Por Petrônio Domingues
A contribuição de pessoas negras para o pensamento social brasileiro não é recente. Diante disso, a questão central deste artigo é saber como a produção intelectual de Manuel Querino, Evaristo de Moraes, Mário de Andrade, Virgínia Bicudo, Edison Carneiro, Clóvis Moura e Beatriz Nascimento dialogou com os paradigmas estabelecidos na historiografia da escravidão e do pós-Abolição, assim como na sociologia das relações raciais.
Será argumentado que esses intelectuais, apesar do silenciamento ou das dificuldades de validação de suas narrativas, ideias e enunciações, foram propositivos, antecipando, complementando ou mesmo se opondo aos paradigmas que marcaram os estudos da experiência negra no Brasil durante o século XX.
Em 1988, Clóvis Moura publicou Sociologia do negro brasileiro, livro no qual fazia uma constatação: o “pensamento social brasileiro” estava “impregnado” de uma “visão alienada, muitas vezes paternalista, outras vezes pretensamente imparcial” sobre o problema racial. A sociologia do negro, a seu ver, era uma “sociologia branca”, que poderia levar o negro a continuar sendo “cobaia sociológica daqueles que dominam as ciências sociais tradicionais”. Moura lançou o livro no ano do centenário da abolição da escravidão no Brasil. Àquela altura, ele reconhecia que o cenário intelectual estava mudando, que havia cientistas sociais que seguiam uma perspectiva científica diferente.
A estruturação de uma “sociologia do e para o negro no Brasil” sinaliza um processo de eclosão, se não de consolidação, de um novo repertório de ideias, angulações e imaginações críticas, que tem contribuído para trazer à baila novas nuanças e reelaborações para a temática racial e suas reverberações em campos disciplinares distintos. Sua importância para a (re)formulação de novas agendas na produção intelectual é inconteste.
Fonte: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), USP.




