[O Parque Memorial Quilombo dos Palmares reconstitui a história do maior, mais duradouro e mais organizado refúgio de negros escravizados das Américas. Foto: Tereza Cidade.]
Muito além de um refúgio de escravizados, Palmares foi um projeto político e social
Por Iago Filgueiras
Quando falamos sobre os quilombos no Brasil, é quase impossível não lembrar do Quilombo dos Palmares e de nomes como Zumbi e Dandara. Costumamos aprender que eles foram uma experiência marcante do período colonial brasileiro e da escravidão, mas é quase como se eles ficassem restritos a um passado muito distante.
Vistos como simples espaços de fuga, os quilombos foram muito além disso — eles subverteram a lógica colonial e estabeleceram um modo de vida comunitário, centrado na terra e na ancestralidade, uma verdadeira ameaça ao projeto civilizatório europeu.
Neste artigo, você vai entender o que foram os quilombos, como funcionava Palmares e por que sua memória ainda incomoda.
Além da fuga: o quilombo como prática de liberdade
A história do Brasil é uma história construída sobre a violência, mas é também uma história de resistência. Em uma nação forjada pelo tráfico de pessoas negras, arrancadas de suas terras e transportadas à força para serem submetidas ao trabalho escravizado em outro continente, os quilombos são uma expressão da luta, da rebeldia e da recusa à lógica colonial imposta.
Onde houve escravidão, houve resistência. A recusa ao trabalho forçado, a diminuição consciente da produtividade, a sabotagem de ferramentas ou a fuga foram formas historicamente empregadas pela população escravizada para romper com o domínio do colonizador.
Os quilombos surgem, justamente, como uma expressão dessa resistência, vinculada a um processo de organização, acolhimento e construção coletiva de uma alternativa à violência a que os escravizados estavam submetidos. Para Abdias Nascimento, grande intelectual e pensador da cultura negra, “quilombo não significa escravo fugido. Quilombo quer dizer reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial”.
O termo, com origem nas línguas bantu faladas por diversos povos africanos trazidos ao Brasil, era utilizado para descrever um local de descanso, um povoado ou acampamento de nômades e guerreiros. Mas, no contexto da diáspora africana brasileira, o termo passou a representar uma instituição guerreira que agrupava indivíduos com origem multicultural e que compartilhavam entre si o desenraizamento forçado de suas comunidades.
Ao longo dos séculos, diversos quilombos foram formados em todo o território brasileiro. Vítimas da violência colonial, alguns foram brutalmente exterminados; outros se consolidaram como comunidades tradicionais. Mas, além dos espaços historicamente reconhecidos como quilombos, como o de Palmares, por exemplo, essa forma de organização da comunidade afro-brasileira segue se manifestando no cotidiano do Brasil, dos terreiros às escolas de samba.
Quilombo dos Palmares: a maior rebeldia contra o escravismo na América Latina
O Quilombo dos Palmares é reconhecido como a maior experiência comunitária de resistência formada por escravizados fugitivos no território brasileiro. A organização surgiu entre o final do século XVI e o início do século XVII, na Serra da Barriga, atual região de divisa entre os estados de Pernambuco e Alagoas.
Descrito como uma confederação quilombola que reunia vários mocambos, pequenos povoados negros, Palmares chegou a ter, em seu auge, uma população estimada entre 20 e 30 mil pessoas. No livro Quilombos: resistência ao escravismo, o sociólogo e historiador Clóvis Moura o descreveu como a “maior manifestação de rebeldia contra o escravismo na América Latina”.
Ao longo de mais de um século de existência, Palmares foi liderado por figuras como Aqualtune — princesa congolesa sequestrada na África e escravizada no Brasil —, Ganga Zumba, Zumbi dos Palmares e Dandara, resistindo às diversas investidas dos bandeirantes para capturar escravizados fugidos e destruir o quilombo. Sua organização política, econômica e cultural mostrava, em sua essência, uma forma de vida orientada pela razão africana.
Veja mais: Zumbi dos Palmares, o nome gigante na história de resistência e libertação do povo escravizado
Política e governança sob a razão africana
Ainda segundo Clóvis Moura, Palmares não era um simples aglomerado, mas uma confederação de quilombos que se transformou em uma república. O governo era altamente centralizado, liderado pela figura de um monarca com poderes ilimitados, mas eleito por um conselho de chefes, representantes dos diversos mocambos que compunham a república.
Em nível local, os chefes tinham autonomia para gerir seus territórios, subordinando-se às decisões do monarca apenas em questões de grande relevância. A regulação da vida coletiva era influenciada pelos costumes, e as punições para práticas como homicídio, traição, adultério ou roubo eram severas.
Composto por pessoas negras majoritariamente de origem bantu, o quilombo também recebia povos indígenas e pessoas brancas. Segundo historiadores, a língua falada em Palmares era o português, mas com forte influência de línguas africanas e indígenas.
Propriedade coletiva e bem comum
A economia de Palmares e a forma de organização política do território fugiam à lógica colonial. A terra era vista como uma propriedade coletiva: um espaço onde todos os habitantes compartilhavam a noção de pertencimento. A produção agrícola era baseada no cultivo de milho, feijão, mandioca, batata-doce, cana-de-açúcar e banana, mas os habitantes do quilombo também realizavam a caça e a pesca.
Os excedentes agrícolas e outros itens produzidos pela comunidade eram comercializados com pequenos produtores da vizinhança. Assim, os quilombolas conseguiam acesso a itens que não produziam, como armamento e pólvora.
Uma terra de guerreiros
Como uma experiência de resistência ao escravismo, Palmares era visto como uma grande ameaça à ordem colonial imposta pela Coroa portuguesa. Por isso, os habitantes do quilombo dependiam do conhecimento militar e do emprego de estratégias elaboradas de defesa para assegurar sua existência.
Em um território constantemente ameaçado pela violência colonial, os diferentes mocambos contavam com fortificações construídas com madeira e pedra para assegurar a defesa das comunidades. Fossas, buracos e outras armadilhas também eram construídas nas imediações para surpreender invasores.
Palmares dispunha de um exército organizado, que chegou a ser comandado por Zumbi dos Palmares, posteriormente declarado líder do quilombo. As ações militares foram se sofisticando à medida que as investidas do poder colonial se intensificaram. No princípio, eram fortemente baseadas em táticas de guerrilha, mas evoluíram para grandes operações militares.

A queda de Palmares
Ao longo de toda a sua existência, a ameaça do poder colonial foi uma constante para a vida em Palmares. Após sucessivas tentativas de destruir a experiência revolucionária do quilombo, por volta de 1678, o então líder Ganga Zumba cogitou realizar um acordo com as autoridades coloniais.
Segundo algumas fontes, Ganga Zumba pensou que o quilombo seria transferido para uma área segura e teria sua liberdade garantida. Já em outras versões, a liberdade anunciada não contemplava escravizados fugidos e o acordo seria uma emboscada.
O episódio acirrou as disputas entre lideranças quilombolas, que enxergavam na submissão à ordem colonial a iminência de um retorno à condição de escravizado. Como consequência, Ganga Zumba foi considerado um traidor e condenado à morte. Quem assumiu o poder foi Zumbi dos Palmares, uma figura central na organização militar do quilombo e que já liderava seu próprio mocambo.

A ascensão de Zumbi ao poder, marcada pela forte oposição ao colonialismo e pela defesa da manutenção da estrutura de Palmares, resultou em repressão ainda mais intensa. O Estado, a Igreja, os senhores de engenho e os bandeirantes mercenários formaram uma coalizão para reprimir o quilombo.
Para Clóvis Moura, a destruição do Quilombo dos Palmares não foi apenas um ato militar, mas a tentativa de destruir completamente uma experiência que oferecia aos povos oprimidos uma nova possibilidade de existência, ameaçando e subvertendo a lógica de exploração e do escravismo.
Após décadas de resistência, em 1694, tropas coloniais lideradas pelo bandeirante Domingos Jorge Velho conseguiram conquistar e desarticular o quilombo, exterminando seus habitantes e capturando e expondo em praça pública a cabeça de Zumbi dos Palmares. A experiência chegou ao fim, mas quilombolas que conseguiram escapar se espalharam e seguiram formando outros quilombos e lutando, à sua maneira, contra o poder colonial.
Outras experiências quilombolas no Brasil
Embora Palmares seja considerada a maior experiência quilombola do Brasil, houve outros quilombos que desempenharam um papel fundamental no acolhimento e organização da comunidade negra durante o período colonial e após.
No século XVII, no atual território do Mato Grosso, próximo à fronteira com a Bolívia, se formou o Quilombo do Piolho, reconhecido por ter sido liderado por Tereza de Benguela, uma quilombola que comandava a comunidade amparada por um sistema parlamentarista que construía coletivamente as decisões. Tereza foi alçada à posição de líder após a morte de seu marido, José do Piolho, assassinado por soldados do Estado.
O Quilombo do Piolho chegou a abrigar mais de cem pessoas, entre escravizados fugitivos, indígenas e brancos. A comunidade foi brutalmente destruída pelas forças coloniais por volta de 1770.

Outra experiência quilombola que se tornou conhecida majoritariamente após o ano de 2022 é o Quilombo Saracura. O território surgiu próximo ao centro da capital paulista, entre os séculos XIX e XX, formado por escravizados que fugiam das fazendas da região ou das feiras nas quais eram vendidos.
Por décadas, o Saracura foi apagado da memória histórica paulistana, mas seguiu resistindo nas tradições da comunidade negra: foi nesta região onde, em 1930, foi fundada a tradicional escola de samba do carnaval paulistano Vai-Vai. Durante as escavações para a construção de uma estação de metrô, um sítio arqueológico foi encontrado na região, com vestígios do quilombo.
Além dessas, milhares de comunidades quilombolas surgiram ao longo dos mais de 500 anos após a colonização do Brasil. Hoje, a lei brasileira assegura o reconhecimento das comunidades remanescentes de quilombo.
Por que a memória de Palmares incomoda?
A memória de Palmares incomoda porque ela subverte a lógica sobre a qual o Brasil foi construído. A organização coletiva em torno de uma terra sem donos, mas com habitantes que romperam com o modo de produção exploratório e com a dominação, representou uma ameaça direta ao funcionamento da colônia brasileira.
Se, no passado, opor-se ao sistema dominante era visto como um perigo a ser eliminado, no presente as experiências que buscam romper com o modelo capitalista — fundado sobre a expropriação, o acúmulo de riquezas e a exploração incessante da terra — seguem sendo tratadas como ameaçadoras.
Palmares nos lembra que é possível existir de outra forma, que os oprimidos podem se articular e construir juntos a própria liberdade. No quilombo, assim como em outras experiências de resistência ao escravismo no Brasil, foram reproduzidas lógicas de organização centradas na razão africana. Grupos étnicos que, em suas terras de origem, se viam como inimigos, sob a opressão do colonialismo e da escravidão, colocaram-se lado a lado.
Em 1980, no livro O Quilombismo, Abdias Nascimento elabora uma tese ancorada na experiência quilombola, apresentando o quilombismo como um projeto de revolução não violenta. Ao propor a retomada dos princípios comunitários da tradição africana, Abdias aponta para a construção de uma sociedade que rompa com a lógica capitalista e imperialista e se organize a partir da coletividade da terra e do bem comum.
A memória de Palmares incomodava porque representou a criação concreta de um Estado negro no Brasil, com organizações econômicas e políticas próprias, congregando aqueles que se recusavam a aceitar a dominação e se consolidando como um referencial de autonomia, liberdade e construção coletiva. É justamente aí que reside o incômodo que sua memória ainda provoca: ela mostra que poderia ter sido diferente — e que ainda pode ser.
Veja mais: Faremos Palmares de novo?
Os quilombos como expressão da rebeldia
As experiências de aquilombamento, enquanto formas de reorganização social e resistência que vão além da fuga, constituem uma marca estrutural da cultura afro-brasileira. Os povos escravizados buscaram reproduzir, no território das Américas, as formas de organização, cultura e cosmovisão dos reinos africanos.
Esse modo de interpretar o mundo pode ser visto nas formações dos quilombos, nos terreiros, nas escolas de samba e nas associações de bairro. No livro O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira, o sociólogo e jornalista Muniz Sodré discute justamente o papel do sagrado e das cosmovisões africanas no processo de adaptação dos negros à nova realidade imposta.
É esse fio que conecta as experiências quilombolas aos espaços de resistência da contemporaneidade.
A historiadora Beatriz Nascimento buscou construir a história da população negra no Brasil a partir do olhar dos próprios negros. Analisando a trajetória dos quilombos, ela propôs um novo paradigma: esses espaços não podem ser compreendidos como territórios de resistência, mas devem ser vistos por uma visão mais ampla, que os coloca como formas plenas de organização social e produção de autonomia e liberdade.
Os quilombos, então, são a expressão da recusa à submissão e da construção de outra experiência.
Territórios quilombolas no século XXI
Os quilombos seguem existindo no Brasil contemporâneo, não como resquícios de um passado distante, mas como comunidades vivas que atualizam, no presente, a lógica do aquilombamento.
Fruto da luta histórica do movimento negro, a Constituição de 1988 reconheceu direitos das comunidades remanescentes de quilombolas, assegurando a posse da terra e o papel do Estado em garantir que os direitos desses grupos sejam cumpridos. O Censo de 2022, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou mais de 1,6 milhão de quilombolas vivendo em quase 1.700 municípios do país.
O Censo apontou cerca de 494 Territórios Quilombolas oficialmente reconhecidos no país, mas a comunidade ainda enfrenta dificuldade no reconhecimento de outros. Embora a escravidão tenha sido oficialmente abolida em 1888, os efeitos que ela produz na sociedade brasileira ainda não foram superados.
Um levantamento do Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) identificou que 98% dos quilombos no Brasil estão ameaçados. Os principais motivos de ameaça giram em torno da construção de obras de infraestrutura, atividades de mineração e disputas territoriais.
A conexão com a terra e o cuidado com o meio ambiente ainda se manifestam como características marcante do modo de vida comunitário das comunidades quilombolas. Não é por acaso que, nos territórios localizados na Amazônia, que somam cerca de 3,6 milhões de hectares, 92% da vegetação nativa está preservada.

Conflitos com grileiros, grandes proprietários, mineradoras e empreendimentos do agronegócio expõem uma continuidade histórica: a recusa da nossa sociedade em conviver com formas de vida que não se submetem integralmente à lógica da propriedade privada e da exploração intensiva da terra.
Além da luta territorial, os quilombos contemporâneos enfrentam o racismo institucional, a precarização do acesso a políticas públicas e a violência direta. Entre 2019 e 2024, foram 46 quilombolas assassinados, sendo 35% dos casos vinculados à luta pela terra.
Ainda assim, essas comunidades seguem afirmando sua existência por meio da agricultura familiar, da preservação ambiental, das tradições culturais, das práticas religiosas e da transmissão de saberes ancestrais. Em um país que insiste em negar sua herança negra, os quilombos continuam fazendo o que sempre fizeram: existir, resistir e lembrar que outras formas de organizar a vida não só são possíveis, como já estão em curso.
Reafirmar Palmares é repensar o Brasil
A experiência de Palmares prova que referenciais que fogem à lógica ocidental e exploratória foram capazes de produzir autênticas experiências de autonomia, liberdade e coletividade no Brasil. Não foi apenas um refúgio, mas um projeto político construído por pessoas negras que se recusaram a aceitar a desumanização como destino.
A destruição física do quilombo não apagou sua simbologia, nem fez desaparecer a ideia que o sustentava. A memória de Palmares ainda resiste nas comunidades que seguem lutando pela terra, nos terreiros, nas escolas de samba — e em outros espaços onde a coletividade é o referencial.
Reafirmar Palmares é se recusar a aceitar um mundo pautado pela concentração de riquezas, extrativismo e violência. É reconhecer que houve, e ainda há, alternativas concretas à lógica da exploração, da acumulação e da barbárie. Palmares incomoda porque mostra justamente o que o Brasil passou séculos tentando esconder, sufocar e assassinar.
Fonte: Instituto conhecimento Liberta (ICL) | Capa: Quilombo dos Palmares Imagem gerada por IA.














