Elon Musk, um dos bilionários da tecnologia que já não escondem mais gestos, tendências e estratégias em suas relações com o governo antidemocrático de Donald Trump. Ilustração: Reprodução / Fundação Conrado Wessel.

 

Por Carolina Parreiras, The Conversation Brasil

 

Em seu discurso, proferido durante a Cúpula Sobre o Impacto da Inteligência Artificial, realizada na Índia em março de 2026, o presidente Lula endereçou de forma clara a necessidade de que a discussão sobre inteligência artificial (IA) esteja atrelada à de democracia. De acordo com ele, “o painel científico internacional independente sobre Inteligência Artificial é o primeiro órgão científico global sobre o tema e reúne especialistas, fatos e evidências em suas manifestações. O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”.

Esta mesma ideia já aparecia, desde 2024, no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) – apelidado de IA para o Bem de Todos -, a ação principal do governo Lula em relação ao uso, aplicação e desenvolvimento de inteligência artificial. O objetivo principal do PBIA é direto a respeito da relação entre IA e democracia: a IA para o Bem de Todos deve ser “orientada” pela “defesa da democracia”, garantindo cidadania, os direitos individuais e coletivos, a soberania nacional, a proteção da integridade da informação e o desenvolvimento econômico sustentável.

Como se vê, há a preocupação de que o artefato tecnológico seja utilizado para promover e prover as bases democráticas e não para seu esfacelamento. Para isso, o PBIA reconhece, por exemplo, os processos desiguais a partir dos quais a inteligência artificial é desenvolvida (e o papel das big techs, muito pouco reguladas e responsabilizadas) e utilizada (reconhece os vieses de raça, gênero, sexualidade, idade, classe social presentes em muitas destas ferramentas, bem como a necessidade de pensar em usos éticos e responsáveis desta tecnologia).

Ao mesmo tempo, quase diariamente abundam exemplos de usos e desenvolvimentos da IA que representam ataques aos ideais democráticos e à vida social coletiva. Estes exemplos vão desde as ameaças de substituição do humano pelas máquinas, passando pelos vazamentos e notícias de ferramentas de IA fora do controle até a dificuldade de estabelecer parâmetros em relação ao uso de Inteligência Artificial em processos eleitorais, como o que ora vivemos no Brasil.

A literatura multidisciplinar crítica sobre Inteligência Artificial tem, há um bom tempo, feito alertas importantes em relação às ameaças que a IA pode representar, inclusive para aquilo que entendemos como democracia. Um dos primeiros pontos de atenção são as próprias empresas dedicadas ao desenvolvimento de IA, a maior parte delas enquadradas no que chamamos de big techs e com alianças cada vez menos discretas com regimes que desprezam a democracia e primam pelo autoritarismo.

Alianças cada vez menos discretas com autocracias

Estamos diante do que vem sendo chamado de tecnofascismo, processo definido de modo bastante didático pela professora e feminista norte0americana ligada à área da computação Catherine D’Ignazio como a aproximação cada vez maior das grandes empresas de tecnologia e seus CEOs de governos de direita e extrema-direita com agendas autoritárias e antidemocráticas.

A partir desta junção entre capital econômico, político e tecnológico, cujo exemplo mais bem sucedido pode ser encontrado no segundo governo de Donald Trump, há o emprego das tecnologias desenvolvidas por estas empresas para diferentes formas de ataque à democracia, à cidadania e ao bem comum.

Isto se dá, por exemplo, por meio das eficientes formas de vigilância e monitoramento tecnológicos sobre cidadãos e cidadãs de diferentes países (tal como faz a Palantir, do bilionário Peter Thiel); pela infiltração das plataformas digitais nos níveis mais cotidianos da vida; pelo deliberado fracasso dessas mesmas plataformas em combater discurso extremo, caracterizado pela infinidade de conteúdos vitriólicos, violentos e de ataques à diversidade.

Mais recentemente, isto pode ser notado também pelos usos de Inteligência Artificial em atividades bélicas – basta ver as operações israelenses contra a Palestina analisadas pelo sociólogo brasileio Sérgio Amadeu – ou a afirmação, parte fundamental dos discursos das big techs, da inevitabilidade do desenvolvimento e do uso das IAs ou do suposto risco de desenvolvimento de uma Inteligência Artificial fora de qualquer controle humano, o que seria um risco para nossa existência.

Neste último caso, a cientista da computação Timnit Gebru, em uma entrevista recente ao podcast Uncanny Valley, da revista Wired, afirma que o discurso de “risco existencial” é uma “distração”, criada e difundida pelas próprias empresas desenvolvedoras para convencer as pessoas de que as IAs são “tão poderosas que estão além do seu controle, que são algo além de tudo que já se viu”.

Ao promover o discurso de que as inteligências artificiais podem se tornar supermáquinas, as empresas desenvolvedoras (e aqui estamos falando de OpenAi, Anthopic, Google, Meta, xAI e de figuras como Sam Altman, Dario Amodei, Mark Zuckerberg e Elon Musk) estão, na verdade, “falando com investidores e governos”, vendendo a ideia de que eles podem ser os primeiros a “colocar suas mãos” nestas supermáquinas.

O argumento de Gebru é semelhante ao do escritor Cory Doctorow que, em seu livro mais recente – The Reverse Centaur’s Guide to Life After AI: How to Think about Artificial Intelligence – Before It’s Too Late– mostra como o “hype” em torno da Inteligência Artificial é uma propaganda artificialmente criada, parte de uma bolha desenvolvida pelas big techs, para atrair investidores e convencê-los das supostas habilidades das IAs e suas “disrupções” e “inovações”.

 

Império de Musk se prepara para onda azul com vitória democrata no Texas

 

No entanto, como alerta Gil Durán, em The Nerd Reich (2026), não podemos perder de vista que o tecnofascismo é uma força real, presente e que imagina a tecnologia como meio de privatização do público e de eliminação da democracia. Se, no início dos anos 90, com a chegada da internet comercial e seus ideais utópicos acreditava-se que o Vale do Silício (e sua “ideologia californiana”) atuava a favor do uso dos artefatos tecnológicos para criar um mundo melhor, hoje é bastante evidente exatamente o contrário: estamos diante de empresas de tecnologias cada vez mais anti-governo, antidemocráticas e que apoiam e financiam abertamente regimes autoritários.

Risco gigantesco de desregulação no Brasil

No caso brasileiro, que abre este ensaio, vemos que a preocupação com a democracia por parte do atual governo Lula é um constante e embasa o PBIA. Entretanto, não podemos afirmar que assim continuará a ser feito, na medida em que, em breve, teremos nas urnas o enfrentamento com a extrema-direita nacional no segundo turno das eleições presidenciais.

Caso seja este o lado vencedor, o risco que se projeta é gigantesco, na medida em que estamos falando de um setor da política que é contra regulações das empresas de tecnologia e que não são reconhecidos pelo apreço à democracia e ao bem comum. Neste caso, o que se avizinha é ainda mais concentração de poder nas mãos das big techs, sem a aplicação de quaisquer formas de auditoria ou controle do desenvolvimento das IAs e de seu uso.

Termino este ensaio recorrendo às propostas de Nina da Hora (2025): precisamos de uma forma de governança da inteligência artificial que preze pela “transparência algorítimica”, mas sobretudo pela “redistribuição da autoridade epistêmica”, questionando as bases mesmas destes sistemas. Não se trata apenas de falar de “métricas”, “otimização” de códigos, mas de “hackear” as bases desse sistema. Se a inteligência artificial não é inevitável – e defendo que não é -, o tecnofascismo também não pode ser visto como tal. Defender a democracia é também resistir à imposição tecnológica, à colonização de nossa vida por algoritmos e códigos nada neutros e à tentativa das big techs de se tornarem a principal forma de governo de todas nós.

 

Este texto é fruto de uma parceria com a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). Carolina Parreiras participou do 50º Encontro Anual da ANPOCS, entre 7/10 e 9/10 (presencial), onde debate, exatamente, a relação entre democracia e Inteligência Artificial.

 

Trump, Big Techs e a luta pela soberania

Com a nova eleição de Donald Trump, que recebeu doações das Big Techs na campanha, posse e até para construção de novo salão de baile, os retrocessos foram acelerados. Buscando atender interesses de grupos como OpenAI, Microsoft, Palantir e Alphabet, o governo Trump gerou as condições para que tais empresas pudessem deixar de lado o verniz de civilidade. O avanço do fascismo nos EUA junto às Big Techs é assustador, mas também um sinal de sua crise. Os modelos de negócio das Big Techs não interessam a ninguém além de seus CEOs, acionistas e os especuladores que os orbitam.

Logo em janeiro de 2025, as políticas de moderação de conteúdo das plataformas de mídias sociais foram modificadas para permitir discursos discriminatórios e eugenistas. Racismo, transfobia e capacitismo passaram a ser permitidos de forma explícita nas principais plataformas, gerando novas preocupações para governo e organizações da sociedade civil brasileiras.

O aumento dos ataques de Trump e das Big Techs contra avanços sociais sobre governança de tecnologias digitais, essa é uma longa história que exigie do Brasil posturas e políticas em defesa da soberania. Para evitar o estabelecimento de melhores regras de governança de plataformas no país, empresas como Facebook e Google empreenderam violentas campanhas anti-regulação no Brasil que levaram ao enterro simbólico do projeto de lei 2630/2020.

Quanto à Inteligência Artificial (I.A), um volumoso corpo de pesquisas e evidências são produzidas também no Brasil por grupos de pesquisa e ativismo contra racismo algorítmico – incluindo frequentes citações ao trabalho de Joy Buolamwini. Há estudos sobre discriminação e vieses em bancos de imagens, reconhecimento facial, sistemas de escore de crédito, moderação de conteúdo, visão computacional, modelos de linguagem e mapeamentos de avaliação dos debates legislativos sobre I.A., entre outros. Campanhas e mobilizações da sociedade civil utilizaram os dados produzidos por Buolamwini e colegas, incluindo Tire Meu Rosto da Sua Mira e #SaiDaMinhaCara.

Como desmascarar os algoritmos das Big Techs

Leia o artigo de Tarcizio Silva sobre o novo livro “Desmascarando a IA: minha missão para proteger o que é humano em um mundo de máquinas”, de Joy Buolamwini (Autonomia Literária, 2026). O livro revela como funciona o lobby das empresas de tecnologia para poder explorar e concentrar mais poder e o que podemos fazer para nos defender e revidar.

 

A proeza de Janones e o caminho para a soberania digital

O canal Exército do Lula, criado pelo deputado federal André Janones no WhatsApp, produziu um exercício de letramento algorítmico de massa e ensinou milhões de eleitores a operar frente à opacidade dos algoritmos. Mostrou o risco à democracia com a dependência de big techs. Com cerca de 50 mil inscritos no seu início em abril, chegou a 10 milhões de seguidores em 23 de outubro, quando se tornou o 2º maior canal do aplicativo no país. Tarefas urgentes: auditoria completa da atuação das plataformas nas eleições e criar uma infraestrutura digital própria.

 

Fonte: The Conversation Brasil, Jacobin Brasil, Outras Palavras.

Banner Content
Tags: , , ,

Related Article

0 Comentários

Deixe um comentário

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA – ANO XXII – EDIÇÃO Nº260 – NOVEMBRO 2026

Siga-nos

INSTAGRAM

Arquivo