[Pela primeira vez, em 70 anos, a Bienal de São Paulo tem curadores negros | Imagem: Levi Fanan, Fundação Bienal de São Paulo]

 

Por Ana Paula Sousa

A exposição Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, inaugurada em 02/08 no Sesc Belenzinho, na Zona Leste de São Paulo e que fica em cartaz até janeiro do ano que vem, apresenta-se como “a mais abrangente exposição dedicada exclusivamente à produção de artistas negros já realizada no País.

Alguns dos nomes presentes no Sesc também poderão ser vistos, dentro de um mês, no Pavilhão Cicillo Matarazzo, projetado por Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera, dentro da 35ª Bienal de São Paulo – a primeira, em 72 anos, a ter na curadoria pessoas negras.

“Essa curadoria nasce dentro de um importante debate que tem ocupado as instituições culturais e de uma luta em torno dos regimes de visibilidade e representatividade na arte e na cultura”, diz Diane Lima, que assina a curadoria da Bienal ao lado da da portuguesa Grada ­Quilomba, do espanhol Manuel Borja-Villel e do brasileiro Hélio Menezes, que esteve também na gênese da mostra do Sesc. “Essa união desafia uma lógica histórica que fez com que nunca houvesse aparecido, na Bienal, um curador ou curadora negra.”

Visualidades. Mangue, aquarela e grafite sobre tela de Rosana Paulino, é uma das 121 obras selecionadas para o evento – Imagem: Galeria Mendes Wood DM

Construída a partir do conceito de “coreografias do impossível”, a próxima Bienal, que terá início dia 6 de setembro, pôs fim à hierarquia curatorial e também a qualquer forma de hierarquia na organização das obras. Não há recortes geográficos, temporais ou raciais.

“Pensar em lugar de fala atualmente significa também pensar de onde falamos, e em quais contextos. Alguns desses contextos vêm de séculos – entre eles, estão o racismo, a escravidão e o colonialismo”, pontua Borja-Villel. “A cultura é um lugar de batalhas e disputas. Quem determina o que é possível e o que é impossível?”.

Ao tomar essa pergunta como bússola, a curadoria da 35ª Bienal dá forma ao processo que, nos anos recentes, vem transformando os museus brasileiros e tornando possível aquilo que, durante um século, pareceu impossível. “O contexto da arte é, ou era, impossível para a maioria dos artistas que serão expostos na Bienal”, diz Diane. “Ao inseri-los numa historicidade da arte, por meio da Bienal, ampliamos as noções de produção de conhecimento.”

É nesse ponto que a exposição do Sesc e a Bienal convergem. A ideia para a mostra Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro remonta a 2018 e teve, como eixo fundamental, a rea­lização de viagens por todos os estados brasileiros. O objetivo dos organizadores era tomar contato com a produção afro-brasileira que, mesmo no contexto de maior visibilidade de tantos artistas negros, seguia incógnita.

Representações. Flávio Cerqueira é um dos 240 artistas negros presentes na exposição Dos Brasis, no Sesc Belenzinho – Imagem: Rômulo Fialdini

Ao falar sobre essas viagens, os curadores Igor Simões, Marcelo Campos e Lorraine Mendes fogem de palavras como mapeamento e inventário. O posicionamento linguístico busca, justamente, romper com a ideia das antigas viagens nas quais os pesquisadores reuniam objetos para trazê-los para as capitais.

“A lógica de mapeamento reproduz uma lógica colonial”, diz Lorraine. “Nós não chegamos aos lugares para fazer uma leitura da crítica da produção, mas para aprender também. E o que eu posso te dizer é que nada nos preparou para a história dessas pessoas.

Nas viagens, os curadores reuniam-se com artistas e buscavam entender suas próprias lacunas ao mesmo tempo que levavam os criadores a refletir sobre o seu fazer. Na Paraíba, por exemplo, esses encontros levaram à criação de um edital local para artistas visuais.

Outro dos resultados desse processo foi a multiplicidade de linguagens representadas na mostra. Dentre as obras dos 240 artistas negros selecionados há de tudo: pintura, fotografia, escultura e instalações produzidas entre o fim do século XVIII e o século XXI. Os curadores procuram reagir, dessa forma, ao que entendem como uma predominância dos quadros e da pintura figurativa na arte afro-brasileira que tem conquistado mais espaço no mercado – ou seja, que vem sendo adquirida por instituições e colecionadores privados.

Quando questionado sobre os possíveis riscos implicados em um recorte racial – que, na visão de alguns curadores e artistas pode, em determinadas situações, reiterar a ideia do artista negro como um “outro” – Igor Simões responde: não se trata de uma categoria artística, mas sim de uma categoria política.

“O cânone da arte brasileira sempre foi, na verdade, o de uma arte branco-brasileira. Uso esse conceito para dizer o óbvio: 90% ou mais do acervo dos museus foi formado a partir de artistas brancos, curadores brancos e colecionadores brancos, que, de posse de seus privilégios, definiram o que é bom ou ruim”, pontua ele. “Para os artistas pobres e pretos foram criadas categorias como arte ­ingênua, popular ou naïf. Será que, se uma mulher negra tivesse pintado bandeirinhas e fachadas planas, ela seria digna de estar num museu até os anos 2000?”.

Toni Baptiste e Flávio Camargo, artistas que, 15 anos atrás, criaram o Coletivo Coletores, sabem muito bem que não. Os negros e pobres, dizem eles, ficavam fora não apenas das paredes dos museus, mas dos próprios museus. “A gente vem da região de São Mateus e São Miguel Paulista (Zona Leste de São Paulo) e somos de uma geração que não tinha Sesc, não tinha CEU. Nossa experiência cultural só se dava quando a gente circulava pela cidade”, diz Baptiste. “Mas essa chegada ao Centro sempre foi marcada por opressões: muros, grades, alambrados, portas giratórias, roletas.”.

Espaço público. O Coletivo Coletores faz intervenções com videomapping nas cidades e em monumentos para jogar luz sobre personalidades negras – Imagem: Coletivo Coletores

O Coletivo Coletores, fez, no dia 25 de julho, uma intervenção em ­videomapping na fachada do Museu Nacional da República, em Brasília, espaço que também exibe uma seleção com mais de 250 de suas obras. Outra intervenção pode ser vista até 10 de setembro na Casa Natura Musical, em São Paulo.

“São manifestações que reclamam a cidade para si e têm a cidade como obra, tema e suporte”, define Baptiste. “Nossas obras incorporam experiências como o ‘picho’, o grafite, o skate, e que discutem os símbolos e ícones da cidade que funcionam como formas de opressão”, diz. Dentre os monumentos nos quais o Coletores fez intervenções com ­videomapping estão o Borba Gato e o Monumento às Bandeiras, na capital paulista. “Trabalhamos com as perspectivas da resistência e do apagamento da memória de personalidades negras”, diz Baptiste.

Conforme as ausências vão se fazendo presença, também o mercado vai absorvendo, a seu modo, as demandas sociais e políticas por representatividade.

“O sistema da arte sempre cria novas categorias. Essas categorias já foram criadas pelos críticos, pelos artistas e, hoje, são criadas pelos colecionadores. Isso tudo gera dinâmicas em que todos entramos e, sim, há sempre o risco de que o resultado seja o contrário daquilo que desejamos”, diz Borja-Villel. “Não desconhecemos a capacidade de absorção do sistema. Mas, mesmo na impossibilidade de se enfrentar o sistema, é possível haver novas coreografias.”

 

Fonte: Carta Capital.

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