Por Marcos Azambuj

HEGEMONIA SOB AMEAÇA

Insight Inteligência — Embora já tenha sido previsto não poucas vezes no passado, o declínio do império norte-americano me parece hoje inegável. Os Estados Unidos enfrentam de uns anos para cá um desafio à sua hegemonia que foi em vários momentos virtualmente exclusiva. Devem fazer agora a transição de um mundo uni ou bipolar para a geometria mais complexa e exigente de um mundo multipolar. É da natureza dos impérios nascerem, crescerem, se consolidarem e enfrentarem seu ocaso. Ocaso este que, em relação aos Estados Unidos, não será súbito, mas provavelmente muito lento e gradual. Os Estados Unidos não deixarão de ser, até onde a vista enxerga, uma potência de primeira grandeza. Mas perderão a primazia virtualmente solitária que hoje detêm, como aconteceu no passado com o império britânico. Não preciso ir mais longe no tempo, mas os exemplos de processos de expansão, apogeu e ocaso de impérios são muitos e parecem ciclos quase inexoráveis, apesar de acontecerem em velocidades e circunstâncias históricas muito diversas.

Ciclo natural

Impérios não costumam nascer impérios, mas surgem em países na sua origem relativamente pequenos ou militarmente fracos que, no entanto, se transformam em sede e cabeça de poderosas entidades. A pequena Holanda criou um vasto império marítimo. Portugal, diminuto, construiu e defendeu o seu. Espanha e França por longos períodos conservaram seus vastos impérios. O mais poderoso de todos, por extensão e por influência, nos tempos modernos, foi o império britânico que, em determinado momento, controlava mais da metade do nosso planeta. Diferentes deles, que projetavam sua autoridade e ambições através do poder naval e administrações coloniais funcionando muito além de suas fronteiras, estão hoje países como a Rússia, a China, a Índia e o Brasil. Escolhi arbitrariamente os quatro grandes sócios originais formadores do clube dos Brics, que, por sua população e extensão territorial, recursos naturais e por serem detentores de outras e importantes dimensões de poder, são virtualmente inconquistáveis. Mesmo sem os antigos territórios soviéticos, a Rússia é ainda duas vezes maior do que o Brasil, duas vezes maior do que os 27 países da Europa, ocupando metade da América do Sul. São territórios que podem eventualmente ser derrotados, mas nunca plenamente conquistados, porque sua ocupação é quase impossível por ser tão onerosa em termos econômicos, logísticos e militares. O que estou sugerindo é que, em política internacional e, sobretudo, na definição de poder, tamanho é documento. Dessa condição de que já são incontornáveis titulares ou potenciais impérios os grandes países presentes na cena internacional não podem abrir mão. Não têm como renunciar ao que intrinsecamente são.

Formação do império norte-americano

Os Estados Unidos nasceram com as 13 colônias na costa atlântica no fim do século XVIII. Fizeram uma revolução bem mais importante e influente a longo prazo do que foi a francesa. Ela gerou uma ordem constitucional e uma normatividade que sobrevive há 200 anos, apesar das turbulências e ameaças da recente administração de Donald Trump. É quase incrível que em duas ou três cidadezinhas, como era então Boston e Filadélfia, e mesmo Nova York, já existisse naquele momento de fundação, no fim do século XVIII, uma elite intelectual com homens e gênios como foram Adams, Jefferson, Franklin, Madison e Hamilton. É quase um milagre, como aquele que aconteceu na também pequena Atenas, em um outro momento bem mais remoto da história. A construção política que ergueram os “founding fathers” foi de tal brilho, de tal qualidade, que sobrevive vigorosa até hoje. Os Estados Unidos foram construídos ideologicamente a partir da ideia da sua excepcionalidade, como nação escolhida por Deus, dotada de um destino manifesto. Como os judeus, aliás. Mas os norte-americanos carregam muito mais vantagens. Golda Meir dizia que Deus escolheu o povo judeu, mas lhe deu o pior lote do Oriente Médio, porque era o único que não havia petróleo. Não é definitivamente o caso dos norte-americanos. Através da retórica imperial da porta aberta a todos, do slogan de que os Estados Unidos são “a terra de oportunidades”, os norte-americanos acenam com a esperança de uma vida melhor e mais livre, mensagem de um vigor extraordinário. Atraíram e ainda atraem a melhor imigração e os grandes talentos, sobretudo europeus e asiáticos. Um de seus símbolos mais importantes foi a Estátua da Liberdade. Não é só como o nosso Cristo apenas benévolo e acolhedor. É uma estátua que diz em sua base – “Venham do mundo para aqui as massas esfaimadas, os seus pobres, os seus abandonados”. Ao longo do século XIX, os Estados Unidos crescem quase que organicamente, expandindo-se por meio de conquistas e aquisições. Alcançaram, assim, a dimensão continental e bioceânica que hoje têm. Possuem como império a melhor geografia possível. Sua configuração geográfica lhes permite ser grande potência no Atlântico e no Pacífico, com notável projeção sobre o Golfo do México e sobre o Ártico. Os norte-americanos não têm nenhum rival próximo. Embora o Canadá possua também um imenso território, conta com uma população irrisória de trinta e poucos milhões de pessoas. Também o México nunca foi uma ameaça – muito pelo contrário, foi a grande vítima da expansão imperial do seu vizinho. Enquanto a China construiu no passado uma grande muralha para se proteger dos ataques de povos mais agressivos do que ela, os Estados Unidos pensaram em construir o seu por um outro tipo de temor; para não serem invadidos pela pobreza do México e por países ainda mais pobres do Caribe e da América Central. É verdade que por vezes os Estados Unidos são seduzidos por uma visão isolacionista, que no fundo é ingênua porque o poder em escala global só se sustenta se o país se engaja e influi em múltiplos teatros.

Um vitorioso e vários derrotados

Os grandes derrotados da expansão imperial americana foram o império espanhol e seus herdeiros, com as perdas sucessivas dos territórios mexicanos, caribenhos e, por fim, das Filipinas e de Cuba – estas sendo a última grande humilhação sofrida por uma Espanha declinante. Daí os nomes de quase metade de seu território: Novo México, Arizona, Flórida, Nevada e Califórnia, que atestam a extensão e a origem dessas conquistas. O poder em Washington também submeteu os então imensos territórios indígenas, cuja lembrança permanece nos nomes de estados como o Wyoming, Indiana, entre tantos outros lugares. O que se fez com os índios nos Estados Unidos é uma história de horror. Os norte-americanos mataram todos os búfalos porque sem búfalos haveria muito poucos índios, que viviam de se alimentar da sua carne. Enquanto os Estados Unidos, ao mesmo tempo, são o lugar da promessa, da abundância e da esperança, são também o lugar de uma ferocidade implacável contra tudo que estiver em seu caminho. Essa dualidade acompanha quase sempre o comportamento das superpotências: a coexistência do poder absoluto e ao mesmo tempo imensamente criativo; poder imensamente generoso, mas também miseravelmente cruel.

A escalada ao posto de potência

O século XX foi, sem dúvida, o século norte-americano. Foi um século curto que, para os historiadores, começa com a Primeira Grande Guerra, em 1914, quando os Estados Unidos entraram no conflito ao lado da Grã-Bretanha e da França, e, juntos, derrotaram a Alemanha, em 1918. A Alemanha era um império frustrado. Quando os alemães afinal se tornaram um único Estado, a partir da união daquela miríade de principados, grão-ducados e reinos, em 1871, tiveram a sensação de ter chegado ao jantar dos impérios quando já se estava servindo a sobremesa. Já estavam estabelecidos na Ásia, na África e no Caribe o império britânico, o francês, e até o holandês e o português. Os alemães tiveram de se contentar com Namíbia, Togo e Tanzânia. A Alemanha se sentia roubada do seu destino – logo ela, que se percebia como a nação mais talentosa e mais criativa. A Primeira Grande Guerra foi na sua essência um conflito continental europeu que a ninguém interessava e que começou pelos automatismos previstos em acordos de assistência recíproca. Esses pactos obrigavam os aliados a mobilizar forças em prazos mínimos e pôr em marcha, também de forma breve, as engrenagens de um sistema de acordos de reação automática e que continham incontornáveis gatilhos temporais. Fazia, então, pouco sentido, e hoje nenhum sentido, que um arquiduque austríaco assassinado em Sarajevo pudesse detonar uma catástrofe como aquela. A declaração de guerra da Áustria à Sérvia obrigou a entrada no jogo da Rússia; a entrada da Rússia obrigou a entrada da Alemanha; a entrada da Alemanha obrigou a entrada da França e da Inglaterra. Em uma semana estavam todos mobilizados em uma guerra que na frente ocidental ficou quase estática durante três anos, até a chegada decisiva dos norte-americanos em auxílio de franceses e britânicos. O general Pershing, ao desembarcar com o contingente norte-americano, proferiu uma frase extraordinária: “Lafayette, estamos aqui”. Isto porque a independência norte-americana, lá atrás, tinha sido feita decisivamente pela França, então aliada dos colonos britânicos rebelados da América, impedindo o envio dos reforços metropolitanos britânicos. O equilíbrio de forças se desfez, a Alemanha colapsou e a guerra terminou. Se os Estados Unidos tivessem se mantido neutros, a Alemanha teria resistido por muito mais tempo, porque a Rússia já estava derrotada na frente oriental e provavelmente o resultado teria sido um armistício bem mais favorável à Alemanha. Ou talvez mesmo uma vitória germânica.

Da guerra, surge um império

Com Woodrow Wilson na Conferência de Versailles, os Estados Unidos despontaram como a nova grande potência mundial. Ao longo da década de 1920, os norte-americanos vivem um momento de abundância – talvez o ciclo mais veloz e extraordinário de enriquecimento que a história já tenha assistido: é o petróleo, os transportes, a mecanização dos bens de consumo, é a agricultura se transformando em ciência, a capacidade comercial expandida em direção a todos os mares e oceanos; a comunicação de massa veiculada pelo cinema e pelo rádio. A crise de 1929 é um baque, sem dúvida. Logo chegará outro grande ator político, Franklin Roosevelt, que com o New Deal trouxe a ideia de que era possível e necessária uma segunda revolução americana, para repactuar os termos do contrato social existente. Os Estados Unidos recuperaram, assim, pouco a pouco, o terreno perdido. Na década de 1930, a Rússia de Stalin estava também se recolocando de pé com a eletrificação e a industrialização planificada. Inglaterra e França geriam seu relativo declínio, confrontados com uma nova onda de aspirações nacionalistas na periferia colonial. Quanto à Alemanha, a sensação de iniquidade com os termos do tratado de Versalhes, que pusera fim à Primeira Guerra, tornou possível a ascensão do nazismo, como uma forma de revanchismo feroz da extrema-direita. Mas o que terminou de consolidar a marcha imperial norte-americana foi a Segunda Guerra Mundial. Mais uma vez, os norte-americanos foram a única potência a atravessar o conflito praticamente intactos. Em 1945, a Alemanha está arruinada; a Rússia, exausta; a Itália, desmoralizada; a Inglaterra, embora vitoriosa, empobrecida e sob severo racionamento. Os Estados Unidos são, então, senhores absolutos do mundo, especialmente até 1949, quando a Rússia soviética detona sua primeira bomba atômica. A era nuclear mudou a lógica da guerra antes travadas com armas convencionais. A guerra sempre se apoiou na ideia de que a vitória no conflito era rentável e vantajosa apesar das perdas humanas e materiais. As armas nucleares, porém, elevaram os custos e perdas humanas do conflito direto a níveis insuportáveis para todos os que a possuíssem. Ao mesmo tempo, se tornaram a única garantia de que seus detentores não seriam mais agredidos dali por diante. Esse impasse explica por que a Guerra Fria foi travada por décadas de forma indireta entre as duas superpotências, assumindo sobretudo a forma de guerras convencionais na periferia dos dois impérios da época. Foi nessa época que George Kennan desenvolveu a doutrina da contenção, preconizando que a única maneira de enfrentar a União Soviética era brecando seu expansionismo pelas beiradas. Nessa corrida, durante a qual os impérios britânico e francês terminaram de se desmanchar, russos e norte-americanos se organizaram militarmente pela OTAN e pelo Pacto de Varsóvia, neutralizando ao mesmo tempo seus antigos adversários, a maior parte dos quais obrigados a ingressar numa ou noutra. Até hoje os principais derrotados da última guerra, Alemanha e Japão, não possuem armas nucleares, nem dispõem de assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Além da Europa, o império norte-americano controla a chamada White Commonwealth, que reúne os principais países brancos de língua inglesa, como são a Austrália, a Nova Zelândia e o Canadá, além de possuírem bastiões avançados no Oriente Médio, como Israel, e na Ásia, como o Japão, Taiwan e a Coreia do Sul.

O império começa a descer a ladeira

O século norte-americano chega ao fim no seu apogeu, por volta de 1990, quando caem o muro de Berlim e o império russo-soviético. Os Estados Unidos deixam de ser um império entre impérios, para se tornar o único império em pé. Foi justamente quando não tinham mais rivais que os norte-americanos perderam a visão imperial estratégica e, com ela, a oportunidade de redesenhar o mundo. A partir desse momento, os Estados Unidos se embrulharam em uma série de guerras onerosas e inconclusivas no Afeganistão, Síria, Líbia, Iraque. São conflitos que os norte-americanos não perderam, mas também certamente não ganharam. Enquanto os Estados Unidos se atolaram nessas guerras, aconteceu um fato tão extraordinário quanto havia sido a emergência dos Estados Unidos no século 19: o ressurgimento da Ásia na cena geopolítica. A China dá uma demonstração extraordinária de capacidade depois de mais de um século de caos e humilhação, de quase colonização explícita, guerra civil, ocupação japonesa, revolução comunista e depois cultural. É, sobretudo, Deng Xiaoping que traz a China de volta à condição de grande potência. É verdade que os Estados Unidos continuam a se valer de sua melhor geografia. A China está encostada na Rússia e na Índia, o que certamente não é uma vizinhança confortável, enquanto os Estados Unidos não se preocupam nem com o Canadá nem com o México. Mas não é só a China. É a Índia, que volta também a ser uma grande potência. É a Indonésia, que cresce de influência. É a Turquia, que volta a ser um país de certo peso. É o Irã, com uma presença cada vez mais incontornável. É a Rússia, que retorna ao jogo. É como se certos atores mudassem a roupa, fizessem uma plástica e voltassem a dançar como no passado. Também a Coreia do Norte lança mísseis de longo alcance e de certa complexidade. O mundo em volta do império norte-americano ficou mais complexo e com evidentes tendências em direção à multipolaridade. A decadência do império norte-americano advém de desafios externos e internos. Internamente, os Estados Unidos sofrem um processo de decadência de suas instituições, que foram feitas apenas para acomodar essencialmente grupos brancos de origem europeia. Tocqueville já dizia no começo do século XIX que o contrato social norte-americano excluía dois grupos: os indígenas e os negros, estes escravizados. Também os mestiços ou hispânicos eram vistos como subalternos ou com muita ambivalência. A ascensão e revalorização desses segmentos nas últimas décadas levaram os norte-americanos a uma crise de identidade que paralisou seu sistema político. Alguns querem sacrificar a democracia para manter a identidade primitiva; outros querem preservar a democracia e forjar outra identidade. Trump é uma figura inédita na história norte-americana: não existe nada que preceda a ele como desafio a uma normatividade que vem desde Washington. O poder imperial norte-americano, embora militarmente intacto, está declinante, principalmente, porque sua sociedade encontra-se muito dividida. O país perdeu a sua coesão e o sentido de missão, ou seja, a crença de ser uma nação natural e irresistivelmente predestinada à grandeza.

O poder desliza para a Ásia

Enquanto isso, o eixo da dominação imperial parece então migrar do Atlântico Norte para a Ásia. Enquanto a China fez progressos extraordinários, assim como a Índia reafirma com brilho seu passado, a Europa é na verdade vassala dos Estados Unidos. É real a crença de que o mundo tem um novos eixos para além do G7 criado em torno dos Estados Unidos, que são os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. Há também o G20, que reúne de fato o diretório do poder mundial. Os Brics trazem consigo a ideia da multipolaridade. Para os Estados Unidos, o desafio chinês parece ainda maior do que o soviético. A União Soviética nunca foi um grande adversário comercial, tecnológico; nunca produziu nada bem e barato; os soviéticos eram maus negociantes, e mesmo algo incompetentes militarmente. A Rússia era um imenso mastodonte com uma ideologia, lutando pelos corações e mentes dos homens, acenando com a superação da ordem capitalista. A China está pouco ligando para corações e mentes dos outros países. Só quer produzir mais, mais barato e com mais eficiência. Então, os Estados Unidos estão entrando em rota de colisão com os chineses. Ontem, foram drones derrubados; hoje, é esse negócio de que o TikTok tem que ser proibido; amanhã, será Taiwan. Pouco a pouco os riscos vão se multiplicando, em algum momento esse caldo pode entornar. Mas a China não quer hoje uma briga com os Estados Unidos, porque sabe que perde, tendo em vista a disparidade de poder militar e tecnológico. Os Estados Unidos não são só um império; são sucessores de impérios que reúnem
fragmentos do império britânico e francês. A União Europeia é uma dependência do poder militar norte-americano, assim como o Japão. A falta de visão estratégica norte-americana, própria de períodos de declínio, segue com a sua pretendida expansão para o leste da Europa, atrás de tradicional influência russa. Quando os Estados Unidos eram ainda aquela tripa de 13 ex-colônias britânicas na borda do Atlântico, em 1820, já tiveram a audácia de declarar às potências europeias, então muito mais poderosas, que não admitiriam sua intromissão nos assuntos do Novo Mundo. Foi a doutrina de Monroe. Quando a Rússia soviética tentou colocar mísseis em Cuba, os Estados Unidos ameaçaram o império, então concorrente, com uma guerra atômica. Como puderam os norte-americanos imaginar, portanto, que a Rússia admitiria o avanço indefinido da OTAN na direção de suas fronteiras, inclusive em um país historicamente vinculado à identidade russa como a Ucrânia? Agora a Rússia diz: ou vocês saem, ou nós vamos para guerra. Essa guerra está anunciada desde a rejeição do acordo de Minsk. Nenhum império admite ser desafiado em sua área de influência. Nem o Brasil aceitaria nas suas fronteiras presenças estrangeiras hostis, se outro império quisesse meter tropas no Paraguai ou na Bolívia.

O império brasileiro

A América do Sul foi sempre um remanso estratégico, do ponto de vista geopolítico. Isto aqui não importa muito no jogo mundial do poder, não tem maior interesse, daqui não se controla nada vital para os grandes impérios. A América do Sul pareceria uma grande lança apontando em direção à Antártica, e ninguém quer nada com a Antártica. Nós não somos estrategicamente importantes. Essa relativa irrelevância foi para nós, brasileiros, um fator benigno, que nos deu o tempo e a pausa necessários para que o país se desenvolvesse e pudesse chegar intacto até aqui. Porque, conforme já disse algumas vezes, o Brasil também é um império à sua maneira. Ao contrário de outros, como a própria Rússia e a China, ou vizinhos do nosso subcontinente, como a Argentina e o México, o Brasil nunca foi derrotado. Também tem historicamente suas ambições, de alguma maneira imperiais ainda que inconscientes e essencialmente benignas. O Brasil tem os ingredientes da dimensão imperial, a começar pelo tamanho. Sua história é toda atravessada pelo cuidado em não perder a unidade territorial herdada da colonização. Toda forma de separatismo sempre foi duramente reprimida. E o que nos sobrou de território é uma imensidão. O Brasil é incomensurável. Talvez por isso tenha feito até hoje apenas uma única renúncia à sua aspiração imperial: a da posse de armas nucleares. É algo de que participei ativamente e que até hoje me dói. Não porque eu quisesse ter armas nucleares, mas porque foi uma renúncia, e o Brasil não gosta de renúncias, e, sim, de ter todas as opções abertas pela frente. Mas, nesse caso, o interesse regional, o interesse nacional, nossos compromissos com os vizinhos e com a causa da paz indicavam que podíamos colaborar sem ter armas atômicas. O Brasil não precisa delas para se defender, justamente porque é inconquistável por outros fatores e circunstâncias. Há pouco fui de avião à Colômbia. Passei a viagem quase que com o nariz enfiado na janela, olhando o Brasil lá embaixo durante quatro horas. Depois de atravessarmos a fronteira, porém, em menos de meia hora, já estávamos em Bogotá. E veja que a Colômbia não é um país pequeno. Há uma cena de um dos documentários da Segunda Guerra que sempre me fascinou. Mostra um bando de oficiais alemães que parecem perdidos naquelas estepes russas infindáveis. Os generais estão se perguntando: que diabo de lugar é este? Onde estamos? Por que nós nos metemos aqui? Como a gente sai disto? O Brasil também tem essa capacidade de intimidar um potencial adversário pela sua capacidade de parecer não terminar nunca. Você sai do Rio de Janeiro, avança cem quilômetros e a mal passou de Petrópolis. Mais cem e chega a Juiz de Fora. Mais cem, ainda está em Barbacena. Nós brasileiros nos acostumamos com essa dimensão continental do Brasil, e dela só lembramos quando saímos do país. Quando embaixador em Genebra, eu podia escolher entre oito países em que eu poderia ir de trem ou automóvel almoçar. Levava quinze minutos para chegar de carro à França; um pouco mais de tempo para chegar à Bélgica, à Áustria, à Itália ou a Luxemburgo! No Brasil haveria sempre mais Brasil pela frente… O Brasil tem também uma imensa percepção da sua continuidade histórica. Sempre me surpreende que, quando há um desfile militar brasileiro, ele se inicie pela exibição das bandeiras históricas, a primeira das quais uma cruz, como traziam pintadas nas suas velas naus e caravelas. É como se a história do Brasil fosse um rio que desemboca no presente sem rupturas; uma espécie de corredor do tempo. O Brasil se considera herdeiro de si mesmo e de Portugal, do próprio fato de que o nosso imperador fundador era herdeiro da coroa de Portugal e foi depois de rei de Portugal.

A montagem do quebra-cabeças brasileiro

Das dimensões do poder adquiridas no século XIX, nos faltavam, porém, outros elementos para ser um império. O primeiro era a demografia; nós não tínhamos gente. Éramos quatro milhões em 1822. Hoje, com 220 milhões de habitantes, somos coisa grande. O segundo elemento faltante era econômico. Não tínhamos produtividade. Isso se resolveu com a industrialização, e hoje, principalmente, com o agronegócio, vocação nossa desde os primórdios da colonização açucareira em Pernambuco. O Brasil é uma superpotência agropecuária. O terceiro elemento faltante era a matriz energética. Atravessamos um século XIX sem carvão e um século XX sem petróleo. Mas hoje o Brasil produz quatro milhões de barris de petróleo por dia. É um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo. Está – coisa inacreditável – a caminho de ficar autossuficiente em trigo. O Mato Grosso do Sul excedeu a Argentina como maior produtor mundial de soja. Tudo isso leva a crer que existem condições para que o Brasil cumpra um dia o seu grande destino imperial e que possamos chegar lá. Não vejo nenhum país do mundo com essa obsessão pelo próprio futuro. Mas o Brasil nunca é abertamente ou conscientemente imperialista. Talvez por excesso de terras a ocupar, nosso imperialismo foi quase sempre para dentro, na forma de uma marcha para o Oeste. Nós nos sentimos folgadamente bem na nossa roupa. No plano internacional, como diria Sérgio Buarque, gostamos de nos mostrar como um gigante cheio de bonomia. Temos uma disposição risonha para a humanidade, para a coisa construtiva. Não temos ânimo imperial no sentido agressivo, porque não temos adversários. O Brasil não tenta vender nenhuma ideologia, expansão territorial ou corrente migratória. Condenamos a agressão russa na Ucrânia porque o Brasil, conforme a carta das Nações Unidas, não concorda que nenhuma alteração de fronteiras se faça por via militar. Temos fronteiras com dez países, cujas fronteiras respeitamos impecavelmente. Só a China e a Rússia têm fronteiras mais extensas do que nós. Então, o Brasil é um país muito cuidadoso, que não pode nem quer dar a impressão de ser truculento ou ameaçador. Tem que ser cordato, racional, moderado.

O amanhã do império brasileiro

O futuro brasileiro não pode ser outra coisa, portanto, que essa expansão natural, amistosa de nossos interesses – nunca uma forma agressiva, predatória, territorialmente expansionista. Com tudo isso, o Brasil tem também todo interesse na multipolaridade. Sou multipolar por convicção e pelo que entendo deva ser nosso interesse nacional. A minha ideia de multilateralidade é a de que o mundo é nossa província, porque o Brasil foi formado por europeus, africanos, asiáticos sobre a matriz dos que já estavam aqui. Aonde vou, há sempre algum elemento cultural que me faz sentir em casa. Como acarajés em Lagos, quibes no Líbano, sushis em Kioto, pizzas em Nápoles, churrascos em Buenos Aires. Um país como o Brasil tem de ser naturalmente favorável a um mundo multipolar, no qual possa jogar em todos os tabuleiros e tenha fichas em todas as mesas. O Brasil é ainda é um ator menor, mas já é certamente um global player. Não é muita ficha, não é muita mesa, mas nós temos muitas jogadas para fazer. Não somos vassalos naturais de potência nenhuma. Vamos jogar bem com os Estados Unidos, mas também queremos uma Europa forte, assim como todas as Américas, a Ásia e a África. A nós convém o acesso a uma multiplicidade de tabuleiros.

 

Fonte: O Cafezinho.

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