Por Ynaê Lopes dos Santos

Após este difícil 2022, espero um ano revolucionário. Estamos no apagar das luzes de um governo que revelou que não temos fundo do poço, e que o que entendemos por civilidade pode ser desmontado de maneira muito rápida.

 

23.

Para muitos, é um número cabalístico, repleto de significados. Sociedades que existiram há séculos, como no Egito e na Mesopotâmia, reconheciam nesse o número da sorte. Os incas acreditavam que 23 era o melhor número existente. Aqueles que acreditam em anjos, enxergam o 23 como um número que simboliza a necessidade de enxergarmos e acreditarmos em nós mesmos.

Para os adeptos da numerologia, 23 significa criatividade, inventividade, transformação. Coincidência ou não, uma série de eventos e personagens históricos (muitos deles trágicos e/ou transformadores) tem relação com o número 23, que também é o número de pares de cromossomos que inscrevem o código da vida humana.

Mas, infelizmente, o número 23 insiste em me lembrar das profundezas do racismo brasileiro.

A cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil.

Não sei quantas vezes ouvi e repeti essa frase, fruto de um estudo feito pelo Mapa da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) em 2017, encomendado pela ONU Brasil. Uma realidade abjeta, mas tipicamente brasileira, que desenha com contornos muito nítidos a existência de uma prática amplamente difundida que define quem morre e como se morre no Brasil.

Essas mortes são, na maioria das vezes, frutos da ação violenta e despreparada do Estado brasileiro, um país no qual a Segurança Nacional foi forjada por uma elite escravista que, depois de 13 de maio de 1888, queria que os egressos do cativeiro e todos os seus milhares de descendentes – muitos deles nascidos livres – desaparecessem do mapa. Como o plano não deu muito certo (graças às ações de resistência diversas e plurais da população negra), as elites da República brasileira foram encontrando mecanismos para dificultar e/ou inviabilizar a vida da população negra. E, infelizmente, nada mais efetivo do que cortar o “mal” pela raiz, nada mais efetivo do que cercear a juventude preta do país.

23 também é o número pelo qual o menino Aloísio da Silva passou a ser reconhecido, depois que foi “adotado” pela família Rocha Miranda e levado para trabalhar como escravo em uma das propriedades da família, uma história muito bem explorada no documentário Menino 23 – Infâncias perdidas no Brasil (2016), baseado na pesquisa de Sidney Aguiar Filho. Seu Aloísio foi um dos 50 meninos “doados” pela direção do Orfanato Romão de Mattos Duarte (RJ) para os Rocha Miranda, uma das famílias mais ricas do Brasil e que comungava com o nazismo. O ano era o de 1933. Todos os meninos eram negros. Todos viveram suas infâncias e juventudes como escravizados, mesmo com a escravidão abolida há décadas.

Parece que, por aqui, o poder transformador e de bons agouros que o 23 carrega ainda não chegou. A violência e a prática genocida que segue ceifando a vida da população negra e periférica (que representa grande parte do contingente populacional do país), conseguiu se adequar e conviver com avanços importantes, como a política de cotas raciais. Nos mesmos dez anos (2012-2022) em que nunca vimos tantos jovens negros nas universidades públicas do país, nunca vimos tantos jovens negros serem assassinados.

Essa constatação só faz com que retornemos às raízes do racismo no Brasil.

É fundamental entenderemos que, para mudar essa realidade e transformar a vida das crianças e jovens negros e negras em vidas possíveis, dignas e permeadas pelas complexidades que marcam a existência humana, precisamos não nos contentar mais com “os casos de sucesso”, com aqueles punhados de dez a 20 jovens que, graças às ações familiares e comunitárias, conseguiram seguir vivos e transformar a realidade ao seu redor. Sem dúvida temos e precisamos aprender com essas trajetórias, mas as vidas negras não podem mais ser anedotas mobilizadas ora para negar a existência do racismo, ora para romancear a culpa branca daqueles que compreendem minimamente o tamanho do racismo brasileiro.

Eu, particularmente, espero um 23 revolucionário, ou o mais perto que possamos chegar disso.

Estamos no apagar das luzes de um governo que revelou que não temos fundo do poço, e que o que entendemos por civilidade pode ser desmontado de maneira muito rápida, porque a nossa experiência de cidadania foi construída de forma restrita, desigual e racialmente determinada. Um República inteira se equilibrando na corda bamba.

Tivemos um aceno positivo e, que bom, é assim que este difícil 2022 termina para o novo 2023 se iniciar.

Um governo democraticamente eleito, que reconhece que a fome e a miséria existem e precisam ser combatidas. Um governo que orquestrou um ministério em diálogo com movimentos sociais, com lideranças de agendas importantes, como a luta pela igualdade racial, a centralidade dos direitos humanos e da ciência no combate à desigualdade. Um governo que acredita no SUS e na necessidade de um ministério dos povos originários.

Parece haver, como nunca antes, uma compreensão do tamanho do racismo brasileiro e a urgência de transformações.

Que em 2023 esse desejo de mudança se transforme nela própria.

Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

 

Fonte: Deutsche Welle Brasil.

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