Por Rachel Gouveia Passos

A negação da voz e da palavra exprimem a reprodução da lógica racista que através da violência projetam sobre a existência negra a destruição.

A insubordinação é uma estratégia de resistência adotada pelos negros para não sucumbir a lógica, as instituições e as práticas racistas. Não é de hoje que assumir o lugar de humano tornou-se um problema para a brancura que ainda insiste – e como insiste! – em afirmar, cotidianamente, a suposta inferioridade e animalização dos corpos e subjetividades negras.  

Para a população negra cabe o silêncio e a humilhação, pois qualquer palavra pode ser usada contra. Grada Kilomba, em sua belíssima obra Memórias da plantação: episódios do racismo cotidiano, recupera a máscara do silenciamento. Segundo a autora, esse instrumento era utilizado pelos brancos para evitar com que os negros escravizados comessem das plantações e, também, ingerissem terra para cometerem suicídio, além de impor a mudez, o medo e a censura. 

A negação da voz e da palavra exprimem a reprodução da lógica racista que através da violência projetam sobre a existência negra a destruição. A boca “simboliza a fala e enunciação. No âmbito do racismo, a boca se torna o órgão da opressão por excelência, representando o que as/os brancas/os querem – e precisam – controlar e, consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente censurado”1. 

A censura estimula o medo para que a insubordinação não seja despertada e, muito menos, estimulada. Rebelar-se é proibido e, caso ocorra, a violência é a resposta. Qualquer tentativa de reação as práticas de silenciamento a violência é acionada para retomar a “ordem e os bons costumes”. Portanto, é preciso “silêncio”! 

As estratégias de silenciamento não param por aí. Alguns aparatos institucionais foram criados para serem utilizados como maquinário de reprodução da destruição dessa Outridade.2 Podemos destacar o manicômio ou hospital psiquiátrico – e todo o seu aparato – que emergiu como uma das respostas criadas para conter aqueles considerados desviantes.3 O desvio imposto como doença. 

Ao recuperarmos as publicações de Michel Foucault, em especial Microfísica do Poder e A história da Loucura, é possível perceber que o hospício sempre esteve lotado por mulheres, pobres, negros, LGBTs, pessoas em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas. Apesar de sua obra retratar um determinado período histórico parece que o mesmo “perfil”, ainda hoje, ocupa tais instituições.4 O que não é muito diferente das prisões5 e das instituições de medida socioeducativa.6  

De acordo com Goffman, na obra Manicômios, prisões e conventos, a institucionalização produz o que denominou de mortificação do eu. As estratégias institucionais de controle ocasionam a destruição da identidade, acarretando em uma imposição do silenciamento por meio da desfiguração identitária como forma de manipular essa, agora, não existência. Portanto, a morte é acionada para afirmar a colonização dos desviantes.  

A colonização da palavra e da voz ganhou contornos específicos na atual conjuntura do país. Em terras brasileiras, marcadas fortemente pela colonialidade e a lógica escravocrata, o silenciamento está ancorado em todos os lugares e relações. Não tem como escapar! O mesmo é apresentado de maneira sutil e, até carregado de educação colonial, ou como imposição expresso, legitimamente pelo Estado, através do extermínio.  

Diariamente temos publicizadas pelas redes e mídias sociais inúmeras situações das expressões do racismo demonstrando que destruição não nos falta. Mais recentemente, no dia 25 de junho, uma mulher negra, transexual e em situação de rua foi queimada viva, no centro da cidade de Recife, capital de Pernambuco. Segundo a reportagem publicada pela Brasil de Fato7, a mulher foi encaminhada para o Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU) até o Hospital da Restauração. Roberta teve 40% do corpo queimado, chegando a óbito dias depois por falências respiratória e renal. Um crime cometido simplesmente para entreter o desejo racista, transfóbico e elitista.  

Nesse sentido, o silenciamento faz parte do enquadramento do desviante-delinquente para não fugir das regras. A brancura adota algumas estratégias que ocorrem por meio da amputação, cortando a possibilidade da fala, ou realizando um doloroso impacto corporal, através da imposição da morte. Uma sociedade que é marcada pela naturalização de experiências reprodutoras de destruição segue na direção da espetacularização do sofrimento, pois não produz mais incômodos e problematizações do seu narcisismo branco que apenas quer manter seu gozo com a aniquilação da Outridade. Até quando o silenciamento ocupará nossos cotidianos institucionais? Até quando a voz e a palavra serão negadas aos Condenados da Terra? Seguimos com um espetáculo de uma mesma plateia.  

 

Rachel Gouveia Passos é assistente social. Professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal Fluminense, autora e organizadora de algumas obras sobre saúde mental e as relações de gênero, raça e classe. 

 

 1. FANON, F. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 3ª edição 2015. 

2. FOUCAULT, M. A história da loucura. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978. 

3. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. 

4. GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2008.

 

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil.

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ANO XVII – EDIÇÃO Nº 198 – SETEMBRO 202I

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