Por Rodrigo Carvalho

O pesquisador Rodrigo Carvalho recomenda cinco leituras que explicam como a segregação ocupacional pode ser gerada pelas disparidades de capital social e humano, bem como por discriminação racial e de gênero.

A discriminação pode ser compreendida como um tratamento desigual com base no gênero, raça ou origem étnica em diversas esferas do cotidiano, como no acesso à educação, à saúde, à moradia e ao mercado de trabalho.

Nesse contexto, as oportunidades de entrada e reinserção no mercado de trabalho diferem devido a esse tratamento desigual, por conseguinte, ocorre um desequilíbrio na distribuição de ocupações por gênero, raça e origem geográfica. Esse desequilíbrio é compreendido como segregação ocupacional.

Um exemplo disso é a sobrerrepresentação de mulheres negras entre trabalhadores domésticos e homens brancos em cargos de gerência. A segregação ocupacional pode ser gerada pelas disparidades de capital social e humano, bem como por discriminação racial e de gênero.

The occupational segregation of black women in the United States: a look at its evolution from 1940 to 2010

Olga Alonso-Villar e Coral del Río (Society for the Study of Economic Inequality, 2013)

O objetivo deste artigo é mensurar a segregação das mulheres negras no mercado de trabalho americano entre 1940 e 2010. A relevância deste artigo reside no uso do conceito de interseccionalidade de gênero e raça para compreender como as mulheres negras estão distribuídas no mercado de trabalho ao longo de 70 anos, período que abrange a Lei dos Direitos Civis e o aumento da participação feminina na força de trabalho.

As autoras constataram que o período com a maior queda da segregação ocupacional ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970. Isso pode ser explicado por mudanças na estrutura ocupacional, com diminuição no número de mulheres negras em ocupações de serviço doméstico, enquanto aumentou a participação em ocupações administrativas como atendentes, secretárias e datilógrafas.

Entre 1980 e 2000, a segregação teve uma pequena redução, devido à redução da participação em ocupações domésticas em conjunto com o crescimento da participação das mulheres negras em ocupações gerenciais. Nesse período houve o aumento da participação feminina no mercado de trabalho concomitante ao crescimento da escolaridade média. Sob o nível salarial médio das ocupações, as autoras constataram que a forte queda da segregação entre 1960 e 1970 foi acompanhada de um aumento nos salários das mulheres negras, enquanto que a partir da década de 1990 houve um processo de crescimento da desigualdade salarial. De um modo geral, as mulheres negras na década de 2010 continuam sub-representadas em ocupações de alta remuneração média apesar da diminuição da segregação entre 1940 e 2010.

The evolution of gender and racial occupational segregation across formal and non-formal labor markets in Brazil, 1987 to 2006

Paola Salardi (Review of Income and Wealth, 2016)

Neste artigo, a autora analisa a segregação ocupacional por raça e gênero no Brasil entre 1987 e 2006, no mercado de trabalho formal e no mercado de trabalho informal.

A autora utiliza dados sobre educação e demografia por regiões brasileiras para compreender como essas variáveis podem afetar o nível de segregação ocupacional para diferentes grupos de indivíduos. Para isso, utiliza a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Nesse período, houve crescimento da força de trabalho negra entre as diversas faixas etárias. Os trabalhadores negros são encontrados em maior número em ocupações do primeiro setor, como em atividades agropecuárias e mineração, regionalmente no Norte e Nordeste do Brasil.

Quanto às mulheres, houve crescimento da participação feminina na força de trabalho no período analisado.

Em 2006, elas estavam sobrerrepresentadas em ocupações do terceiro setor, como no comércio e serviço social. Sob o recorte da formalização do emprego, as trabalhadoras formais estavam sobrerrepresentadas em ocupações que demandam maior grau de escolaridade, enquanto as trabalhadoras informais estavam sobrerrepresentadas em serviços domésticos. Apesar disso, os índices de segregação para mulheres e negros eram menores em 2006 do que em 1987.

Occupational segregation and wage differentials by gender and race in Brazil: evidence from a quantile decomposition

Francieli Tonet Maciel (International Journal of Manpower, 2020)

Neste artigo, a autora enfatiza que a raça e o gênero são fatores importantes na produção e reprodução de desigualdades sociais no mercado de trabalho, e que a interseccionalidade é relevante para além da categorização binária. Assim, o artigo utiliza os dados da PNAD de 2005 e 2015 para analisar a evolução da segregação ocupacional horizontal, na qual é mensurado o grau de sub-representação ou sobrerrepresentação de determinado grupo demográfico, enquanto a segregação vertical mede a representatividade de cada grupo de acordo com o rendimento médio daquela ocupação. Logo, observa-se que em ocupações masculinizadas, há sobrerrepresentação de homens negros quando tais ocupações demandam baixa qualificação, como nos setores de transporte e construção civil.

Enquanto as ocupações masculinizadas sobrerrepresentadas por homens brancos são aquelas que demandam mão-de-obra qualificada, como em TI e engenharia. Em ocupações feminizadas, as mulheres negras estão sobrerrepresentadas em trabalhos domésticos, enquanto as mulheres brancas estão sobrerrepresentadas em ocupações do cuidado que demandam maior qualificação profissional, como psicologia e nutrição.

A autora conclui que existe persistência da segregação ocupacional entre 2005 e 2015 e que gênero e raça desempenham o papel de perpetuação da desigualdade ao manter espaços hierárquicos e baixa mobilidade intra-ocupacional. Destaca-se que as mulheres negras, em média, encontram-se no menor grau da hierarquia ocupacional.

 

Segregação ocupacional e diferenciais de renda por gênero e raça no Brasil: uma análise de grupos etários

Leonardo Souza Silveira e Natália Siqueira Leão (Revista Brasileira de Estudos de População, 2021)

Neste artigo, os autores analisam o comportamento da segregação ocupacional com recorte por gênero e raça em três faixas etárias divididas por grupos decenais, compreendendo idades entre 26 e 55 anos, sob a estrutura ocupacional brasileira entre 1995 e 2015 para aqueles indivíduos com ensino superior completo.

Para o ano de 2015, os autores constataram que a segregação é menor para o grupo etário entre 26 e 35 anos do que para aqueles com idade entre 46 e 55 anos. Isso ocorre para os quatro grupos populacionais analisados, dada a interseccionalidade de gênero e raça.

Ao fixar o índice de segregação para a faixa entre 26 e 35 anos, constatou-se que os homens e mulheres negras nascidos na década de 1960 estavam em um mercado de trabalho mais segregado do que os nascidos na década de 1980, indicando uma diminuição da segregação entre 1995 e 2015. Em relação à faixa etária de 36 e 45 anos, os trabalhadores negros nascidos na década de 1970 apresentaram um índice de segregação menor que os nascidos na década de 1960. Entre 2005 e 2015, o índice de segregação para esse grupo diminuiu, embora de forma mais lenta do que ocorreu entre 1995 e 2005. No caso das mulheres brancas, não houve alteração significativa no índice de segregação. Já os homens brancos apresentaram aumento da segregação entre 2005 e 2015, semelhante ao ocorrido entre 1995 e 2015.

Occupational segregation of female and male immigrants in the European Union: accounting for cross-country differences

Amaia Palencia-Esteban (International Labour Review, 2022)

Neste artigo, a autora analisa a segregação por gênero de acordo com o status imigratório entre os cidadãos da UE (União Europeia). Para isso, é medido o nível de segregação dos imigrantes de primeira e segunda geração em cada país membro da UE. Ao utilizar dados do mercado de trabalho para o ano de 2019, o artigo revela que nações como Espanha, Itália e Alemanha apresentam maiores índices de segregação por status imigratório, enquanto Portugal e Finlândia exibem os menores índices, considerando apenas os países da Europa Ocidental. Ao analisar a segregação ocupacional por gênero, o artigo aponta que Irlanda e Países Baixos são nações com baixa segregação para essas imigrantes, enquanto o inverso ocorre na Itália e Grécia.

De um modo geral, as imigrantes atuam em áreas da saúde e atividades sociais. Os imigrantes do gênero masculino são menos segregados na Suécia e Irlanda e mais segregados na Itália e Grécia. Além disso, os homens apresentam índices de segregação menores do que as mulheres em toda UE e esse cenário repete o padrão encontrado quando se observa a segregação ocupacional da população nativa desses países.

A autora também analisa a distribuição ocupacional para a segunda geração de imigrantes e observa que, na maioria dos países da UE, essa população é menos segregada do que a primeira geração de imigrantes. Esse resultado pode indicar que os filhos dos imigrantes são mais integrados na sociedade do que os pais.

 

Rodrigo Carvalho é mestrando em economia pela Universidade Federal Fluminense e graduado em ciências econômicas pela mesma instituição. Atualmente é pesquisador no Neri (Núcleo de Estudos Raciais do Insper) na área de renda e trabalho.

 

Fonte: Nexo.

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