Por Marcela Magalhães de Paula e Maíla Diamante
Há meio século, a Festa do Avante! transforma um pedaço da margem sul de Lisboa numa cidade feita por trabalhadores e militantes onde promovem a cultura popular e a alegria coletiva – um momento raro mas muito potente da infraestrutura social que sobrou do comunismo europeu.
De longe, vemos logo uma roda gigante e uma enorme bandeira comunista a disputar o céu, aparecendo acima das árvores da Quinta da Atalaia, na margem sul do Tejo, do outro lado de Lisboa. À noite, iluminada, gira veloz sobre um mar de gente, outras bandeiras, tendas, palcos e corredores improvisados. Quem chega pela primeira vez talvez pense, por alguns segundos, que está entrando numa enorme feira popular. E está. Mas também está entrando numa das mais antigas e singulares festas comunistas da Europa.
A Festa do Avante! completou cinquenta anos em 2026 com um público que algumas estimativas informais situaram em torno de 170 a 200 mil pessoas ao longo dos três dias, embora a organização ainda não tenha divulgado uma contagem oficial consolidada. Espalhada por cerca de trinta hectares da Quinta da Atalaia, a edição reuniu mais de 50 concertos, mais de 50 debates, sessões e apresentações de livros e mais de 70 espaços gastronômicos. Houve ainda teatro, cinema, exposições, artes plásticas, atividades esportivas, experiências científicas, programação infantil e dezenas de espaços organizados por estruturas regionais do PCP, movimentos sociais e delegações internacionais.
Havia postos de saúde e primeiros socorros, áreas próprias para crianças, parques e espaços de brincadeira, além de dois acampamentos para quem permanece no recinto durante o fim de semana. Somam-se a isso livrarias, auditórios, pontos de apoio, instalações sanitárias e redes de água e eletricidade. Durante três dias, circulam por ali dezenas de milhares de pessoas, de idades e origens muito diferentes, em meio a concertos, debates, refeições, filas e encontros. E, ainda assim, ao longo dos dias em que percorremos o recinto, não vimos uma única briga. A impressão era de uma sociabilidade rara em eventos dessa escala intensa, ruidosa e multitudinária, mas marcada por um forte sentido de convivência e pertencimento coletivo.
Para quem não é português, o nome pede uma breve explicação. “Avante!” é o jornal do Partido Comunista Português, fundado em 1931 e publicado clandestinamente durante grande parte da ditadura de António de Oliveira Salazar e de seu sucessor, Marcelo Caetano. Durante décadas, possuir, imprimir ou distribuir o jornal significava ir para prisão. Quando a ditadura caiu, em 25 de abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, aquilo que durante quase meio século havia sido clandestino pôde finalmente ocupar as ruas.
A Festa nasceu nesse intervalo extraordinário e doloroso. Há cinquenta anos, Portugal vivia ainda os primeiros passos de uma democracia conquistada depois de quase meio século de ditadura. Tinham passado pouco mais de dois anos sobre o 25 de Abril quando, entre 24 e 26 de setembro de 1976, abriu portas, nas instalações da antiga Feira Internacional de Lisboa, na Junqueira, a primeira “Festa do Avante!”. Nascia uma iniciativa que atravessaria meio século de história portuguesa e que sobreviveria a atentados, recusas de terrenos, mudanças sucessivas de local, dificuldades financeiras, transformações profundas do país e do mundo e, mais recentemente, a uma pandemia.
A ideia, porém, vinha de antes. Militantes comunistas já imaginavam uma grande festa popular em torno do Avante!, onde a política pudesse conviver naturalmente com a cultura e a vida coletiva. Música, teatro, livros, artes plásticas, comida e debate fariam parte do mesmo espaço, como dimensões de uma experiência comum. Depois da revolução, aquilo que antes era quase uma fantasia tornou-se possível. Ruben de Carvalho, uma das figuras centrais na criação e desenvolvimento da Festa, escreveria após a primeira edição que ela correspondia a um “sonho antigo”, amadurecido durante a clandestinidade e tornado possível com a Revolução de Abril. A inspiração encontrava-se também noutras grandes festas populares da esquerda europeia, particularmente na Fête de l’Humanité, organizada em França em torno do jornal L’Humanité, que começou em 1930, na França, então ligado ao Partido Comunista Francês. Mas a Festa portuguesa rapidamente adquiriu características próprias.
Desde o início, pretendia-se juntar política e cultura, debate e entretenimento, música e teatro, artes plásticas e literatura, esportes, gastronomia, representação regional e solidariedade internacional. Era, em certo sentido, uma tentativa de materializar durante alguns dias uma determinada concepção da vida coletiva, em um espaço construído por milhares de pessoas, baseado em trabalho voluntário e no encontro entre participação política e convívio popular. A Festa partia de uma concepção que não separava consciência de organização.
Uma festa nascida sob ataque de bomba
A Festa do Avante! nasceu da liberdade conquistada em Abril, mas nasceu também em meio à luta de outras forças para impedir que essa liberdade avançasse demais. O 25 de Abril de 1974 derrubou uma ditadura e abriu uma crise profunda do poder econômico e político em Portugal. Trabalhadores ocuparam fábricas, organizaram comissões, exigiram aumentos salariais e direitos até então inexistentes. No Sul do país, grandes propriedades foram ocupadas e transformadas pela Reforma Agrária; bancos e setores estratégicos da economia foram nacionalizados. Pela primeira vez em décadas, milhares de trabalhadores deixavam de aparecer na política como eleitores ou governados e começavam a agir como força organizada publicamente. É precisamente naquele momento que o anticomunismo voltou a revelar a sua função de classe.
Quando se tornou evidente que a Revolução podia ultrapassar os limites de uma simples mudança de regime político e tocar nas relações de propriedade, na organização do trabalho e no poder econômico, a reação intensificou-se. O chamado “Verão Quente” de 1975 foi também uma ofensiva concreta contra o movimento operário organizado. Mais de oitenta centros de trabalho do PCP foram assaltados ou destruídos num contexto de incêndios, atentados, violência de rua e ataques contra organizações comunistas, sindicatos e outras forças da esquerda. Apresentar aquele conflito como simples confronto entre “extremos” apaga o que estava realmente em disputa, pois havia interesses materiais concretos. De um lado, um movimento popular que, com todas as suas contradições, colocava em questão quem deveria possuir, dirigir e organizar a economia. Do outro, forças sociais e políticas empenhadas em conter esse avanço, restaurar os limites da propriedade privada e reconduzir a mobilização popular para dentro de uma ordem parlamentar compatível com a continuidade do capitalismo português. É dentro dessa luta de classes que deve ser compreendida a primeira Festa do Avante!.
Em setembro de 1976, apenas dois dias antes da abertura da primeira edição, uma bomba explodiu na cabine que fornecia eletricidade às instalações da antiga Feira Internacional de Lisboa. O objetivo imediato era muito elementar: deixar a Festa às escuras antes mesmo de ela começar. A eletricidade foi restabelecida e a Festa aconteceu mesmo assim. E aconteceu grande demais para o espaço que lhe tinham dado.
No ano seguinte, mudou-se para o Vale do Jamor. Era um enorme terreno quase vazio que teve de ser transformado pelo trabalho de militantes e voluntários. Construíram palcos, caminhos, estruturas, ligações elétricas. A multidão veio. Em 1977, havia sete palcos, teatro, artes plásticas, música portuguesa e estrangeira. Entre os participantes estavam Carlos Paredes, um grande da guitarra portuguesa e uma das figuras mais importantes da música instrumental do país no século XX, e um coro dirigido por Fernando Lopes-Graça, compositor, maestro e intelectual antifascista, cuja obra esteve profundamente ligada à cultura popular portuguesa e à oposição ao Estado Novo. Ali surgiu o primeiro indício de que a Festa não seria apenas uma experiência ocasional, alimentada pelo entusiasmo dos anos imediatamente posteriores à Revolução.Ela iria se tornar uma instituição cultural duradoura, embora não tenha encontrado facilmente uma casa.
Depois do Jamor – um grande complexo esportivo nos arredores de Lisboa – veio o Alto da Ajuda, numa encosta junto ao Parque de Monsanto, com o Tejo e a cidade ao fundo. A partir de 1979, durante anos, os próprios militantes tiveram de transformar um terreno pedregoso e difícil, abrindo avenidas e instalando água, eletricidade e esgotos praticamente a partir do zero. Não se tratava, naquele momento, de um pequeno partido tentando organizar um festival alternativo. Em 1979, o Partido Comunista Português declarava 164.713 membros, o que significava cerca de 1,7% de toda a população portuguesa de então. Para um país com menos de dez milhões de habitantes, era a dimensão de uma verdadeira organização de massas. Essa implantação ajuda a compreender como o partido conseguia mobilizar milhares de pessoas para construir, manter e desmontar a Festa, além de garantir uma afluência já medida em dezenas de milhares de visitantes. Escala que também ajuda a entender por que a disputa em torno dos terrenos não era um simples problema logístico. Garantir um espaço capaz de receber a Festa significava assegurar as condições materiais para uma das maiores demonstrações públicas da força social e cultural do comunismo português.
A precariedade do terreno significava também uma precariedade política. Por maior que fosse a capacidade de mobilização do PCP, a realização da Festa continuava dependente do acesso a uma propriedade que não controlava. Em 1987, essa contradição chegou ao limite, pois, pela única vez em meio século, não houve a Festa. Sem um espaço adequado, nem mesmo uma organização com dezenas de milhares de militantes podia materializar a sua maior iniciativa político-cultural. A lição dificilmente poderia ser mais concreta: organização e vontade não anulam a questão da propriedade. Enquanto dependesse de terrenos controlados por terceiros, a continuidade da Festa permaneceria vulnerável a decisões tomadas fora dela. Era preciso possuir o terreno. Afinal, política não se resolve só pela consciência, pela disciplina ou pela força moral de um movimento. Quem controla os meios materiais (terra, edifícios, imprensa, infraestrutura, recursos) possui também uma vantagem decisiva na capacidade de organizar e reproduzir poder.
Depois do Jamor vieram novas dificuldades e novas mudanças. Entre 1979 e 1986, a Festa realizou-se no Alto da Ajuda, uma zona de Lisboa próxima do grande Parque de Monsanto, onde os militantes tiveram de adaptar um terreno difícil e construir boa parte da infraestrutura necessária para receber o público. Depois da Ajuda, vieram novas dificuldades e novas mudanças. Em 1988 e 1989, a Festa realizou-se em Loures, município da periferia norte da área metropolitana de Lisboa. Ao todo, passou por cinco locais antes de chegar, em 1990, à Quinta da Atalaia, na Amora, município do Seixal, na margem sul do Tejo, em frente à capital. A mudança para a Atalaia não representava, portanto, apenas mais uma troca de endereço. Depois de quase quinze anos de deslocamentos, a Festa passava finalmente a dispor de um território próprio.
A conquista da Atalaia foi provavelmente o momento mais importante depois da própria fundação. O terreno foi comprado através de uma grande campanha de arrecadação. Depois de anos dependendo de autorizações e terrenos que podiam ser retirados, a Festa finalmente possuía um espaço seguro que podia transformar e conservar. É nessa história que a roda-gigante ganha outro sentido, pois tudo ao redor dela foi construído aos poucos. Caminhos, árvores, palcos, espaços de debate, áreas para crianças, restaurantes regionais, livrarias, exposições. A Festa chama a si mesma de uma construção coletiva e grande parte do recinto continua sendo montada e operada por militantes e amigos que oferecem trabalho voluntário meses antes e durante os três dias da Festa. É também isso que a faz parecer, por alguns dias, uma pequena cidade.
O célebre “É nosso!”, gritado quando a compra foi anunciada, tinha portanto um significado que ultrapassava a satisfação de possuir um terreno. Era a resposta coletiva a mais de uma década de deslocamentos. Essa é uma das dimensões mais profundamente leninistas da história da Festa, a compreensão de que nenhuma força política sobrevive apenas de ideias corretas ou de bons discursos. Uma classe só se transforma em força histórica quando constrói organização, imprensa, espaços, cultura, memória e instituições próprias capazes de atravessar períodos de avanço e de derrota. A Festa do Avante! é uma dessas instituições, por isso a sua sobrevivência diga algo maior do que a história de um festival. Enquanto tantas organizações da esquerda europeia perderam jornais, sedes, associações, espaços culturais e formas permanentes de sociabilidade, os comunistas portugueses conservaram na Atalaia um território onde uma cultura política pode continuar a reproduzir-se materialmente. A história da Festa é, nesse sentido, também uma história da luta pela construção de contrapoder.
Uma infraestrutura do comum
O aspecto mais interessante da Festa não está, porém, no que ela mostra, mas naquilo que é preciso saber fazer para que ela exista. Por trás dos palcos, das exposições, das cozinhas, dos livros e da multidão há uma capacidade coletiva acumulada ao longo de décadas, que podemos chamar de uma “infraestrutura do comum”. Não estamos falando apenas de estruturas físicas, mas de formas de cooperação, saberes práticos, memória organizativa e relações construídas no próprio ato de fazer juntos. Isso não significa que, durante três dias, desapareçam as relações sociais existentes para além de seus muros. A Atalaia não é uma ilha socialista dentro de Portugal. Mercadorias continuam sendo compradas, dinheiro continua circulando, artistas e fornecedores são pagos e todas as contradições da sociedade portuguesa atravessam os portões da Festa. Todavia, há ali também outra coisa.
Existe uma infraestrutura construída durante décadas por uma organização política. Existe trabalho voluntário. Existem conhecimentos transmitidos entre gerações. Existem milhares de pessoas que sabem, ensinam e aprendem a montar uma cozinha, erguer um pavilhão, instalar uma rede elétrica, organizar uma livraria, preparar um debate, construir um palco e alimentar centenas de desconhecidos porque aprenderam fazendo isso juntas.É essa combinação entre território, organização e trabalho coletivo que permite à Festa adquirir a aparência de uma cidade e, como todo tecido urbano, ela produz encontros improváveis.
Num mesmo percurso, podemos encontrar uma banda de rock, uma exposição política, comida do Alentejo ou do Vietnam, uma delegação estrangeira, crianças em jogos, um debate sobre guerra ou habitação, uma livraria, música clássica, um grupo folclórico. Em 1980, Chico Buarque cantou ali. Em 1985, Álvaro Cunhal lançou O Partido com Paredes de Vidro. Em 1994, no vigésimo aniversário da Revolução dos Cravos, houve uma grande exposição de artes plásticas com artistas portugueses e franceses.
José Saramago pertence a essa história de maneira ainda mais íntima, pois, muito antes de receber o Prêmio Nobel de Literatura, Saramago como militante comunista era presença habitual na Festa. Não comparecia à Atalaia como uma celebridade convidada para emprestar prestígio intelectual a uma organização política. Participou inclusive das jornadas de trabalho que construíam materialmente a Festa, além de debates, apresentações e encontros com leitores. Décadas depois, quando já era um dos escritores mais conhecidos do mundo, aquela relação permaneceu. Ou seja, um futuro Nobel carregando consigo, além de suas obras, a memória de ter ajudado a construir fisicamente o espaço onde esses livros seriam discutidos. Sebastião Salgado também passou por ali. Em 1996, sessenta fotografias de seu trabalho sobre o mundo do trabalho foram expostas na Atalaia. Salgado visitou a exposição e encontrou-se com o público. Na mesma Festa, milhares de pessoas se concentraram diante do Palco 25 de Abril para ouvir a Orquestra Metropolitana de Lisboa interpretar Tchaikovsky.
Tantos frequentadores descrevem, meio a sério e meio em sonho, como a sensação de entrar durante alguns dias noutro mundo, mas há uma concepção política por trás desse “ecletismo cultural”. A ideia de que a grande arte não pertence a uma elite social que possui dinheiro e formação para consumi-la. Que Beethoven e Tchaikovsky podem ser ouvidos por milhares de trabalhadores ao ar livre. Que fotografia, literatura, teatro e artes plásticas não são ornamentos acrescentados depois da política, mas parte da própria formação humana e que a cultura popular não precisa pedir licença à chamada “alta cultura” para ocupar o mesmo espaço. Em termos marxistas, trata-se também de recusar uma das mutilações produzidas pela sociedade de classes, a separação entre aqueles que produzem o mundo e aqueles a quem é reservado o direito de usufruir plenamente de sua cultura. É por isso que a Festa pode acomodar, sem contradição, uma sinfonia e uma bifana, Saramago e uma roda-gigante, uma exposição de Salgado e uma noite de dança. Não são mundos que precisam nem devem permanecer separados.
Também por isso a história cultural da Atalaia nunca terminou nos nomes consagrados do século XX. Em 2022, Dino D’Santiago, um dos artistas que mais profundamente recolocou no centro da música portuguesa contemporânea a experiência negra, cabo-verdiana e periférica, terminou por resumir essa relação de pertencimento numa frase extraordinária. Recordando sua própria trajetória até a Festa e a pressão pública e privada para não participar dela, declarou diante do público: “Eu não iria à Festa do Avante. Eu sou o Avante!”. A frase tornou-se poderosa justamente porque invertia a relação habitual entre artista e festival. Num país cuja identidade foi durante séculos construída também pelo colonialismo, a presença de artistas como Dino D’Santiago revelou ao mesmo tempo as transformações da classe trabalhadora portuguesa e as novas contradições que uma cultura comunista terá necessariamente de enfrentar: raça, imigração, periferia, colonialismo e as diferentes formas de exploração que compõem o proletariado contemporâneo.
A Festa sobrevive justamente porque não permaneceu congelada em 1976, mas também sobreviveu porque não abandonou aquilo que a tornou possível em primeiro lugar. Depois de 1989, essa persistência adquiriu outro significado. O colapso dos regimes socialistas do Leste europeu e, dois anos depois, o desaparecimento da União Soviética precipitaram uma crise histórica do movimento comunista internacional. Partidos que durante décadas haviam organizado milhões de trabalhadores desapareceram, mudaram de nome ou abandonaram a identidade comunista. Instituições construídas durante gerações dissolveram-se com uma velocidade que poucos poderiam ter imaginado. O PCP não saiu ileso dessa mudança histórica: perdeu força eleitoral, influência social e militantes. Mas, ao contrário de muitos de seus pares europeus, preservou a identidade, a organização e parte das estruturas construídas ao longo de décadas.
A Festa também persistiu, mesmo depois de essa capacidade de permanecer ter sido posta à prova novamente em 2020. No primeiro ano da pandemia de Covid-19, quando grande parte dos grandes festivais havia sido cancelada, o PCP decidiu realizar a Festa numa versão profundamente condicionada pelas normas sanitárias. A lotação autorizada acabou por ficar em 16.563 pessoas em simultâneo, muito abaixo da capacidade habitual da Quinta da Atalaia, que rondava os 100 mil visitantes. O recinto foi ampliado, foram estabelecidos limites de lotação, circuitos de circulação, regras de distanciamento, uso de máscaras em determinados espaços e outras medidas de prevenção. A decisão desencadeou uma das maiores controvérsias da história recente da Festa. Para seus críticos, realizar um evento daquela dimensão no meio de uma pandemia revelava irresponsabilidade e um excepcionalismo que colocava o partido acima das restrições impostas ao restante da sociedade. A imprensa da época indicou, porém, que nem esse limite teria sido atingido e que a edição teve uma redução significativa de público.
Para o PCP, a questão era diferente, pois atividades políticas e culturais não podiam ser tratadas como direitos descartáveis quando outras dimensões da vida social e econômica continuavam autorizadas sob regras sanitárias. O partido apresentou a realização da Festa como defesa simultânea da saúde pública e do exercício de direitos políticos e culturais. O episódio revelou novamente aquilo que distingue a Festa de um festival comercial. Ela nunca se concebeu como um produto que simplesmente se coloca ou se retira do mercado conforme as condições permitam obter lucro. Para os seus construtores, realizá-la sempre foi uma atividade política.
A controvérsia também produziu, posteriormente, uma disputa sobre os próprios efeitos epidemiológicos da Festa. Não existem dados públicos que permitam estabelecer quantas pessoas, se alguma, foram infectadas no evento. Cerca de dez dias depois, a Direção-Geral da Saúde de Portugal afirmava não ter conhecimento de cadeias de transmissão diretamente associadas a eventos de massas, sem contudo identificar especificamente a Festa do Avante!. Tampouco foi divulgada uma contagem oficial consolidada do público total ao longo dos três dias.
50 anos depois, a roda continua a girar
Meio século é muito tempo para qualquer festival. Para uma festa anual criada por um partido comunista em 1976, dois anos depois de uma revolução, a longevidade é ainda mais extraordinária. O país mudou, a Europa mudou, o movimento comunista mudou. O próprio PCP é hoje muito menor eleitoralmente do que foi durante boa parte da história da Festa. Mas qualquer transformação só acontece sobre o terreno da resistência, e nesta edição cinquentenária, uma das imagens mais fortes dessa capacidade de atravessar o tempo veio do outro lado do Atlântico.
Nesta edição comemorativa de 50 anos, Ney Matogrosso subiu ao Palco 25 de Abril como convidado de Pedro Jóia, num concerto concebido para os cinquenta anos da Festa e que retomava uma parceria artística iniciada em 2001. O encontro resultou no maior público daquele sábado e trouxe referências à Palestina, a Cuba e a José Afonso, figura central da música de intervenção portuguesa, tradição de canção política e de protesto ligada à luta antifascista e anticolonial. A presença de Zeca Afonso no repertório criava uma ponte quase inevitável com a própria trajetória de Ney. José Afonso cantou contra a ditadura portuguesa e tornou-se uma das vozes musicais da resistência ao Estado Novo e Ney Matogrosso chegou ao grande público brasileiro em 1973, no auge da ditadura militar. A voz aguda, o rosto pintado, os figurinos extravagantes e a dissolução das fronteiras convencionais do “masculino” assumiram um confronto estético e político, próximo daquela intuição marcuseana de que nenhuma emancipação é inteira se não alcançar também a sensibilidade. Um artista que atravessou a ditadura brasileira fazendo do próprio corpo um território de insubordinação celebrava uma Festa nascida da derrota de outra ditadura. Cinquenta anos depois, nem Ney nem a Festa pareciam interessados em aprender a docilidade.
A roda-gigante continua se impondo acima das árvores. A cada novo assalto e a cada escalada fascista, a bandeira comunista continua se erguendo sobre a Atalaia sempre mais alto, como declamou José Carlos Ary dos Santos. Continuam a ecoar, entre os palcos e as avenidas, as canções e palavras de ordem de uma tradição política que atravessou clandestinidade, revolução, derrotas, crises e profundas transformações sociais. Talvez seja por isso que, cinquenta anos depois, tanta gente ainda cruze o Tejo para passar três dias naquela pequena cidade que existe apenas uma vez por ano. A Festa do Avante! é construída por milhares de pessoas que trabalham juntas para erguer ruas, restaurantes, palcos, exposições, redes de água, eletricidade e espaços de encontro. Em poucas semanas, transformam um terreno numa cidade e, durante três dias, fazem-na funcionar e depois desmontam grande parte do que construíram, sabendo que voltarão no ano seguinte.
Há nisso algo que ultrapassa a própria Festa, pois, se milhares de pessoas são capazes de organizar coletivamente um espaço dessa dimensão, de combinar trabalho, cultura, alimentação, política, lazer e solidariedade sem que o lucro seja o princípio que dá sentido ao conjunto, então aqueles três dias se tornam também uma demonstração, ainda que limitada, de outra possibilidade de organização da vida social. A pequena cidade da Atalaia desaparece todos os anos, mas a capacidade que a constrói não desaparece com ela. Talvez seja esse o significado mais radical dos cinquenta anos da Festa do Avante!, a de lembrar que uma sociedade diferente não precisa ser imaginada como uma abstração distante. Ela começa exatamente na capacidade de pessoas comuns construírem, juntas, aquilo de que necessitam.
Fredric Jameson formulou uma imagem que se tornaria célebre, de que parece mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Mark Fisher retomou essa intuição e deu a ela um nome – “realismo capitalista” – para descrever uma época em que o capitalismo deixou de ser percebido como uma forma histórica de organizar a sociedade e passou a parecer o próprio limite do possível. O capitalismo já não precisa convencer ninguém de que é justo ou desejável, basta apresentar-se como inevitável, o que torna difícil imaginar seriamente uma vida organizada por outros princípios. Por três dias, a Festa do Avante! rompe, ainda que parcialmente, esse horizonte, mas não porque esteja fora das contradições do capitalismo, nem porque constitua em si mesma uma sociedade alternativa. A Festa torna visível uma capacidade que o cotidiano capitalista costuma fragmentar ou esconder, que é a capacidade de pessoas comuns planejarem juntas, cooperarem em grande escala e produzirem algo cujo sentido não se reduz à obtenção de lucro, em prol de um espaço comum. A Atalaia não é obviamente uma antecipação perfeita de outra sociedade. Faz algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais importante: demonstra que certas formas de cooperação que costumam parecer utópicas já existem como prática.
Durante alguns dias, aquilo que o realismo capitalista apresenta como improvável ganha ruas, cozinhas, palcos, livros, eletricidade e gente. Se uma cidade pode ser erguida dessa forma para durar três dias, então a impossibilidade de uma sociedade diferente deixa de parecer tão absoluta. A promessa mais persistente da Atalaia é de mostrar que o futuro não precisa permanecer no terreno da imaginação, pois pode ser construído. E, se conseguimos construí-lo juntos para viver aqueles três dias, poderemos fazê-lo também para sempre.




