[Foto: povo negro em defesa das cotas raciais. Crédito da imagem: UNE]

Entenda como o colorismo e suas relações com o racismo estrutural se perpetuam desde a época da escravatura até os tempos contemporâneos.

Vivemos em um país que se diz miscigenado, plural e diverso. Mas essa diversidade nunca significou igualdade. A palavra miscigenação, na prática, significa um projeto de país que sequestrou pessoas racializadas para força de trabalho escravizado e sustentou-se à base de abusos sexuais contra mulheres negras e indígenas, até os tempos contemporâneos, atravessadas pelo racismo estrutural.

Dentro do racismo estrutural brasileiro existe uma engrenagem que organiza gradações de exclusão: o colorismo.

O colorismo não cria racismo. É um braço articulado que o administra. Distribui privilégios relativos conforme o tom de pele e os traços associados à africanidade. Ele estabelece uma hierarquia interna entre pessoas negras e racializadas. Ele organiza quem será mais tolerado e quem será mais violentado.

Enquanto o racismo estrutura o sistema, o colorismo regula sua intensidade.

Mas o que é colorismo?

O colorismo é a discriminação baseada na tonalidade da pele dentro de um mesmo grupo racializado. O conceito foi difundido por Alice Walker em 1982, mas sua prática antecede o termo e atravessa a história do Brasil desde os tempos da invasão portuguesa.

O colorismo chama atenção para os diferentes níveis de preconceitos sofridos por pessoas racializadas, conforme sua aparência, mais ou menos associada às ascendências africanas e indígenas. O racismo precisa do colorismo para se perpetuar em sociedades como a brasileira.

Vivemos em um sistema que organiza privilégios de acordo com a cor da pele. Quanto mais retinto e com fenótipos africanos ou indígenas, mais racismo você sofre. Pessoas de pele mais clara e traços finos possuem maior passabilidade dentro da sociedade. Mas, importante destacar, isso não exclui o fato de sofrerem pelo racismo estrutural diariamente.

Racismo estrutural e colorismo: qual a diferença?

O racismo estrutural organiza a sociedade brasileira desde a escravidão. Ele determina quem ocupa o topo e quem ocupa a base da pirâmide social. Já o colorismo atua dentro desse sistema.

O racismo define quem é inferiorizado, enquanto o colorismo define o quanto essa inferiorização será intensificada.

O conceito de raça, segundo a antropóloga política Lilia Schwarcz, passa por uma construção social e política, e não biológica. É uma construção social e política. Ela afirma que o termo “raça” tem caráter pseudocientífico, sendo as diferenças resultado de processos históricos, culturais e sociais e não naturais.

No Brasil, a ideia de raça foi construída conforme interesses políticos e projetos de poder. Utilizada para justificar exclusão e hierarquização social ou ressignificada para sustentar o mito da democracia racial. Assim, o racismo não é algo natural ou biológico, mas uma construção histórica ligada às desigualdades sociais. Para Schwarcz, transformar raça em essência biológica é um erro. Trata-se de uma categoria criada e mobilizada politicamente, que produz efeitos reais na sociedade, mas que não encontra fundamento científico na biologia.

O racismo nasce dessa construção histórica, enquanto o colorismo é uma de suas manifestações específicas.

Segundo o Instituto Geledés, enquanto o racismo classifica, o colorismo se diferencia dentro da classificação. A ideia de colorismo está relacionada a formas de discriminação que ocorrem dentro de uma mesma classificação racial, ou seja, não se trata apenas de classificar alguém como racializado ou branco, como no racismo, mas de diferenciar e hierarquizar pessoas racializadas com base na tonalidade da pele ou traços fenotípicos, privilegiando aquelas com pele mais clara e desfavorecendo as de pele mais escura.

O racismo estrutural vai projetar violência em corpos racializados. O colorismo vai definir quem pode sofrer mais violência.

Origem histórica do colorismo no Brasil

Para entender o colorismo no Brasil, precisamos retomar o debate sobre a escravidão. Durante o período colonial e escravocrata, pessoas negras de pele mais clara eram frequentemente destinadas ao trabalho doméstico, enquanto pessoas de pele mais escura eram enviadas para o trabalho pesado nas plantações.

Muitas vezes fruto de relações forçadas entre senhores e mulheres escravizadas, elas recebiam tratamento relativamente menos brutal e eram destinadas ao trabalho doméstico, enquanto pessoas de pele mais escura eram enviadas ao trabalho pesado nas plantações, em condições desumanas. Esse padrão de diferenciação continuou após a abolição, infiltrando-se nas estruturas sociais e econômicas da sociedade.

Tela A Redenção de Cam, de Modesto Brocos (1895), representando o branqueamento racial no Brasil pós-abolição. Uma família de três gerações, onde a avó agradece a “redenção” de um neto de cor branca. Imagem: Modesto Brocos
Tela A Redenção de Cam, de Modesto Brocos (1895), representando o branqueamento racial no Brasil pós-abolição. Uma família de três gerações, onde a avó agradece a “redenção” de um neto de cor branca. Imagem: Modesto Brocos

A escravidão estruturou o Estado brasileiro. Não foi apenas um modelo econômico, foi um modelo de organização social, jurídica e política. O legado escravocrata continua estruturando relações econômicas e sociais no Brasil contemporâneo.

É nesse contexto que nasce o colorismo. Surge na divisão colonial do trabalho e na hierarquização dos corpos negros e indígenas no Brasil.

Democracia racial: o mito que esconde o colorismo

O Brasil construiu o mito da democracia racial, um conceito difundido por Gilberto Freyre, que prega a coexistência harmoniosa entre raças no Brasil, ignorando o racismo estrutural e as desigualdades socioeconômicas entre pessoas racializadas.

O colorismo funciona como instrumento desse mito. Ele cria a aparência de mobilidade enquanto mantém a hierarquia. Existe a miscigenação, mas também a gradação da exclusão. O mito da democracia racial permite dizer que o Brasil não é racista, enquanto o colorismo permite organizar o racismo.

Pele, privilégio e exclusão

O colorismo opera como escala social:

  • Pele mais clara, traços finos → maior tolerância
  • Pele mais escura, fenótipos africanos e indígenas → maior exclusão

Pessoas negras de pele mais clara podem ser toleradas, mas não plenamente aceitas. Essa tolerância funciona como um sistema de favores. A proximidade com traços europeus se converte em capital simbólico no Brasil. O colorismo hierarquiza conforme traços associados à africanidade ou à europeidade.

Colorismo no mercado de trabalho

O racismo estrutural determina desigualdade de renda e o colorismo modula sua intensidade. A renda da população negra equivale a 58% da renda da população branca. Segundo o estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022, pretos e pardos compartilham maiores indicadores de desigualdade.

Mas o debate sobre colorismo mostra que a percepção social associa maior violência e exclusão aos corpos mais retintos. Uma desigualdade estrutural e graduada.

Colorismo e violência estatal e midiática.

O racismo estrutural e o colorismo atingem todas as camadas da sociedade. Quase 90% dos mortos pela polícia são negros. Enquanto o racismo estrutural está definindo o alvo — pessoas racializadas — o colorismo intensifica o impacto sobre determinados corpos.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro deflagrou operações nos complexos da Penha e do Alemão, em 2025, deixando mais de cem pessoas mortas. Foto: Jose Lucena/TheNewsS2/Estadão Conteúdo
A Polícia Militar do Rio de Janeiro deflagrou operações nos complexos da Penha e do Alemão, em 2025, deixando mais de cem pessoas mortas. Foto: Jose Lucena/TheNewsS2/Estadão Conteúdo

Mas não é só pelo Estado que os corpos racializados são animalizados e objetificados. O colorismo influencia como a violência é percebida e legitimada socialmente. Pessoas racializadas são frequentemente tratadas como se fossem atrações ou objetos de humor, em vez de pessoas com dignidade — uma lógica que remonta ao colonialismo europeu e às hierarquias raciais históricas, reproduzido em larga escala na televisão brasileira, principalmente em programas de humor e de auditório, entre os anos 90 e 2000.

Esse entretenimento racista não é inocente. Está entranhado em preconceitos e práticas sociais que naturalizam a violência contra pessoas negras e dificultam que essa violência seja levada a sério.

A representação pública de pessoas racializadas também segue a lógica da pigmentação. O colorismo cria a ilusão ao priorizar corpos negros mais claros em espaços de visibilidade.

Existe diversidade na televisão, mas ela não é uniforme. É baseada no colorismo e filtrada pela pigmentação. Isso reforça a ideia de que a proximidade com a branquitude gera maior aceitação social.

Veja também:  Os desafios do antirracismo no mundo pós #VidasNegrasImportam

“Parditude” e apagamento indígena.

O debate sobre colorismo atravessa o movimento negro.

O conceito de “parditude” surge como tentativa de organizar uma identidade específica para pessoas classificadas como pardas. O termo recente sobre identidade e cultura de pessoas pardas ou mestiças, é usado nas redes sociais e discutido dentro do debate racial no Brasil.

A ideia da parditude é ampliar a discussão sobre experiências multirraciais e classificar pessoas que não se encaixam claramente nas categorias branco, preto ou indígena.

Há divergências dentro do movimento negro. Algumas lideranças criticam o termo, com o temor de que ele divida racialmente o grupo e coloque em risco seus direitos conquistados, enquanto seus proponentes afirmam que ele pode dar visibilidade à diversidade de vivências. Há preocupação com a fragmentação de conquistas históricas e políticas públicas.

O colorismo está no centro dessa disputa. O debate não é apenas identitário, é estratégico.

Pessoas que se consideram pardas podem ter uma leitura de não-lugar de seu corpo na sociedade. Com a dificuldade de se posicionar, elas podem não se encaixar na negritude, branquitude ou como indígenas, principalmente quando se tem poucas informações sobre as origens das pessoas racializadas no Brasil.

O termo pardo também foi utilizado na sociedade para apagar a ancestralidade indígena. Com muitos povos dizimados e muitos indígenas que cresceram e viveram em perímetro urbano, muitas pessoas indígenas se autodeclararam pardas por não conhecer sua origem, o que dificulta momentos de retomada de ancestralidade e auxilia no apagamento histórico das identidades.

Desta forma, entendemos suas diferenças e que o racismo precisa do colorismo para se perpetuar. O colorismo cria divisão interna entre pessoas racializadas. Estabelece uma competição simbólica e fragmenta a solidariedade. Mas a estrutura permanece intacta.

Racismo estrutural e colorismo: engrenagens complementares

O colorismo aponta impactos profundos na autoestima e nas relações sociais das pessoas racializadas. A busca por aproximação estética com padrões eurocêntricos aparece como estratégia de sobrevivência social. Afeta construção de identidade, relações afetivas, autoimagem e o pertencimento comunitário.

É uma subjetividade criada por uma hierarquia racial.

Enquanto o racismo estrutural determina:

  • Quem tem acesso à renda
  • Quem ocupa espaços de poder
  • Quem é alvo da violência

O colorismo determina:

  • Quem será mais tolerado
  • Quem terá maior passabilidade
  • Quem será mais exposto à violência

Enfrentar o colorismo é enfrentar o racismo estrutural

O colorismo não é tema secundário. Ele é um mecanismo central de manutenção da desigualdade racial. Organiza hierarquias internas, distribui tolerância seletiva, fragmenta a solidariedade, atualiza a lógica colonial

O racismo estrutural segue operando.
O colorismo garante que ele opere com gradações.

Entender o enfrentamento do racismo estrutural no Brasil, é compreender o papel do colorismo. Porque, enquanto a hierarquia interna não for desmontada, a estrutura continua funcionando.

 

Fonte: Instituto Conhecimento Liberta (ICL).

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