[Greve “Pão e Rosas” realizada em Massachusetts em 1912. Foto: Autor desconhecido / Wikimedia Commons]
Por David Brooks | Tradução: Beatriz Cannabrava
A presença da consigna “pão e rosas” em atos políticos recentes nos EUA aponta para a volta de uma mentalidade que une condições materiais de vida e dignidade, um horizonte possível para as novas lideranças do país.
Em cerimônias oficiais recentes, a frase “pão e rosas” fez parte do anúncio da chegada de algo notável, novo e surpreendente nesta conjuntura política estadunidense — e isso apesar de essa expressão ter surgido há mais de um século.
Na cerimônia oficial pública de posse do prefeito de Nova York, o jovem socialista democrático, imigrante e muçulmano Zohran Mamdani, foram incluídos diversos segmentos simbólicos e discursos inovadores que anunciavam a chegada de uma mudança geracional à esquerda em várias partes dos Estados Unidos. Mas foi uma canção que ilustrou esse momento simultaneamente novo e antigo: “Pão e rosas”.
Do outro lado do país, nessa mesma semana, outra jovem prefeita, também socialista democrática, tomou posse em Seattle. Katie Wilson, em seu primeiro discurso, falou sobre elevar a qualidade de vida para todos, construir uma cidade que crie “beleza e comunidade”. “Precisamos de pão, mas também de rosas”, completou.
Essa frase tornou-se uma das principais demandas da histórica greve têxtil de Lawrence, Massachusetts, em 1912 — uma ação trabalhista que também ficou conhecida como “a greve cantante”. E eles venceram. No dia 12/01, completou-se 114 anos dessa luta.
Em 12 de janeiro de 1912, milhares de trabalhadores realizaram uma paralisação que todos consideravam impossível. A maioria era formada por mulheres imigrantes, principalmente da diáspora europeia (algumas vindas de Cuba), no que então era o epicentro da indústria têxtil. A greve explodiu quando os patrões reduziram os salários, apenas para se surpreenderem com a resposta de 25 mil trabalhadoras e trabalhadores. As assembleias do comitê organizador da greve eram traduzidas para 25 idiomas.
“Se os trabalhadores do mundo quiserem triunfar, tudo o que precisam fazer é reconhecer sua própria solidariedade. Não precisam fazer mais do que cruzar os braços e o mundo vai parar”, declarou Joseph Ettor, da grande organização anarcosindicalista Industrial Workers of the World (IWW), aos grevistas. A lendária líder sindical do IWW, a irlandesa Elizabeth Gurley Flynn, tornou-se a principal dirigente da greve após a prisão dos demais líderes. Entre outras ações, ela organizou um “êxodo das crianças” para proteger os filhos e filhas dos grevistas, enviando-os para famílias trabalhadoras em Nova York, Filadélfia e outras cidades onde existiam comitês de solidariedade com a luta de Lawrence.
Após nove semanas de repressão violenta, intimidações, prisões e outros abusos, os empresários aceitaram a maioria das demandas dos grevistas, que já não se limitavam aos salários, mas incluíam as condições de trabalho. “Vocês são o coração e a alma da classe trabalhadora… venceram o poder opositor da cidade, do estado e do governo federal, enfrentaram a oposição das forças combinadas do capitalismo e resistiram às forças armadas”, declarou o líder nacional do IWW, William “Big Bill” Haywood. Eugene Debs, dirigente nacional e candidato presidencial do Partido Socialista dos Estados Unidos — em certo sentido, o avô dos que hoje se chamam “socialistas democráticos” — proclamou que aquela vitória foi histórica.
Nota do editor
Foram as canções que se tornaram o idioma comum. A demanda por pão e rosas podia ser traduzida para qualquer língua: pão para o sustento material e rosas para a dignidade e a beleza da vida.
O autor do famoso poema “Pão e Rosas” (Bread and Roses), foi o poeta e ativista americano James Oppenheim. Embora o poema seja ligado à greve de 1912, ele foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1911 na revista The American Magazine.
Inspiração: O poema foi inspirado por um slogan de uma greve anterior ou discurso de sufragistas (frequentemente atribuído à Helen Todd ou a mulheres sindicalistas de Chicago) que dizia: “Queremos pão, mas queremos rosas também”.




