Boletim Mensal do Instituto Búzios – Mídia Negra e Feminista

 

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ANO XXII – EDIÇÃO Nº256 – JULHO 2026

Reparações: A África desafia o eurocentrismo

Por Panashe Chigumadzi | Tradução: Antonio Martins – Avança a luta do continente para obter indenizações que amenizem séculos de colonização e escravismo. Desde 1825, quando a França puniu o Haiti por ousar declarar-se a primeira república soberana negra do mundo ocidental, extorquindo 150 milhões de francos como compensação pela perda do que considerava “propriedade” escravizada, as reparações aos povos e nações negras têm sido politicamente “impensáveis”. Durante as comemorações do 25º aniversário da Lei Taubira, que reconheceu na França o tráfico de africanos escravizados como crime contra a humanidade, Emmanuel Macron fez o impensável: Impulsionado pelas mudanças na realidade geopolítica e pelas crescentes demandas da África por soberania econômica, Macron invocou o termo “reparações” dez vezes como parte de uma tentativa preventiva de moldar os termos do diálogo antes que a União Africana (UA) adote sua posição comum sobre o tema que Gana sedie uma conferência global acerca do assunto, este mês. A declaração oi feita ao lado do presidente de Gana, John Dramani Mahama – o principal defensor das reparações na União Africana. As reparações continuavam sendo “impensáveis” quando Gana apresentou sua proposta de resolução à ONU. Baseando-se no Quadro de Reparações da UA, “Um Crime Não Preclui, 1441-presente” – que idealizei e redigi como relatora do comitê de especialistas em reparações da UA – a resolução invocou o princípio jurídico pan-africano da obrigação contínua, consubstanciado no ditado “um crime não preclui”. Cento e vinte e três Estados votaram a favor; três votaram contra, enquanto 52 se abstiveram. O Ocidente demonstrou repetidamente sua disposição em pagar reparações pela perda do que antes considerava sua propriedade africana – mas nunca pelas perdas impostas às pessoas africanas. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

Conferência Internacional Next Steps, pela reparação da escravidão

Por redação Instituto Búzios – A Conferência Internacional (Next Steps High-Level Consultative Conference (Conferência Consultiva de Alto Nível sobre os Próximos Passos), realizada em Accra, Gana, de 17 a 19 de junho de 2026, reuniu líderes globais para construir um marco de compromissos práticos para a reparação pelos impactos da escravidão e do colonialismo. O evento deu seguimento à resolução histórica da ONU que reconhece o tráfico transatlântico de escravizados como crime contra a humanidade. Na Conferência chefes de Estado, representantes de governos, organismos internacionais, especialistas e lideranças da sociedade civil debateram como transformar esse reconhecimento histórico em medidas concretas de justiça reparatória, cooperação internacional e desenvolvimento para povos africanos e afrodescendentes. A Conferência encerrou-se com a adoção unânime dos chamados “Compromissos do Next Steps de Accra” (Accra Next Steps Commitments). O principal resultado foi a unificação e o fim da fragmentação dos movimentos globais de reparação sob um único marco estrutural. Leia a matéria completa e as resoluções com os pilares fundamentais para a operacionalização da Resolução A/RES/80/250 da ONU. Fonte: Ministério das Relações Exteriores de Gana e Correio Kianda.

DNA ancestral dos afro-brasileiros: reparação histórica

Por Renato Ferreira e Felipe Pires – A população negra enfrenta obstáculos quase intransponíveis para identificar a origem de seus ancestrais. Nesse contexto, o acesso a essas informações por exame de DNA surge como um direito. Milhões de africanos foram retirados à força de seus territórios de origem, separados de suas famílias, línguas, religiões e identidades étnicas. Durante o período colonial, registros familiares e genealógicos foram destruídos e seres humanos reduzidos à condição de mercadoria. Esse processo produziu ruptura histórica e cultural profunda entre os descendentes afro-brasileiros e suas origens ancestrais africanas. O acesso às informações ancestrais por meio do exame de DNA se insere em uma pauta de reparação histórica, reconhecimento e valorização cultural e representa uma possibilidade concreta de reconstrução simbólica da memória de um povo historicamente submetido ao racismo, à negação de sua identidade. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Correio Braziliense.

Documentos: escravizados e as poupanças para comprar alforria

Por Maykon Almeida – Pesquisa da USP analisa registros do período escravocrata e aponta o uso da poupança para formação de pecúlio e compra de liberdade; das 145 cadernertas consultadas, mais de 100 pertenciam a mulheres. No dia 4 de novembro de 1861, no Rio de Janeiro, a Caixa Econômica do Império iniciava suas atividades com a abertura da primeira agência. Apenas doze dias depois, 16, Margarida Luiza, mulher escravizada, abriu a caderneta de número 59 com um depósito de 50 mil réis. A imagem de uma pessoa escravizada abrindo uma conta bancária no Brasil do século 19 pode parecer improvável. No entanto, documentos históricos mostram que escravizados depositavam dinheiro em cadernetas de poupança e utilizavam esses recursos para comprar a própria liberdade. Essa é a principal conclusão da dissertação de mestrado Cadernetas de poupança de escravizados: a formação do pecúlio e o papel das instituições bancárias, defendida pela advogada, mestra e doutoranda, Denise Rodrigues, em 2025, na Faculdade de Direito (FD) da USP. Sob orientação de Eduardo Tomasevicius, docente da FD, a pesquisa analisou processos judiciais, legislações e registros bancários para compreender como pessoas escravizadas acumulavam pecúlio, ou seja, patrimônio próprio, e de que forma esse dinheiro era utilizado em ações de liberdade e na compra de alforrias. Leia a matéria completa. Fonte: Jornal da USP.

Da luta contra o nazismo à renovação historiográfica: o legado de Jacob Gorender

Por Estevam Silva – Há 13 anos, em 11 de junho de 2013, falecia o historiador, jornalista e militante comunista Jacob Gorender, um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. Jacob Gorender nasceu em 20 de janeiro de 1923, em Salvador, Bahia. Filiado ao PCB desde a juventude, Gorender se alistou voluntariamente na Força Expedicionária Brasileira e participou dos combates contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Ele participou de combates intensos contra as tropas nazistas nas regiões da Toscana e da Emília-Romanha e tomou parte da célebre Batalha de Monte Castello. Após o retorno ao Brasil, Gorender reforçou sua atuação política, convertendo-se em um dos mais destacados dirigentes do PCB. As denúncias contra Stalin no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS chocaram Gorender, levando-o a assumir uma postura bastante crítica em relação ao antigo líder soviético. Os embates dentro do PCB se aprofundaram cada vez mais, conduzindo Gorender a constantes atritos com Luiz Carlos Prestes. Em 1967, Gorender foi expulso do PCB junto com os demais dirigentes reunidos em torno da chamada “Corrente Revolucionária”. No ano seguinte, ao lado de Mário Alves e Apolônio de Carvalho, Gorender fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Gorender foi capturado pelos militares em São Paulo em janeiro de 1970. O dirigente comunista foi brutalmente torturado. Sofreu espancamentos, afogamentos, choques elétricos e ao pau de arara. Se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 1994. Nesse mesmo ano, foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Entre 1994 e 1996, Gorender trabalhou como professor visitante no Instituto de Estudos Avançados da USP, onde ministrou cursos de pós-graduação sobre história e marxismo e desenvolveu pesquisas sobre relações de trabalho, globalização e revolução tecnológica informacional. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Opera Mundi.

Bibliocídio: big techs digitalizam, treinam IA e eliminam milhões de livros

Por Naief Yehya – As grandes editoras não são as únicas empresas que recorrem à destruição em massa de livros. O jornal The Washington Post publicou em janeiro de 2026 que, no início de 2024, a empresa de alta tecnologia Anthropic lançou uma iniciativa de forma praticamente secreta chamada Projeto Panamá. Os detalhes vieram a público com a divulgação de mais de quatro mil páginas de documentos apresentados como provas no processo de direitos autorais movido por um grupo de escritores contra a Anthropic. Esse processo fazia parte de uma série de ações judiciais movidas por artistas, autores, músicos, fotógrafos, designers, ilustradores e outros criadores que sentem que seu trabalho foi usado sem seu conhecimento ou autorização para treinar modelos de IA. Este e outros documentos jurídicos utilizados em ações judiciais contra várias empresas que desenvolvem modelos de Inteligência Artificial generativa revelaram que a Anthropic e outras empresas de IA estão comprando em livrarias de segunda mão milhões de livros impressos para treinar seus sistemas. Os Grandes Modelos de Linguagem (LLM, na sigla em inglês) requerem textos de “alta qualidade” para treinar suas redes neurais. Leia a matéria completa. Fonte: Revista Opera / Contexto y Acción (CTXT).

Mulheres negras: violências raciais em contexto de violência doméstica

Por Patrícia Oliveira de Carvalho – Pesquisa investiga as especificidades das violências sofridas por mulheres negras em contexto de violência doméstica e analisa como esses casos são processados no sistema judicial brasileiro. As mulheres negras são maioria nos registros de violência doméstica, feminicídio e outras formas de violência de gênero, dado anualmente reafirmado pelos números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E, apesar de a prevenção e o enfrentamento à violência doméstica ocuparem papel importante na agenda política brasileira atual, o país não dispõe de políticas públicas para o tema que focalizem as mulheres negras — uma grande lacuna de desigualdade, visto que dados quantitativos também apontam que as políticas públicas vigentes são mais efetivas para as mulheres brancas. A análise dos dados e decisões judiciais de primeira instância, revelam que mulheres negras só conseguem registrar as violências raciais quando estão num contexto de múltiplas violências. Acesse a Dissertação de Mestrado de Patrícia Oliveira de Carvalho. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Nexo.

Manto Tupinambá: a devolução de um tesouro indígena ao Brasil

Por Estevam Silva – Entre os muitos exemplares da cultura material produzida pelos povos indígenas do Brasil, os mantos Tupinambá ocupam um lugar de destaque. Mais do que obras primas da arte plumária, os mantos são expressões de uma sofisticada cosmologia indígena e símbolos poderosos da identidade, ancestralidade e resistência dos povos originários. Durante séculos, todos os exemplares conhecidos dos mantos Tupinambás permaneceram em museus e coleções da Europa, para onde foram levados ainda no período colonial. Em julho de 2024, no entanto, após passar mais de três séculos na Dinamarca, um desses mantos retornou ao Brasil, estabelecendo um marco no processo de repatriação dos nossos bens culturais. Obras de arte produzidas no período atestam o fascínio que os mantos exerceram sobre as cortes europeias. Uma aquarela alemã datada de 1599 retrata membros da corte durante uma cerimônia festiva em Stuttgart, ostentando um exemplar do manto emplumado. Essas evidências também são encontradas na retratística oficial do século 17. Os retratos de Sofia de Hanôver, a Duquesa de Brunsvique-Luneburgo, e Maria Stuart, esposa de Guilherme II, por exemplo, mostram as princesas envergando o manto Tupinambá como símbolo da realeza. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Opera Mundi.

EXPEDIENTE

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA

Publicação nacional digital online

Periodicidade: Mensal

EDITOR

Valdisio Fernandes

EQUIPE

Allan Oliveira, Ana Santos, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Davino Nascimento, Denilson Oliveira, Enoque Matos, Flávio Passos, Glauber Santos, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Jeane Andrade, Josy Andrade, Josy Azeviche, Leila Xavier, Luan Thambo, Lidia Matos, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Naira Silva, Patricia Jesus, Poliana Silva, Ronaldo Oliveira, Roselir Baptista, Silvanei Oliveira, Tamiris Rizzo.

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