Não era preciso muito para que escravos africanos fossem arremessados ao mar e desaparecessem nas águas atravessadas pelos navios negreiros no Atlântico. Uma simples doença que tivessem já era motivo para serem jogados para fora da embarcação.

Em meio a esses tenebrosos acontecimentos, no entanto, surgiram os chamados drexciyans, a civilização afroatlântica que habita as profundezas do oceano ou melhor dizendo, os protagonistas da ficção afrofuturista criada pela dupla Drexciya, dos músicos James Stinson e Gerald Donald, que agitaram a cena eletrônica de Detroit, nos Estados Unidos, entre as décadas de 1980 e 2000.

De acordo com a narrativa, as escravas grávidas arremessadas ao mar teriam dado à luz seus filhos mesmo sem oxigênio. Eles, então, viriam a formar uma grande diáspora subaquática.

Saídos das músicas do duo Drexciya, sobretudo no disco The Quest, de 1997, os primeiros contos sobre esse povo inspiraram outras obras musicais, visuais e literárias envolvendo o assunto, que continua ganhando novos enredos mesmo depois de quase duas décadas do término da dupla eletrônica.

Além dos elementos ficcionais, a história se debruça em parte sobre a realidade do sistema escravocrata do período e imerge num dos maiores problemas vividos por escravos africanos, o apagamento histórico. São poucos os registros científicos daqueles que embarcaram em navios negreiros sob o controle de um dono e, em muitos casos, desapareceram na escuridão do Atlântico.

Pensando na ausência desses dados e usando os drexciyans como inspiração, um grupo de pesquisadores da Universidade Duke, da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, vem elaborando uma espécie de memorial oceânico.

A ideia é incentivar pesquisas sobre esse período, endossar o reconhecimento do oceano enquanto patrimônio cultural, estimular o combate ao racismo e relembrar as inúmeras vítimas da época, algo semelhante com o que é feito pelo Slave Voyages, site que reúne uma série de materiais educativos sobre o assunto.

O projeto dos pesquisadores foi publicado como um artigo acadêmico, em dezembro do ano passado, e enviado à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ou ISA, na sigla em inglês, órgão das Nações Unidas responsável pelo controle regulatório de atividades oceânicas.

O que a arqueologia oferece são evidências físicas, diz James Delgado, arqueólogo marinho e coautor do projeto. Naufrágios de navios negreiros são raros na bibliografia arqueológica, já que poucos foram encontrados, estudados ou escavados.

Ele afirma que as informações existentes sobre esse tipo de transporte se limitam a características como tamanho, origem, condições sanitárias e capacidade de tripulantes. E ainda assim, há incertezas. Não é possível, por exemplo, determinar o grau de precisão de muitos dos escritos, desenhos, maquetes, pinturas e fotografias dos navios negreiros.

A principal ideia do projeto é a criação de uma trilha digital pelas rotas do chamado comércio triangular, envolvendo a Europa, a África e as Américas. O caminho sugerido é semelhante aos desenhos da capa do álbum The Quest. “O ISA mantém uma coleção de mapas online. Nossa proposta é que seus cartógrafos incluam ‘linhas’ identificando as principais rotas do comércio triangular, diz Cindy Lee Van Dover, bióloga marinha e coautora do artigo. Ou talvez o ISA poderia desenvolver um mapa que destacasse o patrimônio cultural das rotas.

Para isso, o grupo traçou rotas a partir de registros históricos, que apontam, ao menos, 35 viagens e 522 corpos africanos jogados no Atlântico.

Phillip Turner, um dos idealizadores do projeto, enfatiza que a ideia da trilha digital, no entanto, não deve ser a única a integrar o memorial. É uma forma de iniciar uma conversa sobre o significado cultural do Atlântico, diz ele. A melhor maneira de homenagear essas vítimas é algo a ser discutido por muitos, incluindo, é claro, africanos e afrodescendentes.

Michael Kanu, um dos representantes do ISA, diz ter interesse em iniciar conversas sobre o assunto. O órgão em que trabalha, no entanto, ainda não marcou nenhuma reunião.

No artigo inspirado nos heróis da dupla Drexciya, os autores destacam a importância dos mitos afrofuturistas para um movimento de revisionismo histórico e o conceito do Atlântico negro desenvolvido por Paul Gilroy.

Segundo o artista Abu Qadim Haqq, que no ano passado lançou sua primeira HQ sobre os drexcyians, com inspirações em “Pantera Negra”, essa ficção retrata “empoderamento, independência e soberania negra.

Poemas como The Sea Is History, de Derek Walcott, vencedor do Nobel de literatura de 1992, e Atlantic Is a Sea of Bones, da americana Lucille Clifton ambos citados no artigo, fazem do afrofuturismo um elemento essencial para o mergulho nas profundezas atlânticas.

No audiovisual, a ficção aparece em dois curtas-metragem, ambos chamados “Drexciya” um dirigido por Simon Rittmeier, lançado em 2012, e o outro de Akosua Adoma Owusu, lançado em 2010. É justamente esse tipo de proposta artística que evidencia todo o significado cultural do fundo do oceano Atlântico e sua importância no século 21, segundo Turner.

Na obra A Permanência das Estruturas, de Rosana Paulino, por exemplo, é possível notar as terríveis semelhanças entre os navios negreiros e os genocídios contra povos negros da era atual. A instalação foi uma das várias expostas em “Histórias Afro-Atlânticas”, mostra realizada há três anos pelo Masp e pelo Instituto Tomie Ohtake que se tornou um marco da presença negra no circuito contemporâneo.

Esse mesmo paralelo entre passado e presente está em “Mandume”, de Emicida, nos versos “me veem na Bahia em pé, dão ré no Atlântico/ tentar nos derrubar é secular/ hoje chegam pelas avenidas, mas já vieram pelo mar”.

O Brasil é o país que mais recebeu escravos africanos na era do tráfico negreiro. A historiadora Ynaê Lopes dos Santos conta que a região do Valongo, no Rio de Janeiro, foi o maior complexo de desembarque escravagista na América e, apesar disso, não é muito conhecida.

Um memorial oceânico, segundo ela, é uma boa forma de jogar luz no comércio mais lucrativo e importante do Ocidente” entre os séculos 16 e 19 e, sobretudo, disseminar o assunto.

 

Fonte: Folha de São Paulo.

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ANO XVII – EDIÇÃO Nº195 – JUNHO 202I

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