Minneapolis, EUA – O veredicto do júri que declarou o ex-policial americano Derek Chauvin culpado de três acusações na morte de George Floyd foi recebido com satisfação e alívio nos Estados Unidos e no mundo. A condenação é interpretada como um sinal de uma possível mudança no tratamento das discriminações e da violência policial. Políticos americanos, líderes mundiais, artistas, atletas, ativistas do movimento negro, militantes de direitos humanos, a família e a imprensa reagiram à decisão, por unanimidade, dos 12 jurados do caso, anunciada na noite de ontem, 20 de abril de 2021.

Derek Chauvin, ex-policial branco de 45 anos, que pressionou seu joelho no pescoço de George Floyd durante mais de 9 minutos até provocar a morte do pai de família negro, foi declarado culpado das acusações de homicídio doloso, homicídio culposo e assassinato de terceiro grau, após três semanas de julgamento. O ex-agente deixou o tribunal algemado e foi levado para a penitenciária de Minneapolis, no norte dos Estados Unidos.

O juiz Peter Cahill divulgará a sentença em até oito semanas. Caso ele aceite circunstâncias agravantes, a pena de prisão poderá ser superior a 40 anos de detenção. Segundo o jornal The New York Times, o veredicto, que poderá enviar Chauvin à prisão por várias décadas, representa uma rara repreensão à violência policial nos Estados Unidos, após inúmeros casos em que agentes ficaram sem acusações ou condenações depois de matar homens, mulheres e crianças negras no país.

O diário USA Today diz às famílias afro-americanas que temem pela morte dos filhos diariamente, num banal controle de polícia, que daqui para a frente a condenação de Chauvin atuará como um freio à conduta policial violenta, apesar de ter sido necessária uma “montanha” de evidências para condenar um agente conhecido por sua brutalidade.

Na França, o jornal Libération fala em uma “guinada histórica”. Le Monde chama a atenção para a rapidez do veredicto, concluído em menos de 11 horas. “O centro de Minneapolis poderá, enfim, se desfazer das barricadas erguidas há um ano para cobrar justiça pela morte do afro-americano”, observa o jornal.

 

Moradores de Minneapolis, no norte dos Estados Unidos, comemoraram na terça-feira (20) o anúncio do veredicto contra o ex-policial Derek Chauvin, responsável pela morte de George Floyd, em maio de 2020. (Photo by CHANDAN KHANNA / AFP)

 

Explosão de alegria e lágrimas

 

Cerca de 200 pessoas que aguardavam o pronunciamento dos 12 jurados perto da Corte explodiram de alegria ao ouvir o anúncio do veredicto por alto-falantes. Muitos choraram e se abraçaram. Com os punhos no ar, alguns gritaram: “Poder negro! Poder negro!”. A rua em frente ao tribunal estava fechada ao tráfego e, nos arredores, vários veículos buzinaram em apoio à multidão. O Palácio de Justiça foi cercado por blindados e barreiras de proteção, devido à repercussão do caso, que gerou os maiores protestos contra o racismo e a violência policial de uma geração.

A celebração, no entanto, transferiu-se rapidamente para o sul da cidade, onde Floyd foi morto, em maio do ano passado. Acesse o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=S8v7WGH7c04

Naquela esquina, mais de mil pessoas se reuniram para comemorar a decisão do júri, dançando ao ritmo de uma banda que alegrava a cena.

 

Biden denuncia racismo sistêmico

 

O presidente americano, Joe Biden, que telefonou à família de Floyd, pediu união à população. “O racismo sistêmico é uma mancha na alma da nossa nação. Ninguém deve estar acima da lei. O veredicto de hoje envia essa mensagem, mas não é suficiente. Não podemos parar por aqui.”

“O veredicto de culpa não trará George de volta”, disse o chefe de Estado na Casa Branca, em um breve discurso transmitido pela televisão. Mas pode marcar o momento de uma “mudança significativa”, acrescentou o democrata, pedindo a união da nação, para não deixar que os “extremistas que não têm nenhum interesse na justiça social tenham êxito”. A vice-presidente Kamala Harris também se manifestou. “Este é um dia de justiça nos Estados Unidos. A História irá olhar para este momento”, tuitou.

Rodney Floyd, irmão de George, falou emocionado à TV americana. “Tenho lágrimas de alegria. Muito emocionado porque nenhuma família na História chegou tão longe. Conseguimos que ele [Derek Chauvin] fosse considerado culpado de todas as acusações. Isso é para todos os que passaram por esta situação”, disse. O advogado da família Floyd, Ben Crump, considerou a decisão um marco histórico no tratamento desse tipo de caso.

“CULPADO! A Justiça conquistada com dor finalmente chegou para a família de George Floyd. Esse veredito é um ponto de inflexão na História e envia uma mensagem clara sobre a necessidade de que as forças de ordem prestem contas”, afirmou o advogado no Twitter.

 

Reações de políticos

 

“Que uma família tivesse que perder um filho, um irmão e um pai; que uma adolescente tivesse que filmar e divulgar um assassinato; que milhões, em todo o país, tivessem que se organizar e protestar apenas para que Floyd fosse visto e valorizado não é justiça. E esse veredicto não substitui uma mudança de política”, reagiu Alexandria Ocasio-Cortez, congressista democrata.

“O veredicto de hoje é um passo importante para a Justiça em Minnesota. O julgamento terminou, mas nosso trabalho apenas começou”, declarou Tim Walz, governador do estado.

Na Europa, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi um dos primeiros a se manifestar. “Estava consternado com a morte de Floyd e recebo com satisfação esse veredicto. Meus pensamentos esta noite estão com a família e os amigos de George Floyd”, disse o premiê.

 

(Photo by CHANDAN KHANNA / AFP)

Academia, ativistas, atletas comemoram veredicto

 

“É possível que Chauvin nunca volte a ver a luz da liberdade. Isso seria justo, mas não suficiente. O SISTEMA que lhe permitiu assassinar George Floyd deve ser mudado. Se não tivesse sido pela câmera do celular de uma testemunha, o assassinato cometido por Chauvin teria ficado impune!”, tuitou Laurence Tribe, professor de Direito na Universidade de Harvard.

“A evidência frente aos nossos olhos finalmente coincidiu com a responsabilidade diante dos olhos da Justiça”, destacou Stacy Abrams, ativista e democrata. “Apesar de o veredicto de hoje representar um passo à frente na luta para que a polícia preste contas e ajude a curar uma comunidade de luto, os sistemas que permitiram a um policial assassinar o sr. Floyd permanecem totalmente intactos”, declarou a União Americana de Liberdades Civis.

O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, também reagiu. “Neste momento, penso em George Floyd, sua família e naqueles que o conheceram. Espero que esse veredicto lhes traga um pouco de conforto, tanto a eles quanto a todos os que não podem evitar ver a si próprios nessa história. Nós nos solidarizamos com vocês, sabendo que isso é parte de uma luta maior contra o racismo e a injustiça”, escreveu nas redes sociais.

Ligas, times e grandes nomes do esporte nos Estados Unidos festejaram a condenação, mas advertiram que “ainda há muito trabalho a ser feito”. A NBA, a competição mais ativa nos protestos contra o assassinato cometido em maio de 2020, emitiu um comunicado poucos minutos depois que o veredicto foi lido em Minneapolis.

“O assassinato de George Floyd foi um ponto de virada na forma como vemos [as questões de] raça e justiça em nosso país, e estamos felizes que a justiça foi feita”, disse a liga de basquete em um texto conjunto com sua associação de jogadores. “Mas também reconhecemos que ainda há muito trabalho a ser feito” e “redobraremos nossos esforços para defender mudanças significativas nas áreas de justiça criminal e policial”, enfatizou.

 

Fonte: Radio França Internacional – RFI | UOL.

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