A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum? (“The tyranny of merit. What’s become of the common good?“), O último livro do filósofo político Michael Sandel, publicado na Grã-Bretanha pela editora Allen Lane, é uma análise lúcida e bem legível do populismo. O projeto do livro está contido no título. Demonstrar como as elites estadunidenses que controlam, hoje, a riqueza e o poder estão profundamente convencidas de que têm o direito moral e intelectual a esses privilégios. Sucessos acadêmicos e profissionais são a recompensa inevitável por uma vida virtuosa de trabalho árduo e autodisciplina. Essa ideia, promovida por líderes políticos de esquerda e direita, entre os quais Hillary Clinton e Barack Obama, com seu slogan “você pode conseguir, se tentar”, gera uma tirania, um regime despótico tóxico que está matando a democracia e a política.

A reportagem é de Silvia Guzzetti, publicada por Avvenire, 28-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Hoje, à classe mais baixa cabe uma condenação moral sem precedentes. A exclusão do mercado de trabalho é o preço a pagar pela incapacidade de emergir, de vencer a competição, um fracasso que é moral antes que econômico e profissional. “Essa forma de pensar o sucesso”, escreve Sandel, “torna difícil promover a solidariedade e uma sociedade justa. E também alimentar espaços públicos onde haja um sentimento de pertença comum”. O autor destrói a retórica do sonho americano ao provar que não existe mais. Ele simpatiza com aqueles que votaram em Donald Trump porque não tinham outra escolha para expressar sua raiva e frustração com as oligarquias tecnocráticas. Ele critica a maneira com que Obama “salvou os bancos sem colocá-los diante de suas responsabilidades” durante a crise de 2008, porque estava convencido de que os financistas de Wall Street, muitos dos quais haviam sido seus colegas de faculdade, mereciam seus altíssimos salários. Impiedoso e, ao mesmo tempo, paradoxal, a crítica do autor à comunidade a que pertence. Sandel aponta os flagelos do sistema educacional estadunidense ao descrever seus alunos hoje, muitos dos quais sofrem de depressão e ansiedade, em universidades onde a publicação dos resultados deve, agora, ser sincronizada com sessões de aconselhamento porque a sensação de fracasso se tornou intolerável.

A proposta do professor aos seus empregadores é radical. Substituir o complicadíssimo sistema de admissão que premia os mais ricos e os filhos de ex-alunos com um sorteio, sorteando os nomes dos alunos a serem admitidos, desde que tenham demonstrado um nível mínimo de preparação. Esse livro, enraizado na doutrina social católica, que Sandel retoma em várias passagens, é um apelo para que o bem comum, entendido como o bem-estar não só econômico, mas sobretudo psicológico e social, da maioria dos cidadãos volte a ser o objetivo mais importante da classe política. E para que a política com p maiúsculo voltar ao centro com espaços públicos onde os mais pobres e os mais ricos possam discutir como repensar a sociedade.

O livro termina com a história de Henry Aaron, um negro estadunidense, um dos mais famosos jogadores de beisebol, que escapou da pobreza e da segregação graças ao esporte. “É difícil ler a sua história sem amar a meritocracia”, conclui Sandel, “sem vê-la como a resposta definitiva à injustiça. Mas é um erro”. A moral da história de Aaron, de acordo com Sandel, é que deveríamos desprezar um sistema racista e construir uma sociedade justa onde não haja necessidade de competir para obter bem-estar e reconhecimento social.

 

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos.

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ANO XVII – EDIÇÃO Nº195 – JUNHO 202I

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