Por Glauce Arzua, Letícia Carlos, Letícia Queiroz, Naiara Evangelo e Renan Simão

 

Em um contexto de disputa por atenção e sentidos, fortalecer a educação antirracista exige narrativas capazes de ampliar repertórios, deslocar estereótipos e afirmar outros futuros.

Há mais de vinte anos, o Brasil dispõe de legislações que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas escolas. As leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 representam uma conquista histórica dos movimentos negros e indígenas, mas sua implementação ainda está longe de se concretizar plenamente em todas as escolas. O desafio, portanto, não é apenas normativo, mas também simbólico e político: como sensibilizar a sociedade para reconhecer a educação antirracista como direito coletivo e agenda estratégica para o país?

Este artigo compartilha aprendizados construídos coletivamente por comunicadores no âmbito do Projeto SETA, iniciativa de promoção da educação antirracista que reúne as organizações ActionAid, Ação Educativa, Campanha Nacional pelo Direito à Educação, CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), GELEDÉS — Instituto da Mulher Negra, Makira-E’ta e UNEafro Brasil.

A experiência parte da premissa que a comunicação não é etapa final de divulgação, mas parte da formulação da estratégia política, campo de disputa de narrativas, produção de sentidos e construção de imaginários capazes de mobilizar a sociedade. Isso implica processos permanentes de escuta, diálogo e circulação de conhecimentos entre sociedade, pesquisadores, educadores, gestores públicos, movimentos sociais e comunidades escolares.

Compreendeu-se, assim, a necessidade de uma comunicação antirracista que envolve não apenas o que é dito, mas como, por quem e para quem uma narrativa é construída. Os aprendizados do projeto mostram que transformar narrativas hegemônicas exige processos compartilhados, escuta ativa e reconhecimento das trajetórias, identidades e saberes dos sujeitos representados.

Essa perspectiva ganha relevância em um ambiente digital marcado pela fragmentação da atenção, desinformação e reprodução de desigualdades. Como observa Tarcízio Silva, em Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais (Edições Sesc), o racismo digital não se manifesta apenas em discursos explícitos, mas também em mecanismos como microagressões e vieses algorítmicos. Disputar sentidos significa também disputar os modos pelos quais grupos são representados ou invisibilizados.

Rosane Borges, em Esboços de um tempo presente (Malê Editora), define os conflitos contemporâneos como “guerras de imagens e signos”, nas quais a disputa política ocorre no imaginário. A comunicação assume, nesse cenário, papel estratégico na produção de novas representações, ampliação de repertórios e legitimação de outras narrativas.

Os aprendizados acumulados pelas organizações que compõem o SETA ao longo de suas trajetórias evidenciam que, na comunicação antirracista, a forma de comunicar é tão desafiadora quanto o conteúdo

Essa disputa não começa nas plataformas digitais. No século 19, a imprensa negra brasileira constrói espaços próprios de informação e mobilização política por meio de jornais como O Homem de Cor, O Exemplo e O Getulino. Produzir comunicação, portanto, sempre foi parte da luta antirracista e da disputa pela cidadania.

A partir dessa perspectiva, o SETA promoveu espaços de diálogo sobre comunicação antirracista. Em 2023, encontro na sede da Folha de S.Paulo reuniu iniciativas comprometidas com narrativas antirracistas, como “Mídia Indígena”, “Desenrole, Mas Não Me Enrole”, “Alma Preta”, “Revista Raça” e a Editoria de Diversidade da Folha. A estratégia incluiu ainda especialistas em comunicação antirracista e acessibilidade, produção audiovisual autoral, colaborações com o Canal Futura, animações educativas, lives com universidades como a Unicamp e uma campanha nacional de sensibilização, a ser lançada este ano. Em comum, essas iniciativas buscam humanizar experiências, aproximar pessoas das políticas públicas e inserir a educação antirracista nas conversas que mobilizam a sociedade.

Os aprendizados acumulados pelas organizações que compõem o SETA ao longo de suas trajetórias evidenciam que, na comunicação antirracista, a forma de comunicar é tão desafiadora quanto o conteúdo. A ActionAid tem buscado processos de criação compartilhada com os sujeitos retratados, permitindo que suas perspectivas conduzam a narrativa. Entre seus aprendizados está a compreensão de que o veículo, as experiências das pessoas entrevistadas, sua autoimagem e a forma como desejam ser representadas precisam ser considerados na construção de narrativas que enfrentam o racismo.

O GELEDÉS consolidou seu portal como referência nacional em direitos humanos, relações raciais e gênero, ampliando a visibilidade de narrativas protagonizadas por mulheres negras e outros sujeitos sub-representados. A UNEafro Brasil fortaleceu uma comunidade mobilizada pela democratização do acesso à universidade, ampliando suas ações por meio da TV UNEafro e dando centralidade às vozes das juventudes negras.

A experiência do SETA também demonstra que a agenda antirracista fortalece a comunicação em rede. A articulação entre organizações potencializa iniciativas existentes e cria novas possibilidades de incidência. Para a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a participação na coalizão impulsionou o Euetu – Grêmios e Coletivos Estudantis, fortaleceu sua atuação institucional e renovou estratégias de comunicação pela troca de conhecimentos. A Ação Educativa, por sua vez, fortaleceu a comunicação como instrumento de mobilização social e defesa de direitos, articulando experiências em educação popular e participação política.

Para a CONAQ, comunicar é defender direitos, fortalecer identidades, enfrentar o racismo e proteger a vida nos territórios. Essa perspectiva se expressa em seus coletivos de Educação e Comunicação e na atuação de comunicadoras e comunicadores quilombolas em pautas como Educação Escolar Quilombola, territórios e direitos das mulheres. Comunicar integra, assim, a construção de uma educação que valoriza territórios, memórias, saberes e formas próprias de aprender e ensinar.

A Makira-E’ta trouxe ao SETA o protagonismo indígena e narrativas construídas a partir dos territórios. Na editoria Aldeia Digital, no Instagram do SETA, colocou a educação escolar indígena como eixo, valorizando saberes e modos próprios de aprender e ensinar dos povos indígenas do Amazonas. A experiência também evidenciou desigualdades de infraestrutura e conectividade, mostrando que a comunicação antirracista deve considerar diferentes modos de viver e comunicar.

Essa compreensão coletiva encontra respaldo na educomunicação, entendida por Ismar de Oliveira Soares como campo voltado à construção de ecossistemas comunicativos democráticos, capazes de ampliar a participação social, fortalecer sujeitos coletivos e produzir conhecimento compartilhado.

Mais do que comunicar legislações e políticas públicas, trata-se de criar condições para que sejam reconhecidas, apropriadas e defendidas pela sociedade. Em um contexto de disputa por atenção e sentidos, fortalecer a educação antirracista exige narrativas capazes de ampliar repertórios, deslocar estereótipos e afirmar outros futuros. Afinal, transformar a sociedade exige também transformar os imaginários que sustentam desigualdades e delimitam o horizonte do que entendemos como democracia.

 


GT de Comunicação do Projeto SETA: Glauce Arzua (ActionAid), Letícia Carlos (Projeto SETA), Letícia Queiroz (CONAQ), Naiara Evangelo (Projeto SETA) e Renan Simão (Campanha Nacional pelo Direito à Educação).

 

Fonte: Nexo. Título original: Como construir uma comunicação que mobilize a sociedade em torno da educação antirracista?

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