Por Mateus Cunha

O Hip-hop representa uma cultura, ramificando-se em diversas áreas das artes, literatura e conhecimento através do mundo. Entenda seus principais elementos e conceitos

  • Elementos da cultura Hip-hop

    É muitíssimo importante ter em mente que Hip-hop NÃO é um gênero musical ou uma representação artística. Hip-hop é uma cultura que engloba quatro elementos culturais diversos sobre os mesmos escrutínios filosóficos, políticos e estéticos. São eles: DJ, MC, Graffiti e Break dance. Cada um desses elementos tem a sua importância incontestável para que a cultura Hip-hop seja uma das maiores expressões culturais da história da humanidade. Inicialmente, esses elementos não foram criados em correlação direta, contudo se relacionaram a partir da interação de seus agentes nos encontros em festas populares no South Bronx. A junção da performance dos 4 elementos resultou na produção coletiva que posteriormente, foi nomeada de Hip-hop.

  • Block Parties

    Festas de públicas onde começaram a florescer as primeiras movimentações para o que se consolidou como cultura Hip-hop. As block parties eram festas que aconteciam no South Bronx, permeadas pela experiência da cultura sound system que existia na Jamaica. Nessas festas, os encontros entre DJs, dançarinos e jovens interessados em trocar suas experiências culturais, foi construindo o movimento embrionário do que, posteriormente, tornaria-se a cultura Hip-hop. A importância das block parties é tão latente que o Dia Internacional do Hip-hop foi definido em homenagem a uma das maiores block parties daquele período inicial. Precisamente, a organizada por Cindy Campbell, (irmã do DJ Kool Herc), para arrecadar fundos para uma escola do bairro.

  • BreakBeat

    Resultado da técnica de discotecagem utilizada pelos DJs de Hip-hop. Baseia-se em quebrar, interromper a faixa executada em um ponto específico da música, produzindo uma mixagem: uma espécie de looping, uma nova interação com a música já existente. A técnica se popularizou pelas mãos do DJ Kool Herc, DJ jamaicano radicado no South Bronx – NY.

  • Break Dance

    Um dos quatro elementos da cultura Hip-hop: a dança na cultura Hip-hop.

  • Ganhou esse nome por ser praticada sobre o breakbeat Algumas pessoas ligadas ao surgimento do Hip-hop na cidade de São Paulo apontam que o Break Dance talvez seja o primeiro elemento da cultura Hip-hop a ganhar maior relevância em solo brasileiro. A partir dos encontros de dançarinos de break na estação de metrô São Bento, na cidade de São Paulo. Este contato levou os jovens que ali circulavam a se interessarem e a terem maior contato com a cultura Hip-hop e de seus demais elementos.
  • B-boys e B-girls

    Termo usado para denominar os dançarinos de Break Dance. Com o passar dos anos, adquiriu um nome reduzido. O “B” vem como abreviação do termo “Break” seguido do gênero do dançarino ou da dançarina.

  • Crew

    Grupos de pessoas organizadas para fomento e articulação da cultura Hip-hop. Comumente utilizado para representar um coletivo ligado à cultura Hip-hop nos mais variados elementos. O termo se tornou popular no Brasil especialmente por ser utilizado por grupos de Break Dance nas décadas de 80/90, às vezes, sendo usado também por alguns grupos de Rap.

  • DJ

    Um dos quatro elementos da cultura Hip-hop. O DJ é responsável pela musicalidade dentro da cultura. É chamado de DJ por ser o “disc jokey”, em tradução interpretativa “controlador de discos”. Pode-se considerar que a cultura do “disc jockey” – ao menos a mais influente no South Bronx – nasce com base na experiência cultural jamaicana do “selecta” (termo utilizado para descrever quem seleciona e controla as músicas a serem reproduzidas, nas festas populares jamaicanas). Essa expertise se difunde nas periferias de Nova Iorque, dada a possibilidade de músicas nos eventos sem a necessidade de um grupo para tocar instrumentos para tocar ao vivo. Um único indivíduo se torna responsável pela execução de músicas gravadas nos encontros. Uma possibilidade muito mais barata e menos trabalhosa aos agitadores culturais da época. Com o passar do tempo e a popularização das block parties, essa modalidade de apresentação musical se torna cada vez mais disseminada, reconhecida e replicada pelos jovens nos EUA e, posteriormente, no mundo.

  • Flow

    Ritmo ou modo com que o MC encaixa a sua rima na melodia da música. Varia de acordo com: o ritmo da música, a imposição e a entonação da voz, a variação da sílaba tônica, a modulação vocal, o compasso da música, entre outros fatores, tudo isso influencia o que chama-se de “flow”, no rap.

  • Graffiti

    Um dos quatro elementos da cultura Hip-hop: Artes visuais ligadas à cultura Hip-hop. geralmente produzida em paredes e em espaços públicos das cidades. A partir de uma estética específica, marcada por ser multicolor e pelo uso da tinta em spray, É a forma de representação estética da desconformidade que o Hip-hop carrega em seu DNA. Nasce com o intuito de causar um “incômodo visual” nos moradores das áreas centrais da cidade de Nova Iorque, por isso, a necessidade de serem grandes e coloridos. Eram feitos inicialmente nos trens que circulam pela cidade, como forma de representar a população periférica da cidade, que em sua maioria não conseguia circular pelas áreas mais centrais e nobres. O Grafitti serviria para chamar atenção para a existência e a necessidade de atenção para as partes mais marginalizadas da cidade.

  • Hip-hop

    O termo foi cunhado pelo artista e agitador cultural estadunidense Afrika Bambaata para representar a união dos 4 elementos artísticos sobre o mesmo signo cultural. DJ, MC, Break Dance e Graffiti, respectivamente, música e sonoridade; poesia e oralidade; dança, artes visuais e plásticas. O termo Hip-hop passou a representar uma cultura globalmente reconhecida e influente, ramificando-se para diversas áreas: artes, literatura e conhecimento por todo o mundo.

  • MC

    Um dos quatro elementos da cultura Hip-hop. Em tradução interpretativa “mestre de cerimônia”. Responsável pela experiência verbal/oral no movimento Hip-hop. No surgimento do Hip-hop, era responsável por agitar as festas, rimando e animando o público enquanto os DJs faziam seus shows de mixagens. Com o passar do tempo tornou-se o responsável pela escrita, verbalização e oralidade da cultura Hip-hop, produzindo as letras e interpretando o Rap (a canção da cultura Hip-hop). Tornando-se uma figura de destaque entre os elementos da cultura Hip-hop.

  • Rap

    Produto musical da cultura Hip-hop, une dois elementos: DJ e MC. Com o passar do tempo a experiência do Hip-hop não ficou contida apenas nas festas do South Bronx, espalhando-se para os Estados Unidos como um todo. Gravações das mixagens dos DJs se tornaram uma fonte de renda para os jovens agitadores culturais, criando um mercado e um público consumidor das gravações. O MC passou a ganhar importância por ser quem interagia com o DJ durante os shows e gravações, passaram a usar não só o palco, mas as gravações para expressar sua poesia junto com as batidas e as mixagens feitas pelos DJ’s, dando origem à experiência mais popular da cultura Hip-hop: o Rap. Com o passar dos anos, o estilo foi ganhando cada vez mais adesão do público e do mercado fonográfico. Tendo seu primeiro “boom” de popularidade na segunda metade dos anos 1980, cresceu vertiginosamente entre o fim dos anos 90 e início do século XXI e atualmente, é um dos gêneros musicais mais influentes do mundo.

  • South Bronx

    Região da cidade de Nova York considerada com o berço do Hip-hop. Entre as décadas de 1960, 70 e 80 o South Bronx era uma região demograficamente marcada pela presença de afro-estadunidenses e de imigrantes, especialmente caribenhos, que vieram para a cidade de Nova York em busca de trabalho nas indústrias que ocupavam a cidade. Essa interação gerou um forte intercâmbio cultural entre os afro-estadunidenses e as variadas experiências culturais caribenhas que habitavam a região. A partir dos anos 60 e 70 iniciou-se uma mudança na estrutura econômica da cidade, que visava se tornar um pólo ligado à economia financista e menos industrial, muitas indústrias saíram de Nova Iorque nesse período. Isso impactou fortemente a vida dos moradores da cidade, especialmente dos grupos racializados que viviam nas regiões mais empobrecidas como, por exemplo, o South Bronx. Pessoas que, em sua maioria, não tinham condições de se qualificar para pleitear vagas dentro do que o mercado financista exigia. Em meio a esse contexto, a juventude negra, periférica e imigrante nova-iorquina, encontrava-se imersa em um abandono estatal: sem acesso ao mercado de trabalho formal, residindo em ambientes violentos, uma perspectiva não muito animadora de mudanças a curto prazo e pouco acesso a equipamentos culturais públicos. Nesse contexto, a arte surge como grito, como símbolo da revolta desses jovens que se valem de variadas expressões artísticas (dança, música, artes plásticas e visuais), como ferramenta para criticar e expor sua condição, bem como a sua reivindicação de um novo modelo de sociedade. Para isso rompem radicalmente com as representações sociais vigentes, fazendo emergir uma produção autônoma e crítica, tensionando, inclusive, as representações artísticas massificadas daquele momento.

Mateus Cunha é doutorando em sociologia pelo PPG Sociologia-Unicamp, mestre em sociologia pelo PPGS-UFF e formado em ciências sociais pela Universidade Federal Fluminense. Atua como pesquisador do núcleo AFRO/CEBRAP. Compõe o NEGRA-UFF (Núcleo de Estudos e Pesquisa Guerreiro Ramos) e o BITITA-IFCH-UNICAMP (Núcleo de Estudos Carolina Maria de Jesus). Tem experiência na área de sociologia da cultura, hip-hop, literatura, populações afro-brasileiras e periféricas.

 

Fonte: Afro-Cebrap.

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