Por Luca Franca

Acordo para escrever esse post com a notícia de que o senado argentino aprovou a lei que legaliza o aborto naquele país. O sinal de esperança que essa vitória das hermanas significa é gigante para o conjunto do movimento feminista na América Latina, a resiliência e a força mobilizadora que as feministas argentinas demonstraram nos últimos anos na disputa política dessa pauta é uma lição para todas nós.

Argentina entra para o pequeno grupo de países da América Latina que legalizaram o aborto. São eles: Cuba, Guiana, Guiana Francesa e Uruguai – há também aborto legalizado na Cidade do México. Mas não é apenas o fato do aborto ter sido legalizado, mas o processo político de mobilização ocupando as ruas, organizando encontros feministas diversos e superando divergências da tática que devem nos inspirar. Há divergências lá entre elas e não são poucas e mesmo assim, conseguiram juntas jogar para o conjunto do país uma maré verde de esperança e conquistar um direito que é tão raro para estes lados.

Não me assustaria se as chilenas aproveitassem a vitória de conquistar uma constituinte em seu país para avançar também na vitória que obtiveram há alguns anos ao garantir o aborto legal em casos de risco de morte da mulher e estupro. Lá também há uma forte movimentação política das feministas, em especial via Coordinadora Feminista 8M. Mas eu queria falar do Brasil, pq é onde a minha atuação feminista é concreta e como me impacta essa lanterna verde de esperança que a Argentina ascendeu para nós aqui na América do Sul.

O movimento feminista tem ganho um novo fôlego desde 2011, sim o marco temporal de ganho de fôlego em qual eu trabalho é esse, não tenho a tendência de apagar a história. De lá pra cá temos assumido cada vez mais protagonismo político e ampliando ainda mais a pauta feministas para além de guetos das organizações tradicionais, a questão é que mesmo quando nós apresentamos a força política das mulheres e do feminismo em nosso país ela é eventual, pouco orgânica enquanto frente, apesar da grande organicidade que as entidades e coletivos feministas, organismos de mulheres partidários e de movimentos mistos tem. Falta-nos espaço político cotidiano para articularmos nossas ações para além das demandas eventuais que temos respondido de forma exemplar ao conjunto do movimento brasileiro.

É essa a lição que as feministas argentinas passam para nós brasileiras, nenhuma de nós será vitoriosa achando que é o bastião feminista do movimento, que é a representação do que existe de novo nesse caminho de quase 10 anos de renovação do movimento no país. Não é preciso ensinar a nós que iniciamos nossa caminhada em 2011 ou antes dos passos que nos trouxeram aqui, nós sabemos quais foram, sabemos dos congressos de mulheres que existiram em São Paulo, dos jornais feministas que enfrentaram a ditadura empresarial-militar, da importância da articulação dos movimentos e entidades feministas mais antigas para poder garantir a Lei Maria da Penha. Foi por sabermos disso que lá atrás confrontamos Sarah Winter e o finado Femen quando descartavam como água toda a trajetória do movimento feminista brasileiro.

O que é preciso é disposição política para a articulação e organização de uma ampla e democrática frente feminista no país, que reúna o conjunto político que se postou nas ruas contra Bolsonaro de 2018 até esse momento, que consiga dar resposta a importantes iniciativas que estão em curso e que com a pandemia se estagnaram como o Encontro Nacional Feminista. É só com todas nós juntas, debatendo de forma democrática no cotidiano a tática e a estratégia para enfrentar Bolsonaro e sua agenda de retrocessos.

A movimentação feminista do 8 de março nas ruas de todo país tem dado o tom político de enfrentamento ao governo Bolsonaro e aos retrógrados. Não dá mais pra ficar apenas de 8 de março em 8 de março. Demos um importante passo em 2020 nesse processo, respeitando as dinâmicas locais de construção de cada 8 de março apresentamos uma convocatória nacional aos atos de forma nítida qual a política que nos unificavam em todo país, o nosso farol!

As argentinas ao arrancarem com mobilização e articulação política a vitória da legalização do aborto em seu solo nos demonstram que com diversidade política, unidade de ação e disposição para enfrentar a fragmentação política que nos atinge é possível sim e temos caminhado nessa toada no último período, precisamos conseguir dar um passo além para que em 2021 o nosso 8 de março culmine e inicie um processo mais permanente de articulação, mobilização e enfrentamento político feminista nacionalmente e em nossos territórios. Um processo que de conta da diversidade política que existe hoje em nosso movimento, que dê conta de agregar e somar com as importantes iniciativas que o movimento de mulheres negras tem apresentado para disputar a nossa sociedade, o movimento de mulheres trans e travestis que tem demonstrado o quão baixo a misoginia dos governos pode chegar na vida das mulheres e o movimento de mulheres indígenas que fizeram importante marcha a Brasília em 2019.

As pessoas tem se perguntado muito o que as outras querem em 2021. Eu quero a vacina, mas depois de acordar com a notícia da vitória das nossas hermanas eu também quero que nós brasileiras, feministas, consigamos esse ano formar uma frente, um fórum, seja lá qual for o nome que tenha, que congregue de forma mais cotidiana toda a nossa diversidade política para pensar conjuntamente ação política para enfrentar a agenda de retrocessos de Bolsonaro e demonstrar que a esperança ela não é apenas um substantivo feminino, mas é feminista!

 

Fonte: Bidê Brasil.

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