Por Aluisio Schumacher

Destruição material e simbólica dos povos originários: invasões, desmonte de instituições e ofensiva evangélica.

Nos meses de agosto e setembro, assistimos a manifestações em Brasília organizadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) contra a “agenda anti-indígena que está em curso no Congresso Nacional e no Governo Federal”. A grande mídia deu muito pouca atenção ao significado e ineditismo desse movimento denominado ‘Luta pela Vida’, que reuniu povos originários de todo país.

Para que tenhamos uma ideia das ameaças e crimes contra os indígenas, Carta Maior traz a tradução de reportagem realizada por Bruno Meyerfeld, correspondente do jornal Le Monde na América do Sul, e enviado especial ao Vale do Javari (Amazonas) e a Atalaia do Norte, na tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil .

Sempre houve no Brasil um processo de destruição da vida material e simbólica dos povos originários, mas o momento atual se distingue dos anteriores por sua velocidade e profundidade, permitidas e incentivadas pela prática e pelo discurso de representantes e porta vozes do governo atual. A própria existência física dos indígenas está em alto risco, como atestam os mais de 200 assassinatos anuais, além das mortes por epidemias . Só de Covid-19, de acordo com a ONG Instituto Socioambiental (ISA), morreram 1.200.

A reportagem de Bruno Meyerfeld compreende duas partes, cujas ênfases correspondem às duas dimensões do processo que enfrentam os povos originários: ameaças à reprodução da existência material e da vida simbólica.

Pelo lado material, a reportagem revela o cerco que sofre a reserva do Vale do Javari, responsável pela reprodução do povo Kanamari: pescadores e caçadores ilegais a invadem pelo norte, ladrões de madeira pelo oeste, garimpeiros pelo sudeste e fazendeiros pelo sul. Nessa mesma reserva haveria ainda dezesseis grupos indígenas “isolados”, sem vínculos reais com a sociedade brasileira. Uma população entre 300 e 500 indivíduos que pode ser aniquilada.

Segundo lideranças Kanamari, a Funai abandonou a área, não defende os índios nem expulsa mais os invasores. Desde o início do governo atual vem sofrendo um desmonte: seu orçamento não representa mais de 0,02% do orçamento federal, enquanto o território sob sua jurisdição equivale a 13% da área do país. Especialistas antropólogos e indigenistas foram substituídos por militares ou policiais. E seus agentes tiveram as armas confiscadas e foram retirados da floresta. Sem meios de se defender, estão com medo de agir.

Também os indígenas têm razões para cultivar o medo. Alguns meses após a posse de Bolsonaro em 2019, a base de vigilância do Rio Ituí, afluente do Javari, foi atacada várias vezes por caçadores e pescadores ilegais armados. No mesmo ano, um alto funcionário da Funai foi assassinado em Tabatinga. Nesse contexto, os agentes da Funai, quando se deslocam o fazem armados, e preferem não se expor nem falar à imprensa.

Kora, a principal liderança dos Kanamari, afirma que seu povo não tem mais confiança na Funai. Para ele, é hora dos índios conquistarem autonomia e serem ‘donos de seu destino’. Gostaria de construir pontos de observação em pontos estratégicos da reserva controlados pelos próprios Kanamari, mas acaba reconhecendo que não dispõe de recursos para isso.

Na pequeno conjunto de casas onde vivem os Kanamari, a vila de São Luís, a palavra mais pronunciada é ‘abandono’. Na escolinha, não há cadeiras, nem armário, nem tampouco energia. Com um salário de 1.740 reais, a professora de educação infantil, além de ensinar em português e kanamari, limpa as salas, cozinha para os alunos e cuida de algumas crianças que só voltam para casa nos fins de semana. Nos últimos meses, a merenda escolar tem sido principalmente fornecida pelas próprias famílias.

Na dimensão simbólica, a destruição vem da ofensiva evangélica neopentecostal, que transformou Atalaia do Norte em base internacional para missionários. Nos últimos anos, houve várias tentativas de invasão do Vale do Javari pelos “enviados de Deus”. Desembarcam de hidroaviões com o apoio de guias e tradutores para “converter as aldeias”, o que é proibido pela Funai pelo risco que traz às populações isoladas com sistemas imunológicos vulneráveis. O jornal O Globo alerta que metade dos povos “isolados” está ameaçada pelas invasões de missionários.

Aliciam jovens indígenas que estão em Atalaia do Norte para cursar o ensino médio. Depois utilizam os convertidos para pregar a palavra de Deus e ter acesso às aldeias, formando novas bases. Muitos caciques acabam cedendo porque junto com os missionários chegam medicamentos, alimentos, equipamentos, etc. Estabelecidos nas aldeias, chegam às vezes a proibir ritos tradicionais e até línguas indígenas.

A maioria dos missionários é composta de norte-americanos brancos, que chegam em casal e se cercam de pastores nativos convertidos. Para as organizações que os financiam, trata-se de “manter o mito do corajoso missionário branco entre os índios”. Narrativa que abre a possibilidade de arrecadar ainda mais recursos entre os fiéis. Sua influência vem crescendo e multiplicando as conversões. Mais da metade da população Mayoruna [a mais numerosa da reserva] já é evangélica. Essa ofensiva evangélica produz fraturas no movimento indígena e alimenta denúncias de traição entre as etnias locais.

Clique aqui para ler a reportagem ‘No Brasil, o mais próximo possível dos últimos povos ”isolados”’

Aluisio Schumacher é Professor aposentado da Unesp. Atua no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, FFC-Marília.

 

Fonte: Carta Maior.

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