Por Carolina Azevedo | Entrevista Françoise Vergès

No Brasil para o lançamento do livro “Decolonizar o museu – programa de desordem absoluta”, a autora discute a relação entre o colonialismo, o capitalismo financeiro e o museu ocidental

O museu ocidental sempre foi pensado pela sociedade enquanto espaço neutro de preservação de tesouros da humanidade e ​​refinamento de nossas sensibilidades artísticas. Nos últimos anos, no entanto, países cuja dominação colonial os negou tal privilégio e lhes pilhou de seus tesouros nacionais vêm questionando o cânone. Em seu novo livro, lançado pela editora Ubu, Françoise Vergès analisa as desigualdades estruturais de raça, classe e gênero sobre as quais o museu ocidental se constrói, com base no seu primeiro grande exemplo, o Louvre.

“A destruição de palácios e o embargo de suas riquezas, as pilhagens e os roubos sistemáticos e a narrativa de uma história da arte centrada na Europa contribuíram para dar recursos e uma aura inigualáveis ao museu.” Ao reconhecer essas expropriações, devastações e explorações, Vergès propõe decolonizar o museu com base na teoria de Frantz Fanon: “a descolonização, que se propõe mudar a ordem do mundo, é um programa de desordem absoluta.”

Para a autora, não basta expor obras “decoloniais” (quais seriam os critérios e quem os definiria?) e diversificar o que é pendurado nas paredes, pois os programas institucionais que se declaram decoloniais são uma tentativa de sequestrar a teoria e a prática decoloniais para neutralizá-las. É preciso pensar no que ela define como “pós-museu”, uma nova instituição que se desprenda completamente das estruturas do colonialismo e do capitalismo financeiro em direção a uma “utopia emancipadora que despertaria sentidos, que deixaria sonho e imaginação voarem, e onde poderíamos nos entusiasmar com criações coletivas ou individuais, gestos e rituais que oferecem maneiras diferentes de apreender o mundo.”

Mas e o Brasil com isso? Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Françoise Vergès explica como os laços de dependência e as desigualdades herdadas do processo colonial fazem do museu do sul global um espelho do museu europeu. Analisando as relações de raça, classe e gênero dentre os trabalhadores do museu e também no que diz respeito ao público, diferenciando aquele que é feito confortável ou não naquele espaço, a autora vai além da ideia de devolução de obras roubadas para pensar os diversos problemas do museu, e suas possibilidades de reformulação. Confira a entrevista completa:

 

De que forma o museu reflete as desigualdades estruturais de raça, classe e gênero que existem fora dele? 

A invenção do que hoje chamamos de museu foi concebida no século XVIII na Europa, durante um período de expansão e conquista imperialista. Os primeiros grandes passos nesse sentido ocorreram na França, que liderou esse movimento. Embora sempre tenha havido guerras e pilhagem de artefatos, agora isso estava sendo feito em nome da civilização: os revolucionários franceses afirmavam “somos o país da liberdade, e a França deve guardar os tesouros da humanidade, porque somente ela pode fazê-lo.” Em seguida, outros países europeus seguiram a mesma ideia: “Somos a Europa. Somos a civilização. Portanto, cabe aos civilizados guardar os tesouros da humanidade, e temos todo o direito de coletá-los, mesmo através de pilhagens em larga escala.”

Portanto, o museu, desde sua origem, é uma estrutura colonial e hierárquica. Ela vê o restante do mundo além do Ocidente como incivilizado, o que permite a apropriação de objetos, baseando-se na crença de que outras culturas não sabem preservá-los, nem entendem o valor dos seus tesouros. O museu é uma instituição baseada na ideia de superioridade, na redefinição da arte e na transformação de objetos comuns em arte, retirando-os de seu contexto original. Os museus europeus ocidentais e norte-americanos acumularam uma quantidade massiva de objetos, inimaginável em escala, com dezenas de milhares de itens roubados.

"O museu, desde sua origem, é uma estrutura colonial e hierárquica", afirma Françoise Vergès (Anthony Francin)
“O museu, desde sua origem, é uma estrutura colonial e hierárquica”, afirma Françoise Vergès (Anthony Francin)

No livro, você diz que “desejar a abolição desse mundo não quer dizer desejar o fim do mundo, mas sim desejar um mundo habitável e respirável”. Indo na direção oposta, uma frase atribuída a Slavoj Zizek define que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Como você enxerga isso à luz do conceito que você empresta de Frantz Fanon de “desordem absoluta”? 

Emprestei essa frase de Frantz Fanon, que diz que “a colonização é um programa de desordem absoluta”, porque se trata de mudar a ordem do mundo estabelecida pelo colonizador. Havia várias razões para isso: em primeiro lugar, o termo “decolonial” estava sendo usado por muitas instituições para se referirem a tudo. Estava se tornando uma moda, uma peça de publicidade, senti que o termo estava perdendo seu significado. Eu quis enfatizar que a decolonização é uma questão séria. As primeiras formas de decolonização, as lutas pela independência, custaram muitas vidas. Pessoas morreram e foram torturadas, não foi um processo fácil. Não se trata apenas de retórica, a decolonização é uma prática que envolve riscos reais.

O segundo argumento é que eu não quero o fim do mundo, mas sim o fim do mundo que o capitalismo e o racismo construíram, e vejo isso como uma aspiração. Então, é mais fácil visualizar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Sim, mas o fim do capitalismo significa o fim desse mundo que se tornou inabitável e irrespirável para bilhões de pessoas.

E isso não é apenas uma metáfora, é importante se afastar da ideia de que isso são apenas discursos. São realidades concretas, há pessoas que sofrem com a falta de água, que respiram ar poluído, são situações reais. Portanto, a luta decolonial precisa ser tratada com seriedade e retirada do campo das palavras vazias, para que recupere sua verdadeira força. De fato, é um processo que envolve riscos, não se trata apenas de mudar as coisas superficialmente.

 

A decolonização do museu ocidental é possível? O que seria um “pós-museu”?

A decolonização completa dos museus ocidentais não é possível. Primeiro, porque não vejo como uma instituição pode ser decolonizada quando a sociedade ao seu redor não o é, permanecendo como uma pequena fortaleza isolada. Porque, se realmente houvesse uma mudança e o museu fosse decolonizado, isso representaria uma revolução.

Será que o Estado e as forças permitiriam uma revolução nesse lugar? Até o momento, não, porque uma revolução significaria uma profunda transformação na instituição. Será que as mulheres que fazem a limpeza serão remuneradas tão bem quanto os historiadores de arte? Qual é a formação dos historiadores de arte? Por que existe uma diferença salarial tão grande? Por que a mulher que faz a limpeza recebe tão pouco em comparação aos outros? Há uma hierarquia racial, de gênero e de classe muito forte nos museus. Se tudo isso for alterado, será uma revolução.

A segunda coisa é que o museu ocidental se baseia em crimes. Como esses crimes serão reparados? Como o museu ocidental realmente abrirá suas portas e dirá: “Aqui está o que temos, venham ver”? “Vamos abrir nossas coleções. Vamos abrir nossos arquivos. Vamos abrir nossos documentos e vocês verão e encontrarão objetos que foram roubados.” Muitas vezes pensamos em objetos históricos que apenas conhecemos porque eles foram saqueados. Enquanto isso, pode haver comunidades que nem sabem que suas propriedades estão em museus na Itália ou na Alemanha. Como faremos todo esse trabalho? Portanto, sim, acredito que não seja possível decolonizá-los completamente, mas os museus ocidentais têm muito a fazer para reparar seus crimes.

É absolutamente necessário exigir transformações profundas, mas isso não significa que eles serão totalmente decolonizados, porque o pós-museu é precisamente o que devemos inventar, o que devemos imaginar. Ou seja, pensar no que significa conservar, preservar, como não transformar coisas que eram parte da vida em objetos mortos, que só podemos olhar e não tocar. Todas essas questões precisam ser consideradas. Qual é a arquitetura que queremos dar, como podemos nos sentir à vontade, tudo está pensado para nossas necessidades enquanto seres humanos ou apenas para impressionar? Há muitas perguntas que o pós-museu deve considerar, dadas todas as questões dos museus ocidentais. O que poderíamos fazer que fosse completamente diferente e não seguisse nenhum desses modelos? Ao repensar isso, talvez haja aspectos do museu ocidental que não eram tão ruins, afinal, e que podemos aproveitar, mas isso precisa ser cuidadosamente considerado.

O livro "Decolonizar o museu - programa de desordem absoluta", de Françoise Vergès (Divulgação/Editora Ubu)
O livro “Decolonizar o museu – programa de desordem absoluta”, de Françoise Vergès (Divulgação/Editora Ubu)

Você também fala sobre como o papel dos multimilionários no mundo da arte cria um terreno de lutas duras e difíceis. Como pensar a decolonização do museu no contexto da financeirização da arte?  

Você está certa, é uma questão muito importante. Hoje em dia, os multimilionários têm uma capacidade que nenhum museu público possui. Eles têm o poder de elevar os preços, transformar artistas em estrelas, enquanto do nosso lado não temos as mesmas armas, não temos multimilionários. De qualquer forma, se houver multimilionários no Sul, eles pensam da mesma forma que os do Norte.

É verdade que a financeirização é um problema, por isso precisamos pensar no pós-museu. Nele, talvez precisemos renunciar a coisas que só podem sobreviver devido a esse dinheiro, devido a essa dependência. Talvez, se um museu não puder comprar uma obra de arte devido ao mercado, simplesmente não a compraremos, e isso não será um problema. Para nós, o que é importante é o conteúdo. É o que faremos para que as pessoas se sintam confortáveis, se divirtam, fiquem felizes e tenham vontade de aprender mais, e isso não necessariamente envolve grandes obras. Não quer dizer que ele não possa ser bonito, mas talvez uma beleza diferente. Estamos muito dependentes do dinheiro desses bilionários que hoje têm recursos gigantescos e especulam muito com a arte. A arte se tornou realmente um espaço de especulação. Por exemplo, como tem havido um interesse crescente na arte africana nos últimos anos, os preços aumentaram drasticamente, o que significa que há povos que nem mesmo conseguem comprar de volta sua própria arte. Portanto, sim, o pós-museu não será um museu do capitalismo financeiro.

 

Uma questão que sempre me incomodou muito aqui no Brasil é quem frequenta esses museus que expõem obras ditas “decoloniais” e diversificam o que é pendurado nas paredes mas não fazem nada para abaixar os preços ou incentivar uma diversificação do público. Como o pós-museu resolve essa faceta do problema do museu ocidental? 

É realmente necessário tomar o caminho oposto. Por exemplo, se quisermos contar a história da ditadura contemporânea no Brasil. Quem detém o poder neste país? Como contamos essa história? Devemos usar imagens, sons, depoimentos? Como mostrar os conflitos dos trabalhadores? Como mostrar como as forças atuaram? O que precisou ser resistido? Qual foi o papel do tribunal? Como oferecer narrativas que nos ajudem a entender como tudo aconteceu? Como explicar o poder em um museu?

O “como explicar”, essa é uma das questões, e talvez não haja uma única resposta no pós-museu, talvez seja necessário dar voz a várias perspectivas. Também é importante entender, por exemplo, se estamos falando sobre lutas, por que uma pessoa específica chegou ao poder. Porque muitas vezes olhamos e pensamos que não é possível, mas é, e precisamos ser capazes de explicar isso. Portanto, para mim, o museu também deve nos ajudar a entender como o mundo ao nosso redor funciona. O pós-museu estaria mais relacionado ao que vivemos, depois podemos falar sobre arte e tudo mais.

Os museus ocidentais estão aí, mas eu não quero assumir seus problemas, eles são responsáveis por crimes, cabe a eles ver como vão reparar esses crimes. Cabe a nós dizer a eles: vocês vão repará-los. Não vamos permitir que saiam impunes. Em nosso programa, devemos nos concentrar no que podemos fazer para não repetir essas coisas, porque o que pensamos agora pode parecer correto, mas talvez daqui a 20 anos as pessoas nos digam que é errado. Também é importante manter um museu que esteja aberto às transformações inevitáveis, porque o museu tem a missão de mostrar imagens do mundo.

 

Apesar de ter sido uma colônia de exploração, as instituições culturais no Brasil funcionam de forma muito similar às europeias e americanas, mesmo quando fazem esforços pela “diversificação”. Como pensar a decolonização do museu em um país do sul global como o Brasil? 

Os museus do sul global frequentemente seguiram o modelo dos museus ocidentais. Ainda há um modelo que persiste porque não sabemos como fazer de outra forma. Houve tentativas. Em geral, vi isso em comunidades pobres, porque é nessas comunidades que é preciso inventar algo diferente. É necessário imaginar algo diferente, com uma economia que possam controlar. Eles não precisarão recorrer a fundações privadas; eles tentarão se virar por conta própria.

No entanto, existem questões, como: que tipo de economia queremos que seja viável a longo prazo, que possa durar 10, 20, 50 anos? Isso levanta muitos problemas. Além disso, nos países do Sul, precisamos considerar a questão do desastre climático. Qual museu construiremos?

O museu estimula a curiosidade, o desejo de aprender mais, não apenas admirar. Portanto, em 2023, já temos conhecimento suficiente para pensar o pós-museu. Houve muitos livros sobre colonização, a situação das mulheres, escravidão, lutas pela liberdade e muitos estudos sobre esses temas para que hoje possamos ver as limitações do museu ocidental. É hora de dizermos: “Vamos começar a trabalhar na imaginação de como poderia ser diferente.” Isso também é o que proponho e repito, temos tudo o que precisamos para começar a pensar. Não estou dizendo que temos todas as respostas. Além disso, a solução que pode funcionar em um bairro de São Paulo não será necessariamente a mesma em Dakar, ou em uma cidade italiana. Portanto, será necessário levar tudo isso em consideração, é realmente um trabalho para sair do modelo hegemônico.

 

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil.

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