Por Walnice Nogueira Galvão

Fenômeno então recente no panorama brasileiro, a “normalista” abria a perspectiva da emancipação feminina através do trabalho.

Parque industrial – seu “romance proletário” – completa 85 anos. Nele, a escritora Patrícia Rehder Galvão (Pagu) tripudia da elite paulista a partir da visão de trabalhadoras mulheres. E, com seu ativismo feminista e comunista, denuncia as fábricas como penitenciárias sociais. Quem gosta de livros e de Pagu sente-se recompensado ao compulsar a publicação, reedição comemorativa que festeja seu 85º. aniversário. A editora Linha a Linha teve o cuidado de incluir, além do prefácio de Augusto de Campos, descobridor de Pagu, dois trabalhos de mãos estrangeiras, porém especialistas: um do crítico norteamericano K. David Jackson, intitulado “A dialética negativa de Parque industrial”, que serviu de apresentação à tradução para o inglês por ele assinada, e outro pelo francês Antoine Chereyre: “Uma excelente estreia – a chegada do romance proletário ao Brasil”. Este último é também o tradutor da versão francesa, e suas notas, instrutivas e esclarecedoras, são aproveitadas na presente edição.

Para começar, agrada ao leitor o extremo cuidado gráfico. A capa escarlate corresponde bem ao conteúdo do livro, e copia exatamente a capa da edição original de 1933, com exceção da cor, que era neutra, em branco e preto. Acrescenta-se agora abaixo do título o subtítulo, sem disfarces: “Romance proletário”. A capa original reproduzida, da autoria do grande gravador Lívio Abramo, que além de ser artista de renome comungava das opções políticas de Pagu, é bem modernista, com linhas diagonais agressivas que se recortam e se contrapõem.

Concorrendo para o efeito geral, a gravura não só opera visualmente a súmula de uma fábrica, como ainda, em toda a sua economia, consegue sugerir o universo concentracionário que ela constitui. Esse universo é tornado verbalmente presente desde a quarta capa, que traz citação formular e bem vanguardista de Pagu: “Na grande penitenciária social os teares se elevam e marcham esgoelando”. Miguel Estêvão assina o projeto gráfico e a diagramação.

A editora teve o cuidado de incluir, além do prefácio de Augusto de Campos, descobridor de Pagu, dois trabalhos de mãos estrangeiras, porém especialistas: um do crítico norteamericano K. David Jackson, intitulado “A dialética negativa de Parque industrial”, que serviu de apresentação à tradução para o inglês por ele assinada,[ii] e outro pelo francês Antoine Chereyre: “Uma excelente estreia – a chegada do romance proletário ao Brasil”. Este último é também o tradutor da versão francesa, e suas notas, instrutivas e esclarecedoras, são aproveitadas na presente edição.

O fato de incluir esses dois tradutores/críticos dá outro alcance à obra de Pagu, agora acessível em duas outras línguas de cultura de primeira importância, ampliando sua repercussão mais do que merecida. Devemos ainda ao crítico norteamericano um trabalho monumental, o levantamento completo do jornalismo de Pagu, que rendeu quatro volumes e será publicado em breve pela Edusp, a editora da USP.

A renovação do interesse por esta grande libertária data de poucos anos, quando começaram a ser publicados vários de seus dispersos e inéditos. Após o livro seminal de Augusto de Campos, Pagu Vida-Obra, em 1982,[iii] foram vindo à luz as memórias incompletas; o álbum de 1929; os croquis; os contos policiais estampados em 1944 na revista Detetive, dirigida por Nelson Rodrigues; e a edição facsimilar de O Homem do Povo, jornal que produziu junto com Oswald de Andrade.

Uma tardia e crescente popularidade acarretou estudos críticos, reedições, fundação de centros culturais e de pesquisa, filmes de ficção, documentários, espetáculos teatrais, programas de televisão, nomes de revistas e de escolas, canções, enredos de desfile de carnaval, uma exposição mais do que completa no Museu Lasar Segall e numerosos eventos. Entre outras instâncias, a Universidade Estadual de Campinas abriu um centro de pesquisa sobre gênero que leva seu nome; e edita a revista Cadernos Pagu.

Textos seus figuram numa antologia do marxismo na América Latina, ao lado de Mariátegui, Luis Carlos Prestes, Fidel Castro, Che Guevara, Marighella e o subcomandante Marcos do Exército Zapatista. E é verbete, entre outros ícones das lutas sociais, como Caio Prado Jr. e João Pedro Stédile, num Diccionario de la Izquierda Latinoamericana,[iv]em preparo pelos argentinos.

Seus dois filhos contribuíram para o resgate, editando textos, publicando inéditos, instalando um site. Um deles, Geraldo Galvão Ferraz, em parceria com Lucia M. Teixeira Furlani, uma entusiasta de Pagu, com tese de doutoramento e livro sobre ela, organizou ainda uma fotobiografia e o site http://www.pagu.com.br . O outro, Rudá de Andrade, co-dirigiu um filme, o documentário Pagu – livre na imaginação, no espaço e no tempo (2001). Seu neto Rudá K. de Andrade, filho, como o nome indica, de Rudá de Andrade, fala da extraordinário trajetória da avó em livro recente, intitulado A arte de devorar o mundo – Aventuras gastronômicas de Oswald de Andrade (2021).[v]

O avô, um gourmet cujo paladar fora refinado em Paris, onde aprendera mais coisas afora vanguardismo, apreciava a mesa farta. O livro, trazendo fotos de iguarias e fornecendo receitas, vem acrescentar um aspecto até agora pouco explorado dos modernistas.

O autor chama-se Rudá tal como seu pai, só que o onomástico completo do pai é Rudá Poronominare Galvão de Andrade. Como é sabido, foi Oswald quem escolheu os dois prenomes indígenas.

É fácil confundir filho e neto, dado que ambos são xarás, portando o mesmo e raro prenome de Rudá. Detratores contemporâneos de Oswald disseminaram a vilania de que ele era tão desvairado que tinha dado ao filho o nome de “Lança-Perfume Rodo Metálico” – a marca mais popular nos carnavais da época, quando se cheirava éter à vontade, como se lê nos poemas de Manuel Bandeira. A vantagem do Rodo Metálico era a bisnaga blindada, como o nome indica, enquanto as outras eram de vidro e estilhaçavam nas estrepolias da farra. Mas a calúnia é repetida até hoje.

Sabe-se que os modernistas prezavam a convivialidade e, afora as residências uns dos outros, frequentavam os salões de seus mecenas, que recebiam em dia marcado. A casa de Paulo Prado à Av. Higienópolis abria-se para o almoço aos domingos. O Pavilhão Moderno, de Olívia Guedes Penteado à rua Duque de Caxias com Conselheiro Nébias, nos jardins de sua casa edificada por Ramos de Azevedo, “tinha seu dia”, como dizia Proust, às terças-feiras. E na rua Domingos de Morais, a Vila Kyrial de Freitas Valle misturava passadistas e modernistas, enquanto promovia conferências e tertúlias.

 

Paulista do interior, Pagu foi criada na capital. Em 1929 formou-se pela Escola Normal da Praça da República, diploma que habilitava ao ensino de crianças, no primário. Fenômeno então recente no panorama brasileiro, a “normalista” abria a perspectiva da emancipação feminina através do trabalho. As moças acorreram em peso, ganhando aura de costumes menos engessados e maneiras não tão espartilhadas. A proibição estatutária de casar antes da obtenção do diploma acirrava as fantasias masculinas e inspirava a música popular.[vi]

Seu uniforme azul-marinho e branco alegrava a paisagem urbana do centro. As obras dos modernistas, sobretudo os de São Paulo, estão cheias de alusões a elas. O tema já rendera um romance naturalista que beirava o sensacionalismo: A normalista (1893)de Adolfo Caminha. Tal como na literatura, a pecha de independentes e transgressoras aplicadas a essas jovens aparece no carnaval, na música popular, no teatro de revista, na charge e na caricatura.

Pagu foi apresentada por Raul Bopp a Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, figuras de proa do Modernismo e seu casal mais ilustre. Pagu abala o cenáculo modernista com sua formosura juvenil, charme e comportamento inconvencional. A exuberância da cabeleira, a boca polpuda, os olhos derramados – do célebre poema que lhe dedicou Raul Bopp, de que vai aqui uma amostra – comprováveis em fotos e desenhos, tornaram-se sua marca registrada:

“Pagu tem uns olhos moles

Uns olhos de fazer doer (…)

Passa e me puxa com os olhos

Provocantissimamente

Mexe-mexe bamboleia

pra mexer com toda a gente”

Em 1929, Pagu e Oswald de Andrade passam a viver juntos. Dessa união, com cinco anos de duração, resultaria o filho Rudá de Andrade. Pagu participaria intensamente da fase antropofágica do Modernismo e forneceria dois desenhos à Revista de Antropofagia.

A crise econômica de 1929 abre passo a uma reconfiguração de forças, com radicalização dos intelectuais, à direita e à esquerda. Encerra-se a década de eclosão e fastígio do Modernismo, baseada numa feliz fusão de vanguardistas com mecenas cafeicultores. Nesse processo, Oswald e Patrícia filiam-se ao Partido Comunista em 1930 e tornam-se ativistas da revolução.

No mesmo ano, Pagu faz uma rápida viagem a Buenos Aires, no intuito de procurar Luiz Carlos Prestes, que ali vivia em exílio; mas só o encontraria mais tarde em Montevidéu. No navio, travou amizade com Zorrilla de San Martin. Fez contatos na área literária com o cenáculo da revista Sur: Jorge Luis Borges, Victoria Ocampo, Eduardo Mallea.

O novo casal funda em 1931 o tablóide O homem do povo, que durou apenas oito números. Hostilizado pelos estudantes da vizinha Faculdade de Direito, que invadiram a redação e tentaram empastelá-lo, acabou proibido por ordem policial. Pagu escrevia a coluna “A mulher do povo”, de tom panfletário, em que fustigava a burguesia e as instituições, reservando virulência maior para as grã-finas e outras mulheres ociosas. Criou uma história em quadrinhos cuja protagonista era uma garota revolucionária chamada Kabeluda.

Sua primeira prisão se deu em 1931 em Santos, maior porto do Brasil e escoadouro da riqueza principal de então, o café. Trabalhando como operária, participou de uma greve de estivadores e foi presa quando acudia um manifestante baleado.

Em 1933 publica o romance de que aqui nos ocupamos: Parque industrial – romance proletário, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Exemplo da estética modernista, o texto é disposto em blocos de escrita, com flashes e flagrantes de extremada síntese, linguagem quase telegráfica e de impacto, utilização entremeada do coloquial. Seu cenário é o Brás, em São Paulo, bairro operário e reduto da imigração italiana. Pagu aproveita a experiência de sua própria proletarização: na literatura brasileira nada há de similar a seu ativismo feminista e comunista. O entrecho cuida de trabalhadoras pobres, que se deixam seduzir pela sereia dos donjuans ricos, circulando por ali em seus enormes carros de luxo, e que acabarão degradadas em prostitutas.

Logo encetaria seu grande périplo (1933-1934), que se tornaria lendário na tradição oral, até que fossem publicadas suas memórias (parciais) em 2005. Visitaria Estados Unidos, Japão, China, de onde teria trazido as primeiras sementes de soja, conforme testemunha Raul Bopp em Pagu – Vida-Obra, Manchúria e Rússia. Depois iria para a Europa, de onde seria repatriada. No itinerário, contatos com Freud, o último imperador chinês Pu Yi, os surrealistas franceses.

Novamente presa na repressão que se seguiu ao Levante Comunista de 1935, ao ser libertada cinco anos depois estava exaurida e pesava 44 quilos. Rompe com o Partido. Desse mesmo ano data sua união com Geraldo Ferraz, escritor e jornalista, com quem viveria até o fim de seus dias. Da união nasceria outro filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 1941.

Mais um livro, A famosa revista, escrito a quatro mãos com Geraldo Ferraz, seria publicado em 1945. Já mais distante da estética modernista, abandona o fragmento em prol do discurso contínuo, mantendo, todavia, uma linguagem inovadora e incisiva, demolidora de lugares-comuns. Sátira ao Partido Comunista, denuncia seus vícios, como o autoritarismo, a burocracia, e mais o pretexto da clandestinidade que acoberta personalismo, desonestidade e manipulação alheia.

Retoma em 1942, para não mais abandoná-lo, o jornalismo, seu ganha-pão e canal de expressão. Começa a trabalhar na agência de notícias France-Presse em 1945, ali permanecendo por um decênio, e entra para o corpo de redação da Vanguarda Socialista, fundada por Mário Pedrosa, que congregaria a nata da intelectualidade de esquerda anti-stalinista.

Pagu transfere-se com seus ideais utópicos para o pequeno Partido Socialista, pelo qual foi candidata a deputada estadual em 1950. Na campanha, publica o panfleto Verdade e liberdade, expondo os motivos que a levaram a romper com o Partido Comunista, já criticado em craveira ficcional em A famosa revista.

A partir daí escreveria em vários jornais da grande imprensa e acabaria por fixar residência em Santos, onde viveria até a morte. Mas frequentaria a Escola de Arte Dramática de São Paulo, para a qual deixaria em legado sua biblioteca de teatro,[vii] e acompanharia a cena cultural, visitando exposições, teatros, concertos, lendo livros novos e velhos, água para o moinho de seus escritos. Produziria crônicas, poemas, crítica literária, traduções de fragmentos, comentários de artes plásticas e de teatro, artigos de política nacional e internacional.

Permaneceria inconformista e fiel às vanguardas, exigente, sarcástica, adepta de fórmulas fulminantes. Como se não bastasse, sempre insubmissa na defesa dos avanços modernistas e contestatária na denúncia dos retrocessos, fossem estéticos, políticos ou comportamentais. Um exemplário de autores e obras abordados revela preferência por poetas e dramaturgos – mas invariavelmente pouco convencionais: Arrabal, Ionesco, Ubu Rei de Alfred Jarry, Brecht, Lolita de Nabokov, de quem faz a defesa, Becket, Valéry, André Breton, Philippe Soupault, Octavio Paz, St. John Perse, Dylan Thomas, Artaud, Dürrenmatt, Ghelderöde, Ibsen, Fernando Pessoa, a Ópera de Pequim, a estreia brasileira de A sagração da primavera, de Igor Stravinski. Escreve sobre música de vanguarda nacional e estrangeira. Amplia a gama de assuntos ao passar a registrar notas sobre televisão. Funda a Associação de Jornalistas Profissionais de Santos.

Passada a fase modernista e militante, após muitas prisões e experiência tanto de proletarização quanto de clandestinidade, a autora comunista e feminista do romance Parque industrial, como vimos, romperia as amarras partidárias. Entretanto, espírito libertário, continuaria a empunhar a bandeira do Modernismo e a investir contra tudo que fosse retrógrado, na arte ou na vida.

 

*Walnice Nogueira Galvão é professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Sesc\Ouro sobre Azul).

 

Fonte: A Terra é Redonda | Publicado originalmente na revista Opiniães, no. 2, 2023.

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