Por Raj Patel no New Frame | Tradução: Maurício Ayer

Da Amazônia à Palestina. Da África ao Caribe. Obra do psiquiatra martinicano é revisitada por autores do Sul global. Quem são os condenados da terra hoje. A nova faceta colonial: as polícias. A dominação pelo trauma. A cura: o poder comunitário.

O que um psiquiatra morto há 60 anos tem a oferecer à luta da classe trabalhadora no século XXI? Fanon Today: Reason and Revolt of the Wretched of the Earth [Fanon hoje: razão e revolta dos condenados da terra] (Daraja Press, 2022), livro editado por Nigel Gibson com contribuições de autores e autoras desde Síria e o Paquistão até a Palestina e a África do Sul, sugere uma resposta: cura revolucionária.

Concluído durante a pandemia, que teve como consequência a ampliação da desigualdade e do trauma para os pobres, este livro resulta deste momento e, com 551 páginas, tem grande fôlego em sua cobertura. Embora esteja organizado em três seções – Fanonian Militants [Militantes fanonianos], Still Fanon [Ainda Fanon] e Fanonian Practices [Práticas fanonianas], as categorias não são rígidas. Quanto aos locais onde Fanon permanece relevante, são geograficamente diversos, mas têm pelo menos uma característica unificadora: para onde quer que se olhe, o espaço fanoniano é marcado pelo poder comunitário que se ergue contra o Estado. Por esse motivo, essas comunidades frequentemente são cercadas para conter a ameaça que representam – e depois alvejadas com chumbo para serem eliminadas.

Mas deve-se considerar, primeiro, o cerco à inteligência. Wangui Kimari inicia seu texto com as observações de Fanon sobre a geografia: “O mundo colonizado é um mundo dividido em dois. A linha divisória, a fronteira, é representada pelos quartéis e pelas delegacias.” O belo capítulo de Toussaint Losier sobre a relevância de Fanon nas prisões dos Estados Unidos aponta que não é a posse do espaço que é a revolução, mas a consciência revolucionária que emerge dialeticamente da posse desse espaço.

O pensamento que emerge dos projetos revolucionários fanonianos é contra-hegemônico e, portanto, uma ameaça muito real ao poder do Estado. Frantz Fanon diagnosticou o projeto colonial francês na Argélia como uma tentativa de “descerebralizar” o povo, como nos lembra Gibson em seu notável capítulo. Quando as comunidades se envolvem na análise científica de suas circunstâncias e respondem com arte, rádio e política, as pessoas rejeitam o colonialismo. No Bairro Alto, em Lisboa, a poesia lírica e as batalhas de hip-hop são criminalizadas. Em Los Angeles, a polícia ficou apavorada com a trégua negociada entre as gangues em Watts em 1992. Ao mesmo tempo que as gangues baixavam suas armas, a polícia preencheu o vácuo com suas saraivadas de tiros, denotando o pânico que reconhecer o poder comunitário gera no Estado.

Para leitores que buscam ler Fanon sobre violência, Fanon Today deixa claro que houve uma mudança desde que o autor martinicano publicou Os condenados da Terra, em 1961. No século XXI, o projeto de descolonização em curso é combatido com a violência, não das tropas coloniais, mas das forças domésticas, sejam policiais ou milicianas. A polícia é uma ameaça constante. Ao apontar suas armas para os corpos dos militantes, no entanto, o alvo final é a capacidade de pensamento, inteligência e sagacidade das comunidades. As forças burguesas pós-coloniais respondem com políticas públicas coloniais, oferecendo sacrifícios de sangue para salvar seu corpo político.

Os que lutam por justiça têm sido alvos sistemáticos do carnificina policial. Dos barracos em Durban aos guetos em Los Angeles, a violência policial é conduzida como um exercício para ensinar aos pobres que eles não podem e não devem tentar pensar por si mesmos. Em Cova de Moura, Amadora, Portugal, uma área ocupada por migrantes principalmente de Cabo Verde, trabalhadores trazidos para construir uma ponte que o ditador António de Oliveira Salazar batizou com seu próprio nome foram encurralados por cercas de arame e estradas. A polícia atirou 54 vezes em um morador.

Trauma global

Mas as balas não precisam ser disparadas o tempo todo para serem a fonte de um trauma permanente. A ameaça de violência do Estado é tão real quanto a degradação crônica e os sinais do confinamento. Tanto Fanon, o psiquiatra, quanto Fanon, o revolucionário, interpretam e depois curam a violência do colonialismo.

O capítulo de Samah Jabr e Elizabeth Berger é um hino à dívida que os profissionais de saúde mental do Sul Global têm com Fanon quando ele apontou para o trauma colonial e seus complexos. Aqueles que sobrevivem ao confronto com o Estado colonial muitas vezes são psicologicamente destroçados por um trauma que só terminará com o fim da ocupação.

Esse trauma é global e agravado pela experiência da negritude, mas a crítica de Razan Ghazzawi ao colorismo complica a ideia de que preto e branco sejam categorias simples. Isso é especialmente válido quando as categorias de classe e gênero influenciam a experiência vivida por militantes na linha de frente. Fanon teria um tempo escasso para políticas de autenticidade.

O médico Fanon compreendeu que a violência da luta colonial se manifesta de muitas formas diferentes. As comunidades indígenas são mais propensas a morrer – e morrer por diabetes, homicídio e suicídio – do que os colonizadores em seus países. O capítulo de Léa Tosold, que situa Fanon em relação às lutas do povo Munduruku na Amazônia e que inclui uma análise da práxis da autodemarcação do território, apesar da temível resistência do Estado, é particularmente oportuno. Os leitores que desejam saber mais sobre os estudos de Fanon e povos indígenas podem buscar o livro de Glen Sean Coulthard Red Skin, White Masks [Pele Vermelha, Máscaras Brancas] (Universidade de Minnesota Press, 2014).

A linguagem da luta

A luta indígena pelo mundo sempre envolve a defesa das formas de pensar sob ocupação. De maneiras diferentes, Losier e Feargal Mac Ionnrachtaigh compartilham como o encarceramento foi, para alguns, uma escola de luta porque foi uma escola de linguagem. Falar irlandês contra o inglês hegemônico do ocupante foi, como disse um ex-prisioneiro republicano, “uma parte crucial de nossa luta contra a criminalidade e ajudou a formar nossa identidade. A gente teve que lutar para aprender a língua e falar era uma forma de resistência. Cada vez que falávamos irlandês, dizíamos ao nosso inimigo que éramos republicanos irlandeses, protestando e lutando. Não íamos deixá-los nos silenciar… O irlandês foi uma arma que usamos contra os opressores, deixando-os totalmente frustrados e excluídos. Nossa expressão de identidade os deixou totalmente impotentes. Conhecimento é poder e a ignorância diminuiu o senso que eles tinham de poder e controle.”

Esta linguagem tem um poder de cura real. Em vários estudos, o uso da língua indígena protege seus falantes do tabagismo, alcoolismo e diabetes, doenças que têm o colonialismo como vetor. Essas línguas estão sob ataque do capitalismo colonial, principalmente por sua gramática de inteligência livre e reciprocidade que é atacada pelo inglês colonial. Talvez o ponto alto do livro seja a oportunidade de testemunhar Fanon em ação na rearticulação da linguagem em um diálogo entre Gibson e um grupo de membros do Abahlali baseMjondolo [grupo de ativistas da África do Sul]. No diálogo, Fanon é discutido como uma forma de entrar na política de construção do movimento, assim como acontece com as mentiras do “planejamento das cidades inteligentes (smart cities)”, os conflitos sobre o papel da religião e as articulações de poder dentro do ANC [Congresso Nacional Africano, partido político da África do Sul].

É um privilégio raro ver esse tipo de tradução de Fanon em ação, especialmente em uma organização que incorpora tantas das ideias do livro. A linguagem do abahlalismo desafia o Estado: o governo via Abahlali como um grupo que vive em “assentamentos informais” ou “favelas”. O próprio movimento Abahlali abraçou a linguagem dos “barracos”, orgulhoso de ocupar e socializar a terra e a moradia, afirmando seu direito à cidade. A insistência do Abahlali em sua capacidade de pensar independentemente do Estado foi recebida pela primeira vez com acusações de que o movimento seria guiado por alguma terceira força, explicitando a descrença do Estado e da burguesia de que pessoas empobrecidas pudessem pensar e escrever por si mesmas. E, como a ameaça de ativismo organizado e inteligente colocou pressão sobre o Estado, suas forças responderam com a morte de dezenas de pessoas, causando traumas no movimento.

O caminho para a cura será longo. Ninguém finge que será diferente. O próprio Fanon entendeu a necessidade de descolonizar o processo de cura. Depois de fazer o máximo que pôde para transformar a psiquiatria por meio de suas práticas no Centro Psiquiátrico Blida-Joinville, Fanon decidiu se juntar seriamente à luta de libertação. Ele morreu aos 36 anos de leucemia, mas não sem antes observar as barreiras coloniais impostas contra sua própria prática: “Por trás do ‘médico que cura as feridas da humanidade’ aparece o homem, membro de uma sociedade dominante e desfrutando na Argélia do benefício de um padrão de vida incomparavelmente superior ao de seu colega habitante da metrópole. Em outras palavras, nos centros de colonização, quase sempre o médico é também um proprietário de terras.”

Faz todo sentido que, neste belo livro, todos e todas que estão engajados na práxis radical da cura sejam participantes de movimentos que estão subvertendo as instituições da propriedade privada como um caminho para uma sociedade emancipada. O legado de Fanon está vivo hoje em suas lutas.

 

Fonte: Outras Palavras.

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