

Estupidez, ignorância e idiotez

Por Hilder Alberca Velasco – Ao investigar a estupidez, a ignorância e a idiotia como categorias analíticas, revela-se como violência simbólica, liquidez social e aceleração digital se combinam para produzir disposições que enfraquecem o julgamento crítico — e, com ele, a própria substância da democracia. Este ensaio propõe examinar conceitos e seu dimensão sociológica da estupidez, da ignorância e da idiotez, não para condenar indivíduos, mas para compreender os mecanismos que tornam tais disposições socialmente recorrentes e politicamente eficazes. Ao deslocar o foco do julgamento moral para a análise estrutural, busca-se refletir sobre as condições que, em pleno 2026, parecem favorecer não a diminuição, mas a reorganização dessas formas de limitação crítica no interior das democracias contemporâneas. No início do século XXI, tornou-se quase um lugar-comum afirmar que a humanidade jamais dispôs de tanto acesso à informação. Plataformas digitais conectam continentes em segundos, bancos de dados são acessíveis a partir de qualquer dispositivo móvel e opiniões circulam em velocidade vertiginosa. A promessa implícita dessa expansão tecnológica era clara, a mais informação significaria mais esclarecimento; mais comunicação produziria mais racionalidade pública; mais participação ampliaria a qualidade das decisões coletivas; entretanto, o cenário contemporâneo parece desafiar essa expectativa otimista. Leia o artigo na íntegra. Fonte: A terra é Redonda.

EXPEDIENTE

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA

Publicação digital online

Periodicidade: Mensal

EDITOR

Valdisio Fernandes

EQUIPE

Allan Oliveira, Ana Santos, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Davino Nascimento, Denilson Oliveira, Enoque Matos, Flávio Passos, Glauber Santos, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Jeane Andrade, Josy Andrade, Josy Azeviche, Leila Xavier, Luan Thambo, Lidia Matos, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Naira Silva, Patricia Jesus, Poliana Silva, Ronaldo Oliveira, Roselir Baptista, Silvanei Oliveira, Tamiris Rizzo.

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA – ANO XXI – EDIÇÃO Nº253 – ABRIL 2026

Siga-nos

INSTAGRAM

Arquivo