Para a escritora, roteirista e jornalista Eliana Alves Cruz, que hoje apresenta o “Trilha das Letras”, da TV Brasil, o reconhecimento de autoras e autores negros não é passageiro, veio para ficar – e pode ser a chave para que o país reconte sua história de exclusão.

O fôlego da escritora Eliana Alves Cruz parece não acabar. No momento em que recebeu a reportagem da revista Focus, ela estava às vésperas de embarcar para a Flip, em Paraty. Neste ano, que homenageou a escritora modernista Pagu, a festa literária calhou de ser em novembro, mês da Consciência Negra e em que se anunciam vários prêmios literários, como o Jabuti. No mesmo mês, Eliana voltou às suas atividades jornalísticas e estreou como apresentadora do programa Trilha de Letras, na EBC. E, ainda, relatou estar com três livros em preparação, além de um novo roteiro.

A estreia como romancista foi com o livro Água de Barrela (Ed. Malê),  em 2015. Na obra, a escritora pesquisa e recria na literatura o passado da própria família em três séculos. De lá para cá, foram mais três romances. “O Crime do Cais do Valongo”, “Nada digo de ti, que  em ti não veja” e “Solitária”, um volume de contos (Ed. Malê) e  “A Vestida” (Ed. Cia. das Letras), pelo qual ganhou um prêmio Jabuti na categoria contos.

Em novembro, mais duas estreias para a conta da escritora e jornalista: é uma das roteiristas de “Anderson Spider Silva”, uma minissérie biográfica que conta a história do lutador que dá nome à produção, na Paramount+ e a apresentação da nova temporada do programa “Trilha das Letras”, da TV Brasil.  Como jornalista, Eliana trabalhou na cobertura de esportes e na assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos por 26 anos.

“A literatura é um pouco a prima pobre ainda desse rolezinho da cultura (…). Mas vejo também que a gente está num primeiro ano de hoje, de retomada de um montão de coisas. Eu acho que isso exige um pouquinho de paciência, mas a gente quer uma nação que realmente priorize a educação, a literatura”, diz a escritora, fazendo um balanço sobre esse ano de 2023 depois de seis anos de retrocesso na cultura. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Focus – Colocando em perspectiva a sua trajetória, você saiu do jornalismo para virar escritora de ficção, ganhou prêmio, estava escrevendo e publicando um livro atrás do outro e, agora, você volta um pouco para uma atividade que também é de  jornalista ao assumir a apresentação do Trilha de Letras, programa da estatal TV Brasil. Como tem sido essa experiência?

Eliana Alves Cruz – Eu acho que tudo é texto. A atividade jornalística é muito fascinante, porque ela lida com o dia-a-dia das pessoas. O jornalista tem um poder de contar a história presente, do aqui e agora. Os historiadores se debruçam sobre o que os jornalistas produzem. Se você for pesquisar algo na hemeroteca da Biblioteca Nacional, tem lá um vasto material de jornais dos séculos passados. Um dia aquilo foi presente, hoje é a história. Eu acho que é tudo um pouco carne do mesmo bicho, em pedaços diferentes. Obviamente, a literatura tem uma liberdade que o jornalismo não permite, que é o de fabular, criar personagens, inventar alguns mundos, extrapolar um pouco aquelas linhas do factual. É um desafio muito grande pra gente que se acostumou a olhar o fato tão duro, conseguir olhar além dessas fronteiras. Ir para a ficção foi um exercício muito, muito libertador. Eu acho que eu sempre quis, na verdade, ser escritora. Se a gente vivesse em um outro país, em que houvesse oportunidades para pessoas como eu desde o início, talvez eu tivesse participado de uma formação desse tipo. Acabou que escolhi o jornalismo, pela lida com as palavras, pela lida com a contação de histórias. No jornalismo também se contam histórias, só que reais. Tudo o que eu leio da grande imprensa não deixa de ser uma grande contação de história, porque atrás de cada texto daquele tem um ser humano com o seu olhar para cada texto. Agora, também por conta da minha atividade jornalística, fico com um olhar aguçado a outras coisas. Então, eu consigo olhar e perceber, por exemplo, que quem escreveu determinado texto aqui nunca subiu numa favela. Quem escreveu esse texto aqui nunca sofreu racismo. Quem escreveu esse texto aqui é um homem, nunca sofreu um assédio. Ao fim e ao cabo, todo mundo conta a sua própria história, mesmo que esteja falando de outra pessoa, de outra situação, longe de você. Agora, sobre essa volta para o jornalismo. Na verdade, eu nunca tirei meu pezinho de lá. Eu sempre tive coluna: hoje no portal do ICL Notícias, antes escrevia para o UOL. Sempre tenho uma âncora na realidade para não voar muito. Apresentar um programa na televisão é um grande  desafio, porque você dá o rosto, dá voz… Perguntar, questionar, tudo isso também tem sido um desafio muito interessante, muito bonito. Até porque eu acho que são as pazes que a gente faz com a gente mesmo, com a profissão, com a própria imagem.

– O programa, até agora, tem se concentrado no trabalho de autores consagrados da literatura escrita por pessoas negras, como Itamar Vieira, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo… é esse o plano ou foi por acaso?

– Não, não é um plano. Estreamos em 2 de novembro e novembro é o mês da Consciência Negra. Acabou que não foi nem de propósito a estreia no 2 de novembro, mas veio bem a calhar. Já que eu sou uma apresentadora negra, no mês da Consciência Negra, nada mais natural que a gente ter um bloco de programas com autores consagrados, que, por acaso, são pessoas negras. A Conceição, o Itamar, a Ana Maria são best-seller inquestionáveis. A Conceição é autora pop, muito requisitada, reconhecida nacional e internacionalmente. Começamos com esses três nomes por todos esses motivos e a gente deve fechar esse bloco de quatro com Stefano Volp, um jovem autor que também já é um best-seller, muito lido pelo público de jovens adultos, o que é um fenômeno bastante interessante. São pessoas emblemáticas dentro dos seus segmentos, das suas escritas. É um programa de literatura, então pretendemos chamar autores os mais diversos, autores e autoras brancos, pessoas indígenas, gente que escreve literatura infantil, juvenil, não-ficção. Pessoas do mundo do livro também, editores, livreiros, leitores. Nesse momento de reinício desse programa, nós optamos por escritores porque ele estava há quatro anos fora do ar. Ele foi um dos primeiros dos  programas limados pelos governos passados [governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro]. Não por acaso. Literatura, livro, são coisas que fazem pensar, que incomodam muito. Por isso acho que precisa de uma retomada grande, pra gente se alicerçar no livro. O programa é sobre literatura, então, nesse primeiro momento os temas serão escritores e, mais no futuro, livros. Espero que logo a gente amplie esse leque, para trazer todo o mundo do livro para o programa.

– Sempre lembramos dos quatro anos de retrocesso e você falou em seis, porque tudo isso começou…

– A gente esquece esse período de dois aninhos ali que foram a antessala do inferno que a gente viveu depois.

– Agora a gente tem o Ministério da Cultura de volta. Como você está vendo as mudanças para o mercado editorial e a literatura brasileira?

– Eu vejo uma mudança obviamente radical. A gente já tem editais. Agora saiu o resultado do Prêmio Carolina Maria de Jesus, que foi um concurso de literatura do Ministério da Cultura para novos nomes de mulheres negras que escrevem. Eu sou fruto de uma política pública de cultura. Acho que o meu foi um dos últimos concursos do governo Dilma, em 2015. Como escritora, sou fruto de uma política pública de cultura. É uma política de cotas, não deixa de ser, pois foi por intermédio da Fundação Cultural Palmares que, vendo uma lacuna, uma ausência de escritoras que produzissem romances, promoveu o Prêmio Oliveira Silveira – e ganhei esse concurso.  Eu vejo agora um  Estado interessado, aliado da cultura. Você tem um governo que se interessa por cultura, que entende que isso, para além de ser a nossa marca como nação, é o que nos é devido. E tem de ser tratado como uma indústria, com o mínimo de condições para produzir e circular. É um segmento que emprega muita gente, que oportuniza muitas coisas e pessoas novas para as nossas artes e nossos fazeres culturais. Agora, tem muita coisa ainda a fazer. Eu acho que a literatura é um pouco a prima pobre ainda desse desse rolezinho da cultura, porque eu vejo editais no audiovisual, montam um monte de coisas, aí em outras áreas de literatura, ainda um pouco timidamente. Mas a gente está num primeiro ano de retomada. Isso exige um pouquinho de paciência. A gente quer uma nação que realmente priorize a educação, a literatura. Elas vão precisar caminhar juntas ali. Sabe por quê? Porque os livros são a primeira porta para esse mundo das letras, esse mundo da imaginação, do aprendizado. Não há muito como a gente fugir disso. A gente vê as grandes nações leitoras, o que elas produzem e como esse mercado é aquecido, como isso favorece essas sociedades. Eu tenho esperanças de que num futuro próximo tenhamos outras iniciativas.

– Na sua opinião, quais políticas públicas consistentes poderiam virar políticas de Estado na área de literatura, da leitura, do acesso ao livro?

– Eu acho que os escritores vão sobreviver na medida em que existirem mais leitores num país continental como o Brasil. Éramos para ser uma potência, tanto no surgimento de grandes nomes para a literatura do mundo, como numa na produção e distribuição de livros. Isso era pra ser um mercadão. E por que não é? Por que a gente tem taxas para o livro? É caro. A gente tem uma política que olha o livro como algo elitizado e uma população que se afasta da leitura. Isso também tem algo a ver com um gap educacional muito grande. Muitas pessoas passam na porta da livraria, mas não ousam entrar porque acham que aquele não é o mundo para elas, ou numa biblioteca, e se intimidam. É papel do Estado democratizar esse acesso, fazendo mais programas dentro das bibliotecas, levando escolas para dentro delas, para que as pessoas entendam que esse não é um ambiente intimidador, pelo contrário, é um ambiente acolhedor. E aí vem uma coisa que você me perguntou no início sobre o fato de termos escritores negros abrindo o program: as pessoas precisam se ver nas histórias que são contadas. Eu fui uma criança que eu não me via nas histórias que eu lia na escola. Nunca li um autor negro na escola, imagina ver um pessoalmente. Eu nem achava que existia. Eu fui entender que isso que existiam autores negros olhando a gringa, olhando lá nos Estados Unidos. Na minha época – eu sou uma criança dos anos 70, 80 –  não existiam publicações voltadas para o público negro. Até que meu pai resolveu assinar uma revista americana, a revista Ebony, não me esqueço. Lá tinha uma sessão de literatura e ali que eu descobri os autores negros. Eu ficava: ‘olha esses autores, olha isso aqui’. É muito  importante que as pessoas se vejam. É óbvio que o lugar do estranhamento é importante. É evidentemente importante a gente ler literatura russa, os caras escreviam demais. Quem não gosta de contista russo, não sabe o que é que ler. É muito maravilhoso aquilo, outras realidades, outros mundos. Mas a gente também precisa estar incluído no mundo. A gente precisa ler e ver que a gente está ali. Isso, isso eu acho que é um pulo do gato para trazer o público para a literatura, para democratizar, facilitar o aprendizado, facilitar a descoberta de outras realidades que tocam a nossa. Tem coisas sofisticadíssimas hoje, como a etnomatemática. Essa matemática é uma forma de ensino de matemática para pessoas que são descendentes de africanos. Na África existe uma técnica chamada sona [uma forma de escrita], que são desenhos. Essa técnica facilita o aprendizado das crianças em matemática, que é um problema na educação brasileira. Ou seja, olha que mundo maravilhoso a gente tem para descobrir, mas que a gente fica limitado porque não há um investimento, nem um interesse, nenhum debate sobre isso. Acho que seria papel do Estado promover isso, porque não há o interesse comercial.

– Há uma redescoberta – e, em alguns casos, descoberta – de uma literatura negra brasileira, que vai desde entender que Machado de Assis não era branco até as homenagens à Maria Carolina de Jesus, que voltou a ser lida, inclusive nas escolas. Você acha que esse é um movimento consistente do mercado ou é uma espécie de modismo? Se for modismo, o que fazer para que essa literatura não volte a submergir?

– Modismo não é. A gente tem que entender que a nossa primeira escritora foi uma mulher negra, a Maria Firmina dos Reis. O nosso primeiro escritor foi um homem negro, Teixeira de Sousa, O nosso primeiro editor foi um homem negro, Paula Souza. O fundador da Academia Brasileira de Letras e primeiro presidente era um homem negro, Machado de Assis. Veja que não dá para chamar de modismo. O que a gente tem é um apagamento muito sério. Nós temos uma publicação chamada Cadernos Negros, que há 45 anos é editada, ininterruptamente, uma coletânea com, no mínimo, 15 autores. Onde estão essas pessoas todas? Faz as contas de quantos autores negros tem nesse período. Tem o Literafro, site da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), organizado pelo professor Eduardo de Assis, também fundador. Ali tem quase todos os autores negros. É muita gente. Onde estão essas pessoas todas nas prateleiras das livrarias? Não é um modismo – é, na verdade, um movimento muito consistente e perene. As grandes editoras comerciais estarem descobrindo esse movimento agora não é à toa. É porque existe um mercado. Não foram elas que criaram esse mercado, foram essas pessoas que criaram esse público leitor que está oxigenando a literatura nacional. O que dá essa sensação de que é um modismo é justamente porque os grandes prêmios, as grandes vitrines, a mídia hegemônica não dava rosto, não dava voz para essas pessoas. Mas elas sempre estiveram aí. A Conceição escreve desde os 46 anos, mas publicou seu primeiro romance, Ponciá Vicencio, aos 57 anos e pagando do próprio bolso. Com esta mesma idade em que ela publicou o Ponciá eu já tenho 4 romances e vários prêmios, entre eles um Jabuti. Antes, ela já publicava nos Cadernos Negros. Ela já estava aí desde os 46 anos e só foi reconhecida aos 70. Ao que creditamos essa exclusão? A gente tem um nome muito específico para isso, que se chama racismo. Racismo estrutural, institucional etc. É isso. E isso é bem óbvio. Caso as editoras resolvam não mais publicar esses autores, eles vão continuar escrevendo e vão continuar publicando. Inclusive por que suas próprias editoras já estão também sendo fortalecidas. Eu sou muito à vontade para falar sobre isso, porque eu sou fruto de uma política pública de cultura. Publiquei meu primeiro livro, O Água de Barrela, por um concurso público da Fundação Palmares. Depois publiquei O Crime do Cais de Valongo pela editora Malê, que era uma editora que tinha um ano de vida, uma editora fundada por um bibliotecário negro, o Vagner Amaro. O livro com que ganhei o Jabuti é da Malê, “A Vestida”. O  Solitária saiu pela Companhia das Letras, num outro momento da minha carreira. Tenho uma carreira começada, incentivada por um movimento negro que queria se ver, queria ser retratado e queria ler a sua história. Tem uma demanda reprimida: essas pessoas querem ler suas histórias. Tem muita coisa ainda a ser dita, não é? Eu acho que o movimento é sem volta, porque a Malê, por exemplo, hoje já está com quase oito anos e já tem mais de 150 autores publicados. É livro que não acaba mais. Já tem um Jabuti, uma outra estrutura. Conseguiram entender como funciona o mercado. A rebote, outras editoras também começam a crescer e a isso nós chamamos de democratização da cultura. As grandes editoras estão olhando esse movimento todo. É óbvio que, de uma quantidade enorme de pessoas que ousam escrever, nós vamos tirar os seus expoentes. Da quantidade, a gente vai afunilando para a qualidade. Tem aqueles autores que vão se destacar mais que os outros e isso é natural em qualquer mercado. Mas essa apropriação da palavra, esse é um movimento belíssimo. É belíssimo que as pessoas entendam que elas também podem, que elas têm esse direito e é algo que não tem volta porque nunca, nunca deixou de ser.

– Belíssimo e necessário. O que eu li de autores negros brasileiros nos últimos anos é incomparável com os meus primeiros 30 anos como leitora…  Usei a palavra modismo e talvez tenha usado errado, mas estava querendo me referir não apenas à produção, mas de uma certa atenção midiática. Eu acho que o que aconteceu com a literatura, me corrija se estiver incorreta, foi um fenômeno que na música pop se chama de crossover, ou seja, o público em geral, não negro, começou a ler literatura negra a partir de alguns alguns grandes sucessos, como Ana Maria Gonçalves, o Itamar Vieira etc. Você acha que foi isso que aconteceu?

– Eu acho que são estágios: primeiro, você tem uma curiosidade. Eu acho que muitas pessoas são fisgadas pela curiosidade de saber exatamente o que tem ali e depois elas se interessam verdadeiramente, porque elas entendem que a história também é delas. Quando você lê um livro como Solitária, que tem uma família branca, de classe média alta, que tem dois empregos, tem uma empregada doméstica que tem uma filha e que leva essa filha pro trabalho… Em algum lugar desse grupo de personagens, o leitor, a leitora está: ou você é a empregada ou você foi a filha da empregada, ou você foi o patrão, ou você foi a patroa etc. Você esteve numa dessas posições. Então, quando as pessoas lêem, elas entendem que é uma história delas também e começam a se questionar. É verdadeiramente isso que eu acho mais interessante e mais enriquecedor nesse processo. Esse livro pegou muito a garotada. Ele é muito lido por uma garotada de 17, 18 anos… Já fui a muitas escolas, escolas ricas e majoritariamente brancas. Fui uma escola que só tinha um menino negro em 100 alunos, uma escola que é de classe alta aqui no Rio de Janeiro, e foi incrível a interação. Uma menina me perguntou assim: “Tá, mas como é que a gente muda essa realidade? Qual é o nosso papel?” Eu falei: “Olha, se tem alguém que pode mudar essa realidade é você. Porque nesse exato momento, está sendo formada a elite que, num futuro muito próximo, daqui a dez anos, vai estar nos postos de mando das grandes empresas. Se existe um lugar onde essa realidade pode ser transformada, é aqui, agora, nessa plateia.” Eles se olharam um pouco intrigados: “Eu quero que vocês pensem, quando vocês voltarem para casa, naquela pessoa que fez a comida para vocês, como vocês a tratam? Como vocês tratam o porteiro? Como vocês enxergam essas pessoas? Todos esses questionamentos é que vão fazer a mudança. Ou não.” Foi um diálogo incrível. Eu vejo que tem uma geração realmente muito interessada e que já está num outro momento do debate, mais aprofundado e menos raso das coisas, o que também é fruto desse tensionamento que tem sido feito pela literatura, pela cultura de um modo geral. E é isso que eu acho que é óbvio. A gente sempre vai ter uma reação, sempre vai ter quem acha que está sendo condescendente com o que a gente escreve… Mas isso aí do jogo em um país racista como o Brasil, mas a gente prospecta outras coisas nas quais a gente bota nosso foco, na construção dessa ponte que você mencionou e o sistema literário também compreende isso.

– Até onde você consegue enxergar,  a academia também está atenta? Está, de fato, estudando mais autores negros? 

– Sim, nós temos já uma ou duas gerações formadas pelas cotas e que já estão retornando pra academia como acadêmicos, como professores, como orientadores de teses e de livros de pesquisas. A gente já tem uma geração que tem um outro olhar sobre essa produção. Mas a academia ainda é um lugar muito tenso, ainda é um lugar muito violento, de disputa de narrativa – essa palavra que popularizou de um jeito meio torto. Existe uma disputa e é algo bem violento mesmo, no nível em que as pessoas até somatizam. A gente não pode fechar o olho para isso não. É seríssimo o que acontece nessas bancas de mestrado e doutorado etc. Mesmo dentro das salas de aula, tem uma série de violências subjetivas e sutis, mas não menos mortais e não menos arrasadoras. A gente tem um índice de suicídio grande entre estudantes negros. Esse é um tabu do qual poucas pessoas falam. Por que isso? Por que que ambiente é esse que oprime e esse ponto da pessoa perder a esperança pela própria vida? Que mutilação é essa que acontece ali dentro? Eu acho que a gente precisa olhar isso com muito cuidado. Isso tem a ver com tudo isso que a gente conversou aqui até agora. E a academia ainda é um lugar tenso, embora tenha mudado muito, sei lá quantos por cento, mas bastante gente caminhou. Nossa, mas ainda faltam léguas pela frente.

– Em 2022, derrotamos o fascismo pela via eleitoral, restabelecemos a democracia, enfim, respira-se melhor. Qual o papel da literatura nesse, digamos, renascimento? Como a literatura pode ajudar o Brasil?

– Eu acho que a literatura, justamente por essa liberdade que ela tem de fabular, de imaginar, ela pode imaginar um futuro para o Brasil. Ela pode imaginar que identidade brasileira é essa. Ela pode imaginar cenários, cidades, formas de governo, de organização política e organização social com base em outras inspirações do que as tradicionais. Eu acho que a gente tem essa, digamos, porta para o sonho, mas eu acho que a gente tem uma porta para algumas coisas muito concretas, que falam do nosso DNA, da nossa pluralidade, de outras ancestralidades. A gente tem a chance de que o Brasil consiga olhar o tanto de outros países que existem aqui dentro. Temos uma ilusão de unidade por conta da nossa aparente unidade linguística: todo mundo fala português, todo mundo a gente acha que o Brasil é uma coisa só e não é. A gente tem uma realidade no Norte que é completamente diferente do Nordeste, Sudeste, Sul. A gente tem idiomas diferentes. Sim. Há uma palavra que significa uma coisa no Rio de Janeiro e completamente outra no Pará e por aí vai. Com a literatura, a gente tem a chance de olhar a nossa formação de uma forma muito bonita e ver como é único o Brasil, como ele é realmente um lugar muito especial no mundo, onde muitas coisas convergiram. A gente agora tem um ambiente infinitamente mais salubre. A gente estava num ambiente insalubre e estávamos conseguindo respirar. A gente tava assim em meio a um lixo, um lixo emocional que se transbordava nas redes sociais, no nosso dia-a-dia, uma agressão quase que gratuita. Eu sofri algumas agressões nesse período aí, como dizem os jovens, do nada! Mas não é do nada. Na verdade, são incômodos que sempre estiveram e que as pessoas se sentiram autorizadas para colocar para fora, foram legitimadas e disseram: “Olha, eu estou aqui agora, vocês podem fazer o que vocês quiserem, vocês podem dizer o que vocês quiserem.” Usaram truques muito, muito baratos. Disfarçaram de liberdade de expressão o puro ódio e desejo de aniquilamento do diferente, do outro e da outra. Acho que o Brasil tem uma possibilidade agora imensa, mas a gente precisa se cuidar, porque nada, nada foi eliminado definitivamente. Sabemos que tudo o que a gente passou foi uma sequela de anos e anos de repressão: ditadura militar, escravidão, colonização… São coisas que a gente vai empurrando e aí, numa hora aquilo tudo transborda. É hora de olhar a vida brasileira com mais realidade e sanar os problemas de uma forma mais adulta. Por exemplo, a questão da representatividade. As pessoas dizem assim, cheias de desconfiança: identitarismo, botam esse rótulo. Ora, me defina identitarismo. Sabe, eu estive no Congresso Nacional, fui lá num programa da TV Câmara.  Eu nunca tinha ido. Nunca tinha entrado na Câmara dos Deputados. Tem uma parede com as fotografias dos presidentes da Câmara e do Senado de décadas e décadas… Só homens brancos, alguns são aquele branco brasileiro com aquela passabilidade que, na hora que interessa é branco, na hora que interessa é preto. Nenhuma uma mulher como eu, da minha cor ali, inequivocamente negra, nenhum homem inequivocamente negro. Isso é muito estarrecedor. E é estarrecedor que as pessoas digam que a minha luta é identitária. Não, é a dessas pessoas que é identitária e bem-sucedida, porque elas estão há séculos no poder. Se isso não é uma militância muito bem feita… Você tem um grupo que se perpetua por 500 anos no poder.  Quer um grupo mais identitário que esse? Do homem branco? São distorções que as pessoas  foram engolindo. Pauta identitária é dessa galera que quer ficar eternamente no poder, não quer dividir privilégio nenhum. A democracia, ela tem suas dores para alguns grupos, porque você vai precisar abrir um espaço para o coleguinha,  não tem jeito.  É feita de erros e acertos. A literatura é boa porque a gente pode inventar bastante, a gente pode fabular muitas coisas, mas pode espelhar outras e colocar assim: se é inspirado em fatos reais, é mera coincidência. A gente vai dizer que é mera coincidência.

– E está dando tempo para escrever?

– Não, não está… Quer dizer, eu estou escrevendo audiovisual. Saiu agora a série sobre o Anderson Silva (Anderson Spider Silva, Paramount+). Eu era uma das dez roteiristas. É a série de um lutador. Só que a gente não contou a história do lutador sem contar a história da família dele. Então, é uma história que está surpreendendo muitas pessoas, porque você acha que vai vir aquela sangueira, muita cena de luta e não é sobre isso. E as pessoas entram para ver e sentem que tem um negócio diferente ali: quem foi que escreveu isso? A sala é toda negra, porque a gente queria uma família que não fosse disfuncional, como a família do Anderson Silva não é disfuncional. É uma família como outra qualquer, com todos os seus problemas e todas as suas coisas incríveis e coisas ruins e que deu num ídolo do esporte. É um pouco isso, é a gente desviar o olhar. É o que eu estou fazendo, estou escrevendo audiovisual.  Tem uma outra série também que vai sair, que sou uma das criadoras. E eu ainda estou escrevendo três livros de ficção. Um tem um diálogo mais próximo da Solitária, o outro tem essa pegada histórica, são histórias que caminham em paralelo ao Água de Barrela e vai formar uma trilogia. No ano que vem eu devo publicar um outro romance e em 2026 devem sair esses dois juntos para completar a caixa do Água de Barrela, com os dez anos do lançamento. É só tudo isso. Invento muita moda, porque  as ideias vão aparecendo e eu vou dando um jeito.

– Você é inquieta na criação?

– Eu tenho muita pressa, mas é uma coisa que eu acho que o jornalismo me deu. Eu trabalhei anos com esporte, eu também fui uma criança que praticou esporte, escrevi em revista de esporte… Uma coisa que o esporte me deu foi uma perfeita noção de timing. O cara treina quatro anos da vida dele para uma prova de 50 metros livres, que são 20 segundos. Em 20 segundos,  ele decide quatro anos da vida dele. Ele pode ser ouro,  prata, bronze ou nada. Se ele escorregar, ele perdeu quatro anos. Trabalhar com esporte me deu esse sentido de tempo, isso de agora eu “preciso fazer”, me deu o treinamento para isso. Enquanto o cara está nadando lá, eu estou escrevendo aqui e aí tem uma entrevista acontecendo acolá… Isso me treinou para ser rápida no pensamento e na transmissão da escrita. Nas piores circunstâncias, eu consigo escrever. Mesmo que não saia perfeito, eu escrevo. Aí depois releio e vou debulhando, revendo aquilo. Eu até brinquei sobre isso numa rede social: se eu fosse ter um superpoder seria esse de conseguir escrever muita coisa ao mesmo tempo.. Tudo o que a gente faz na vida a gente usa, quase nada a gente joga fora.

 

Fonte: Revista Focus.

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