Boletim Mensal do Instituto Búzios – Mídia Negra e Feminista

 

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Identidade racial: quando uma criança se reconhece negra?

Foto: Leah Millis/Reuters. Criança coloca flor na grade em apoio ao Black Lives Matter

Por Cintia Ferreira – É um processo sutil, mas que muda tudo. Um dia, a criança percebe que as características físicas vão além de ser mais alta ou mais baixa que os colegas da turma. Em determinado momento, ela nota que seus traços físicos, a textura de seu cabelo e seu tom de pele também a diferenciam. Ou pior, são atributos não elogiados. Pode ser que essa conversa aconteça em casa ou que alguém na escola faça um comentário sobre isso. O fato é que, de algum modo, toda criança que convive com a diversidade será atravessada pelo conflito da identidade racial. E, inevitavelmente, pelo racismo. A construção de uma identidade racial segura não é algo pontual, nem se completa na infância. Além disso, pode ter impactos significativos no futuro. Especialistas falam sobre caminhos para ajudar os mais novos na construção de uma identidade racial sólida e positiva. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Lunetas.

A revolução negra

Por Valerio Arcary – Luta antirracista não é mero “identitarismo”, como alguns sugerem, mesmo na esquerda. História mostra que a escravidão foi pilar da formação das elite brasileira. O movimento negro, portanto, também é chave para qualquer projeto de transformação. Classes sociais não devem ser percebidas como uma categoria sociológica abstrata. Nada pode fazer sentido quando se despreza a geografia e a história, portanto, o espaço e o tempo. Utilizar o conceito de classe trabalhadora, curto e grosso, é uma ideia útil, mas somente em grau elevadíssimo de abstração. Em cada nação a classe trabalhadora tem uma história particular. No Brasil a condição de classe é indivisível da condição de raça. O principal traço peculiar da evolução do capitalismo na América Portuguesa, depois no Brasil, é que ele se implantou de forma atroz, desumana e bárbara, recorrendo à escravidão como relação de trabalho dominante, em escala sem paralelo no mundo nos últimos mil e quinhentos anos. Sem valorizar o impacto histórico-social da escravidão é impossível decifrar a especificidade da formação da burguesia no Brasil. As raízes ideológicas do racismo que envenena a maioria das classes médias, que são o núcleo duro da base social que sustenta a dominação de classe, repousam, inteiramente, na herança deixada pela escravidão. O mito da democracia racial brasileira é uma narrativa perigosa, provocativa e insolente, porque ainda é muito poderosa. A importância central do tema da escravidão, uma relação social pré-capitalista, para a compreensão das tarefas da revolução brasileira não se reduz a um debate historiográfico, porque tem consequências políticas programáticas. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Outras Palavras.

Clarim da Alvorada: 100 anos (1924 – 2024)

Por Ana Gabriela Oliveira Lima e Amauri Eugênio Jr. – O Clarim d’Alvorada foi lançado em 6 de janeiro de 1924 por intelectuais negros e se tornou referência ao discutir questão racial e dar voz a movimento negro. Em entrevista ao Ancestralidades, Maria Cláudia Cardoso Ferreira, Doutora em História, Política e Bens Culturais pela FGV fala do legado do jornal “Clarim da Alvorada”, que completa 100 anos em 2024. O jornal “Clarim da Alvorada” pode ser considerado um marco da imprensa brasileira – não somente da imprensa negra no país. Fundado pelos jornalistas Jayme de Aguiar e José Correia Leite, o veículo teve 58 edições veiculadas até 1932 e destacou-se graças à linha editorial em favor da associação, educação, integração e ascensão social dos negros. Vale dizer que houve tentativa de retomar as atividades do “Clarim” em 1940, mas o seu fim definitivo ocorreu após a publicação de uma única – e última – edição. Cardoso Ferreira celebra o primeiro centenário de fundação do Clarim da Alvorada, analisa sua importância para a população afro-brasileira e a sua influência na imprensa negra. Leia a matéria completa. Fonte: Ancestralidades e Geledés / Folha de São Paulo.

As mulheres negras estavam no centro da luta para a construção do comunismo

Entrevista: Jodi Dean e Charisse Burden-Stelly | Tradução: Priscilla Marques – Estamos vivendo em tempos perigosos. O movimento Black Lives Matter — envolvendo talvez os maiores protestos na história dos Estados Unidos — trouxe de volta à consciência global, a sistemática violência enfrentada pelas pessoas negras sob o capitalismo estadunidense do século XXI. O aumento simultâneo da extrema direita nos Estados Unidos e na Europa resultou em uma escalada brutal de retórica antinegra e anticomunista. O livro recém-publicado Organize, Fight, Win: Black Communist Women’s Political Writing, ajuda-nos a entender as conexões em curso entre a política do medo vermelho e o racismo nos Estados Unidos. Editada por Charisse Burden-Stelly e Jodi Dean, a coleção abrange três décadas da história comunista dos EUA, desde os primeiros dias do Partido Comunista na década de 1920, até os dias brutais do macartismo e da guerra imperialista no exterior nos anos 1950. Elas juntaram trabalhos previamente não reunidos de escritoras e líderes como Claudia Jones, Williana Burroughs, Grace P. Campbell, Louise Thompson Patterson, Marvel Cooke, Yvonne Gregory e Charlotta Bass. A coleção desafia décadas de obstrução e concepções equivocadas contemporâneas, revelando uma história oculta da liderança e luta das mulheres negras dentro dos partidos e movimentos comunistas no século XX. Os debates em torno da teoria e estratégia ganham nova vitalidade nesses escritos e pintam um quadro de construção dos partidos de esquerda que desafiam as caricaturas obsoletas. Leia a entrevista na íntegra. Fonte: Jacobin Brasil.

Segregação ocupacional

Por Rodrigo Carvalho – A discriminação pode ser compreendida como um tratamento desigual com base no gênero, raça ou origem étnica em diversas esferas do cotidiano, como no acesso à educação, à saúde, à moradia e ao mercado de trabalho. Nesse contexto, as oportunidades de entrada e reinserção no mercado de trabalho diferem devido a esse tratamento desigual, por conseguinte, ocorre um desequilíbrio na distribuição de ocupações por gênero, raça e origem geográfica. Esse desequilíbrio é compreendido como segregação ocupacional. Um exemplo disso é a sobrerrepresentação de mulheres negras entre trabalhadores domésticos e homens brancos em cargos de gerência. A segregação ocupacional pode ser gerada pelas disparidades de capital social e humano, bem como por discriminação racial e de gênero. Leia o artigo na íntegra. Fonte: Nexo.

A política fiscal e o enfrentamento da desigualdade de gênero e raça no Brasil

As famílias chefiadas por pessoas negras e por mulheres são as mais prejudicadas pelo atual desenho da tributação brasileira, seja pela perda de renda ou pela redução do poder de compra. Os dados constam de pesquisa elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a partir dos efeitos distributivos da política fiscal brasileira ao integrar as perspectivas de gênero, raça e renda, com base nos dados da versão mais recente da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), que abrange os anos de 2017 e 2018. A análise mostra ainda o impacto dos impostos diretos (sobre renda e patrimônio), dos indiretos (vinculados ao consumo) e das transferências. Em particular, foram consideradas as incidências tributárias e a participação das transferências por estratos de renda, desagregando o 1% mais rico. No caso da população negra, o sistema tributário brasileiro a prejudica por conta da predominância da tributação indireta e seu caráter regressivo. Acesse na íntegra a pesquisa. Fonte: IPEA.

Como sítios arqueológicos na Amazônia podem ajudar na luta por terras indígenas

Por Michael Esquer – Uma pesquisa recentemente publicada na revista Science revela uma estimativa sem precedentes do número de sítios arqueológicos pré-colombianos ainda escondidas na floresta amazônica, tendo como base tanto estruturas já conhecidas quanto novas que foram descobertas e relatadas no estudo. Os pesquisadores descobriram 24 construções de terra sob o dossel da floresta amazônica e estimam que pode haver mais de 10 mil sítios arqueológicos do tipo “obras de terra” ainda ocultas. Tudo isso graças a uma tecnologia avançada de sensoriamento remoto conhecida como LiDAR, que significa “Light Detection and Ranging” em inglês (Detecção e alcance de luz). As antigas estruturas de terra fornecem evidências de ocupação por sociedades pré-colombianas na Amazônia ao longo de séculos e até milênios. Segundo especialistas, esses vestígios podem ajudar povos e comunidades a comprovar sua presença ancestral no território e pressionar pela demarcação de novas Terras Indígenas. Leia a matéria completa. Fonte: Mongabay Brasil.

Françoise Vergès: “Um feminismo decolonial”

Beatriz Rodrigues Sanchez – resenha sobre o livro “Um feminismo decolonial”, de Françoise Vergès. Françoise Vergès, autora de “Um feminismo decolonial”, apesar de ter nascido em Paris, cresceu na ilha da Reunião, território francês no oceano Índico. A experiência de ter vivido em um dos chamados departamentos ultramarinos franceses pode ter sido um dos motivos para que ela desenvolvesse um olhar crítico em relação aos processos de colonização. A proposta de feminismo decolonial apresentada pela cientista política[2] coloca no centro da análise do capitalismo os corpos das mulheres racializadas, muitas delas trabalhadoras domésticas e funcionárias terceirizadas de empresas de limpeza em condições de trabalho precárias. Esses corpos exaustos seriam responsáveis por abrir as cidades todos os dias de madrugada para que as empresas e seus executivos possam exercer suas funções. Leia a resenha na íntegra. Fonte: Marxismo Feminista – USP.

Hiperimperialismo: Um novo estágio decadente perigoso

Estudo analisa como o declínio da hegemonia do Norte Global mudou o cenário geopolítico e abriu novas possibilidades para o Sul Global. Faz apenas 30 anos que ideólogos burgueses declararam o “fim da história” em pantomimas de satisfação de desejos, por sentirem a inviolabilidade do imperialismo dos Estados Unidos. Mas para as lutas e os movimentos populares que sentiam a bota do imperialismo no pescoço, esse fim não estava à vista. Nos anos seguintes, ocorreram transformações, por vezes pequenas e imperceptíveis, por outras, voláteis e explosivas. Essas mudanças envolveram tanto movimentos populares quanto atores estatais, em alguns casos extremamente poderosos. Os EUA foram confrontados por uma potência econômica em ascensão, a China, por economias em crescimento no Sul Global (que ultrapassaram o PIB do Norte Global em termos de PPC em 2007), por anos de negligência no investimento de capital doméstico, pela financeirização da economia e a perda da superioridade na indústria. A ascensão do Tea Party em 2009 sinalizou uma fratura na política interna dos EUA. No âmbito internacional, o país não conseguiu promover uma ruptura branda do regime na China nem uma desnuclearização ou mudança de regime na Rússia. Após uma redução temporária dos gastos militares com o fim da desastrosa guerra contra o Iraque (2003-2011), o uso efetivo do poder militar ou a ameaça de seu uso passou a ser um pilar central da resposta dos EUA a essas transformações. Historicamente, a perda da hegemonia acontece em três estágios: produtivo, financeiro e militar. Acesse o estudo na íntegra. Fonte: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Dossiê: A agitação da ordem global

Para entender as grandes mudanças que estão ocorrendo no mundo e a perplexidade do Norte Global com o novo clima no Sul Global, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social produziu o dossiê n. 72, A agitação da ordem global, com base na pesquisa realizada com a Global South Insights e em nosso documento de trabalho produzido em colaboração, Hiper-Imperialismo: uma nova fase perigosa e decadente (janeiro de 2024). A Organização das Nações Unidas (ONU) é formada por 49 países do Norte Global e 145 países do Sul Global. Neste dossiê, usamos os termos “anéis” para descrever o Norte Global e “grupos” para descrever o Sul Global, com base nas representações das figuras a seguir. Os anéis do Norte Global são organizados em torno dos Estados Unidos e de seus aliados mais próximos no centro, sendo que cada anel que circunda esse centro, ou núcleo interno, é composto por Estados do Norte Global que, por diferentes motivos, não estão no núcleo interno. Esses anéis não sugerem nenhuma fragmentação do Norte Global, que opera como um bloco. O Sul Global, por sua vez, não é um bloco, mas um projeto emergente formado por diferentes grupos, cada um com sua própria lógica, como explicaremos a seguir. Leia o Dossiê. Fonte: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

EXPEDIENTE

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA

Boletim Eletrônico Nacional

Periodicidade: Mensal

EDITOR

Valdisio Fernandes

EQUIPE

Allan Oliveira, Aline Alsan, Ana Santos, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Denilson Oliveira, Enoque Matos, Glauber Santos, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Keu Sousa, Jeane Andrade, Josy Andrade, Josy Azeviche, Leila Xavier, Luan Thambo, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Patricia Jesus, Ronaldo Oliveira, Roselir Baptista, Silvanei Oliveira, Tamiris Rizzo.

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA ANO XIX – EDIÇÃO Nº228 – MARÇO 2024

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