Entre avanços e permanências, estudos do Ipea revelam como as disparidades raciais atravessam o cotidiano, as instituições e a produção do conhecimento no país.

 

Entre avanços e permanências, estudos do Ipea revelam como as disparidades raciais atravessam o cotidiano, as instituições e a produção do conhecimento no país. A desigualdade no Brasil persiste não apenas nos indicadores, mas nas estruturas que atravessam o tempo e organizam silenciosamente a vida social. Como resume o economista Mário Theodoro — ex-pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e uma das principais referências no tema —, “a pobreza, a miséria e, principalmente, a desigualdade são fenômenos que remontam à própria criação do Brasil e têm raízes na questão racial”.

Os dados mais recentes do Ipea não deixam espaço para dúvida: mesmo diante de avanços importantes nas políticas públicas, a desigualdade racial permanece como uma presença constante. Ela não se limita a um campo específico — infiltra-se na renda, atravessa o acesso a serviços, delimita trajetórias e chega, inclusive, à forma como o país produz e organiza seus próprios dados.

Mais do que um desvio ou uma exceção, trata-se de um padrão que se repete. Uma engrenagem que se ajusta ao tempo, mas não se desfaz, e que segue desafiando tanto a ação do Estado quanto a capacidade de compreender, em profundidade, o Brasil que se constrói todos os dias.

Políticas públicas reduzem desigualdade, mas não apagam suas marcas

O estudo Desigualdade de raça e gênero e impactos distributivos dos gastos públicos com saúde e educação no Brasil mostra que as políticas públicas têm, sim, potência transformadora. Ao incorporar serviços de saúde e educação ao cálculo da renda ampliada, a desigualdade diminui de forma expressiva — o índice de Theil (medida estatística de desigualdade econômica e concentração de renda) recua de 0,62 para 0,38, sinalizando o efeito redistributivo do Estado.

Mas há camadas que resistem.

Entre 11% e 12% da desigualdade total ainda se explica por fatores como raça e gênero, revelando que essas dimensões continuam a organizar o acesso a oportunidades. Mesmo quando o Estado atua, as marcas da desigualdade não desaparecem por completo — elas se reconfiguram.

Essa distância se amplia quando se observa o gasto privado: entre as famílias de maior renda no país, por exemplo, as chefiadas por homens brancos chegam a investir em saúde até 150% do que é gasto por famílias negras. Em um mesmo país, convivem realidades profundamente distintas, separadas por barreiras que nem sempre são visíveis, mas são persistentemente eficazes.

E quando raça e gênero se cruzam, o cenário se torna ainda mais complexo. As desigualdades não apenas se somam — elas se aprofundam, revelando um tecido social onde as diferenças se entrelaçam e se reforçam mutuamente.

Quem pode produzir conhecimento e quem fica à margem

A desigualdade racial também se inscreve nos espaços onde o conhecimento é produzido. O estudo Fronteiras desiguais: um exame crítico da participação negra interseccionada com sexo na liderança científica brasileira revela um dado que vai além da representatividade: ele diz respeito à própria construção do saber.

Pessoas negras — especialmente mulheres negras — permanecem sub-representadas em posições de liderança na pesquisa científica. E isso não é apenas uma questão de presença, mas de perspectiva.

Quando determinados grupos ficam à margem, determinadas perguntas deixam de ser feitas. Certas experiências deixam de ser consideradas. E, pouco a pouco, o conhecimento produzido passa a refletir apenas uma parte da realidade — nunca o todo.

Assim, a desigualdade não apenas limita trajetórias individuais. Ela também molda aquilo que o país escolhe, ou deixa de escolher, compreender sobre si mesmo.

Quando os dados não contam toda a história

Há ainda um outro desafio, mais silencioso: o de medir a desigualdade. O estudo Avanços entre desafios: uma análise da evolução da qualidade das informações de raça/cor na Rais e no Novo Caged aponta melhorias importantes na qualidade dos registros, como a redução de informações ignoradas ao longo do tempo. Mas revela também que os dados ainda carregam distorções.

Bases administrativas seguem apresentando sobrerrepresentação de pessoas brancas e sub-representação de pessoas pretas quando comparadas a outras fontes, como a PNAD Contínua. Em anos recentes, essa diferença ultrapassou três pontos percentuais — e já foi ainda maior.

São pequenas distâncias nos números, mas grandes no que elas significam.

Porque medir mal é, muitas vezes, enxergar menos. E enxergar menos é também limitar a capacidade de agir.

Uma desigualdade que atravessa o tempo e as estruturas

Quando reunidos, os estudos apontam para uma mesma direção: a desigualdade racial no Brasil não é episódica. Não é um resíduo do passado. É uma presença ativa, que se reorganiza e se mantém ao longo do tempo.

Ela atravessa a renda, o acesso a serviços, os espaços de poder e até os instrumentos que deveriam revelá-la. Está nas trajetórias individuais, mas também nas estruturas que as condicionam.

E é justamente essa persistência que torna o desafio mais complexo — e mais urgente.

Entre evidência e ação: os caminhos possíveis

Diante desse cenário, o Ipea tem buscado avançar não apenas na produção de diagnósticos, mas também na incorporação da questão racial em suas próprias práticas.

O Programa de Incentivo à Pesquisa Aplicada (Pipa), reformulado em 2025, passou a reservar ao menos 30% de suas bolsas para pessoas negras, com metas progressivas de ampliação dessa participação. No campo da formação, o Mestrado Profissional em Políticas Públicas e Desenvolvimento também adota políticas de inclusão, contribuindo para diversificar os quadros que pensam e executam políticas públicas no país.

O Instituto também realizou seu primeiro concurso sob a vigência da Lei de Cotas, ampliando o acesso de pessoas negras à carreira. Ainda assim, os desafios permanecem: mais de 70% dos cargos de nível superior são ocupados por homens brancos, enquanto a presença de mulheres negras segue reduzida.

São avanços que apontam caminhos — ainda que incompletos.

Porque enfrentar a desigualdade exige mais do que reconhecê-la. Exige transformá-la.

E, como lembra Mario Theodoro, “a preservação da sociedade desigual faz parte de um projeto de nação”. Se assim foi construída, sua superação também dependerá de escolhas — escolhas capazes de romper continuidades e redesenhar, passo a passo, as estruturas que sustentam essa desigualdade.

 

Fonte: IPEA | Cientista Negra Gerada por IA, Envato Labs-The Conversation.

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