Por Eduardo Guerreiro Losso

 

I- Cultura da agressividade

 

No dia 15 de junho, num encontro com religiosos em Brasília, o presidente disse que Jesus “não comprou pistola porque não tinha naquela época”. A declaração combina com toda uma verdadeira reformulação armamentista do cristianismo pela associação entre bancada evangélica e bancada da bala.

Essa é apenas mais uma das numerosas declarações chocantes que estimulam sua base e provocam reações indignadas da oposição, que, por sua vez, a replicam. O caráter de escândalo das afirmações do exímio influencer que é Bolsonaro obriga a todos, aliados e adversários, a se ocuparem de sua presença ininterrupta.

Seus intermináveis ataques à esquerda, ao STF, ao TSE, aos ambientalistas e mais recentemente à Petrobrás não caracterizam, contudo, uma inquietude superficial. Eles contêm objetivo, método e resultado prático, o que os melhores analistas diariamente decifram.

Vale a pena destacar as implicações do uso desse tipo de linguagem truculenta. Pretendo levantar um tópico que, embora tenha sido reconhecido, foi pouco analisado: a estética bolsonarista.

A fala rude e ofensiva do presidente, da sua família e da equipe do governo compreende um valor estético, uma visão de mundo e um modo de vida que influencia diretamente não só a robusta base fiel como também todo um extenso entorno conservador da população brasileira. Ela erige um tipo inédito de cultura: uma cultura da agressividade empoderada.

 

II- Aristocratismo e ressentimento

Quando movimentos identitários se referem ao conceito de empoderamento, esses grupos estão mobilizando o deslocamento da opressão que os marginaliza de modo a tornar possível o exercício da uma liberdade que não se submete a relações de poder patriarcais, racistas e heteronormativas. Setores oprimidos são empoderados não para tomar o poder de alguém e reter só para si mesmo, mas para desfazer uma lógica de dominação.  É um dos poucos efeitos positivos do esgarçamento do espaço público devido à exposição individual e coletiva das redes sociais.

Porém, os efeitos negativos são preponderantes e deram voz a um tipo social nada oprimido que, mesmo assim, não deixou de se sentir desvalorizado: o homem machista conservador pouco cultivado, que frequentemente não adquiriu reconhecimento profissional e caiu numa zona de semiformação muito propensa ao ressentimento.

Diante da sofisticação da elite progressista intelectualizada, o conservador machista pouco afeito a reflexões, problematizações e sutilezas se sente profundamente inferiorizado, pois se vê a si mesmo como bronco, pobre de expressão e compreensão.

Somado aos questionamentos que a esquerda de fato tem feito a respeito de sua posição privilegiada e majoritária, tal faixa social não conseguiria se colocar em outro lugar senão ao lado de quem ela se identifica. Desde o pós-guerra não se viam líderes que incorporassem um comportamento tão desinibido, arrogante, ultrajante e convencido, mas que, aos olhos dessa zona social, são vistos como autênticos, espontâneos, sinceros e francos.

A elegância da elite progressista, que cria cada vez mais distintivos de concepção, indumentária, culinária, cultura e conhecimento não deixou de produzir uma espécie de aristocratismo burguês de conduta. Quando o repertório ambiental, vegano, feminista e racial aumentou a pressão, o setor conservador, já fragilizado por décadas de progressistas reconhecidos, seguramente entendeu ser esse um avanço intolerável.

Bolsonaro e Olavo de Carvalho souberam não só capturar tal insatisfação como se antecipar à vanguarda identitária violentando-a ainda mais do que tem sido por ela questionada. Mesmo uma classe média moderada não esperava ser assaltada pela truculência desses tipos subterrâneos, que pareciam feitos para não saírem da sombra. De qualquer modo, a sociedade brasileira foi sendo cada vez mais tomada pela cultura da violência, seja na cultura de massa, seja no noticiário de atrocidades, seja na guerra do tráfico, seja no avanço da milícia dos territórios periféricos. Cada vez mais, a consequência da ausência de Estado social na periferia foi a invasão neopentecostal dos espaços políticos, legislativos e culturais.

 

III- Empoderamentos antípodas

 

Até hoje o setor progressista está em estado de perplexidade, chocado com o absurdo dos ataques bolsonaristas que estabelecem uma verdadeira contrarrevolução cultural. No entanto, é preciso ligar os fios soltos e juntar os pontos.

A esquerda acadêmica aprendeu a respeitar e analisar diversas manifestações culturais periféricas, anteriormente vistas como vulgares. O reconhecimento intelectual da cultura periférica, ligada aos objetivos políticos afins, resultou no empoderamento do modo de ser marginal.

Já a extrema-direita evangélica, agropecuária, militar e armamentista não quis ficar atrás e produziu o empoderamento do modo de ser reacionário: diante da revolução marginal, responde-se com a contrarrevolução patriarcal. A revolução marginal conseguiu especialmente mais espaço cultural, simbólico e representativo. Já a contrarrevolução patriarcal não se contentou em defender o território perdido: ela avançou de modo inédito ao dobrar suas apostas na depredação institucional, na tomada por cima de cargos públicos, na sua descaracterização e na ultrapassagem da fronteira de uma série de protocolos explícitos e implícitos de conduta pública.

Enquanto o empoderamento identitário cria toda uma reeducação da linguagem de tratamento, do que dizer e do que não dizer, como se reposicionar e se desconstruir, que confunde, envergonha e constrange as pessoas em posição de privilégio nos territórios progressistas, o bolsonarista ostenta sua deseducação obscena, bárbara e hedionda.

Enquanto, no território progressista, pequenos gestos e palavras podem acionar grande indignação, no território reacionário, quanto mais brutalidade melhor. E quando os dois universos se debatem, o machismo assumido do bolsonarista goza do escândalo que cria no protesto progressista. Como disse Bolsonaro a Maria do Rosário, em 2003: “jamais iria estuprar você, porque você não merece”. Na época, ele não passava de um deputado menor, visto como excrescência; hoje, já estamos contraditoriamente acostumados com o intolerável pesadelo.

A estética da truculência bolsonarista é uma cultura violenta que violenta a cultura. É uma linguagem violenta que violenta a linguagem. Não se trata de uma antiarte produtiva para a arte. A estética bolsonarista esmaga a cultura, empobrece a linguagem e se satisfaz com a terra arrasada. Tal esmagamento se dá tanto no âmbito institucional e financeiro quanto no âmbito da depreciação do inimigo diante da nudez da grosseria.

Toda a comunidade acadêmica, científica, cultural, educacional, funcionalista, intelectual e militante vive sob o medo de mais uma declaração intimidadora do líder. Nesse sentido, é uma sorte de tortura verbal, praticada não só pelo gabinete do ódio, mas especialmente pelo requinte sádico do Chicago boy Paulo Guedes. O que mais impressiona nem é a intenção ululante de massacrar muitas classes profissionais altamente competentes, mas é constatar que tal agressividade espontânea é, antes de mais nada, um modo de ser, que se tornou política e culturalmente empoderado: o empoderamento torturador.

No extremo oposto da reformulação minuciosa da cultura identitária, o arsenal governista promove uma orgia de intimidações, assédios e ameaças, com muito prazer e desinibição. Se o torturador real era oculto no passado, hoje o torturador simbólico é explícito. Houve uma ascensão gloriosa do porão da ditadura no espetáculo midiático e digital da realidade política, integralmente estetizada.

Para quem tanto se esforça por se despojar de hábitos machistas, racistas e preconceituosos, o modo de ser da contrarrevolução patriarcal escancara voluntariamente os defeitos que mesmo involuntariamente hoje muito envergonham quem ainda neles resvala. A estética reacionária não deixa de ser uma cultura do estupro: estupro da linguagem na idade de sua reformulação inclusiva, estupro da cultura na idade de sua diversidade marginal.

Não há consequência mais funesta para o espaço público do que a desinibição do gesto agressivo dentro de uma sociedade radicalmente dividida. Ela é fruto da horizontalização das relações de poder nas redes sociais, mas foi levada às últimas consequências na cultura da violência reacionária. Por conseguinte, vivemos numa guerra cultural incessante, em que a linguagem se torna instrumento de bombardeios vindos de cima das autoridades governamentais, como bombas soltas por ataques aéreos, que atingem o cidadão desprotegido no meio do noticiário.

 

Eduardo Guerreiro Losso é professor associado do programa de pós-graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, bolsista produtividade do CNPQ e editor da Revista Terceira Margem.

 

Fonte: Revista Cult.

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ANO XVIII – EDIÇÃO Nº 212 – NOVEMBRO 2022

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