Por Estevam Silva
Em 1978, Jacob Gorender publicou “O Escravismo Colonial”, uma das obras mais relevantes da historiografia marxista nacional. O livro se consagraria como uma tentativa de construir uma teoria geral sobre a sociedade colonial brasileira, articulando economia política, sociologia e história. A obra influenciou parte substancial dos estudos posteriores sobre a escravidão e a estrutura socioeconômica do Brasil contemporâneo. Em 1981, complementando a reflexão iniciada em “O Escravismo Colonial”, Gorender publicou “A Burguesia Brasileira”, analisando a transição do escravismo para o capitalismo.
Há 13 anos, em 11 de junho de 2013, falecia o historiador, jornalista e militante comunista Jacob Gorender, um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20.
Filiado ao PCB desde a juventude, Gorender se alistou voluntariamente na Força Expedicionária Brasileira e participou dos combates contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
Após o golpe de 1964, o comunista baiano ajudou a fundar o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), organização que reivindicava a luta armada contra a ditadura militar.
Preso em 1970, Gorender foi submetido a torturas brutais e permaneceu encarcerado por dois anos. Posteriormente, ele se filiou ao PT e se destacou por sua produção intelectual, escrevendo trabalhos de referência sobre marxismo, luta armada e formação social do Brasil.
Juventude e formação
Jacob Gorender nasceu em 20 de janeiro de 1923, em Salvador, Bahia. Ele era o primogênito dos cinco filhos de Anna Echerman e Nathan Gorender. Seu pai era um imigrante judeu ucraniano que havia participado ativamente da Revolução de 1905 contra o regime czarista. Com a derrota do movimento revolucionário, Nathan foi forçado a deixar o Império Russo, imigrando para a América do Sul.
A infância de Gorender foi marcada pela pobreza e por privações materiais. Sua família vivia em um cortiço na região central de Salvador. Para ajudar no sustento da casa, o jovem começou a trabalhar ainda na infância. Apesar das dificuldades financeiras, o pai, culto e politizado, garantiu que Gorender tivesse acesso a uma boa educação. Aos 11 anos, o menino já dava aulas particulares e estava matriculado no Ginásio da Bahia, um dos colégios de maior prestígio de Salvador.
A carreira jornalística de Gorender teve início aos 17 anos, quando ele começou a trabalhar como arquivista no jornal “O Imparcial”. Logo foi promovido ao cargo de redator, ocupando-se do noticiário internacional. Trabalhou também como repórter do jornal “Estado da Bahia”, veículo pertencente à rede dos Diários Associados de Assis Chateaubriand.
Em 1941, Gorender ingressou na Faculdade de Direito da Bahia (atual FD-UFBA). Durante a graduação, aproximou-se do movimento estudantil, militando na União de Estudantes da Bahia e participando das mobilizações antifascistas e dos protestos contra o autoritarismo do Estado Novo.
No ano seguinte, recrutado por Mário Alves e Ariston Andrade, Gorender ingressou em uma célula do Partido Comunista do Brasil (antiga denominação do PCB). Dedicou-se ao estudo do marxismo e passou a escrever para a revista “Seiva”, um periódico vinculado à imprensa operária.
A Segunda Guerra Mundial e a militância no PCB
Gorender não chegou a concluir o curso de Direito. Em 1943, aos 20 anos, ele abandonou a faculdade para se alistar na Força Expedicionária Brasileira (FEB), o agrupamento militar criado por Getúlio Vargas para combater ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.
Durante a Campanha da Itália, Gorender integrou o pelotão de comunicações, sendo incumbido de instalar e manter as linhas de transmissão no front de batalha. Ele participou de combates intensos contra as tropas nazistas nas regiões da Toscana e da Emília-Romanha e tomou parte da célebre Batalha de Monte Castello.
A participação no conflito teve forte impacto na formação política de Gorender. O contato com os horrores da guerra e com a devastação causada pelo nazifascismo reforçaram seu compromisso com a causa comunista. Durante sua estadia na Itália, o brasileiro também conheceu a obra de Antonio Gramsci e travou contato com Palmiro Togliatti, líder do Partido Comunista Italiano (PCI).
Após o retorno ao Brasil, Gorender reforçou sua atuação política, convertendo-se em um dos mais destacados dirigentes do PCB. Mudou-se para o Rio de Janeiro, passando a integrar a redação da “Classe Operária”, órgão de imprensa do partido. O cancelamento do registro eleitoral do PCB em 1947, no entanto, forçaria Gorender e toda a militância comunista a atuar na clandestinidade.
Gorender coordenou as atividades de formação política do PCB e participou da reorganização do comitê estadual do partido em São Paulo. Em 1954, ele foi eleito como membro suplente do Comitê Central da agremiação. A efetivação como membro titular ocorreria seis anos depois, no 5º Congresso do partido.
Entre 1955 e 1957, Gorender viveu na União Soviética, frequentando os cursos de formação de quadros de Moscou. Durante sua permanência no país, ele conheceu Idalina de Silva Fernandes, que se tornaria sua esposa e mãe de sua única filha, Ethel.
O brasileiro ainda estava em Moscou quando ocorreram os acalorados debates derivados do 20º Congresso do Partido Comunista da URSS, ocasião em que Nikita Kruschev renegou o legado de Josef Stalin — um evento que abalou profundamente o movimento comunista internacional e deu início à cisão do PCB.
As denúncias contra Stalin chocaram Gorender, levando-o a assumir uma postura bastante crítica em relação ao antigo líder soviético. Os embates dentro do PCB se aprofundaram cada vez mais, conduzindo Gorender a constantes atritos com Luiz Carlos Prestes.
Apesar das divergências, Gorender subscreveu a “Declaração de Março” e a nova estratégia política do partido, calcada na rejeição da luta armada e na defesa da transição pacífica para o socialismo. Em 1962, um grupo de dissidentes críticos ao processo de “desestalinização” deixaria o partido e fundaria o PCdoB.
A ditadura militar e o PCBR
Com a deposição de João Goulart no golpe militar de 1964, as disputas internas no PCB seguiram se agravando. A derrota sofrida pela esquerda levou muitos militantes a questionarem as estratégias adotadas pela direção do partido.
Para Gorender, a ausência de um projeto eficaz de mobilização da classe operária era a prova inconteste do equívoco da política de alianças que Prestes vinha conduzindo. A recusa do PCB em aderir à luta armada contra a ditadura ampliou ainda mais o mal-estar nas bases da agremiação e levou à divisão do Comitê Central.
Em 1967, Gorender foi expulso do PCB junto com os demais dirigentes reunidos em torno da chamada “Corrente Revolucionária”. No ano seguinte, ao lado de Mário Alves e Apolônio de Carvalho, Gorender fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). A organização defendia uma linha política mais radical e combativa, rejeitando a aliança com a burguesia e reivindicando a luta armada contra a ditadura.
O PCBR instalou bases no Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e parte do Nordeste. A agremiação logo deu início às ações de propaganda revolucionária e conduziu algumas operações armadas nos grandes centros urbanos. Gorender, no entanto, tinha reservas em relação ao emprego de estratégias excessivamente militarizadas e se preocupava com o isolamento político das organizações revolucionárias.
Após a promulgação do AI-5, o PCBR foi duramente atingido pela repressão. As ações armadas do regime desarticularam completamente o partido e muitos dirigentes foram presos, assassinados ou forçados ao exílio.
Gorender foi capturado pelos militares em São Paulo em janeiro de 1970. Conduzido a uma instalação do DOPS, o militante comunista foi brutalmente torturado. Sofreu espancamentos, choques elétricos, afogamentos e foi submetido ao pau de arara. Depois de dois meses no DOPS, Gorender foi transferido para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu encarcerado por quase dois anos.
A produção intelectual e as últimas décadas
A derrota da mobilização armada contra o regime militar levou Gorender a uma profunda reflexão acerca dos limites e erros estratégicos cometidos pela esquerda revolucionária. Após sua libertação, o comunista baiano se dedicaria à produção intelectual, tendo como foco a compreensão da formação social brasileira.
Em 1978, Gorender publicou “O Escravismo Colonial”, uma das obras mais relevantes da historiografia marxista nacional. O livro buscava analisar a natureza econômica e social da colonização portuguesa no Brasil a partir de uma abordagem materialista. A tese central de Gorender é de que a sociedade colonial brasileira não pode ser compreendida nem como feudal nem como capitalista. Em vez disso, ela constituiria um modo de produção específico, que o autor intitulou de “escravismo colonial”.
O livro se consagraria como uma tentativa de construir uma teoria geral sobre a sociedade colonial brasileira, articulando economia política, sociologia e história. A obra provocou intenso debate entre os historiadores marxistas, originando uma série de respostas ao autor e influenciando parte substancial dos estudos posteriores sobre a escravidão e a estrutura socioeconômica do Brasil contemporâneo.
Em 1981, complementando a reflexão iniciada em “O Escravismo Colonial”, Gorender publicou “A Burguesia Brasileira”, analisando a transição do escravismo para o capitalismo. O autor argumenta que a classe burguesa nacional se constituiu em estreita associação com o capital estrangeiro e com as estruturas herdadas do latifúndio, inviabilizando a criação de um projeto nacional autônomo e democrático.
Em 1987, Gorender publicou “Combate nas Trevas”, outro trabalho que se consagraria como uma obra de referência. O livro reconstitui de forma detalhada a memória da luta armada contra a ditadura, enfocando temas como a fragmentação da esquerda, as divergências entre as agremiações radicais, a violência da repressão estatal e os fatores que levaram à derrota das organizações revolucionárias.
Já em “A Escravidão Reabilitada” (1990), o intelectual baiano elaborou uma resposta às críticas recebidas por “O Escravismo Colonial” e censurou o revisionismo historiográfico que buscava suavizar a imagem da escravidão. Gorender também escreveu “Marxismo sem Utopia” (1999), livro dedicado a analisar de forma crítica a trajetória histórica do socialismo, rejeitando concepções derivadas de uma visão “determinista” do marxismo.
O intelectual baiano seguiu participando dos debates políticos nacionais durante o período da redemocratização, mas permaneceu afastado da militância orgânica até 1994, quando se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT). Nesse mesmo ano, foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Entre 1994 e 1996, Gorender trabalhou como professor visitante no Instituto de Estudos Avançados da USP, onde ministrou cursos de pós-graduação sobre história e marxismo e desenvolveu pesquisas sobre relações de trabalho, globalização e revolução tecnológica informacional. Faleceu em São Paulo em 11 de junho de 2013, aos 90 anos.
Fonte: Opera Mundi.















