Por Silvia Hunold Lara

O início da década de 1990, um grupo de arqueólogos decidiu realizar escavações em Palmares e se deparou com uma grande dificuldade: localizar os mocambos do mais extenso e duradouro assentamento de fugitivos da história da escravidão no Brasil. O projeto se revestia de um interesse arqueológico, historiográfico e, também, político. Em 20 de novembro de 1995, completar-se-iam 300 anos da morte de Zumbi, a última grande liderança dos Palmares, e as prospecções visavam contribuir para o conhecimento da cultura material, da vida cotidiana e da estrutura organizacional dos mocambos, a partir da arqueologia histórica. No início, os arqueólogos pretendiam recorrer à bibliografia sobre os Palmares para determinar os locais associados aos dez principais mocambos e a entrevistas com moradores da região para colher tradições que pudessem vincular esses lugares aos assentamentos do século XVII. A tarefa, no entanto, mostrou-se bem mais complexa do que parecia à primeira vista.

Apesar de sua longevidade e extensão, do medo que despertou e do ônus que impôs às autoridades coloniais e aos senhores de engenho e de currais em Pernambuco, os Palmares não aparecem nos vários mapas seiscentistas holandeses nem nos poucos que foram traçados para ou por ordem da administração colonial portuguesa na segunda metade do século XVII. Em fevereiro de 1694, poucos dias depois de destroçada a cerca do Barriga, o governador de Pernambuco ordenou que Bento Surrel Camilio fosse até o local para “tratar da cura dos soldados feridos” e, também, para desenhar uma “planta do dito outeiro” – da qual nunca se teve notícia.

Mesmo sem qualquer registro em mapas, desenhos ou plantas, a localização dos mocambos era conhecida pelos contemporâneos, como bem demonstram os documentos que tratam da organização das expedições enviadas contra eles ou registram os debates sobre o melhor caminho para atacá-los.5 Essas fontes, no entanto, foram pouco consultadas pelos estudiosos da história dos Palmares que, quase sempre, preferiram recorrer ao diário de uma expedição inicialmente liderada por Johan Blaer, em 1645, e a uma Relação escrita em 1678. Certamente esses dois textos oferecem os dados geográficos mais detalhados sobre os Palmares, mas tudo indica que tiveram uma circulação um tanto restrita na época e, como já notava o desembargador Pontes em 1841, contêm indicações que nem sempre podem ser identificadas ou localizadas nas cartas disponíveis para as regiões de Pernambuco e Alagoas.7 Diante do silêncio dos mapas, foi com base naqueles dois relatos e em alguns outros poucos documentos que, ao longo do século XX, se construiu uma cartografia dos Palmares.

A obra de Edison Carneiro, publicada no México em 1946 e logo no ano seguinte no Brasil, foi a primeira a oferecer uma análise completa da história dos Palmares, associando abordagens anteriores que enfatizavam suas origens africanas a uma perspectiva libertária, que ressaltava a luta dos fugitivos contra a escravidão.

Além da descrição das várias fases da história dos mocambos e das diversas expedições enviadas contra eles, a edição brasileira de 1947 ofereceu aos leitores a primeira tentativa de cartografar os Palmares. São dois mapas que mostram o “quadrilátero onde se fixaram os diferentes núcleos de escravos fugidos”, assinalados em relação às cidades atuais e às vilas existentes no século XVII. É uma representação global da “região dos Palmares” que somente identifica sua “capital”, Macaco.

 

Leia o artigo na íntegra (download):

https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/43622/25523

 

Fonte: Afro-Ásia, n. 64 (2021), pp. 12-50, CEAO / UFBA | Imagem: Quilombo dos Palmares representado à direita. Capitania de Pernambuco, Caspar Barlaeus, 1642.

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