Kaolin Vesterka e Selmo Nascimento

A solução para o contínuo genocídio das minorias brasileiras se concretiza por meio da autonomia e ação direta do povo pobre, solidificada em autogestão e autodefesa popular.

O objetivo dos que se dizem elite sempre foi fazer dos povos que eles consideram inferiores, submissos, obedientes e servis. Povos inteiros foram escravizados, e ainda hoje há pessoas nessas condições seja direta ou indiretamente.

Povos foram escravizados, e seguiram sendo após a alforria.

A população negra, indígena e periférica, sempre foi criminalizada, morta e submetida a condições tanto de trabalho quanto de moradias, inumanas e desrespeitosas. O Estado consegue tornar o povo dependente, a partir do momento em que detém do poder absoluto de administração dos territórios, e quando não os detém de forma absoluta, como no caso das favelas e comunidades autônomas, sejam quilombos, ocupações no campo ou territórios indígenas, eles entram para matar.

Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado, no ano de 2022 “a região metropolitana do Rio de Janeiro teve ao menos 214 tiroteios/disparos de arma de fogo no mês de julho. Os tiroteios deixaram 149 pessoas baleadas: 62 delas mortas e 87 feridas. Os números indicam que em 70% dos tiroteios mapeados no mês houve mortos ou feridos”.

Apesar desses números serem crescentes a cada ano de forma não tão gradativa, no Brasil, exemplificando com o estado do Rio de Janeiro, o planejamento de chacinas, remoções e desaparecimentos de moradores e até mesmo de favelas inteiras, existe desde as primeiras favelas do Rio.

Na década de 40, o então vereador e jornalista Carlos Lacerda — que posteriormente se tornou o Governador da Guanabara — iniciou sua primeira campanha de criminalização da pobreza, publicando de forma enfática durante dois meses no jornal “Correio da Manhã”, que o crescimento desenfreado das favelas era um problema de segurança e saúde pública, anunciando que seus moradores eram majoritariamente criminosos e contaminados com doenças contagiosas. Anterior a isso, já havia um plano de remoções desde a década de 20.

A partir de 1960, com o crescimento da cidade, principalmente para onde se localiza a Zona Sul, as remoções forçadas ocorreram de forma criminosa — apesar de não existirem provas concretas — como no caso da favela da Praia do Pinto, localizada próxima a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde hoje existe o condomínio Selva de Pedra. Após tentativas anteriores de remoções, a favela sofreu um incêndio de proporções que levaram a sua total extinção, bem como a Favela do Esqueleto, que se localizava onde hoje é a UERJ, que sofreu exatamente a mesma coisa.

Não longe dali, também ocorreu a remoção forçada da Favela da Ilha das Dragas, localizada hoje onde é o Clube Caiçaras.

Um fato importante sobre a Ilha das Dragas, é que, sua remoção tendo ocorrido em 1969, logo após a decretação do AI-5, fez com que militantes locais, que lutavam por uma associação de moradores, foram perseguidos pelo governo autoritário da época, tendo sido presos, torturados, e sofrido com o desaparecimento forçado.

O histórico de incêndios em favelas se segue nos dias atuais, bem como os desaparecimentos forçados, tendo seu maior número de ocorrências na Baixada Fluminense.

A logística de ocupação de territórios periféricos se faz presente através do braço armado que segue dizimando a população, independente de serem crianças ou não.

Nos últimos anos, em praticamente todos os anos, houve pelo menos uma chacina em áreas vulnerabilizadas, onde a repercussão dos fatos se deu principalmente através de mídias independentes que nos dias atuais se fazem presentes dando voz às periferias e visibilidade a suas necessidades.

Só neste ano, 24 menores foram mortos por armas de fogo em operações policiais.

O caso mais recente aconteceu na segunda-feira (21 de agosto), quando o jovem de 16 anos, Bryan dos Santos, foi atingido quando voltava da escola.

No último dia 17 Maria Bernadete Pacífica, 72 anos, também conhecida como Mãe Bernadete, Yalorixá líder do Quilombo Pitanga dos Palmares e Coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ), foi executada.

Há anos os quilombolas denunciam os conflitos e ameaças sofridas por empresários do mercado imobiliário que possuem interesses comerciais nas terras das comunidades, tal como os ocorridos a partir da década de 40, nos exemplos citados anteriormente.

Histórias como essa se repetem em diversos territórios, onde os povos pretos e originários são oprimidos, as mazelas e ciclos do colonialismo, e do imperialismo, refletem-se no país com maior porcentagem de pessoas pretas, fora do continente africano, a solução para esses acontecimentos se concretiza por meio da autonomia e ação direta do povo pobre, solidificada em autogestão e autodefesa popular, desenvolvida para e pelos corpos marginalizados e oprimidos.

 

Fonte: Mídia Independente Coletiva | Charge: Junião.

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