Por Pedro Paiva

O país passa por mobilizações trabalhistas históricas contra a perda de qualidade de vida

Já está dado: 2023 será lembrado, nos Estados Unidos, como o ano de greves históricas. Dos estúdios de Hollywood até as fábricas de Detroit, os sindicatos travam batalhas em um momento onde os lucros batem recordes e os trabalhadores lidam com uma qualidade de vida cada vez pior.

Marick Masters é professor especialista em sindicatos da Wayne State University. Ele conversou com o Brasil de Fato sobre o assunto. Segundo ele, o que motiva essa onda de greves é o desencanto da maioria dos estadunidenses com a situação econômica.

“Eles perceberam que, comparado com os que mais ganham, com o 1%, por assim dizer, os seus salários ficaram para trás”, explica Masters, “entre 1979 e este ano, o salário ajustado à inflação de 90% dos trabalhadores subiu apenas 30%. Para os que estão no topo, subiu 200%. E eles veem isso como algo injusto e que precisa ser corrigido”.

Este é o caso da indústria automotiva. Enquanto os CEOs das grandes montadoras tiveram um ganho salarial de aproximadamente 40% nos últimos quatro anos, os trabalhadores só viram um aumento de 6%.

Uma das demandas dos grevistas, que iniciaram a paralisação de fábricas das três maiores montadoras do país no dia 15 de setembro, é justamente para que essa disparidade seja ajustada.

Sindicatos POP

Uma pesquisa feita no ano passado pela Gallup Polls, um dos institutos mais respeitados nos Estados Unidos, revelou que o apoio aos sindicatos é de 71% no país, o índice mais alto desde os anos 1960.

Mais recentemente, outro levantamento feito pela Reuters e pelo instituto Ipsos revelou que 60% dos estadunidenses apoiam a greve dos atores e roteiristas de Hollywood, enquanto 58% apoiam a paralisação dos trabalhadores da indústria automobilística.

Alguns acreditam que o crescente apoio aos sindicatos tem relação à entrada da Geração Z no mercado de trabalho. Jovens nascidos a partir da segunda metade dos anos 1990 têm menos perspectiva de futuro do que as gerações passadas.

Para a economista Sirisha Naidu, indiana radicada nos Estados Unidos, porém, outros fatores devem ser considerados. Para ela, a memória tem um papel fundamental nessa história.

“Eu sou da Índia, e nós sabemos que nem todo mundo consegue ter acesso a uma qualidade de vida decente”, diz Naidu.  “O que fez isso ser possível nos EUA não foi o excepcionalismo estadunidense por si, mas o fato de que os trabalhadores eram muito organizados, pediram para ser compensados de forma justa e as empresas aceitaram. Então nós vemos que as pessoas se lembram disso, elas lembram que não foram apenas os trabalhos industriais que os levaram à classe média, mas sim o fato de que eram trabalhos sindicalizados”.

Os sindicatos perderam força nas últimas décadas

Marick Masters, porém, alerta que o crescimento no apoio não necessariamente significa, pelo menos de forma imediata, um crescimento da força e da presença dos sindicatos. De 1980 até hoje, a proporção de trabalhadores sindicalizados caiu de 20% para aproximadamente 11%.

“Faz sentido [o fator Geração Z] e eu não tenho dúvidas de que há apoio aos sindicatos”, afirma o especialista, “mas a questão não é se há apoio no sentido da atitude em relação aos sindicatos, mas o que você está disposto a fazer, quais riscos está disposto a correr, para ter uma representação sindical. O que nós não vimos foi um crescimento consistente no número de membros de sindicatos”.

A pesquisa Gallup tem um dado interessante sobre o tema: de cada 10 trabalhadores não sindicalizados, pelo menos um se diz muito interessado em entrar para um sindicato. Esse número se materializa em lutas recentes pela formação de sindicatos em empresas como Amazon e Starbucks.

Sirisha Naidu diz que “estamos vendo um efeito dominó, mas que na verdade é uma consequência de condições estruturais. Trabalhadores por todo o país estão sendo pressionados de várias formas e estão percebendo que não estão sendo compensados adequadamente pelo trabalho que fazem”.

O impacto político da onda grevista

A greve no setor automotivo tem um impacto político tremendo. Por um lado, há preocupações de que a paralisação tenha efeitos negativos sobre a economia há um ano das eleições. Por outro, alguns democratas enxergam a situação como uma oportunidade.

A base industrial do chamado Cinturão da Ferrugem, que abrange estamos como Michigan, Ohio e Pensilvânia, que nos últimos anos se aproximou de Trump e do Partido Republicano, é fundamental para os democratas.

Seguindo este pensamento, na terça-feira (26), Joe Biden se tornou o primeiro presidente em exercício da história dos EUA a participar de um piquete de greve, deixando de lado a posição de mediador dos conflitos entre Capital de Trabalho.

Com um mega-fone na mãe, Biden disse aos grevistas: “Wall Street não construiu este país. A classe média construiu este país. Isso é um fato. Então vamos em frente! Vocês merecem o que vocês conquistaram. E vocês conquistaram muito mais do que estão sendo pagos agora”.

Donald Trump, que não participou do segundo debate das prévias republicanas nesta quarta-feira, fez um comício para trabalhadores da indústria automobilística. Um detalhe importante: um comício em uma fábrica não sindicalizada.

Trump não foi recebido por sindicalistas e nem pelo presidente do sindicato, que afirmou que o ex-presidente defende os interesses da “classe dos bilionários”. Uma recepção definitivamente menos calorosa do que a de Joe Biden.

Para além dos salários e da disputa política, Sirisha Naidu ressalta que a greve é sobretudo sobre o direito à dignidade.

“Por mais que pareça ser uma luta por coisas tradicionais, como salários e condições de trabalho, eu acho que a gente também está vendo uma luta por uma vida digna. Onde trabalhadores sejam capazes de viver e prover para si, suas famílias e comunidades, e não apenas esteja à mercê de empresas e particularmente lucros”, conclui Naidu.

 

Fonte: Brasil de Fato.

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