Uma fotografia inédita da casa onde viveu Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, liderança religiosa e comunitária que foi figura central figura central da história do samba, da cultura e da sociabilidade negra urbana do fim do século 19 e início do 20 na região conhecida como Pequena África, no Rio de Janeiro. O imóvel ficava na antiga Praça Onze, área destruída durante as reformas urbanas do século 20.
A casa de Tia Ciata teve papel fundamental na consolidação do ritmo e abrigou reuniões de bambas como João da Baiana, Pixinguinha e Sinhô, que resultaram na composição de, entre várias obras, da música que ficou conhecida como o primeiro samba: “Pelo telefone”, registrada por Donga e Mauro de Almeida, em 1916. A descoberta foi revelada em reportagem da Folha de S.Paulo.
Hoje, muitos historiadores que estudam o período acreditam que a música nasceu de uma composição coletiva, em uma roda na casa de Tia Ciata, articulando motivos e versos criados e improvisados por vários frequentadores. Atualmente, descendentes de Ciata organizam um centro cultural voltado para a memória do samba e ancestralidade.
Quem foi Tia Ciata
Hilária Batista de Almeida (1854–1924), a Tia Ciata, era baiana, comerciante, liderança do candomblé nagô e anfitriã de encontros que reuniram nomes fundamentais da música brasileira no início do século 20.
Em sua casa aconteciam festas que duravam dias, com samba, música instrumental e batuques. Pesquisadores apontam esses encontros como decisivos para a formação do samba urbano carioca, incluindo o processo coletivo que resultou em “Pelo Telefone”, registrado em 1916.
A casa do samba
O endereço da casa, na rua Visconde de Itaúna, 117, era conhecido, mas nunca havia sido documentado em imagem. A fotografia agora localizada é de 19 de fevereiro de 1941, 17 anos após a morte de Tia Ciata, quando o imóvel ainda pertencia à família.
Relatos históricos indicam que a casa tinha uma sala para rodas de samba e música, quartos ao longo de um corredor e um quintal nos fundos, onde aconteciam os batuques e festas populares.
Como a foto foi encontrada
A foto foi encontrada em um conjunto de 14 mil imagens em álbuns da gestão do prefeito Henrique Dodsworth (1937-1945), interventor nomeado por Getúlio Vargas no período conhecido como Estado Novo — uma ditadura. As fotos foram feitas por Uriel Malta e Aristógiton Malta, filhos de Augusto Malta — fotógrafo da Prefeitura do Rio entre 1905 e 1938. O material estava catalogado, mas pouco explorado. A identificação foi possível após cruzamento de registros orais, documentos e jornais da época.
Destruição da Praça Onze
A casa foi demolida junto com a Praça Onze para a abertura da avenida Presidente Vargas, durante o Estado Novo. A região era um dos principais territórios da chamada Pequena África, espaço central da vida cultural, social e religiosa negra no Rio.
Legado
Tia Ciata morreu em 1924. Hoje, seu nome batiza uma estação do VLT e uma escultura em frente ao Terreirão do Samba. A foto recuperada ajuda a reconstruir visualmente um dos berços do samba e da cultura popular brasileira.
Fonte: Diário do Porto e G1.





