Florestan Fernandes foi um pensador excepcional, um dos mais reconhecidos intelectuais brasileiro pelo rigor teórico, abrangência, fecundidade e originalidade de sua extensa obra, na melhor tradição do marxismo clássico. Suas contribuições seguem extremamente atuais e importantes para a luta política travada pelos trabalhadores hoje. Comemorar o seu centenário é uma oportunidade de difundir e discutir suas ideias, destacando-se entre elas as relativas à questão étnico-racial no Brasil, sua trajetória como intelectual e pensador sobre o socialismo, seu papel político na resistência à ditadura e na Constituinte.

Pensada a partir do conceito de intelectual orgânico, criado pelo filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937), a trajetória de vida de Florestan Fernandes (1920-1995) se distinguiu por sua militância socialmente comprometida. Desde jovem, esteve ele convencido de que um pensador crítico jamais deveria aceitar a rígida distinção entre a investigação científica e a luta pela realização de suas convicções políticas e ideológicas. No seu caso, nunca dissociar a sociologia do socialismo.

“Florestan Fernandes é o fundador da sociologia crítica no Brasil. Toda a sua produção intelectual está impregnada de um estilo de reflexão que questiona a realidade social e o pensamento. As suas contribuições sobre as relações raciais entre negros e brancos, por exemplo, estão atravessadas pelo empenho de interrogar a dinâmica da realidade social, desvendar as tendências desta e, ao mesmo tempo, discutir as interpretações prevalecentes. No mesmo sentido, as suas reflexões sobre os problemas da indução na sociologia avaliam cada uma e todas as teorias, os métodos e as técnicas de pesquisa e explicação, da mesma maneira que oferecem novas contribuições para o conhecimento das condições lógicas e históricas de reconstrução da realidade. Essa perspectiva está presente nas monografias e ensaios sobre o problema indígena, escravatura e abolição, educação e sociedade, folclore e cultura, revolução burguesa, revolução socialista e outros temas da história brasileira e latino-americana. (…) Em uma formulação muito breve, pode-se afirmar que a interpretação do Brasil formulada por Florestan Fernandes revela a formação, os desenvolvimentos, as lutas e as perspectivas do povo brasileiro. Um povo formado por populações indígenas, conquistadores portugueses, africanos trazidos como escravos, imigrantes europeus, árabes e asiáticos incorporados como trabalhadores livres. Mas essa é uma história baseada no escambo e escravidão, no colonialismo e imperialismo, na urbanização e industrialização, por meio da qual se dá, inicialmente, a formação da sociedade de castas, e, posteriormente, da sociedade de classes. Uma história atravessada por lutas sociais da maior importância, desde as revoltas de comunidades indígenas contra os colonizadores às lutas contra o regime de trabalho escravo. História essa que, no século xx, desenvolve-se com as lutas de trabalhadores do campo e da cidade pela conquista de direitos sociais ou pela transformação das estruturas sociais. Uma parte importante dessa contribuição encontra-se em livros como estes: A organização social dos Tupinambá, A integração do negro na sociedade de classes, O negro no mundo dos brancos, Mudanças sociais no Brasil e A revolução burguesa no Brasil, [Octávio Ianni].

Como docente – no Brasil e no exterior –, autor, publicista, tribuno e parlamentar, Florestan esteve sempre comprometido com os interesses sociais e políticos dos “de baixo”; neste sentido, buscou resgatar historicamente a organização social das sociedades indígenas, contribuiu para desmistificar a chamada “democracia racial” no Brasil, empenhou-se na Defesa da Escola Pública, analisou as contradições e as limitações estruturais da democracia capitalista e defendeu radicais transformações do capitalismo dependente na direção do socialismo. Marxismo21 presta uma homenagem a Florestan Fernandes que, em 22 de julho de 2020, completaria 100 anos. Neste dossiê, são divulgados alguns de seus 50 livros, parte das centenas de artigos bem como dezenas de entrevistas concedidas por ele. Igualmente, são divulgados materiais diversos sobre aspectos de sua extensa produção intelectual (livros, artigos, teses/dissertações acadêmicas, entrevistas e resenhas), além de vídeos e filmes.

Acesse aqui o Dossiê Florestan Fernandes: 100 anos

 

Fonte: Marxismo 21.

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ANO XVI – ED. 186 – SETEMBRO DE 2020

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