Boletim Mensal do Instituto Búzios – Mídia Negra e Feminista

Protestos nos EUA denotam o fim da confiança nas instituições

Protestos anti-racistas nos EUA denotam o fim da confiança de que as instituições atuais do país podem responder ao conflito de desigualdade racial, afirmou Samuel Vida, professor de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e membro do movimento negro, em diálogo com o Sputnik. “Diferentemente do que foi visto na década de 1960, não há ilusões nos protestos atuais com o modelo institucional liberal, que demonstrou ao longo dos anos sua incapacidade de absorver as demandas por igualdade (…) Há uma decepção justificada. pela percepção de que as barreiras raciais persistem e que ganharam mais força quando foram toleradas e encobertas pelas instituições “, critica. Traçando paralelos com o Brasil, Vida observa que os dois países, como todos os estados americanos da diáspora negra, compartilham o fato de que “valores coloniais” permanecem: o sistema de privilégios e poder concentra-se em uma trama branca com as instituições que colaboraram historicamente na “agenda da discriminação racial”. Leia mais aqui. Fonte: Sputnik.

A longa história de segregação e conflito racial em Minneapolis

A morte de Floyd — e as manifestações que se seguiram — refletem não apenas o contexto de conflitos raciais no país, mas também características específicas de Minneapolis, que fica localizada no Estado de Minnesota, no norte do país. “É importante situar a morte de George Floyd e outros eventos como esse no contexto histórico mais amplo. Isso não foi algo aleatório, que simplesmente aconteceu. É o resultado de décadas e décadas de desigualdade estrutural”, diz à BBC News Brasil o geógrafo Kevin Ehrman-Solberg, um dos fundadores do Mapping Prejudice (Mapeando o Preconceito, em tradução livre), projeto ligado à Universidade de Minnesota que identifica restrições raciais impostas a moradias da cidade no século passado. Minneapolis é hoje uma cidade com líderes progressistas e na qual autoridades admitem os problemas gerados pelo racismo estrutural e adotam medidas para tentar reduzir a segregação racial. Mas o impacto de medidas racistas adotadas no passado ainda são sentidos. A cidade é considerada a quarta pior área metropolitana dos Estados Unidos para negros morarem e tem uma das maiores disparidades raciais do país em vários indicadores, como taxa de pobreza, desemprego e propriedade de imóveis. Também é altamente segregada, algo que é fruto de políticas adotadas a partir do início do século 20 para impedir que moradores negros se mudassem para determinadas áreas. Leia mais aqui. Fonte: BBC.

Polícia brasileira matou 17 vezes o nº de negros que a dos EUA matou em 2019

Por Weudson Ribeiro e Hamilton Ferrari – O racismo brasileiro nada velado, em números: A polícia dos Estados Unidos matou 1.099 pessoas em 2019. Dessas, 259 eram negras (24%). – No Brasil, a polícia fez quase seis vezes mais vítimas: 5.804 até o ano passado. Do total, 75% (ou 4.533) eram pessoas negras. A polícia brasileira matou 17 vezes mais o número de pessoas negras que a dos Estados Unidos, em 2019. Esse dado evidencia o quanto é importante a pauta antirracista no Brasil. Leia mais aqui. Fonte: Poder 360.

Fogo nos racistas? O que o Brasil precisa aprender com os protestos nos EUA 

Por Aline Dias – No Brasil, recentemente o racismo matou João Pedro, assassinado dentro de casa por um policial, João Vitor, assassinado durante a entrega de cestas básicas, e a cada 23 minutos outros jovens negros que não chegaram nas portas da internet mas foram igualmente mortos pelo racismo. Quando as imagens dos protestos em Minnesota chegaram, compartilhamos orgulhosamente a cidade em chamas e diversos questionamentos começaram a surgir nas redes sociais: por que os negros brasileiros não reagem da mesma forma às violências raciais que sofrem no Brasil? Assim que o questionamento surge, logo aparece uma resposta automática concluindo que: não há reação porque negros brasileiros são pacíficos, medrosos e preferem apenas chorar nas redes sociais, e que por isso a violência racial é tão comum no Brasil. Vítimas históricas de assassinatos, negros brasileiros em sua maioria se revoltam a cada notícia de violência racista. Até o ano de 2003 quando foi promulgada a lei 10.639/2003 e o Brasil iniciou um grande debate sobre as populações negras brasileiras, a história contada nos livros escolares, na grande mídia e reproduzidas em nossos meios sociais, era uma história única, onde pessoas negras  frequentemente eram compreendidas apenas como omissas e sofredoras, e a história do Brasil colocada muitas vezes como uma grande democracia racial onde os povos se misturam e são felizes, pacíficos e cordiais uns com os outros. Até esse recente momento de ruptura, existia uma verdadeira pedagogia política montada para que os brasileiros se enxergassem como pacíficos. Enquanto essa história oficial era construída, pessoas negras protestavam de diversas maneiras. Leia mais aqui. Fonte: Catarinas.

Anti-Fascistas X Antirracistas: A Crítica da Crítica

Por Rosane Borges – A enxurrada das manifestações anti-fascistas pela síntese imagética colocou de novo em cena aparentes antagonismos que só se mostram antagônicos porque desgastamos ambas as expressões (anti-fascista e antirracista). Duas questões que andam umbilicalmente juntas foram fatiadas para que tomássemos partido de uma ou de outra, prática comum por aqui e alhures. Não basta lamentar que a imagética anti-fascista soterrou as campanhas antirracistas em plena convulsão sociorracial encampada nos EUA. Cabe-nos apontar que as insurreições fascistas que se levantam no mundo só ganham o lastro que ganham porque racismos vários lhes servem de esteio. Leia mais aqui. Fonte: instituto Búzios.

As artes de subverter as psicoses: do trauma do tronco à pulsão palmarina

Por Marco Aurélio da Conceição Correa – Frustrada pelas recentes crises brasileiras a classe média nutre um medo a alteridade que culpabiliza as classes menos privilegiadas por sua própria situação, tal fenômeno cria um senso de mal estar contemporâneo que gera uma onda crescente de psicoses por todas classes sociais brasileiras. Nas classes médias “esta forma de constituição do outro, a partir de si mesmo, é uma forma de medo que traz em sua gênese a paranoia”, aponta Cida Bento (2002, p. 35) [1], neste estado de medo generalizado prepara-se um terreno para políticas de rivalidade, onde o inconscientemente se confunde o medo ao semelhante ao medo a si próprio. A psicose da paranoia “é uma manifestação distorcida em que o medo existe independente da ameaça e é exacerbado como fator preditivo de ameaça. Ou seja, a pessoa paranoica sente-se ameaçada em qualquer situação” (BENTO, 2002, p. 35). Na fantasiosa guerra contra um inimigo invisível, imaginário, as pessoas passam a tomar atitudes que botam em risco de contaminação toda a sociedade. Leia mais aqui. Fonte: Justificando.

Dossiê: 132 anos de abolição da escravidão no Brasil: Uma conquista de séculos de luta negra

Dados da The Trans-Atlantic Slave Trade Database reportam que navios portugueses ou brasileiros embarcaram escravos em quase 90 portos africanos, contabilizando mais de 11,4 mil viagens negreiras, tendo 9,2 mil como destino o Brasil. Ainda de acordo com o levantamento, em torno de 4,8 milhões das pessoas que foram escravizadas chegaram ao litoral brasileiro. Com apenas dois artigos, a Lei Áurea (lei nº 3.353) aboliu, em 13 de maio de 1988, a escravidão no Brasil, pondo fim a mais de três séculos de trabalho forçado. Cabe salientar que o país foi o último das Américas a fazê-lo. O 13 de maio traz para nós, descendentes de africanos escravizados, a tarefa central de afirmar o protagonismo negro na abolição e tratar de concluí-lo. A historiografia oficial trata de esconder o fato do protagonismo negro, a partir das mais variadas formas de luta, desde o aquilombamento, rebeliões, greves em engenhos, formações de confrarias para enterros e compra de alforrias, etc, que percorreram toda a história do Brasil Colônia e do Império”, afirma Onir Araújo. Flávio Gomes, um dos maiores pesquisadores sobre quilombos no Brasil, afirma que “é preciso incluir a dimensão da escravidão na luta de classes”. Olhar o movimento operário no Brasil é entender que começa escravo, e que a fábrica, a cidade e o campo foram moldados pelas mãos calejadas de trabalhadores e operários negros, livres e escravos. A ausência de medidas eficazes de reparação faz com que essa parcela da população — 56,10% dos brasileiros se declaram negros — ainda continue social e economicamente atrás de outros grupos. No país, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras. Entre 2005 e 2015, a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 18,2%, enquanto a das pessoas não negras diminuiu 12,2% no mesmo período. Em relação ao mercado de trabalho, a maior parcela de desempregados é da população negra, são 64,2% do total de 13,7 milhões sem ocupação. Leia mais aqui. Fonte: Fabiana Reinholz, Brasil de Fato RGS, | Esquerda Diário.

Interesses identitários representam os interesses nacionais, sim!

Por Derson Maia – Em primeiro lugar, é preciso dizer que identidade não é apenas pauta. Identidade é fundamento de como nos formamos enquanto povo e sociedade. É preciso lembrar que o Brasil foi fundado a partir da colonização e da escravização de indígenas e negros. Desse modo, a identidade tem muito a ver com qual lugar racial partimos, o que nos ensinaram sobre nós mesmos e como somos aprovados ou reprovados pela sociedade. A história é implacável em denunciar que o que tornou o grupo de homens brancos, modelo e referência de ser humano, foi o rebaixamento e a destruição de outras identidades (negras, indígenas, mulheres e LGBTQI+). Assim, pessoas brancas afirmam sua própria identidade e se auto valorizam, todas vezes, que negam e desvalorizam outras identidades. Leia mais aqui. Fonte: Justificando.

O que se trama contra os Povos Indígenas

Por Diogo Rocha e Marcelo Firpo Porto – Uma ofensiva geral ameaça territórios, direitos e saberes em nome do desenvolvimento — mas para instalar um neoextrativismo. O que está em jogo. Que normas expressam o ataque. Por que falamos num “colonialismo persistente”. Esse texto apresenta elementos históricos e atuais sobre o processo de vulnerabilização de uma população particularmente ameaçada no Brasil, os povos indígenas. Nosso foco são as ameaças aos direitos territoriais, culturais, ambientais e à saúde no contexto do avanço da mineração e do garimpo sobre suas terras, que já existiam, mas que são reforçadas em tempos de pandemia. Com o necessário isolamento social enfrentamos um duplo desafio: de um lado, ações em curso como as do garimpo intensificam a propagação da covid-19, cujas consequências são agravadas pela fragilidade do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI/SUS). De outro, o isolamento dificulta ainda mais a participação na arena política e espaços de decisão numa conjuntura que ameaça os direitos indígenas. Leia mais aqui. Fonte: Outras Palavras.

Thomas Piketty: A desigualdade na pandemia

O autor de ‘O capital no século XXI’ discute os efeitos da pandemia nas economias, nas sociedades e na globalização. O ponto principal, que também é relevante hoje, é que abalos poderosos como guerras, pandemias ou colapsos financeiros têm um impacto na sociedade, mas a natureza desse impacto depende das concepções que as pessoas sustentam acerca da história, da sociedade, do equilíbrio de poder – em uma palavra, da ideologia –, o que varia de um lugar para outro. Uma grande mobilização social e política sempre se faz necessária para conduzir as sociedades na direção da igualdade. A correta reação a esta crise seria revitalizar o Estado social no Norte global e acelerar seu desenvolvimento no Sul global. Este novo Estado social exigiria um sistema tributário justo e criaria um registro financeiro internacional que lhe possibilitaria incorporar as maiores e mais ricas empresas nesse sistema. O atual regime de livre circulação de capitais, erigido nas décadas de 1980 e 1990 sob a influência dos países mais ricos – especialmente na Europa – incentiva a evasão fiscal por parte de milionários e multinacionais. Isso impede que os países pobres desenvolvam um sistema tributário justo, o que, por sua vez, mina sua capacidade de construir um Estado social. Leia mais aqui. Fonte: Carta Maior.

Vincent Bevins: A cruzada anticomunista da Guerra Fria continua moldando nosso mundo

Entrevista com Vincent Bevins – Com os impactos econômicos e sociais da pandemia da COVID-19, a ordem global pós-Guerra Fria foi abalada estruturalmente. As grandes desigualdades foram reveladas não apenas dentro das nações, mas também entre elas. Durante uma geração moldada pela derrota do comunismo realmente existente e do nacionalismo do Terceiro Mundo, uma de nossas dificuldades sempre foi acreditar que outro mundo era realmente possível. Nossos antecessores não tiveram esse problema. Eles acreditavam que não apenas uma sociedade mais justa era possível, como estava ao nosso alcance. Mas não foram apenas as experiências econômicas fracassadas que acabaram com esses sonhos. A derrota dos movimentos socialistas e reformistas, do Brasil à Indonésia, foi o resultado de uma campanha anticomunista global organizada, liderada pelos EUA e apoiada por outras potências ocidentais e elites locais. E foi terrivelmente violento. Leia mais aqui. Fonte: Jacobin.

 

Link para download aqui: INSTITUTO BUZIOS INFORME_183 JUNHO 2020

 

EXPEDIENTE

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA

Boletim Eletrônico Nacional

Periodicidade: Mensal

EDITOR

Valdisio Fernandes

EQUIPE

Aderaldo Gil, Allan Oliveira, Aline Alsan, Atillas Lopes, Ciro Fernandes, Enoque Matos, Eva Bahia, Guilherme Silva, Graça Terra Nova, Kenia Bandeira, Keu Sousa, Josy Andrade, Josy Azeviche, Lúcia Vasconcelos, Luciene Lacerda, Lucinea Gomes de Jesus, Luiz Felipe de Carvalho, Luiz Fernandes, Marcele do Valle, Marcos Mendes, Mariana Reis, Mônica Lins, Ricardo Oliveira, Ronaldo Oliveira, Silvanei Oliveira.

Colaboradores: Jonaire Mendonça e Erica Larusa.

ANO XVI – ED. 183 – JUNHO 2020

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