Por redação Instituto Búzios
A recusa da Meta IA em gerar imagens contendo o nome “Lula” e a geração de conteúdo contendo o termo “Flávio” foi noticiada pelos portais UOL e ICL e confirmada em testes realizados pela BBC News Brasil.
A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026, proíbe sistemas automatizados de emitir preferência eleitoral ou favorecer e desfavorecer candidaturas, direta ou indiretamente.
Brasileiros protestarão na sede internacional da Meta: ‘Tire as mãos de nossa eleição’. A iniciativa ocorrerá nesta sexta-feira em Dublin, na Irlanda. Ação denunciará medidas da empresa contra a campanha de Lula e outro objetivo será o de alertar aos europeus sobre os riscos do envolvimento de Big Techs nas democracias.
A Meta, empresa de tecnologia que controla o WhatsApp, Facebook e Instagram anunciou nesta quarta-feira (14/10) que proibiria, temporariamente, “a recomendação e geração de imagens” usando os primeiros nomes de candidatos disputando o segundo turno das eleições. A nota foi divulgada às 12h18, após vir a público diferença no tratamento dos postulantes à Presidência, como mostrou a coluna Mônica Bergamo.
“Em cumprimento com as regras eleitorais do Brasil, nós proibimos temporariamente a recomendação de candidatos ou a geração de imagens deles. Tomamos medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens”, diz a nota enviada pela Meta.
O anúncio aconteceu horas depois que usuários da ferramenta Meta IA, a inteligência artificial da Meta, relatarem que a ferramenta se negava a gerar imagens contendo o nome “Lula” ao mesmo tempo em que permitia a geração de imagens com o nome “Flávio”.
O episódio acontece em meio a uma disputa acirrada no segundo turno das eleições presidenciais entre o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Conta de fundador do ICL, foi bloqueado no Instagram
O perfil no Instagram de Eduardo Moreira, fundador do ICL, foi bloqueado por várias horas nessa madrugada de quarta-feira (14), após Moreira ter postado vídeo em que relata conversa que teve com o presidente Lula na terça-feira (13). Após conseguir desbloquear, Moreira denunciou a manobra da Meta: “Estão tentando ganhar essa eleição na mão grande, vergonhosamente, interferindo de uma maneira que chega a ser inacreditável!”
De acordo com Moreira, que tem 1,9 milhões de seguidores na plataforma, seus vídeos contendo denúncias contra o candidato Flávio Bolsonaro obtiveram, só na última semana, mais de 100 milhões de visualizações e conseguiram mais de 300 mil pessoas novos seguidores.
Ao tentar recuperar a conta, depois do bloqueio, Moreira relata que a plataforma sugeriu que fossem apagados todos os posts: “Olha o que eles pedem, os últimos posts todos, juntos, mais de 100 milhões de visualizações, ele me leva para a direção de apagar todos eles, como se fosse necessário fazer isso para recuperar minha conta. Eu não apertei, graças a Deus eu não apertei o botão, estamos conseguindo voltar, mas é muito importante que todo mundo saiba disso.”
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não se manifesta
Questionado pela BBC News Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enviou uma nota informando que o tribunal “não se manifesta sobre casos concretos, que podem vir a ser objeto de questionamentos na Justiça Eleitoral”.
O comando jurídico da campanha de Lula moveu uma ação no TSE questionando o que classificou como “seletividade” da ferramenta da Meta a favor de Flávio Bolsonaro.
“O algoritmo da Meta é enviesado, pratica seletividade algorítmica e permite que Flávio Bolsonaro e seus apoiadores produzam, em massa, conteúdos eleitorais ilícitos e de fácil replicação”, diz um trecho da ação.
Interferência estrangeira
Jamil Chade em sua coluna no Instituto Conhecimento Liberta (ICL) informa que a ex-companheira de Fernando Cerimedo, Nádia Beller, alertou que o argentino aliado do clã Bolsonaro e do governo de Donald Trump estaria agindo para reduzir o alcance de postagens do campo progressista no Brasil nas redes sociais. Nos últimos anos, o consultor argentino teve um papel central na estratégia digital de campanhas no Brasil, Argentina, Honduras, Chile e Bolívia. No país, depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, ele foi um dos artífices do questionamento das urnas eletrônicas e difundiu desinformação neste sentido.
Hoje, Cerimedo está preso em La Paz, acusado de tentativa de assassinato de Nádia. A ex-companheira, porém, garante que a prisão de Cerimedo não significou o fim da operação.
“O que eles fizeram com a Meta é de manual. Eles têm contatos muito bons com a Meta”. Nádia ainda contou que Cerimedo mantinha “fazendas de bots”, atuando para difundir desinformação. “Usa em todos os países”, garantiu.
“Eu não tenho a menor dúvida de que a equipe dele, o grupo dele, interveio para isso. Entendo que há denúncias de infrações eleitorais por parte da Meta que teriam deixado passar algumas campanhas de guerra suja e a suspensão das contas do Lula. Eu não tenho a menor dúvida de que foi parte de uma estratégia desta equipe para tirar a visibilidade dele”, disse.
Brasileiros protestarão na sede internacional da Meta: ‘Tire as mãos de nossa eleição’
Por Jamil Chade – Os imigrantes brasileiros na Irlanda se organizam para realizar um protesto diante de um dos principais escritórios da Meta no mundo. A iniciativa, que ocorrerá nesta sexta-feira em Dublin, tem como objetivo chamar a atenção da empresa diante de acusações de manipulação de algoritmos durante as eleições no Brasil, prejudicando o campo progressista. Outro objetivo será o de alertar aos europeus sobre os riscos do envolvimento de Big Techs nas democracias.
Ainda que oficialmente a empresa tenha sua sede na Califórnia, a base da companhia na cidade de Dublin é considerada como uma das mais estratégicas. O local é apresentado como a sede internacional da Meta para a Europa, Oriente Médio e África.
Na convocação, o grupo explica o motivo da iniciativa:
“A democracia brasileira está sob ameaça. A Meta está reprimindo ativamente a campanha de Lula e a esquerda brasileira em suas plataformas, ao mesmo tempo em que impulsiona ativamente o candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro”, afirmam.
“Convocamos os brasileiros em Dublin para se juntarem a nós em um protesto na sede da Meta, nesta sexta-feira, dia 16, às 17h30, contra a interferência das BIG TECHS dos EUA em nossa democracia e soberania. BORA! Juntem-se a nós!”, completa a mensagem.
Julia Pires, uma das organizadoras, explicou ao ICL Notícias que a ideia surgiu de forma coletiva. “Estamos no lugar certo para isso. A Meta tem, aqui, créditos fiscais, tem um tratamento preferencial. Mas é um alerta que queremos também dar para os europeus: olha o que eles estão fazendo com a democracia no Brasil e na América Latina. Hoje é lá. Amanhã pode ser aqui, com vocês”, disse.
Segundo ela, a operação vai também envolver a sociedade civil irlandesa, justamente para questionar os benefícios fiscais que a empresa vem recebendo.
“O próximo movimento é levar o tema ao Parlamento Irlandês para debater o assunto”, explicou Julia. “Os benefícios podem ser tirados. Pelo menos devem ser questionados”, completou.
O protesto na Irlanda é ainda simbólico por conta da guerra fiscal entre os EUA e a empresa.
Em 2010, a empresa — então conhecida simplesmente como Facebook — estabeleceu um escritório em Dublin. Oficialmente, o objetivo era ter uma sede europeia. Com um imposto de apenas 12%, a Irlanda de fato conseguiu atrair muitas empresas, fugindo das taxas de 21% nos EUA.
Estabelecer operações no país também permitia às empresas transferir lucros para outras jurisdições de baixa tributação, como as Ilhas Cayman, que não cobram imposto de renda corporativo.
Nos últimos anos, porém, as autoridades americanas passaram a acusar a Meta de uma manobra. Ela teria transferido os direitos de propriedade intelectual para sua subsidiária irlandesa, o que permitiu à Meta declarar lucros no exterior substancialmente diferentes ao que eram declarados nos EUA.
Auditores sustentam, assim, que a empresa subestimou o valor de marcas, contratos com clientes, licenças de software e outros direitos transferidos para o exterior. Eles afirmam que a empresa deixou de declarar cerca de US$ 54 bilhões em receitas na última década e deve quase US$ 16 bilhões em impostos atrasados e multas.
Fontes: ICL, UOL, BBC News Brasil.




