Por Juliana Borges

Como funciona o tempo? Quem decidiu o tempo do tempo? Minha relação com o tempo e reflexões sobre ele são um encontro de deslumbramento e assombração. Certa vez, fui levada por minha avó a um antigo benzedeiro do bairro por uma insônia persistente. Ao lhe apresentar minha angústia, ele retrucou: “Mas quem disse que o tempo acaba? Quem pode medir o valor do tempo?”.

Anos depois, eu me deparei com uma palestra da professora de estudos de gênero e africanos Brittney Cooper, da Rutgers University, sobre tempo, história e racismo, sob o título “The racial politics of time”. Dentre várias publicações, um dos livros que considero mais interessantes de Cooper é Eloquent Rage: a Black Feminist Discovers Her Superpower (“Raiva eloquente: uma feminista negra descobre seu superpoder”), ainda sem tradução, no qual a autora trabalha a raiva como um superpoder de mulheres negras para impulsionar realizações e mudanças na própria vida e na de sua comunidade.

A reflexão de Cooper não está perdida no ar, e sim em consonante diálogo com outros intelectuais negros, como Malcolm X, Audre Lorde, Cornel West e bell hooks. A fala de Cooper no TED Talks é um estupendo toque de desconforto necessário. Nele, a afirmativa do benzedeiro retornou aos meus pensamentos, quando ela citou Kristie Dotson ao dizer que “nossa memória é mais longa do que nosso tempo de vida”. Ou seja, o que tem fim é a nossa existência, não o tempo.

Estamos sempre correndo contra o relógio, em busca de um momento que sabemos que não temos, que lá no fundo sabemos que está sendo roubado

Brittney Cooper foi além, ao apontar que o tempo é atravessado pelo racismo tanto ou mais do que poderíamos imaginar. Ela afirmou de forma contundente: “Se o tempo tivesse raça, ela seria branca”. Mas como? Queremos racializar até o tempo? Não deveríamos “desracializar” para construir um futuro equânime e deixar raça e racismo para lá? Essas perguntas poderiam ser lidas como reflexo da ideia de que pessoas negras estão além das bordas do tempo histórico ou presas a um passado circular. E você sabe de onde vem essa ideia de “deixar as coisas no passado” e “mirar no futuro”, pensando em populações de negros em diáspora e no próprio continente africano como preso a um passado incessante? Sinto dizer que, sim, do supremacismo branco e do modelo industrial de produção capitalista.

Não sou daquelas pessoas que jogam a água da bacia fora com o bebê, mas é inegável retomar a perspectiva hegeliana que retirou a África da história humana, apontando africanos como a-históricos, presos na “barbárie” e na “selvageria”, no além das fronteiras civilizatórias. É em virtude dessa ideia tão disseminada que me sinto desconfortável e rechaço a reivindicação por marcos civilizatórios, tendo em vista que os discursos em defesa do desenvolvimento e da civilização têm sido utilizados sistematicamente para expropriar, sequestrar, explorar e exterminar pessoas negras em diáspora, povos africanos e indígenas.

A afirmativa se deu em contexto de observação de povos africanos pela régua europeia, não compreendendo a circularidade em que se lê e vive o tempo em variados contextos africanos e logo tachando visões diferentes de ver e viver o mundo como subalternas e inferiores. É essa ideia, ainda em vigor, que invisibiliza o impacto, a participação, a existência e a contribuição de pessoas negras na história.

Sequestro

O tempo é também construção político-social, e as lutas sociorraciais são conflitos de tempo e de espaço. Como afirmou Cooper em sua palestra: “Os que estão no poder ditam o compasso do dia de trabalho, quanto dinheiro nosso tempo vale” e, citando George Lipsitz, “ditam o compasso da inclusão social”. Pensando em exemplos a partir do Brasil, podemos verificar essa incursão do racismo no tempo ao pensar os processos de gentrificação, negação do acesso à moradia e morosidade para garantir infraestrutura e saneamento básico.

E por quê? Porque a gentrificação ocorre pela perspectiva de que determinadas comunidades e grupos apenas ocupam espaço e não constroem história e relações de território, em uma disputa entre tomadores de espaço vs. fazedores do mundo e/ou ordenadores do tempo. No caso da morosidade para a garantia de direitos básicos, previstos na Constituição, visualizamos as desastrosas consequências no roubo do tempo das populações marginalizadas e majoritariamente negras. Quando citou Ta-Nehisi Coates, Cooper foi certeira: “A característica que define a raça negra é o incontornável roubo do tempo”.

O Mapa da Desigualdade 2021, produzido pela Rede Nossa São Paulo, é um bom documento para exemplificar a palestra de Cooper, ao sinalizar uma diferença que pode atingir cerca de 23 anos em expectativa de vida a partir do bairro em que se vive na cidade de São Paulo — no Alto de Pinheiros, a expectativa média alcança quase 81 anos, enquanto na Cidade Tiradentes não chega a 60.

Defender outro compasso cansa, já que estamos cooptados pelas dinâmicas do capitalismo racial

Vivemos a discriminação e, arrisco-me a dizer, a banalização do tempo. Se, por um lado, podemos e devemos observar e problematizar o roubo do tempo em uma perspectiva macro e sociológica, por outro, é preciso trazer essas dimensões ao cotidiano. Essa falta de tempo nos causa urgências sociais e em nossas relações, já que rouba conexões, trocas e encontros saudáveis e profundos — rouba a vida. Não à toa, enquanto escrevia este texto, pensava o todo tempo na gíria comum das periferias paulistanas, lugar onde nasci e cresci: “Sem tempo, irmão”.

Não há tempo. Estamos sempre correndo contra o relógio, em busca de um momento que sabemos que não temos, que lá no fundo sabemos que está sendo roubado. Somos roubados no tempo que somos obrigados a trabalhar exaustivamente para garantir sustento, no que ficamos no transporte público para ir a esse emprego, nos corres que precisamos fazer pela baixa oferta de emprego formal, no estresse desencadeado por essa vida extenuante. Somos roubados enquanto população ao ser encarcerados por crimes não violentos, ao nos tornar alvo da violência policial, de uma guerra que só mata negros, indígenas, ribeirinhos, quilombolas e periféricos.

Como uma postura subversiva, tenho tentado correr contra o tempo do capitalismo racial, sabendo dos limites da ação individual, e buscado desacelerar. Não está sendo fácil. A banalização do tempo está ligada a essa ideologia capitalista supremacista.

Toda essa reflexão advém de uma angústia juvenil, mas que pulula nas relações cotidianas, em que nos aprisionam em reuniões que poderiam ser um e-mail, impõem-nos trabalho presencial que visivelmente é mais bem cumprido em qualquer lugar e no tempo que nos é roubado pela burocracia.

Tenho me recusado ao sequestro do tempo para além do que o capitalismo e o racismo já me sequestram. Não respondo mensagens no instante que acham que devo responder. Não tolero reuniões desnecessárias, busco, a cada dia, respeitar tempos saudáveis e de qualidade com os meus, imponho limites de resposta para e-mails, de horário de trabalho, procuro garantir o tempo de descanso, da preguiça, do texto, do livro. Nada disso é fácil, e este não é um texto-manual-coach dizendo que “é só tentar”. Pelo contrário. Defender outro compasso, mesmo que para mim, sozinha em um barco salva-vidas ao mar de tempo precificado, vendido e roubado estruturalmente, também pode cansar, já que, como sociedade, estamos cooptados pelas dinâmicas do capitalismo racial.

Ao pensar a amefricanidade, precisamos não apenas retomar nossa participação e contribuição, como também estabelecer outros modos de ver e viver o tempo. Não em uma romantização, como povos originários e africanos o veem e vivem, e sim de acordo com o chamado proposto por Lélia Gonzalez, da perspectiva negra em diáspora, sobre de que maneira lidamos com o tempo e o nosso direito a ele como direito à vida.

 

Fonte: Quatro Cinco Um | Imagem: ‘O despertador’, de Diego Rivera. Óleo em tela, 1914.

 

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