Entrevista: Jodi Dean e Charisse Burden-Stelly | Tradução: Priscilla Marques

Ao longo do início até meados do século XX, mulheres negras comunistas lideraram campanhas de massas para construir poder coletivo, unindo-se à luta pela libertação negra na batalha pela igualdade econômica. Seu objetivo: a derrubada do capitalismo.

Estamos vivendo em tempos perigosos. O movimento Black Lives Matter — envolvendo talvez os maiores protestos na história dos Estados Unidos — trouxe de volta à consciência global, a sistemática violência enfrentada pelas pessoas negras sob o capitalismo estadunidense do século XXI. O aumento simultâneo da extrema direita nos Estados Unidos e na Europa resultou em uma escalada brutal de retórica antinegra e anticomunista.

O livro recém-publicado Organize, Fight, Win: Black Communist Women’s Political Writing, ajuda-nos a entender as conexões em curso entre a política do medo vermelho e o racismo nos Estados Unidos. Editada por Charisse Burden-Stelly e Jodi Dean, a coleção abrange três décadas da história comunista dos EUA, desde os primeiros dias do Partido Comunista na década de 1920, até os dias brutais do macartismo e da guerra imperialista no exterior nos anos 1950. Elas juntaram trabalhos previamente não reunidos de escritoras e líderes como Claudia Jones, Williana Burroughs, Grace P. Campbell, Louise Thompson Patterson, Marvel Cooke, Yvonne Gregory e Charlotta Bass.

A coleção desafia décadas de obstrução e concepções equivocadas contemporâneas, revelando uma história oculta da liderança e luta das mulheres negras dentro dos partidos e movimentos comunistas no século XX. Os debates em torno da teoria e estratégia ganham nova vitalidade nesses escritos e pintam um quadro de construção dos partidos de esquerda que desafiam as caricaturas obsoletas.

Jacobin sentou-se com as editoras para discutir seu projeto ambicioso, a necessidade de trazer essas lutas e organização das mulheres à luz contemporânea e o futuro dessa mesma luta.


CD

Um dos primeiros textos na coleção foi a crítica interna de Williana Burroughs ao Partido Comunista, do ponto de vista político-organizacional. Os jovens de hoje estão acostumados a discutir desigualdade e poder, mas são menos familiarizados com a filiação partidária. Você acha que eles vão considerar esses documentos organizacionais como uma parte “alienígena” da coleção?

CBS

Não pela parte crítica — todo mundo tem uma crítica hoje em dia. Mas talvez o que possa parecer estranho é a maneira como as mulheres negras travaram suas lutas dentro do aparato do partido, em vez de sair ou colapsar toda a organização. Mesmo reconhecendo que havia problemas dentro dela, pessoas como Burroughs, Louise Thompson Patterson e outras tentavam mostrar que um partido era o melhor veículo para lutar por uma revolução proletária, anti-imperialista e anticolonial. Sua crítica era fundamentada no sentido de sustentar a organização e mantê-la de acordo com seus padrões éticos, ao contrário de um discurso centrado ou uma cultura de denúncia. Hoje se fala muito sobre não precisarmos nos juntar a um partido, sobre horizontalismo ou organização autônoma. Mas essas mulheres entendiam que é preciso estar em alguma organização ou aparato partidário se você espera construir uma base popular, especialmente internacionalmente.

JD

Na época da crítica de Burroughs, o Partido Comunista dos Estados Unidos mal tinha seis anos de existência. Suas críticas não eram de uma organização monolítica; eram críticas de alguém tentando construir uma organização. Se você começar a pensar na história do Partido Comunista com os escritos de Grace Campbell e Burroughs, esse partido parece algo muito diferente. Não parece esse grupo massivo e bem organizado de homens brancos vindos de Moscou. Especialmente nos dias de hoje, a questão reconhecida por todos os organizadores é “nunca temos pessoas, tempo, recursos, etc., suficientes para fazer o trabalho que precisamos fazer.” Nossa coleção mostra que esses não são problemas novos: eles vêm desde o início da compreensão de que é preciso estar em uma organização.

CD

Os textos aqui apresentam um mundo rico e complexo de luta e cultura. Existem barreiras linguísticas e políticas entre trabalhadores falantes de iídiche e trabalhadores negros no sindicato de peles, o trabalho de mulheres chinesas recrutando mulheres negras para a luta nas greves das lavanderias, a sexualidade como parte complexa do quadro e muito mais. Como tantas pessoas esqueceram dessa complexidade no cerne do comunismo nos EUA?

CBS

Realmente depende de como você está abordando isso. Eu aprendi sobre esse período por meio de livros como In the Cause of Freedom, de Minkah Makalani ou Sojourning for Freedom, de Erik S. McDuffie. Eles se concentram literalmente em negros no Partido Comunista. Então, para mim, desde o início, esse período representa a tese da nação Black Belt, Angelo Herndon, a International Labor Defense, a invasão da Etiópia e o surgimento de pessoas como Claudia Jones e Queen Mother Moore.

Não conheço uma história branca redutora ou insossa. Mas é isso que os textos em nosso livro dizem — não precisa ser essa história. Devido ao macartismo intelectual e ao chauvinismo racial, muitos não sabem nada sobre comunistas ou as imensas contribuições que pessoas negras, colonizadas e racializadas fizeram tanto para o Partido Comunista dos EUA quanto para o movimento comunista internacional.

JD

Também é puro anticomunismo. O Verão Vermelho de 1919 — chamado assim devido à ação violência de multidões brancas contra soldados negros que retornavam da Primeira Guerra Mundial — foi atribuído aos bolcheviques. Em vez de reconhecer que as pessoas estavam cansadas de serem linchadas e atacadas, os principais jornais culpavam a legítima resistência negra pelos distúrbios aos “vermelhos”, que de alguma forma estavam incitando a população negra a se rebelar.

A combinação do anticomunismo e do racismo antinegros tornou-se parte da história invisível. Partidos fortes que são antiracistas ficam invisíveis e movimentos comunistas ou socialistas legítimos de base foram eliminados por causa do anticomunismo.

“A combinação do anticomunismo e do racismo antinegros tornou-se parte da história invisível.”

CD

Quase cem anos atrás, as mulheres comunistas negras estavam se organizando em torno do conceito de “tripla exploração”. Como esse conceito difere, antecipa e se relaciona com a interseccionalidade?

CBS

Ele anteciparia a interseccionalidade na medida em que eram mulheres negras falando sobre as muitas formas de dominação que caracterizam sua realidade. Mas não seria realmente um precursor. Parte da razão pela qual a “tripla exploração” pode ser posta, seria porque era considerada parte dessa tradição intelectual contínua das mulheres negras. No entanto, é uma articulação política, anti-imperialista e socialista distinta da posição das mulheres negras como trabalhadoras.

A interseccionalidade trata do reconhecimento perante a lei e da possibilidade de remediar as formas de discriminação que as mulheres negras estão vivenciando. A tripla exploração trata da opressão, exploração e derrubada dessas estruturas de dominação. As mulheres apresentadas em nosso livro entendem o imperialismo como a contradição principal. Parte do que estão descrevendo é como o imperialismo e sua própria relação particular com o modo de produção capitalista, as situam em termos de economia política e relações sociais. Essa não é a análise que a interseccionalidade oferece. Qual delas ressoa mais é algo a ser debatido.

Podemos citar o discurso de aceitação de Charlotta Bass em 1952, ao ser indicada para a vice-presidência pelo Partido Progressista. Bass descreve como, na Malásia colonial na época, os generais de Winston Churchill estavam literalmente decapitando pessoas sem nenhum direito político, e então, acusando essas mesmas pessoas de “não assumir a responsabilidade da cidadania”. Ela comparou isso à situação dos negros nos Estados Unidos. Essa conexão não é particularmente intuitiva para as pessoas hoje. Por que será Bass e as outras mulheres em sua coleção pensavam que o capitalismo dos EUA e o imperialismo mundial estavam inexoravelmente ligados?

CBS

Bass concorria à vice-presidência pelo Partido Progressista, que é historicamente o terceiro partido mais viável que tivemos. Parte do que ela apontou foi a maneira como todos os democratas e republicanos estão implicados nas conexões com o imperialismo, colonialismo, beligerância e opressão racial.

Essas mulheres eram socialistas. Elas conectavam guerra, extração de recursos, superexploração de trabalho colonizado e racializado, armamento nuclear, fascismo… Independentemente de onde as pessoas oprimidas estivessem localizadas, há uma ressonância na forma como eram tratadas e na opressão e repressão que vivenciam. Essa ressonância deveria ser a base para um movimento internacionalista amplo e de massas.

Há um artigo de Eslanda Robeson na coleção em que ela fala sobre o tratamento dos prisioneiros de guerra coreanos, desafiando a linha do Departamento de Estado e comparando o tratamento dos coreanos ao tratamento dos negros sob as leis de segregação racial. As comunistas negras e as mulheres próximas ao comunismo têm essa habilidade profunda de estabelecer grandes conexões globalmente, mas também torná-las muito localmente relevantes. Isso é uma habilidade realmente grande. É difícil fazer alguém que está trabalhando como agricultor arrendatário e está privado de direitos se importar com o que está acontecendo no Egito, na Malásia ou em Gana, mas elas realmente conseguem conectar o que está acontecendo localmente com o que está acontecendo globalmente.

JD

O anti-imperialismo dessas mulheres exige uma crítica da colonização e identificação com a luta de todos que lutam contra o colonialismo. Sua análise de que os negros nos Estados Unidos essencialmente constituem um povo colonizado, dentro do país foi crucial para os esforços de organização do Partido Comunista no Sul. Essa compreensão estabeleceu um paralelo muito poderoso com qualquer outra luta colonizada. Ela apontou para os negros que suas lutas fazem parte de uma luta global contra a opressão. O que essa tese fez foi tornar objetivamente revolucionária a luta negra. Ela se manteve no mesmo nível dos comunistas em relação à luta de classes. Não era como se uma fosse mais importante. Ambas são necessárias para o sucesso da outra.

CD

Vocês incluíram o argumento de Claudia Jones contra a sugestão de Earl Browder de que “os negros nos EUA escolheram a integração”. Ela diz que a autodeterminação nacional não é “um slogan de ação imediata”, mas uma “demanda programática” e um “princípio orientador”. Por que vocês escolheram destacar esse debate especificamente?

CBS

Existe essa compreensão de que os comunistas negros são especialmente ingênuos, seguidores não críticos, autômatos robóticos que seguem alguma linha abstrata. O que o artigo de Jones mostra é que elas estavam fazendo críticas dentro do partido. As comunistas negras, independentemente de acreditarem ou não na tese do Cinturão Negro, nunca se afastaram da questão negra. Elas sempre acharam que os negros tinham uma característica especial de exploração que vivenciavam. Jones argumentou que a luta por direitos iguais não é antitética à autodeterminação — na verdade, é um passo em direção a ela. Parte dessa linha é que os negros têm o direito de se separar dos Estados Unidos, se assim desejarem. Isso é o que significa autodeterminação.

JD

A tese do Cinturão Negro era a condição de possibilidade para qualquer unidade entre negros e brancos. Para os trabalhadores brancos terem que subordinar todos os aspectos da supremacia branca à luta negra e dizer “Sim, isso é necessário: a revolução exige autodeterminação negra”. A ideia de autodeterminação negra parece algo que os Estados Unidos nunca foram capazes de apoiar. É perpetuamente “assimilação” e “acomodação” e não autodeterminação plenamente desenvolvida. O que quer que isso signifique!

Vladimir Lenin argumentou que lutar pelo direito à autodeterminação seria como argumentar pelo direito ao divórcio — não significa que todo mundo vai se divorciar. Significa que as pessoas têm esse direito, e isso lhes dá poder. A autodeterminação negra nunca significou que uma parte específica dos Estados Unidos deve ser separada. Significava que os condados com maioria negra devem ter o direito de tomar essa decisão por conta própria. Isso é democracia, nada menos.

CD

Vocês afirmam que “o anticomunismo é uma peça fundamental da supremacia branca”. Claramente, vocês não se referem apenas historicamente, pois também argumentam que o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro foi anticomunista. Vocês poderiam explicar essa conexão?

CBS

Sempre que há organização negra, há essa ideia de que “os comunistas estão chegando e incitando os negros”. Uma das maneiras como Martin Dies e o Comitê da Câmara sobre Atividades Não-Americanas determinavam se alguém era comunista era perguntando se a pessoa já havia tido um negro em sua casa ou se acreditava na igualdade racial. O que mostra que os comunistas estavam na vanguarda da luta pela igualdade racial, mas também que o Comitê da Câmara via uma ligação entre igualdade racial e comunismo. Ele via a libertação negra e o socialismo como contrários ao capitalismo — contrários aos fundamentos dos Estados Unidos.

Vemos a convergência do medo negro e do medo vermelho hoje de várias maneiras. Houve a lei anti-acordado na Flórida, que visava os manifestantes negros após todo o discurso sobre o suposto financiamento da China para os levantes do Black Lives Matter, ou a recente batida do FBI no Partido Socialista Africano. Não é por acaso que uma organização negra foi acusada de estar em conluio com a Rússia — na imaginação política dos EUA, a URSS e a Rússia são a mesma coisa.

Toda vez que há insurgência negra, sempre há esse discurso de criminalidade, mas também de agitação externa. Mas sabemos que o agitador externo em Kenosha, Wisconsin, foi Kyle Rittenhouse. Essas coisas são sempre pensadas juntas, porque a cidadania negra é tênue e questionável no melhor dos casos, e os negros são considerados estúpidos, dóceis, facilmente manipulados pelas forças estrangeiras. Eles são o grupo sempre-potencialmente subversivo. Os negros também têm mais a ganhar com uma revolução socialista. Qualquer forma de redistribuição é necessariamente um ataque à desigualdade racial, se for feita corretamente.

JD

A história dos Estados Unidos de supremacia branca tem sido profundamente anticomunista. O que isso faz é tornar a democracia branca. Uma vez que você introduz pessoas negras nela, você minou a democracia e foi para o comunismo. Esta é a justificativa — é uma estrutura de associações que está firmemente estabelecida nos Estados Unidos há muito tempo. Hoje, mesmo o neoliberal Barack Obama — o cara que nomeou a Goldman Sachs para sua administração e que se recusou a criar um programa de saúde nacional real — é amplamente considerado como comunista pela Direita. Comentaristas da Direita chamam todos os movimentos antirracistas, anti-homofobia e feministas nos Estados Unidos de “marxistas”. Eles nunca ouviram a palavra “classe”, e não há análise econômica. Mas o erro/verdade interessante que eles articulam é que o comunismo é o movimento que sempre toma o lado dos oprimidos. A atual ligação entre anticomunismo e supremacia branca é uma tentativa de manter um tipo específico de hierarquia racial nos EUA que o comunismo nomeia como oposição.

“O anticomunismo está vinculado à opressão racial antinegra e ao imperialismo.”

CBS

Está tarde. O fascismo está lá fora. Precisamos realmente levar isso a sério. É difícil e assustador, mas as mulheres apresentadas em nosso livro estavam se organizando em tempos extraordinariamente difíceis e assustadores — a Grande Depressão, o Medo Vermelho, o McCarthyismo — e mesmo assim elas fizeram isso. Fizeram isso coletivamente e com coragem. A lição mais importante dessas mulheres é que você não pode construir um movimento de massas sem algum recipiente, seja um partido ou uma organização. Se esperamos construir algo rumo a uma base de massas, temos que construir e sustentar organizações e lutar dentro delas.

Sobre os autores

ensina teoria política e midiatica em Geneva, Nova York. Ela escreveu e editou onze livros, incluindo “The Communist Horizon” e “Democracy and Other Neoliberal Fantasies”.

CHARISSE BURDEN-STELLY
é uma estudiosa crítica dos Estudos Negros de teoria política, economia política, história intelectual e sociologia política e histórica. Sua pesquisa segue três linhas complementares de investigação. A primeira interroga as complicações transnacionais do racismo capitalista dos EUA, do anticomunismo e da opressão racial anti-negra. A segunda escava o pensamento, a teoria e a práxis intelectual anticapitalista negra do século XX. A sua terceira área de enfoque examina teorias e discursos de desenvolvimento económico na diáspora africana.
Fonte: Jacobin Brasil.
Foto: A jornalista afro-americana e membro do CPUSA Marvel Cooke testemunha perante o Subcomitê de Investigação do Senado em Washington, DC, em 8 de setembro de 1953. (Bettmann / Getty Images).
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