Por João Paulo Lopes

Embora com vida efêmera, boa parte dos jornais negros na primeira metade do século 20 teve esta marca: eram órgãos dos locais de reunião da população negra.

Os jornais impressos sempre foram locais estratégicos para a publicidade das ideias e análises de homens e mulheres negros, que pelo domínio da escrita, do acesso à educação formal e pelo ativismo social se apresentaram como pensadores e intelectuais do seu tempo. Escapando das amarras de se entender a população negra somente a partir da sua corporeidade, como nos lembraria Stuart Hall, em que se reserva ao corpo negro a lógica do trabalho, do perigo, do exotismo, da sensualidade e se abomina ou descarta a sua capacidade intelectual e criativa.

A escrita é uma das expressões da cultura, em sentido amplo, a partir da qual se exerce a mediação das explicações que integram os modelos conceituais com os quais representamos o mundo. E em um mundo em transformação, como foi a passagem do século 19 para o 20, o que homens e mulheres negros fizeram no pós-abolição? Será que se portaram como críticos sociais e idealizadores de outros projetos de futuro?

As publicações da imprensa negra entram em cena para cultivar e colher um mercado de opiniões sobre temas sensíveis para a coletividade negra, como racismo e raça, o lazer e a cultura, os valores morais do trabalho, a noção de nação, os entendimentos sobre cidadania, os repertórios de urbanidade e respeitabilidade. E a celebração de personagens negros, como Luiz Gama, a Mãe Preta, Henrique Dias, Zumbi dos Palmares, José do Patrocínio. Além de ventilar a situação da população da diáspora africana em outros cantos do mundo. Também se analisava o funcionamento das instituições e sobre como o mundo do escravismo modificava-se e, depois da abolição, transbordava para os novos tempos republicanos.

Nos jornais da imprensa hegemônica, a população negra, na maioria das vezes, aparecia por um viés racializado: nas charges, nas vagas de empregos, nas análises sociais, nas páginas policiais, nos cadernos de cultura e esporte, que criavam um repertório acerca dos afrodescendentes e conformava visões de mundo excludentes, hierárquicas ou estereotipadas. Como não poderiam publicar nessa imprensa, ou quase nunca tinha acesso para tensionar essa torrente negativa de textos e imagens, a criação de jornais negros foi uma saída e uma urgência, inclusive para pautar os temas que lhes interessavam.

As publicações negras pipocaram, em todo o território nacional, desde o século 19. O marco foi o pasquim, O Mulato ou O Homem de Cor, publicado pelo tipógrafo fluminense Paula Brito, no ano de 1833, que trazia questões sobre as falhas da cidadania conferida a negros livres e libertos, contrariando os princípios da Constituição brasileira de 1824, e alertava sobre a precária situação dos “homens de cor” não escravizados. Ana Flávia Magalhães nos deixa a par de outras publicações da incipiente imprensa negra brasileira do século 19, como o Brasileiro Pardo e O Lafuente, que circularam na corte na década de 1830, e O Homem, que apareceu no Recife, em 1876, e tinha como objetivo “promover a união, a instrução e a moralização dos homens de cor pernambucanos” e denunciava que já não havia “mais nesta província um só emprego de alta importância e consideração que seja exercido por homem de cor”, apontando como o critério racial foi sendo introduzido como linha de corte para a ocupação de certos cargos públicos, à medida que o século 19 avançava.

Quando a abolição veio, em 1888, e a partir do advento da República, a imprensa em geral assumiu um papel “civilizador” contra o analfabetismo e as práticas ‘incultas’, além de divulgar interesses de grupos políticos desempenhando um papel de peso no jogo eleitoral, mas também na formação da opinião pública. Nesse período, também vimos o surgimento de jornais alternativos que criaram repertórios de luta e identidade, de pedagogia e solidariedade, para grupos sociais específicos, como a população negra, mas também operários, mulheres, imigrantes. Nessa fase, temos o jornal Exemplo, de Porto Alegre, que circulou entre 1892 a 1930, e também A Alvorada, de Pelotas, publicado entre 1907 e 1965, com algumas interrupções. Ainda no Rio Grande do Sul, temos A Tesoura (1924), A Revolta (1925), O Tagarela (1929). Sobre os jornais negros de Minas Gerais, temos A Verdade (1904), que circulou na cidade de Pouso Alegre, e o Raça (1935), de Uberlândia.

Saltando para São Paulo, temos A Pátria, de 1889, e O Progresso, cujo primeiro número é de 1899. Na primeira metade do século 20, houve uma profusão de publicações negras paulistas, como O Baluarte e Getulino, de Campinas; na capital circularam O Menelick (1915), O Xauter (1916), A Rua (1916), O Bandeirante (1918), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), A Sentinela (1920), Kosmos (1922), Clarim d’Alvorada (1924), Elite (1924), Progresso (1928) e A Voz da Raça (1933). Sendo que A Voz foi a publicação oficial da mais importante organização negra da primeira metade do século passado, a Frente Negra Brasileira, que funcionou entre 1931 e 1937.

Embora com vida efêmera, pelas dificuldades de sustentar sua publicação regular e contínua, boa parte dos jornais negros teve esta marca: eram órgãos dos locais de reunião da população negra e serviam para lançar sua programação e a vida social dos seus membros. E neles os associados e convidados publicavam suas análises e impressões sobre variados temas. Naquilo que Ana Flávia Magalhães, já citada, chamaria de “jornais feitos por negros; para negros; veiculando assuntos de interesse das populações negras”. Embora o público leitor fosse muito além e o debate e denúncias ali gerados reverberassem em toda a sociedade. Outras publicações surgiram ao longo da segunda metade do século 20, principalmente nos momentos de democracia, como entre 1945 e 64, como os jornais O Novo Horizonte, Mundo Novo, A Voz da Negritude, o Mutirão, Notícias de Ébano, Nosso Jornal e as revistas Senzala (1946) e Níger (1960).

Nos anos finais da ditadura militar e durante a redemocratização do país, a sociedade civil se rearticularia com mais vigor. Em 1978, foi fundado o Movimento Negro Unificado (MNU), que trouxe à tona novos temas e diretrizes para o movimento e o mais importante: a contestação ao “mito da democracia racial” que, desde os anos 30, serviu para demover as denúncias do racismo estrutural, o que foi piorado pelo cerceamento do regime militar, que via com maus olhos o debate racial e a ação dos movimentos sociais.

Nessa fase, foram fundados vários jornais por muitas pessoas que passaram pelo MNU. Foi o caso do Tição (1977), de Porto Alegre, ou o Objetivo (1977), da cidade mineira de Uberaba, e a Voz do Negro (1984); em BH, o Áfricas Gerais (1995). Em Salvador, na primeira metade da década de 80, os jornais Nêgo, AfroBrasil, Elêmi. Ou em São Paulo, ainda na década de 70, os jornais O Saci, Negrice, Jornegro, Vissungo; ou o Irohin (1996), em Brasília. Tantos outros órgãos da imprensa negra vieram a lume, em diversos lugares do país: no Rio, em São Luís, no Recife, em Florianópolis.

Foi o caso da revista Raça, de circulação nacional e grande apelo estético e comercial, cuja primeira edição é de setembro de 1996. A existência material das publicações, a linha editorial adotada, a busca pelos anúncios, os textos e imagens selecionados, as escolhas de quem e o que devia ser publicado, os diálogos travados com outros sujeitos sociais, as noções a respeito da liberdade de imprensa e de pensamento foram atos políticos, por excelência, quando a luta contra o racismo moldou a história da imprensa negra, desde sua origem. Mas ela não pára por aí, tanto no formato escrito quanto no digital.

Atualmente, ela continua amplificada no que chamamos de “mídia negra”, que engloba sites, blogs, páginas e perfis em redes sociais, canais no YouTubepodcasts nos tocadores digitais e até um canal de televisão com conteúdo majoritariamente produzido e voltado para o público negro, a Wolo TV. Exemplos dessa mídia negra são o Alma Preta, o Portal Geledes, o Afropress, o História Preta, o Nossos passos vêm de longe, o Atlântico Negro, o Pensar Africanamente, e uma infinidade de outros veículos. No pós-abolição, esse tempo em aberto em que as demandas e tensões a partir da ideia de raça são parte constituinte do mundo atual, a escrita e as vozes da gente negra, na sua múltipla experiência e agência, são centrais para a compreensão da sociedade brasileira.

Os jornais negros trazem análises potentes para além dos lugares limitantes, em várias áreas do conhecimento, sobre a trajetória da população negra. Desde a década de 1950, existem preciosos estudos sobre o seu significado e potência. O interessante é que boa parte dos jornais negros podem ser acessados no site da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, o que facilita a vida dos curiosos dessa história e os pesquisadores de várias áreas.

A imprensa negra é um lugar privilegiado para ir ao encontro das escritas dessa ‘gente de cor’, da história vista de baixo para cima, como incita a pensar o historiador Eric Hobsbawm. São textos que trazem novas leituras sobre a população negra, que também nos permitiu pavimentar uma identidade coletiva positiva e afastar a ideia de que ficamos à margem, em um eterno estado de anomia social e resignação infrutífera. Lutou-se! E luta-se! Pelas palavras, ideias e projetos coletivos também!
*João Paulo Lopes é historiador, professor e integrante da rede de historiadores negros.
Fonte: Mídia Negra e Feminista | Estado de Minas.
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