Imagens que circulam online mostram os membros, vestidos com jaquetas bomber pretas com o logotipo da pantera negra em preto e branco, boinas e portando armas de estilo militar (que eles têm permissão legal para portar).

 

Por Wagner França, Pátria Latina 

 

Quando agentes federais do ICE (Serviço de Imigração e Controle Alfandegário) desceram sobre Minneapolis no início deste ano, resultando na morte de Renee Nicole Good, uma mãe de três filhos, durante um protesto, as imagens de violência pareceram ecoar um passado distante. Para muitos, foi um lembrete brutal de que a máquina de repressão estatal continua a operar, frequentemente direcionada às mesmas comunidades marginalizadas de sempre.

Nesse cenário, uma resposta organizada surgiu nas ruas, não apenas em Minneapolis, mas da Filadélfia a Los Angeles. Indivíduos portando armas e vestindo insígnias características apareceram para confrontar agentes do ICE e proteger bairros. Eles se identificam como o Partido dos Panteras Negras pela Autodefesa e afirmam ser uma continuação direta do movimento revolucionário negro fundado por Huey Newton e Bobby Seale em 1966, em Oakland. Esse renascimento não é um exercício de nostalgia, mas uma resposta tática a uma realidade urgente: a escalada de violência e deportações sob a atual administração federal, que levou a ações como a criação de “zonas livres do ICE” em Los Angeles e Chicago.

Para entender esse ressurgimento, é preciso olhar para as raízes. O Partido dos Panteras Negras nasceu em um período de extrema tensão social e de brutalidade policial generalizada. O movimento pelos direitos civis havia conquistado vitórias legislativas importantes, mas a realidade nas comunidades negras urbanas seguia marcada por pobreza, desemprego e repressão violenta. A abordagem dos Panteras era dupla: a autodefesa militante contra a violência policial, com patrulhas armadas legalmente nos bairros, e a construção de Programas de Sobrevivência para atender às necessidades básicas negligenciadas pelo Estado.

Esses programas incluíam o Café da Manhã Gratuito para Crianças, clínicas de saúde, iniciativas de educação política e distribuição de roupas. A combinação entre confrontar o poder coercitivo do Estado e construir poder comunitário autossustentável era entendida como o caminho para a verdadeira libertação. Os Panteras não enxergavam a luta apenas como um enfrentamento ao racismo, mas como uma batalha contra um sistema econômico explorador que estava na raiz da opressão. Essa análise levou o movimento a um alcance internacional, com alianças firmadas com lutas de libertação em diversas partes do mundo.

A resposta do Estado foi implacável e ilegal. Sob o programa COINTELPRO do FBI, os Panteras foram infiltrados, difamados, divididos internamente e alvos de violência letal, como no assassinato do líder Fred Hampton em Chicago. A mensagem era inequívoca: qualquer movimento que desafiasse de forma estrutural as engrenagens do poder seria esmagado.

Avançando para 2026, sob uma nova administração, o ICE e a Patrulha de Fronteira passaram por um processo intenso de despolitização e militarização. A política que evitava ações em “locais sensíveis”, como escolas e hospitais, foi revogada. Operações com centenas de agentes, frequentemente usando camuflagem e máscaras, tornaram-se comuns em cidades como Los Angeles e Oakland, gerando confrontos e protestos em massa.

A violência tornou-se explícita. Além da morte de Renee Good, um manifestante na Califórnia foi atingido à queima-roupa por uma bala de borracha e perdeu a visão de um olho. Um agente do ICE em licença atirou e matou Keith Porter Jr., alegando tê-lo confundido com um atirador ativo durante as comemorações de Ano Novo. Para ativistas, esses episódios compõem um quadro de “terrorismo doméstico” patrocinado pelo Estado.

Para comunidades de cor, a linha entre a polícia local e as forças do ICE tornou-se cada vez mais tênue. O alvo imediato pode ser diferente — imigrantes —, mas o mecanismo de medo, violência e desintegração familiar é o mesmo que comunidades negras enfrentam há gerações. Como observou um ativista, “quando eles vêm atrás de um de nós, estão planejando vir atrás de todos nós”. É nessa interseção que a filosofia e a prática dos Panteras Negras reaparecem com força renovada.

Os grupos atuais que atuam sob o nome dos Panteras Negras se veem explicitamente como herdeiros diretos dessa tradição. Paul Birdsong, presidente nacional de um desses grupos, afirma que seus membros são treinados por sobreviventes do partido original. Suas ações seguem de perto o manual histórico. Eles marcam presença em protestos contra o ICE, como ocorreu na Filadélfia, portando armas de forma visível. Sobre a operação em Minneapolis, Birdsong declarou que, se estivessem presentes, “ninguém teria sido tocado”. A presença armada busca dissuadir a violência dos agentes e oferecer proteção direta às comunidades.

Ao mesmo tempo, esses grupos mantêm um foco central nos Programas de Sobrevivência. Em North Philadelphia, por exemplo, operam há anos um programa semanal de distribuição gratuita de alimentos, que se tornou uma instituição confiável no bairro. Eles retomam a visão do “Intercommunal People’s Core” original, concentrando esforços no cultivo de sistemas próprios de alimentação, água, saúde e educação, com o objetivo de construir comunidades verdadeiramente autossustentáveis.

A análise política também se expandiu. Os ativistas contemporâneos articulam a luta como parte de uma guerra de classes global, conectando a violência do ICE dentro dos Estados Unidos ao que chamam de “imperialismo em estágio final” e ao financiamento ocidental de conflitos no Sul Global. A luta deixa de ser vista apenas como racial ou nacional e passa a ser compreendida como um conflito unificado contra um sistema opressivo que explora e reprime povos em escala mundial.

Esse ressurgimento ocorre em um contexto político profundamente polarizado. De um lado, cresce a resistência institucional, com cidades-santuário como Oakland se recusando a cooperar com o ICE, condados criando “zonas livres do ICE” e estados como a Califórnia tentando aprovar leis para proteger escolas e hospitais. Do outro, a retórica oficial se intensifica, com ameaças de invocar a Lei da Insurreição para enviar tropas federais a cidades marcadas por protestos. Especialistas alertam que a própria ideia de um confronto direto, ou a equiparação simbólica entre o ICE e os Panteras, pode ser uma simplificação perigosa, capaz de normalizar a violência como linguagem política legítima.

Ainda assim, a principal lição da história dos Panteras Negras permanece atual. Como analisam críticos do próprio movimento, a energia revolucionária colossal dos anos 1960 não conseguiu transformar a sociedade em sua raiz porque, apesar do brilho e da coragem, faltaram organização revolucionária duradoura e clareza política suficientes para sustentar o enfrentamento prolongado contra a máquina repressiva do Estado. O desafio colocado aos sucessores modernos é evitar os mesmos caminhos de infiltração, divisão interna e repressão violenta, ao mesmo tempo em que constroem uma base comunitária ampla e sólida, capaz de produzir mudanças reais.

No fim das contas, o retorno dos Panteras Negras é menos uma anomalia e mais um sintoma de uma doença social profunda. Ele revela que, quando as instituições falham, quando a violência se torna ferramenta explícita de política e quando comunidades inteiras são abandonadas, as pessoas são empurradas a organizar sua própria defesa e seu próprio sustento. “Todo o poder ao povo”, o antigo slogan dos Panteras, nunca foi apenas uma frase de efeito; era uma estratégia concreta de sobrevivência à espera de revolução. Seu eco nas ruas de hoje lembra que o poder, em última instância, reside na capacidade das pessoas comuns de cuidarem umas das outras e de defenderem sua humanidade comum contra qualquer força que tente negá-la. Como resume Danielle, do Black Panther People’s Core, “a revolução é o único caminho a seguir agora. Você não pode reformar os sistemas que estão no lugar”.

 

Os Panteras Negras voltaram?

 

Por Malu Nogueira, Alma Preta

 

Em texto de opinião, a pesquisadora de mídia e militante do Movimento Negro Unificado (MNU) discute o que se sabe, até agora, sobre a suposta retomada do partido que marcou a história dos EUA e das lutas antirracistas no mundo.

(…) No último dia 8, portando armas e organizados com a estética e os emblemas dos Panteras Negras, um grupo da seção da Filadélfia do movimento, incluindo o presidente nacional Paul Birdsong, participou dos protestos contra o ICE. Muitas imagens dessas ações têm repercutido amplamente nas redes sociais e ascendido o questionamento sobre a volta dos Panteras Negras.

Trata-se de uma retomada da experiência passada? O que defendem agora? Por que atuam na causa da imigração? Essas são algumas das questões que têm surgido. Acreditamos que ainda é cedo para construir uma análise profunda, mas já podemos apontar as primeiras respostas a partir das declarações de Birdsong e da cobertura da imprensa local.

Fundado nos por nomes como P. Newton e Bobby Seale, no processo de luta por direitos civis dos anos sessenta, os Panteras Negras foram originalmente um movimento de combate à violência racial e às desigualdades sociais, de orientação marxista, influenciado pela onda de revoluções e movimentos de libertação nacional das décadas de cinquenta e sessenta, como as lutas por independência que aconteciam na África, a Revolução Vietnamita e os levantes populares na América Latina.

Embora derrotado a partir do dramático assassinato de suas principais lideranças, o Partido dos Panteras Negras tornou-se uma das mais emblemáticas experiências de organização política revolucionária no “coração” do império estadunidense. Não por acaso, é a partir dessa inspiração – como se nota no nome e na estética – que o novo movimento tem se organizado atualmente.

No entanto, embora inspirado na experiência histórica, Paul Birdsong diz que o grupo não se trata exatamente de uma cópia de seus precursores, mas sim de uma releitura contemporânea de seus princípios. O movimento tem se articulado nacionalmente pelo menos desde 2020, a partir da onda de protestos que incendiou o país depois da morte de George Floyd.

Membros sobreviventes do partido original teriam treinado Birdsong e outras lideranças, que seguiram adiante com o recrutamento de novos filiados. Não se sabe ao certo a quantidade total de militantes que aderiram ao partido em todo país. De acordo com declarações dadas à imprensa, cerca de 100 pessoas compõem a sessão da Filadélfia.

A intervenção do movimento, assim como na experiência anterior, organiza-se a partir de duas frentes. A primeira é a organização de atividades comunitárias, como distribuição gratuita de alimentos, roupas e itens básicos em bairros pobres. As ações se assemelham à lógica dos “programas de sobrevivência”  dos Panteras, como o café da manhã gratuito para crianças e clínicas médicas gratuitas.

A segunda frente surge a partir da brecha legal de diversos estados norte-americanos em relação à posse e ao porte de armas de fogo. É a presença ostensiva de membros armados em protestos, ações públicas e patrulhamento comunitário. Para o grupo, a visibilidade de cidadãos negros armados e organizados inibe a ocorrência de abusos policiais e ataques de grupos supremacistas da extrema direita. Além disso, cumpre o papel de reforçar a ideia de que as comunidades marginalizadas têm direito à própria proteção quando o Estado falha.

É a partir dessa última ideia que o grupo tem se posicionado em relação à política de imigração. Eles querem o fim do ICE, além de reivindicarem a responsabilização da administração de Trump pelos assassinatos e casos de violência por parte de agentes federais. Ao serem questionados sobre o porquê de atuarem na causa, Birdsong relembra o internacionalismo e a solidariedade aos povos oprimidos como princípios do partido historicamente, que não somente lutava pela população negra estadunidense:

[…] A coisa número um é que muitas pessoas estão dizendo que não deveríamos nos levantar contra o ICE porque estamos nos levantando contra, ou melhor, defendendo pessoas que não somos nós e os Panteras Negras só defendem pessoas negras. Isso é uma mentira. Huey P. Newton disse que nós somos internacionalistas e ficamos ao lado de todas as pessoas oprimidas, não importa de que cor elas sejam. Esse é o fundador do Partido dos Panteras Negras. Ele disse isso. […] A coisa número dois: o Partido dos Panteras Negras criou algo chamado a Coalizão Arco-Íris, que é uma coalizão de hispânicos, asiáticos, brancos e negros de todo o mundo. Lutando juntos contra a opressão. De novo, os Panteras Negras ficaram ao lado dos mexicanos, ficaram ao lado dos porto-riquenhos e dos dominicanos, ficaram ao lado dos japoneses e dos vietnamitas. Nós, na verdade, os Panteras Negras, fizeram toda uma campanha para acabar com a Guerra do Vietnã. Eles ficaram ao lado do Vietnã. […] Se vocês assistirem a Huey Newton e ouvirem um discurso dele, ele diz categoricamente: nós não somos nacionalistas negros. Nós somos internacionalistas e ficamos ao lado de todas as pessoas oprimidas ao redor do globo, não importa qual seja a sua etnia.”

Nos últimos dias, a tensão em torno do tema da imigração vem se acirrando ainda mais. Como reação aos protestos, que têm acontecido em dezenas de cidades, em especial no estado de Minnesota, o Pentágono colocou em alerta 1500 soldados para intervir na região.

Diante do assassinato de Renee Good, postagens nas redes sociais que mostram a ação truculenta do Serviço de Imigração têm se alastrado e gerado comoção popular. De acordo com uma pesquisa da CNN 57%, dos estadunidenses desaprovam a maneira como o ICE tem aplicado as leis de imigração.

Além disso, redes de solidariedade entre cidadãos, visando a segurança de vizinhos indocumentados, estão se fortalecendo. Devemos acompanhar com atenção e esperança os desdobramentos dessa mobilização popular, que agora conta com os Panteras Negras “em cena” outra vez.

 

Fonte: Pátria Latina e Alma Preta / Foto: Michael Clubb/CSM via ZUMA Wire/ DPA.

 

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