Por Maria Rita Kehl

O senso comum leva à compreensão equivocada de conceitos como ‘homem cordial’, de Sérgio Buarque de Hollanda, e ‘banalidade do mal’, de Hannah Arendt.

Após alguma resistência ao convite, por certo neurótica, aqui estou feliz da vida por integrar o time de colunistas da CartaCapital. Quero aproveitar o espaço para tratar de dois grandes objetos de mau entendimento. Um deles é o conceito usado pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda para designar um traço perverso das relações de classes no País. Refiro-me ao “homem cordial”, descrito em Raízes do Brasil.

Ali, Hollanda apresenta a “cordialidade” como um jeitinho malandro de exploração do trabalho. Muitos fazem objeções ao conceito tendo em mente o sentido comum do termo, que designa gentileza, às vezes até bondade. Após três séculos de escravidão e outros horrores de nossa história, chamar o brasileiro de cordial seria uma espécie de cegueira, quando não de cinismo. Mas Hollanda não se refere a isso. Para ele, a cordialidade é uma forma de exploração utilizada quando o trabalho escravo já havia sido substituído por mão de obra com salário de fome, compensado por pequenos favores dos patrões, como pagar o batizado de uma criança ou arrumar, com amigos políticos, vaga na escola para o filho do empregado. Etc., etc.

Vivi, numa noite em Salvador, o que pode ser considerado como um teorema sociológico para provar a malandragem da cordialidade. Em um boteco aberto a noite toda havia um banco no corredor que levava ao banheiro, mas sempre havia alguém dormindo nele. O garçom esclareceu que eles eram seus colegas. No Carnaval, trabalhavam tanto que não tinham tempo de voltar para casa. “Mas ganham hora extra?”, indaguei. “Não, dona. O patrão não pode pagar, sabe? Mas ele é bonzinho, nos ajuda. Quando minha esposa deu à luz, ele nos levou pra maternidade no carro dele!”

Ao ver seus privilégios em risco, no entanto, o homem cordial mostra as garras. Quando Dilma Rousseff regulamentou o trabalho doméstico, Danuza Leão protestou: um casal de amigos seus, já velhinhos, perderia o direito de tomar seu chá antes de dormir, caso o trabalho da serviçal fosse limitado a oito horas diárias. Na época, pensei em responder que ela tinha razão: antes de exercer seu direito, a empregada deveria ministrar um pequeno curso aos patrões, ensinando onde é a cozinha, como se ferve a água e a relação a ser estabelecida entre o sachê e a água fervente.

Outro mau entendimento frequente ocorre com uma expressão criada por Hannah Arendt por ocasião do julgamento de Eichmann, um dos piores carrascos nazistas. Na obra Eichmann em Jerusalém, um relato ao mesmo tempo jornalístico e filosófico, Arendt usa o termo ­“banalidade do mal” ao se referir ao argumento de inocência do réu que enviou pessoas para as câmaras de gás, mas alegou estar “cumprindo ordens”. No capítulo VIII deste livro indispensável, Arendt questiona a ausência de culpa do carrasco.

A primeira indicação de que Eichmann tinha noção de cumprir ordens criminosas apareceu no interrogatório da polícia, quando disse viver segundo a definição kantiana do dever. Isso era ultrajante e incompreensível, uma vez que a filosofia de Kant está ligada à faculdade do juízo do homem, o que elimina a obediência cega. Para espanto da filósofa, o réu afirmou ter lido a Crítica da Razão Pura, e estava ciente de que, ao executar a ordem da “solução final”, deixara de seguir os princípios ­kantianos. Mas, naquela circunstância, deixara de ser o senhor dos próprios atos.

A expressão “banalidade do mal” designa, portanto, a maldade praticada em nome da obediência. A maldade “limpinha”, na qual o sujeito não se sente eticamente implicado. Proponho, assim, distinguir a expressão criada por Arendt dos casos – e são muitos, no Brasil atual! – de maldade banalizada. Sim, no Brasil de Bolsonaro, a maldade banalizou-se. O que mais se pode esperar da influência sobre a ­sociedade de um presidente que brinca de “fazer arminhas” com o polegar e o indicador? A incitação ao crime produziu, sob seu governo, muitos casos de crueldade terrível.

O assassinato do jovem congolês ­Moïse por capangas de seu patrão, após o rapaz cobrar seu salário, nos horroriza pela omissão com que os frequentadores da praia assistiram passivamente ao crime. Se fosse um rapaz louro, o povo interviria? Outro crime cruel foi cometido pela polícia, que aprisionou o jovem Genivaldo no camburão de uma viatura e, na sequência, arremessou bombas de gás lacrimogêneo. O rapaz morreu por asfixia.

Uma das recomendações da Comissão da Verdade foi a desmilitarização das polícias , herança da ditadura. Foi esquecida? Será retomada por Lula, para impedir que a maldade se banalize cada vez mais?

 

Fonte: Carta Capital.

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