Conversamos com a filósofa Helena Hirata, especialista em sociologia do trabalho e do gênero. Diretora de Pesquisa Emérita do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França e pesquisadora colaboradora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo. Nessa entrevista Hirata discorre sobre seu artigo “Gênero, classe e raça: interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais”; abordando vários aspectos e condições do trabalho das mulheres no Brasil, na França e no Japão, que são os países onde desenvolve seus estudos e pesquisas.

Governo Bolsonaro, extrema-direita, mobilizações de trabalhadores e aborto, também foram pautas desta entrevista, da qual participaram a pesquisadora Clarisse Paradis, a advogada Gabriela Leão, a militante feminista Tatau Godinho e Carlos Henrique Árabe, diretor da Fundação Perseu Abramo.

Gabriela Leão: Gostaria de ouvi-la sobre os conceitos de interseccionalidade e consubstancialidade, e suas críticas, trazidos em seu artigo “Gênero, classe e raça: interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais”.

Helena Hirata: Hoje em dia é importante tanto teoricamente como politicamente discutir as questões de interseccionalidade e consubstancialidade. Primeiro porque há uma diferença que a própria Danièle Kergoat, que cunhou o conceito de consubstancialidade, faz entre os dois conceitos. Nos dois casos se trata da associação entre classe social, gênero e raça. Danièle diz que se trata de imbricação entre relações sociais – relações sociais de classe social, relação social de gênero e relação social de raça. Para ela as relações sociais são importantes porque são dinâmicas e mostram a relação assimétrica entre homens e mulheres, na produção, na reprodução, na casa, no trabalho, são relações de poder. Enquanto a interseccionalidade, um conceito forjado por Kimberlé Crenshaw, considera classe, gênero e raça como categorias que se interseccionam e não como imbricação de relações sociais.

A consubstancialidade é um conceito que também poderia ser retomado por Crenshaw, porque ela também pensa nas relações sobretudo de raça e de classe. Mas considera que são categorias que podem ser vistas conjuntamente, mas não necessariamente como relações sociais. E o conceito de relação social permite ver a dinâmica das relações entre homens e mulheres e apreender o antagonismo e a assimetria na posição de ambos no mundo da produção e da reprodução.

Pessoalmente, acho que podemos de certa forma considerar que consubstancialidade e interseccionalidade são sinônimos. Podemos pensar em duas categorias que pensam a imbricação das relações sociais, de diferentes determinações. Patricia Hill Collins, por exemplo, utiliza o conceito de interseccionalidade de relações sociais, e não de categorias. Depende de como se conceitualiza cada uma das noções. O importante é que os dois conceitos estão sendo utilizados pelos movimentos sociais, sobretudo, os que defendem a importância da raça nessa consubstancialidade das diferentes relações sociais, e não apenas no mundo dos conceitos e teorias.

Clarisse Paradis: Quais as transformações que tangem à divisão sexual do trabalho no contexto brasileiro, tanto levando-se em conta os efeitos da pandemia como também da ascensão da extrema-direita, da crise democrática, que impactam a agenda do trabalho e a desigualdade entre homens e mulheres?

Helena Hirata: Apesar de toda crise econômica, desemprego, precarização, as mulheres continuam com alta taxa de atividade no Brasil, 62%. Embora, menor do que nos outros dois países nos quais pesquiso: França, 68%, e Japão, 73%, segundo dados da OCDE. Esse dado esconde o tipo de atividade. Por exemplo, no Japão há muito trabalho de tempo parcial com salários bem baixos e as mulheres estão em trabalhos pouco considerados, pouco valorizados. Não é como a alta taxa de atividade dos homens que se concentram em trabalhos melhores, do ponto de vista financeiro, simbólico etc.

Pode-se dizer que a divisão sexual do trabalho no Brasil não afetou substancialmente as taxas de atividade, embora tenhamos visto a diminuição do número de trabalhadoras domésticas, que ficaram desempregadas com a pandemia, sofreram discriminação, muitas deixaram de receber salário, outras passaram a dormir na casa onde trabalhavam para evitar o transporte coletivo. Estiveram expostas a forte vulnerabilidade. Lembremos o caso do menino Miguel.

A situação das trabalhadoras domésticas foi bastante afetada pela pandemia, mas ao mesmo tempo houve uma reação do movimento social muito grande. Por exemplo, a Fenatrad (Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas) fez muitas campanhas: pela manutenção do salário durante a pandemia e pela preservação do emprego. Isso é um ponto a favor das mulheres no mundo do trabalho no Brasil. Pode-se dizer também que a divisão sexual do trabalho como conceito é interpelada por mudanças. Pensávamos a divisão sexual do trabalho, como entre homens e mulheres, hoje tendo em vista a introdução na análise da categoria LGBTQIA+, não é totalmente pertinente essa categoria binária para representar a variedade de determinações sexuais. Precisamos repensar o conceito de divisão sexual do trabalho na base dessa multiplicidade de identidades sexuais, inclusive pelas discriminações, assassinatos, que essas pessoas são vítimas.

Também precisamos pensar na precarização que se abateu sobre mulheres e homens desde o início da reforma trabalhista no governo Bolsonaro. Não é uma situação única no mundo, por exemplo, na França também houve uma mudança conduzida pelo presidente Macron com consequências parecidas, porque se dá mais importância à negociação dentro da empresa, entre empregadores e empregados, do que às negociações sindicais e às convenções coletivas.

Tatau Godinho: No debate da Sociologia como um todo e mesmo das políticas sociais é muito difícil convencer as pessoas, para além da desigualdade salarial mostrada pelas estatísticas, sobre como opera a divisão sexual do trabalho nas relações cotidianas do mundo do trabalho e como isso se vincula à situação familiar. Você falou que em países como a França as mulheres são empurradas para o tempo parcial. Em países como o Brasil elas são empurradas para o trabalho informal, que permite conciliar com as tarefas familiares. Você acha que esse período de pandemia nos ajudou a perceber o quanto esse cotidiano formata as relações de trabalho fora de casa? A pandemia forçou os homens a ficarem dentro de casa e isso fez com que eles percebessem um pouco o que é a dinâmica do cuidado. Será que isso já reflete uma capacidade de pensar a mudança das relações de maneira a garantir maior igualdade nas condições não só salariais como de alocação no trabalho?

Helena Hirata: A noção de divisão sexual do trabalho tal como conceitualizou Danièle Kergoat se baseia em dois princípios: primeiro, o trabalho do homem é diferente do trabalho da mulher, mulheres e homens estão alocados em lugares diferentes no mundo do trabalho; segundo, o trabalho dos homens é valorizado, considerado superior ao trabalho das mulheres. As coisas não mudaram. Acho que houve maior número de mulheres em profissões de nível superior, jornalistas, pesquisadoras, médicas etc. mas o fato de estarem no mundo do trabalho numa posição superior não fez com que elas deixassem de ser uma minoria da população de trabalhadoras. 90% das trabalhadoras estão na situação de informais, como você mencionou para melhor “conciliar” o trabalho profissional e o trabalho doméstico. Essa maneira de separar e ao mesmo tempo conciliar os dois tipos de trabalho apareceu de forma muito clara com a pandemia porque os homens, que podiam fazer o teletrabalho, ficaram em casa e descobriram que havia uma série de trabalhos que eles não faziam e se deram conta de que as mulheres realizavam todo esse trabalho a mais, de cuidar das crianças etc.

A pandemia revelou para a sociedade o trabalho do cuidado realizado pelas mulheres em casa, tornando-o visível. Só que não parece que tenha sido absorvido pela sociedade de forma perene, pois esse trabalho pode voltar à invisibilidade.

As pesquisas que foram feitas inclusive na França sobre a divisão sexual do trabalho durante a pandemia não mostram mudança essencial, importante, em termos quantitativos ou qualitativos, do exercício do trabalho doméstico pelos homens. E mostraram sobretudo como as mulheres não têm espaço apropriado para realizar o teletrabalho em casa. O espaço doméstico também é dividido sexualmente de maneira que os homens tenham um local adequado para o trabalhar, enquanto as mulheres não têm. Portanto, a pandemia mostrou a necessidade desse trabalho, a presença das mulheres nesse trabalho, e ao mesmo tempo a fraca participação dos homens e das políticas sociais na execução do trabalho doméstico e de cuidados.

Em termos de movimento, desde 2016, fala-se na greve feminista em países como Irlanda, Espanha, Portugal, que visa tornar visível a participação das mulheres no trabalho doméstico e de cuidados. Esse movimento é reivindicado para o dia 8 de Março por mulheres que consideram que se deve fazer uma greve tanto profissional, como do trabalho realizado em casa, de cuidados, sexual, de reprodução etc. Na França, as mulheres estão tão investidas no seu trabalho profissional que a compreendem como uma greve no local de trabalho.

Tatau Godinho: A pandemia também criou uma dicotomia muito forte entre quem tem trabalho mais e menos formal ou de melhor qualidade das relações de trabalho e, portanto, pode fazer teletrabalho e quem não tem. O teletrabalho acaba sendo de uma parcela pequena e para as trabalhadoras domésticas, de limpeza, não existe, ou é o desemprego ou se submetem a determinadas condições. E aí há uma desigualdade racial muito forte, pois trabalhos mais difíceis de se adequarem ao teletrabalho também são os ocupados pela população mais pobre, com menor escolaridade e com presença muito grande das mulheres negras.

Gabriela Leão: Com base nos conceitos de consubstancialidade e interseccionalidade, tão bem explicados anteriormente, como podemos relacioná-los ao conceito analítico de trabalho de cuidado, principalmente tendo em vista que mulheres negras são, por vezes, colocadas na posição de realizar todo o trabalho de casa para outras famílias – geralmente brancas –, como é o caso das trabalhadoras domésticas no Brasil?

Helena Hirata: Existe uma discussão se as trabalhadoras domésticas fazem parte das profissionais do cuidado ou não. Pensando no Brasil, é evidente que sim, pois mesmo por uma pesquisa empírica que eu fiz, uma em cada dez trabalhadoras domésticas cuida não só da limpeza, da comida, da roupa, mas também das crianças e/ou das pessoas idosas da casa. Então, as trabalhadoras domésticas exercem a função de cuidadoras domiciliares, embora, não tenham a formação profissional para isso e não tenham o registro em carteira como cuidadoras. E elas são majoritariamente mulheres negras. Mesmo no cuidado profissional no sentido estrito, das cuidadoras profissionais, auxiliares de enfermagem e cuidadoras nas instituições de longa permanência de idosos (Ilpis), o cuidado é exercido fundamentalmente por mulheres, migrantes, imigrantes no caso da França, e pobres. Do ponto de vista da consubstancialidade ou interseccionalidade, elas estão representando todas as formas imbricadas de dominação, exploração e opressão. São ao mesmo tempo mulheres, pobres e negras. Isso acaba dando certa configuração à profissão que é desvalorizada, não reconhecida e mal paga. Muitas vezes menos que um salário mínimo no Brasil, na França e no Japão. Elas cuidam da vida das pessoas. Essa profissão deveria ser mais valorizada, se considerarmos que é um trabalho que significa produção do viver. O cuidado sendo produção da vida não pode ser reduzido à produção do lucro.

Na França hoje há um grande debate em torno do livro Les Fossoyeurs (“Os coveiros”), do jornalista Victor Castanet, que denuncia as condições de cuidado de pessoas idosas no grupo Orpéa, que é um grupo que possui estabelecimentos de longa permanência de idosos em nível transnacional. Embora paguem altíssimas mensalidades para as instituições, não são alimentadas suficientemente, não têm a quantidade de trocas de fraldas necessárias e há uma alta rotatividade de cuidadoras, o que é muito ruim para os idosos que precisam ter uma referência contínua e familiaridade com a cuidadora.

Essa falta de valorização é uma consequência do tipo de profissionais provedores do cuidado, no caso de Paris e arredores, onde se concentra a população imigrante, em geral negra, da África subsaariana, que consegue emprego na região. Entrevistei inclusive negros de Guiné, que são médicos, cujos diplomas não foram reconhecidos na França, e são contratados como cuidadores, auxiliares de enfermagem. Encontrei também jovens cursando doutorado, empregadas como cuidadoras domiciliares.

Clarisse Paradis: Como essas dinâmicas do cuidado e mudanças recentes na divisão sexual do trabalho impactam na família, assim como os discursos de valorização da família. No Brasil, as políticas para as mulheres são substituídas por políticas familiares. A extrema-direita muitas vezes quer substituir a ideia de igualdade entre homens e mulheres por uma revalorização do espaço tradicional das mulheres na família. Isso também ocorre na França?

Helena Hirata: Felizmente, na França, não há uma Damares e essa valorização da família que propõem ela e seu ministério não existe. A questão da família se coloca, mas não em oposição à igualdade entre homens e mulheres. O Ministério dos Direitos da Mulher na França tem uma força que não é atingida pela discussão da importância da família, que passa por outros ministérios. E ideologicamente não tem esse impacto que há no Brasil a presença de figuras como a Damares.

No caso do Japão há uma importância decrescente da família no cuidado dos idosos. Nos anos 1960 90% das pessoas idosas eram cuidadas dentro da família por familiares. Essa porcentagem diminui para algo em torno de 30% em 2016 segundo a socióloga Chizuko Ueno. Em relação às crianças há um problema demográfico porque há dificuldade de reposição da população no caso do Japão. Pela ideologia dominante, as mulheres são levadas a abandonar o trabalho para cuidar das crianças enquanto pequenas e voltarem a um trabalho não qualificado, em tempo parcial etc., quando os filhos não precisam mais delas em casa. Então, o papel da mulher na família é muito importante no caso japonês.

São três quadros bastante diferentes. Acho que a especificidade do Brasil se deve à situação política brasileira.

Tatau Godinho: No Brasil, por parte do ministério vivemos uma situação perversa de conservadorismo, em que tudo que tem a ver com a situação das mulheres, das relações sociais entre mulheres e homens, é visto sob um viés absolutamente conservador e tradicional. Por outro lado, existe às vezes uma percepção frágil da importância das políticas sociais no debate sobre cuidados. O foco sobre cuidados acaba sendo quase que exclusivamente na responsabilidade familiar, sem se trabalhar uma ideia do cuidado infantil – uma parte essencial de políticas sociais ter instituições, equipamentos, a educação como um todo, mas há aspectos relacionados ao cuidado cotidiano –, dos idosos e de que todo mundo necessita de cuidados em momentos diferentes da vida, seja por doença ou outra circunstância.

No Brasil, você fez o estudo sobre a questão das Ilpis que mostra quanto isso ainda está pouco sistemático. Penso que é preciso políticas sociais para resolver a questão do cuidado. O debate não pode ser feito sob a ótica exclusiva da família, que muitas vezes é por onde as pessoas veem a possibilidade de resolver a questão.

Helena Hirata: Você tem toda razão de colocar a importância das políticas públicas para os cuidados em detrimento da família. Existe no Brasil uma proposta de política nacional de cuidados, que vem sendo discutida por alguns grupos da sociedade civil, que se baseia muito no Sistema Nacional Integrado de Cuidados (SNIC) do Uruguai – único país na América Latina que tem uma política interconectada, interministerial do governo de cuidados para crianças, adultos, idosos, deficientes, doentes etc. dentro de uma perspectiva de equidade de gênero. Penso que dificilmente será aprovado no atual governo, mas devemos lutar por sua aprovação.

De fato, no Brasil, não existe nenhuma política pública nesse sentido. Tudo fica nos ombros das famílias, o que não é possível, pois as mulheres estão cada vez mais trabalhando fora, as unidades familiares são pequenas, há cada vez mais idosos.

No Japão, existe política para idosos (LTCI, Long Term Care Insurance). O governo japonês auxilia as pessoas com mais de 60, 65 anos, a contratar um cuidador domiciliar ou a pagar uma instituição de longa permanência de idosos. O governo arca com 90% e a família com 10%. Existe um seguro de cuidado, uma contribuição obrigatória das pessoas a partir dos 40 anos. É a ideia de que cuidado é responsabilidade de todo adulto. É uma política que foi criada em 2000 e está dando certo.

Em 2002, na França foi criado algo equivalente, que chama APA (Alocação Personalizada de Autonomia), que é financiado por impostos gerais, e permite também pagar uma parte de cuidados domiciliares ou em uma Ilpi. Neste caso, é permitido inclusive pagar familiares que cuidem de seus idosos em casa e por isso impossibilitados de trabalhar. É um recurso em torno de metade de um salário mínimo alocado aos familiares, exceto marido e mulher.

Gabriela Leão: Recentemente, fiz uma pesquisa junto ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) sobre como a criminalização do aborto opera como uma ferramenta de genocídio da população negra, tendo em vista que são principalmente as mulheres negras as mais afetadas, seja pela persecução penal, seja como vítimas do aborto inseguro que por vezes as leva à morte. No meio dessa pesquisa, me surgiu uma questão de forma bastante estridente – principalmente na leitura de estudos da Prof. Dra. Silvia Federici – sobre como a criminalização do aborto opera também como uma forma de controle biológico dos corpos das mulheres que contribui para a formação de um contingente de trabalho em países da América Latina e outros considerados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Gostaria de ouvi-la sobre esse ponto, principalmente sobre os países da América Latina.

Helena Hirata: Países da América Latina, pelo menos pela França, são vistos como países que estão descriminalizando o aborto, fazendo progressos grandes. Não o Brasil, mas a Argentina e mais recentemente a Colômbia. Na França, que aprovou agora a possibilidade de 14 semanas de gestação para a realização do aborto, após muita luta, nem se acreditava que na lei colombiana passaria 24 semanas.

Você tem toda razão de achar que esse controle biológico da vida das mulheres através desses mecanismos seja considerado eficaz. Federici coloca ideias sobre o controle da vida das mulheres bastante interessantes.

Gabriela Leão: Costumamos dizer que no Brasil o aborto é legalizado, mas só para quem tem dinheiro e para quem tem condições de fugir do aparato penal. O grande problema é o aborto inseguro que mata milhares e milhares país afora, principalmente mulheres negras e pobres.

Helena Hirata: Não entendo por que o Brasil está tão distante de países como Argentina e Colômbia em relação à liberalização do aborto, sabendo-se que é algo que afeta principalmente mulheres pobres, negras, que não têm acesso a um sistema eficaz e seguro para sua realização. Há tantas campanhas, não sei como não se consegue chegar a alguma decisão minimamente decente em relação a isso. Na França é possível recorrer a um hospital público, uma intervenção segura. Segundo a historiadora das ciências, Ilana Löwy, que estudou a questão do aborto das mulheres grávidas atingidas pelo Zika, contribui para impossibilidade de elas abortarem no Brasil a ausência de uma ajuda organizada por parte do corpo médico às mulheres que querem terminar com a gravidez e de feministas que ajudem praticamente a abortar, como em outros países.

Tatau Godinho: Há vários aspectos, eu destaco aqui apenas alguns. Com certeza um aspecto que tem um peso bastante grande, influencia e dificulta esse debate no Brasil é a vinculação da política com a religião. Um segundo aspecto é que, embora tenhamos uma pressão forte das mulheres organizadas também em partidos políticos, essa não é uma questão que já exista como um convencimento real do campo da esquerda, o que fragiliza a luta do movimento de mulheres. Um terceiro aspecto é que em alguns momentos a estratégia não conseguiu construir uma unidade suficiente de ação do movimento com uma reivindicação de descriminação/legalização mais explícita.

Carlos Henrique: As mulheres são o principal contingente da população em oposição à extrema-direita. Isso aparece em todas as pesquisas desde 2018. Ao mesmo tempo há um conservadorismo na sociedade e um ataque persistente aos direitos das mulheres. Em um estudo recente da FPA, “Percepções e Valores da Sociedade Brasileira Não-Polarizada”, aparece com destaque a ideia de que é mais natural que as mulheres cuidem das tarefas domésticas. Ao mesmo tempo, há o sentimento de desigualdade, não há uma posição de mudar o papel dentro do espaço doméstico. É uma contradição!

Helena Hirata: É muito importante as informações sobre esse estudo. Mas eu acho que o fato de as mulheres “cuidarem melhor” da casa, das crianças etc. é uma construção social, histórica, cultural. Elas nasceram ouvindo que deveriam fazer esse trabalho e assim se tornaram cada vez mais competentes para realizá-lo. Mas essas construções não são imutáveis, tiveram um começo e podem ter um fim e os homens também podem aprender a cuidar dos idosos, das crianças e a realizar as tarefas domésticas.

No Japão há muitos homens trabalhando em Ilpis, que foram recrutados por essas instituições. Com a crise de 2008, o governo propôs que os homens que ficaram desempregados fizessem um curso para trabalhar nas instituições de idosos. Num país machista um trabalho considerado feminino não seria do agrado dos homens, mas eles preferiram isso ao desemprego, que no Japão é considerado vergonhoso. Lá não existe movimentos de desempregados ou de luta pelo emprego como na França.

Clarisse Paradis: Seria interessante ouvi-la sobre como as trabalhadoras têm resistido aos processos de intensificação da precarização do trabalho no contexto atual. Como você vê esse cenário de resistência? Você mencionou a greve feminista, por exemplo.

Tatau Godinho: Em especial na França há lutas e greves recentes de trabalhadoras de hotel. Você estudou sobre essas áreas de cuidado também. Há algum impacto disso também no debate do movimento de mulheres?

Helena Hirata: Há várias lutas importantes, que são atomizadas, de vários setores que são considerados precarizados. Os entregadores de aplicativos é um setor atomizado e precarizado que tem feito jornadas de lutas no Brasil e outros países da América Latina. Houve uma série de lutas de setores feminizados e precarizados, como dos hotéis. As camareiras terceirizadas de uma filial do Ibis na França conseguiram ter após 22 meses suas reivindicações salariais, de carga horária, condições de trabalho etc., atendidas. Só não conseguiram passar ao quadro de trabalhadores(as) fixo do hotel. Nesse caso é importante considerar que se tratava fundamentalmente de mulheres africanas negras que lideraram o movimento.

Também houve uma luta numa universidade do pessoal de limpeza de uma empresa terceirizada que também foram bem-sucedidas em suas reivindicações.

Essas lutas inspiram o movimento feminista, mas ele está bastante atomizado. Embora se tente alianças e fazer um 8 de Março unitário, na França, há uma série de diferenças políticas e de reinvindicações. Por exemplo, a questão do véu islâmico; se a prostituição é um trabalho sexual ou uma violência que deve ser combatida e suprimida. Inclusive há uma diferença geracional, há movimentos com mulheres muito jovens e há o Coletivo Nacional de Direitos da Mulher, do qual eu participo, em que a presença grande é de feministas históricas, isto é, das mulheres mais velhas.

Houve grande mobilização, por exemplo, do setor da educação pela falta de boas iniciativas do governo na pandemia no sentido de proteger crianças e profissionais das escolas. Isso inspirou os movimentos sindicais e sociais a lutarem contra diferentes posições do governo.

Os movimentos sociais tanto na França como no Brasil têm tido um papel bastante forte. Nos últimos anos houve uma série de manifestações do pessoal da saúde por melhores salários e condições de trabalho. Pode-se dizer que as enfermeiras francesas são as mais mal pagas de toda a Europa. Houve uma manifestação de cuidadoras domiciliares, o que é espantoso, uma vez que trabalham na casa das pessoas, totalmente isoladas umas das outras, mas conseguiram se organizar via redes sociais e reivindicaram salário mais próximo do mínimo e melhores condições de trabalho. Algumas trabalham fora de Paris com o próprio carro e reivindicaram um salário que permitisse cobrir esse custo. Até teve uma resposta positiva do governo, mas que não cobre a maioria das trabalhadoras, a depender do contrato.

Tatau Godinho: No Brasil, nos temos tido essa situação interessante de ter as mulheres mais mobilizadas na oposição à direita. Do ponto de vista de mobilizações sociais, inicialmente contra o golpe de 2016, e depois contra Temer e Bolsonaro. Toda vez que conseguimos fazer uma mobilização nas ruas a adesão de mulheres é grande. Além do ataque da extrema-direita, com um machista estridente, talvez isso se deva também a uma resistência à violência social. As manifestações contra o racismo são exemplos disso. Você percebe isso como um elemento importante dessa mobilização, mas que não traz necessariamente uma pauta organizada de direitos das mulheres?

Helena Hirata: Lembro bem da grande manifestação no Largo da Batata (#EleNão, São Paulo, 2018), cuja presença das mulheres foi grandiosa. Embora não houvesse um programa unificado de reivindicações, as mulheres estavam com seus movimentos e partidos. No caso da França, não vejo nada similar, embora a extrema-direita esteja muito presente nas próximas eleições com duas candidaturas (Marine Le Pen e Éric Zemmour). Felizmente, eu voto no Brasil! Na França, a situação é muito ruim porque há muitos candidatos de esquerda que se apresentarão no primeiro turno, mas a esquerda não consegue se aglutinar em torno de um candidato que possa vencer e chegar ao segundo turno. As reações à extrema-direita são significativas, mas acho que não há uma força suficiente do movimento feminista para ter uma mobilização importante como no Brasil.

Carlos Henrique Árabe é diretor da Fundação Perseu Abramo

Clarisse Paradis é professora adjunta do Instituto de Humanidades e Letras da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unila/Bahia) e pesquisadora do Fempos (Pós-colonialidade, feminismos e epistemologias anti-hegemônicas)

Gabriela Leão é advogada criminalista, integra a direção da Secretaria Municipal de Combate ao Racismo do Partido dos Trabalhadores/São Paulo, militante da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), especialmente nos núcleos de mulheres e juventude negra

Tatau Godinho é militante feminista do PT. Durante o governo Dilma Rousseff (de 2011 a 2016) foi secretária de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres, da SPM. No nível municipal, coordenou a área de políticas públicas para as mulheres na cidade de São Paulo. Integra a Executiva Estadual do PT de São Paulo. No movimento social, participa da Marcha Mundial das Mulheres. É mestra e doutora em Ciências Sociais.

 

Fonte: Teoria e Debate.

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