Boletim Mensal do Instituto Búzios – Mídia Negra e Feminista

 

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ANO XXI – EDIÇÃO Nº252 – MARÇO 2026

 

A Cúpula dos Povos Originários: o Condor e a Águia

[Ritual ancestral durante o primeiro Encontro Continental de Povos e Grupos Étnicos de Abya Yala, em La Paz, em 9 de outubro de 2006 | Crédito: Aizar Raldes/AFP]

Por Leonardo Boff – Se quase a totalidade da civilização globalizada está à deriva, o mesmo não se pode dizer dos povos originários de Abya Yala, nome kuna para a Ameríndia, que significa “terra madura”. O nome já é incorporado por quase todas as etnias. Fez-se uma longa caminhada. No Primeiro Congresso Indigenista Interamericano celebrado em Pátzcuaro (México) em 1940 ainda se sustentava a tese colonialista da homogeneização e assimilação dos povos originários à cultura dominante, de cariz ocidental. Tudo começou a mudar a partir dos anos 60, quando surgiram, especialmente entre os jovens, um espírito libertário. Neste contexto, em todos os países sul-americanos irrompeu também a consciência indígena como indígena. Os povos originários recusavam ser chamados de “naturais” para distingui-los dos “civilizados”. Queriam ser o que são: verdadeiros povos — maias, incas, astecas, olmecas, toltecas,tupis-guarani, pataxó, yanomami e outras dezenas. A partir de 1990, fizeram-se vários encontros dos povos originários do Grande Sul e também do Grande Norte. Buscava-se uma identidade própria que fosse algo comum. Unidos, poderiam fazer frente ao rolo compressor da cultura dominante de viés ocidental que sempre tentou assimilá-los sacrificando sua própria identidade, a cultura, a religião, as festas e os mitos ancestrais. E roubar-lhes as terras. Em reação a tudo isso foi assim que em 2007 se criou a Cúpula dos Povos de Abya Yala. Muito importante foi o encontro de Porto Alegre em 2012 quando dezenas de etnias e grupos de apoio lançaram o Manifesto dos Povos indígenas de Abya Yala. Vinha com especificações: “Em defesa da Mãe Terra, pelo bem viver, a vida plena e vontra a mercantilização da vida e da Mãe Natureza”. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Brasil de Fato.

Colorismo: hierarquias dentro do racismo estrutural no Brasil

Vivemos em um país que se diz miscigenado, plural e diverso. Mas essa diversidade nunca significou igualdade. A palavra miscigenação, na prática, significa um projeto de país que sequestrou pessoas racializadas para força de trabalho escravizado e sustentou-se à base de abusos sexuais contra mulheres negras e indígenas, até os tempos contemporâneos, atravessadas pelo racismo estrutural. Dentro do racismo estrutural brasileiro existe uma engrenagem que organiza gradações de exclusão: o colorismo. O colorismo não cria racismo. É um braço articulado que o administra. Desde o escravismo colonial, distribui privilégios relativos conforme o tom de pele e os traços associados à africanidade. Ele estabelece uma hierarquia interna entre pessoas negras e racializadas. Ele organiza quem será mais tolerado e quem será mais violentado. Enquanto o racismo estrutura o sistema, o colorismo regula sua intensidade. O debate sobre colorismo atravessa o movimento negro. O conceito de “parditude” surge como tentativa de organizar uma identidade específica para pessoas classificadas como pardas. Há preocupação com a fragmentação da unidade do movimento negro. O colorismo está no centro dessa disputa. O debate não é apenas identitário, é estratégico. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Instituto Conhecimento Liberta (ICL).

A Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial e a Pax Silica: a sombra por trás da cúpula

Por James Görgen – A Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial (IA) 2026, realizada em Nova Déli, na Índia, foi encerrada oficialmente no dia 21 de fevereiro, com a adoção da “Declaração de Nova Déli”, endossada por 88 países e organizações internacionais, incluindo o Brasil. A declaração de líderes é mais principiológica do que normativa, silencia sobre as questões estruturais mais urgentes e acaba por legitimar exatamente o status quo que deveria desafiar. Decepcionou observadores mais atentos à cena global de IA e foi endossado pelo governo brasileiro. Em meio à pressão das big techs para controlar a tecnologia, Sul Global capricha na retórica, mas evita deflagrar ação comum e morde isca perigosa. Mas talvez a escolha mais consequente — e mais reveladora — da declaração seja de natureza institucional. O documento retira da ONU a responsabilidade central pela governança de IA e aposta no modelo de governança compartilhada entre Estados, empresas e outros atores não estatais, sem hierarquia clara de responsabilidades e com decisões por consenso. Há um elemento ainda mais perturbador, que ficou à sombra dos holofotes: às margens da cúpula, a Índia assinou sua adesão à Pax Silica — o pacto estadunidense de segurança de cadeias de suprimento de IA e semicondutores — formalizando seu alinhamento geopolítico com o bloco tecnológico liderado por Washington, cujas consequências para os BRICS e para o Brasil merecem atenção urgente. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

A encruzilhada da soberania digital em 2026

Por James Görgen – O comum das previsões sobre tecnologia digital para os anos que chegam é sempre analisar as tendências que serão adotadas e quais possuem mais chance de dominar a cena global. Tudo muito alimentado pelos relatórios de consultorias privadas interessadas em promover esta ou aquela novidade. Proponho aqui um olhar menos instrumental e mais geopolítico, regulatório e econômico para saber como a agenda digital vai se desenvolver ao longo de 2026. E faço isso através de quatro eixos sem previsões peremptórias. Primeiro, o debate sobre soberania digital e a queda-de-braço entre estados nacionais e as grandes empresas de tecnologia. Depois, abordarei inteligência artificial sob a perspectiva da corrida geoeconômica e dos impactos sobre o futuro da web. Será reservado também um olhar sobre a economia digital, do ponto-de-vista regulatório e de política industrial. A visão geral da análise é onde o Brasil se encontra neste tabuleiro. Para o Brasil, o ano eleitoral de 2026 será o ano da decisão entre consolidar o sequestro de sua autonomia tecnológica ou liderar uma reconstrução sistêmica de um ecossistema digital. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

Racismo à brasileira: estudo revela os desafios enfrentados por casais inter raciais

Clara Lima, Andrea Magalhães e Mariana Matos – Atualmente, o termo “raça” é entendido pelos estudiosos do tema como um conceito sociológico e político. Ele funciona, historicamente, como um marcador social que atribui valores distintos a corpos diferentes. Uma evidência de que a criação de hierarquias entre grupos humanos, baseadas na ideia de raça, ainda impacta a realidade das pessoas. Nas últimas décadas, o debate sobre as relações raciais no Brasil tem se aprofundado. Esse cenário trouxe novos questionamentos sobre como a raça é vivenciada não apenas no espaço público, mas também nas esferas mais íntimas e privadas. No campo dos estudos sobre as relações inter-raciais conjugais e familiares, pesquisas brasileiras seminais como as de Zelinda Barros, com a dissertação “Casais inter-raciais e suas representações acerca de raça”, de 2003; Laura Moutinho, com o livro “Razão, cor e desejo”, de 2004; Lia Schucman, com o livro “Famílias inter-raciais”, de 2018, e Laura Ueno, com a tese intitulada “Amores (des)racializados”, de 2020, promovem importantes reflexões sobre os efeitos do racismo nas relações amorosas. Essas reflexões evidenciam que o vínculo entre pessoas com diferentes racialidades não é um espaço livre de assimetrias. Ao contrário, essas pesquisas demonstraram que as relações inter-raciais são atravessadas por tensões, hierarquias e silenciamentos. Mas vale destacar que esses estudos inovam ao discutir como, no campo da intimidade, é possível construir formas conjuntas de enfrentar o racismo. Leia o artigo na íntegra. Fonte: The Canversation Brasil.

Por que os homens continuam a matar as mulheres?

Por Eva Alterman Blay – A violência extrema contra mulheres é uma reação brutal de um sistema patriarcal acuado diante da revolução feminista e da ampliação de direitos. A revolução feminista, afirma Yuval Noah Harari, é a transformação mais profunda da história contemporânea. Diferentemente das revoluções tecnológicas ou econômicas, ela vai além: altera os sistemas produtivos e desloca as hierarquias mais antigas da humanidade – aquelas que controlam o corpo, a reprodução, o trabalho e a própria definição do que é o ser humano. A revolução feminista não se reduz à conquista de direitos formais. Ela busca dar nome àquelas que trabalharam, cuidaram, foram punidas, silenciadas – aquelas que sustentaram a vida e o próprio capitalismo, enquanto o essencial permanecia oculto: o reconhecimento do trabalho e da atuação política das mulheres. Criticar o feminismo institucional por sua exclusão de mulheres negras, indígenas, periféricas e trans é parte constitutiva da própria revolução feminista, que se reinventa ao interrogar seus limites. Leia o artigo na íntegra. Fonte: A Terra é Redonda.

Mulheres e o direito ao erro e à abstração nas ciências exatas

Por Nina da Hora – A ciência nunca foi apenas descoberta. Antes de qualquer teorema demonstrado ou algoritmo formalizado, existe um recurso mais escasso do que financiamento ou equipamento: o espaço de pensamento. Não me refiro a um espaço físico, embora a precariedade material importe. Falo do conjunto de condições que permitem habitar o campo das ideias por tempo suficiente para que elas amadureçam. Chamo essas condições de insumos cognitivos. São elementos aparentemente simples: o silêncio prolongado, o direito à tentativa sem cronômetro, a liberdade de perseguir uma intuição matemática por semanas sem que isso seja lido como improdutividade. Quem já tentou resolver um problema complexo sabe que a solução raramente aparece de primeira; ela exige rascunhos, becos sem saída e recomeços. Ocorre que nem todo mundo tem permissão social para percorrer esse caminho. A filósofa Sueli Carneiro define como epistemicídio o processo que priva determinados grupos da condição de produtores de saber. Na universidade, isso nem sempre acontece por exclusão explícita. Muitas vezes, opera pelo acúmulo de tarefas invisíveis que consomem o tempo de quem já precisa provar, a cada passo, que merece estar ali. Leia o artigo na íntegra. Fonte: The Conversation Brasil.

Redução da jornada, a vida contra a mais-valia

Por Edivaldo Ramos de Oliveira – Este artigo pretende contribuir para o debate sobre a pertinência e a tempestividade da luta pelo fim da escala 6×1, bem como a redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, resgatando bandeiras históricas dos trabalhadores. A campanha pelo fim da escala 6×1 percorreu o país e se expandiu de forma acelerada, conseguindo atingir imensos contingentes de pessoas, ainda que não diretamente envolvidas com a temática abordada. Uma pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados apontou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, desde que não haja redução de salário. A pesquisa foi feita nas 27 unidades da Federação, entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro de 2026. A ampla maioria – 62% dos consultados – sabe que há em debate, no âmbito do governo federal e do Congresso Nacional, a proposta de acabar com a escala 6×1. Da Inglaterra industrial às lutas de Chicago, seguido pela França até às greves no Brasil, reduzir a o tempo de trabalho está no cerne das resistências trabalhistas. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

EXPEDIENTE

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA

Publicação digital online

Periodicidade: Mensal

EDITOR

Valdisio Fernandes

EQUIPE

Allan Oliveira, Ana Santos, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Davino Nascimento, Denilson Oliveira, Enoque Matos, Flávio Passos, Glauber Santos, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Jeane Andrade, Josy Andrade, Josy Azeviche, Leila Xavier, Luan Thambo, Lidia Matos, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Naira Silva, Patricia Jesus, Poliana Silva, Ronaldo Oliveira, Roselir Baptista, Silvanei Oliveira, Tamiris Rizzo.

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA – ANO XXI – EDIÇÃO Nº252 – MARÇO 2026

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