[Ateliê do pensamento: A liberdade de falhar sem que o erro seja atribuído a uma suposta insuficiência de gênero é uma primazia historicamente reservada aos homens, que as mulheres cientistas precisam reivindicar. Imagem gerada por IA, via Envato Labs]

Por Nina da Hora

 

A ciência nunca foi apenas descoberta. Antes de qualquer teorema demonstrado ou algoritmo formalizado, existe um recurso mais escasso do que financiamento ou equipamento: o espaço de pensamento. Não me refiro a um espaço físico, embora a precariedade material importe. Falo do conjunto de condições que permitem habitar o campo das ideias por tempo suficiente para que elas amadureçam.

Chamo essas condições de insumos cognitivos. São elementos aparentemente simples: o silêncio prolongado, o direito à tentativa sem cronômetro, a liberdade de perseguir uma intuição matemática por semanas sem que isso seja lido como improdutividade. Quem já tentou resolver um problema complexo sabe que a solução raramente aparece de primeira; ela exige rascunhos, becos sem saída e recomeços. Ocorre que nem todo mundo tem permissão social para percorrer esse caminho.

Todo 11 de fevereiro, no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, somos convidadas a celebrar trajetórias de superação. Mulheres brilhantes que, apesar de tudo, conseguiram. Essa gramática do “apesar de” já carrega o problema que pretende denunciar: ela transforma uma falha estrutural em uma épica individual, deixando intacta a arquitetura que distribui de forma desigual o tempo e o silêncio necessários para a produção científica.

Historicamente, mulheres na matemática e na computação foram posicionadas como motores de execução. As computadoras humanas que calculavam trajetórias balísticas na NASA ou decifravam códigos em Bletchley Park operavam fórmulas concebidas por outros. O trabalho era indispensável e, ao mesmo tempo, invisível. Executar não conferia o estatuto de autora do método.

A historiadora Janet Abbate documenta, no livro Recoding Gender, como a computação se masculinizou à medida que ganhou prestígio. Foi um processo de reclassificação: o que antes era tarefa de mulher tornou-se território intelectual de homens. Minha reivindicação aqui não é pelo trabalho que sempre fizemos, mas por algo anterior: o ócio criativo, a soberania intelectual e o direito à teoria pura.

A genealogia do ateliê

Quem ocupa o ateliê do pensamento? Esse ateliê não é uma sala física com quadro-negro. É a liberdade de falhar sem que o erro seja atribuído a uma suposta insuficiência de gênero. A física Evelyn Fox Keller mostrou, em Reflections on Gender and Science (Reflexões sobre Gênero e Ciência), que a própria ideia de objetividade científica foi construída em oposição ao que a cultura classifica como feminino: a subjetividade e a intuição. O resultado é um sistema que define o pensar puro como um atributo masculino.

Nos departamentos de ciências exatas, essa lógica se traduz em uma divisão tácita. De um lado, o pensatório: a formulação teórica, o design de sistemas, a conjectura. De outro, a manutenção do aparato: correção de bugs, limpeza de bases de dados, documentação, ensino de disciplinas introdutórias ou gestão de laboratório. É o que chamo de estratificação epistêmica.

Essa divisão tem rosto e rotina. É a doutoranda que passa mais horas formatando relatórios para o orientador do que formulando as próprias hipóteses. É a pesquisadora que assume a burocracia do laboratório, tarefa essencial que ninguém transforma em linha de prestígio no Lattes, enquanto seu colega passa o semestre debruçado sobre uma conjectura. Ambos ocupam o mesmo programa, mas só um deles habita o ateliê.

A filósofa Sueli Carneiro define como epistemicídio o processo que priva determinados grupos da condição de produtores de saber. Na universidade, isso nem sempre acontece por exclusão explícita. Muitas vezes, opera pelo acúmulo de tarefas invisíveis que consomem o tempo de quem já precisa provar, a cada passo, que merece estar ali.

A geometria do erro e a teoria pura

Nas ciências exatas, errar é método. Uma demonstração avança por meio de tentativas fracassadas; um algoritmo se refina por iterações que não convergem. O erro não é o oposto do rigor, é seu instrumento mais valioso.

No entanto, o direito ao erro é distribuído de forma desigual. Para mulheres e pesquisadores de grupos minorizados, o erro é lido como confirmação de inadequação, uma evidência de que não deveriam estar naquele espaço. Para o grupo dominante, o mesmo erro é romantizado como ousadia intelectual, o fracasso produtivo do gênio que ainda não encontrou seu caminho.

A computação oferece uma metáfora precisa para essa desigualdade nas suas camadas de abstração: do circuito físico ao design algorítmico. Quanto mais alta a camada, maior o prestígio e a distância do trabalho material. Quem projeta a arquitetura ocupa o topo; quem implementa e testa ocupa a base. Essa hierarquia é social. Nos programas de pós-graduação brasileiros, a sub representação de mulheres negras se intensifica justamente nos espaços de maior abstração: a matemática pura e a computação teórica. A base da pirâmide é diversa. O topo, ainda não.

A ciência como ateliê coletivo

A resposta para esse cenário não se limita a bolsas de inclusão. Exige revisar o que chamamos de excelência. A filósofa Sandra Harding propôs o conceito de objetividade forte: a ideia de que a ciência se torna mais rigorosa quando reconhece que todo conhecimento é situado. A diversidade de perspectivas não é um favor social, mas uma ferramenta para corrigir os vieses que a homogeneidade perpetua.

Equidade nas ciências exatas se mede pela garantia de acesso pleno aos insumos da produção teórica. É o tempo de maturação. É a liberdade de conjectura. É o direito de nomear problemas, e não apenas de resolvê-los sob encomenda. A soberania intelectual não é um luxo; é a condição para que qualquer ciência se pretenda universal.

Enquanto o ateliê tiver “porteiros”, a ciência que dele emergir será inevitavelmente parcial.

Nina da Hora

Cientista da Computação, Pesquisadora Recod.Ai Unicamp, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fundadora do Instituto da Hora. Cursa duplo mestrado em Ciência da Computação e em Política Científica e Tecnológica na Unicamp.

 

Fonte: The Conversation Brasil.

Banner Content
Tags: , , ,

Related Article

0 Comentários

Deixe um comentário

MÍDIA NEGRA E FEMINISTA – ANO XXI – EDIÇÃO Nº251 – FEVEREIRO 2026

Siga-nos

INSTAGRAM

Arquivo