Por Muryatan S. Barbosa

 

O líder afromarxista Kwame Nkrumah nasceu em 21 de setembro de 1909. Ele dissecou os meandros do avanço imperialista na África do século XX em sua tese contra o neocolonialismo. Com a nova ofensiva estadunidense no Sul Global, reler e se armar com os argumentos de seu livro Neocolonialismo: estágio superior do imperialismo se torna uma tarefa incontornável dos dois lados do Atlântico.

Prefácio do livro Neocolonialismo: estágio superior do imperialismo, de Kwame Nkrumah (Abertura, 2026)


 

“Hoje, de inúmeras maneiras, nosso povo aprende que sua pobreza não é maldição dos deuses ou um fardo imposto pelos imperialistas, mas um defeito político de nossa independência. A percepção geral é cada vez mais que a independência não é suficiente sem a unidade da África, pois esse é o único caminho para a emancipação e o desenvolvimento econômico do nosso continente.”
(Nkrumah, 1964)

Tendo em conta sua relevância histórica e atualidade, Kwame Nkrumah (1909-1972) é ainda pouco analisado na academia brasileira. É mais um ilustre desconhecido que cabe revisitar.

Francis Nwia-Kofi Ngonloma (Kwame Nkrumah) teve uma vida intensa e voltada para a práxis. Nasceu em Nkroful, um vilarejo na antiga Costa do Ouro (posteriormente Gana), então colônia inglesa. Frequentou escolas católicas e ainda jovem conseguiu uma bolsa para continuar seus estudos nos EUA. Mais especificamente na Universidade da Pensilvânia, onde formou-se em Teologia, Pedagogia e Ciência Política. Nessa estadia foi adquirindo uma formação cada vez mais de esquerda e anticolonialista, tornando-se dirigente estudantil. Conheceu os ensinamentos de Marcus Garvey, famoso líder negro à época, e tornou-se próximo ao historiador marxista Cyril R. James, que o incentivou a continuar sua formação acadêmica e política na Inglaterra. Assim ele fez. Mudou-se no início de 1945, tornando-se assistente de George Padmore, ex-integrante da Internacional Comunista e principal organizador do movimento pan-africanista na Europa. Padmore e Nkrumah foram centrais na realização do V Congresso Pan-Africano (Outubro, 1945), em Manchester, um evento crucial para a articulação dos movimentos de descolonização na África.

Nkrumah voltou para sua terra natal em 1947, convidado para ser secretário-geral de um novo partido chamado Convenção Unida da Costa do Ouro (em inglês, UGCC). No entanto, sua forma de atuação política centrada no enraizamento nas massas, desobediência civil, greves e boicotes (chamada pelo próprio de “Ação Positiva”, inspirada no gandhismo) trouxe descontentamento aos demais líderes da Convenção por seu suposto radicalismo, e Nkrumah resolveu criar a sua própria agremiação política: o Partido da União Popular (em inglês, CPP). O movimento foi certeiro. Em pouco tempo seu partido tornou-se a principal força de libertação nacional, tendo continuado a crescer mesmo após a prisão de seu líder, em 1950. Pressionados pela mobilização popular, os ingleses resolveram convocar eleições gerais por sufrágio universal, que acabaram por eleger Nkrumah como novo chefe de governo, oficialmente “Líder dos Negócios Governamentais”. Nesse cargo, ele conseguiu encaminhar pacificamente a unificação nacional e a independência da Costa do Ouro em 1957, agora renomeada como Gana (em homenagem a um antigo Reino africano que existiu entre os séculos VII e XII). Após a independência, Nkrumah se tornou um dos principais líderes de sua época, defendendo a unidade africana e o socialismo como alternativas concretas aos países saídos da descolonização. Foi deposto por um Golpe Militar em 1966, apoiado pela CIA e pela Inglaterra.

Este resumo se faz necessário para introduzir ao público brasileiro esta obra clássica do autor, Neocolonialismo: Estágio superior do imperialismo (1965). Como visto, não se trata do livro de um “africanista”, ou seja, um ser alienado de seu papel no movimento de autoconsciência da razão africana. É a principal obra de uma das figuras políticas mais relevantes da África Contemporânea. Para que e por que o líder ganense escreveu este livro particular? Do que ele trata? Qual seu argumento primordial? Qual sua atualidade? Escudando-me no caráter sumário deste prefácio traremos algumas respostas peremptórias a tais questões, supondo que elas sejam de alguma forma úteis a quem o lê.

A primeira questão a se destacar é a referência que Nkrumah fez no título do seu livro ao clássico de Lênin, Imperialismo: Estágio superior do capitalismo (1917), o que não é mera deferência. Para Nkrumah, o neocolonialismo seria a forma dominante do imperialismo à sua época. Mas aqui, na verdade, estamos falando mais de um debate coletivo do que individual. Quando o jovem ganense chegou em Londres, em 1945, ele não foi para lá primordialmente por questões acadêmicas ou profissionais. Estava conscientemente se juntando a um grupo político pan-africanista, majoritariamente marxista, que tentava organizar a luta por libertação negra e africana desde a década de 1930, que contava com militantes de primeira linha, como C. L. R. James, Ras Makonnen, George Padmore, Amy Garvey, Wallace-Johnson. Sua presença tornou-se logo fundamental na organização do V Congresso Pan-africano, por conta de sua capacidade intelectual, compromisso e intimidade com outros ativistas africanos. Mas Nkrumah tinha pressa, e logo após esse Congresso participou da fundação de dois grupos revolucionários, agora só com africanos: “O Círculo” e o “Secretariado Nacional da África Ocidental”; ambos com o mesmo objetivo: criar um movimento de descolonização de viés socialista e regionalista, que visava abarcar toda a África Ocidental. Na visão de Nkrumah e seus correligionários (N. O. Annan, Wallace-Johnson, B. Akpata, B. Awoonor-Renner, K. Botsio), a região em questão deveria ser a ponta de lança para a formação dos “Estados Unidos Socialistas de África”.

O convite da Convenção (UGCC) para que Nkrumah voltasse à Costa do Ouro, em 1947, mudou os planos coletivos e pessoais do jovem ganense. E, ao que parece, Padmore teve papel determinante nessa reorientação. Sumarizando a história, a partir de tal convite criou-se uma nova estratégia. A ideia era de que voltando à sua terra natal e saindo-se de lá vitorioso, ou seja, conquistando a independência e construindo um poder socialista, Nkrumah teria as condições objetivas para o passo seguinte: viabilizar a unidade africana.

O caminho foi traçado e em parte realizado. Em minha opinião, o fato de tal unidade africana nunca ter-se realizado, não pode ser visto apenas como um simples erro estratégico de tais militantes, tendo em conta a difícil execução do seu objetivo final. O certo é que, enquanto Nkrumah foi governante, como líder de Governo (1951-56), Primeiro-ministro (1957-61) e presidente de Gana (1961-66), o poder político, seu e de seu partido, foi exaurido na realização de tal utopia pan-africanista e socialista.

É verdade que o líder ganense não estava sozinho nessa luta. Os anos 1950 e 1960 foram um período rico do ponto de vista geracional para a política progressista africana, trazendo à tona figuras como Gamal A. Nassser, Julius Nyereré, Frantz Fanon, Amílcar Cabral, Kenneth Kaunda, Modibo Keita, S. Sékou-Touré e Ahmed Ben Bella. Arrisco dizer que os que sobreviveram à luta de libertação e se tornaram dirigentes posteriormente, com acertos e erros, fizeram o máximo para que a trajetória pós-colonial de seus países fosse a melhor possível, enfrentando os inúmeros fatores e elementos externos e internos que buscavam inviabilizar tal objetivo. A diferença de Nkrumah para com eles — talvez a exceção de Nasser — foi sua convicção pessoal, teórica e política, que só uma unidade africana continental poderia garantir a autodeterminação e o socialismo que se pretendia instaurar na África. Daí a sua tese do neocolonialismo, como fase superior do imperialismo. E isso fica evidente em seu discurso na proclamação da independência nacional de Gana, em 1957: “nossa independência é insignificante a menos que esteja vinculada à libertação total de toda a África”.

O livro Neocolonialismo foi a derradeira tentativa de Nkrumah de provar seu ponto de vista nesse sentido, buscando convencer as demais lideranças africanas para trilhar tal caminho. Daí que sua força persuasiva esteja baseada não em proclamações político-ideológicas, mas em extensa pesquisa empírica, o que torna difícil questionar a tese central do autor: de que estava se consolidando um crescente imperialismo na África, que tornava praticamente impossível uma formação nacional realmente autodeterminada no continente no mundo pós-colonial, se ali fossem mantidas as fronteiras e soberanias nacionais herdadas do colonialismo e da luta anticolonial. Sendo assim só poderia existir uma alternativa concreta (inclusive temporalmente, no médio e longo prazo) em escala continental, pois mesmo o regionalismo não seria suficiente. Vale dizer, Nkrumah não falava aí de uma nação africana homogênea, sobretudo do ponto de vista étnico ou cultural, como alguns dos seus críticos disseram posteriormente, por ignorância ou cinismo. Ele imaginava uma governança soberana dentro de um Estado federativo, com múltiplas nacionalidades, mas centralizado em termos de planejamento econômico, moeda, política externa e defesa militar. Isso seria a unidade africana.

Vale destacar uma característica da obra que não é óbvia e que deveria interessar a militância progressista atual, para além da África. Apesar de Nkrumah se referir especialmente ao caso africano, que analisou empiricamente, ele não pretendia que sua tese central se circunscrevesse a tal realidade, nem àquela época. No referido livro, inclusive, ele diz que o neocolonialismo (novo imperialismo) não nasceu nas relações entre Europa e África, mas entre EUA e América Latina no século XIX, sendo estendido ao mundo no decorrer da Guerra Fria, pela Europa Ocidental e pelos EUA. Para além do cronológico há o lógico, e Nkrumah sabia disso. Nesse sentido, ele entendia concomitantemente o neocolonialismo como uma espécie de imperialismo esperto, que conseguia (e continua conseguindo) por métodos diversos — culturais, religiosos, econômicos, militares, institucionais, políticos — realizar o seu objetivo final: maximizar os lucros do complexo financeiro que o sustenta. Isso é logicamente o neocolonialismo. E qual é a estratégia política mais funcional para tal empreendimento? Para Nkrumah seria a tática do “dividir para dominar”, em todos os níveis sociais. Daí que a unidade fosse a única solução possível. Sua análise é atualíssima nesse sentido, haja vista o que se está observando no mundo, e se tornou ainda mais explícito na política externa do atual Governo Trump.

Penso que para o leitor mais experiente, que já conhece esta ou outras obras do autor, restam algumas dúvidas. Por exemplo, como essa unidade africana deveria ocorrer? Nkrumah traz argumentos diferentes ao longo de sua trajetória. De início enfatizou o papel que as lideranças africanas deveriam ter (1958); depois falou de um partido comum de libertação e pan-africanismo (como no seu livro, A África precisa se unir, 1953); finalmente passou a defender a luta armada (pós-1966, como em Luta de classes na África, 1970). É uma variação decorrente de situações políticas heterogêneas ou de rupturas em seu pensamento teórico e político? Outra pergunta: seria o neocolonialismo um estágio superior do imperialismo (consolidado na Guerra Fria) ou uma tática comum do imperialismo, quando este não consegue mais se impor em sua forma colonial? Se for o segundo caso, qual seria a diferença substancial então entre neocolonialismo e semicolonialismo? Por fim: se Nkrumah estava certo em sua caracterização da estrutura neocolonial do mundo, onde estaríamos hoje? E as alternativas colocadas? São as mesmas imaginadas pelo autor?

No fundo, são estas e outras questões que surgem ao se ler este belo livro de Kwame Nkrumah, injustamente esquecido no Brasil. Por conta disso, tomo a liberdade de parabenizar os editores por sua escolha.


 

Muryatan S. Barbosa

Professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC).

 

Fonte: Jacobin Brasil.

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