[Crédito da imagem: Colagem fotográfica de várias esculturas africanas da página “The African History Channel, no Facebook]

 

Por Estevam Silva

 

Obras descobertas em 1938 contrariavam estereótipos coloniais e raciais, que negavam às sociedades africanas capacidade de construir artefatos sofisticados.

Em 1938, uma descoberta intrigante causou perplexidade entre arqueólogos e historiadores. Durante as obras de construção de um conjunto residencial em Ifé, no estado de Osun, no sudoeste da Nigéria, operários desenterraram um conjunto de 18 cabeças esculpidas em liga de cobre.

Marcadas por um naturalismo refinado e produzidas com técnicas metalúrgicas avançadas, as cabeças de Ifé contrariavam frontalmente os estereótipos raciais e coloniais, que negavam às sociedades africanas a capacidade de produzir artefatos complexos e sofisticados.

Durante algum tempo, estudiosos europeus forjaram explicações extravagantes para justificar a existência dessas obras — incluindo, até mesmo, tentativas de atribuí-las a escultores da Grécia Antiga.

Os estudos posteriores, no entanto, consolidaram o que muitos se recusavam a reconhecer: as cabeças de Ifé eram testemunhos de uma tradição artística autônoma africana, produzidas pelo povo Yorubá entre os séculos 13 e 15.

Da Nigéria para o Museu Britânico

A descoberta das 18 cabeças de Ifé em 1938 foi o segundo grande achado arqueológico de obras dessa tipologia. Um primeiro lote dessas esculturas já havia sido encontrado em 1910, durante escavações conduzidas pelo etnólogo alemão Leo Frobenius. As peças encontradas em 1938, no entanto, estavam mais bem conservadas e congregavam exemplares de extrema beleza.

Destacava-se, sobretudo, a “Cabeça de um Oni”, um magnífico exemplar que foi levado da Nigéria pelo jornalista inglês Henry Maclear Bate, editor do “Daily Times”. Em 1939, Bate vendeu a cabeça para o Fundo Nacional de Coleções de Arte do Reino Unido, que repassou a obra para o Museu Britânico.

A identidade do modelo e a função da peça ainda são objetos de debate. No passado, alguns historiadores associavam a cabeça do Museu Britânico a uma representação de Odudua — divindade primordial a quem se atribui a responsabilidade pela fundação de Ifé, principal centro religioso do povo Yorubá.

Não obstante, a literatura contemporânea tende a considerar a obra uma representação de um Oni, isto é, um governante de Ifé. Tal hipótese se assenta nas comparações estilísticas com esculturas identificadas do Rei Obalufon. O esmerado toucado de contas, decorado com uma crista com roseta e assemelhado a uma coroa, também milita em favor dessa identificação.

As cabeças de Ifé e a arte Yorubá

Na religião Yorubá, Ifé é o lugar onde a vida e a civilização tiveram início. É a pátria lendária e o centro espiritual, que serve de lar para as divindades. Ifé é regida por um governante sagrado — o Oni, considerado um descendente de Odudua, o 401º orixá.

Historicamente, Ifé se desenvolveu como uma cidade-estado no início da Era Comum. Por volta do ano 800 d.C., a cidade já se destacava como um dos mais importantes centros econômicos, políticos e religiosos da Bacia do Níger.

Situada na encruzilhada das mais lucrativas rotas comerciais que conectavam os entrepostos litorâneos, os povoados do Rio Níger e os reinos da Savana e do Saara, Ifé prosperou enormemente, convertendo-se em uma das mais opulentas cidades-estados da Idade de Ouro da África Ocidental.

Durante a Baixa Idade Média, os governantes de Ifé se ocuparam de promover a arte, o artesanato, a tecelagem e as técnicas de fundição de metais. Entre 1100 e 1500, Ifé se distinguiu como um relevante centro artístico.

A cidade era repleta de ateliês e oficinas, onde eram produzidas esculturas em terracota, pedra, bronze, latão e cobre, destacadas pelo alto grau de sofisticação técnica e pelo refinamento estético e artístico.

Eram esculturas com representações humanas, marcadas por um influxo naturalista extraordinário, antecipando uma modelagem realista que somente encontraria paralelo na Europa a partir do Alto Renascimento.

As mais antigas cabeças de bronze de Ifé têm aproximadamente 1.000 anos de idade e já se destacavam pela técnica avançada. As peças eram fundidas utilizando o método da cera perdida — isso é, uso de moldes criados a partir de originais esculpidos em cera, que eram então derretidos e substituídos por metal em estado líquido.

As cabeças têm tamanho natural (aproximadamente 35 cm de altura). A fisionomia transmite serenidade e altivez, realçadas pelo equilíbrio, proporção e senso de anatomia perfeitos. As faces apresentam padrões de incisões estriadas, aludindo a escarificações. Algumas cabeças são esculpidas portando toucados e diademas, evidenciando delicados padrões de contas finamente trançadas.

O esmero das representações e a presença das coroas sugerem que as cabeças de bronze de Ifé representam os Onis e seus assistentes. Além de evocarem a memória dos reis falecidos, homenageando-os em ambientes palacianos, as cabeças também tinham funções ritualísticas.

Várias dessas peças foram escavadas em bosques nos arredores de santuários. Especula-se que as cabeças eram enterradas no solo, junto a árvores de grande porte consagradas a uma divindade ou governante sagrado, sendo desenterradas ulteriormente para uso como oferenda em cerimônias religiosas.

As escavações

Conforme mencionado, as primeiras cabeças de bronze de Ifé foram escavadas em 1910 por Leo Frobenius. O etnólogo alemão ficou muito impressionado com a sofisticação artística e o alto nível técnico empregado na execução das peças. Exemplares dessas cabeças seriam remetidos por Frobenius para a Europa já em 1911, ocasião em que foram comparados com as antigas estátuas greco-romanas.

Como a descoberta desafiava a concepção eurocêntrica a respeito da arte africana à época, Frobenius lançou a hipótese de que as esculturas teriam sido feitas por uma colônia desconhecida de gregos na África — chegando a relacionar essa hipótese com o mito da civilização perdida de Atlântida.

A especulação foi completamente descartada após a descoberta de outros exemplares da estatuária Yorubá com traços estilísticos compatíveis aos das cabeças de Ifé em sítios arqueológicos nigerianos. Assim, as peças de Ifé tiveram um papel fundamental na superação dos mitos eurocêntricos sobre a “primitividade” da arte africana.

Novos exemplares das cabeças de bronze de Ifé foram descobertos em 1938 e 1959. Parte substancial desses achados foram exportados para museus e coleções particulares da Europa e dos Estados Unidos.

Visando interromper a transferência desse patrimônio arqueológico, o governo da Nigéria criou leis limitando a exportação de antiguidades. A maioria das peças escavadas após a década de 1960 está conservada no Museu Nacional de Ifé, mas alguns dos exemplares mais significativos permanecem expostos em coleções estrangeiras — nomeadamente, a magnífica cabeça do Museu Britânico, que inspirou o logotipo dos Jogos Pan-Africanos de 1973, sediados em Lagos, na Nigéria.

A cabeça de Ifé do Museu Britânico também serviu de inspiração para a confecção do Monumento a Zumbi dos Palmares, inaugurado no Rio de Janeiro em 1986. A obra foi idealizada por Darcy Ribeiro e elaborada pelo arquiteto João Filgueiras Lima.

 

Fonte: Opera Mundi.

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