Por Patrícia Carlos Magno e Rachel Gouveia Passos

Quando se pensa em formação acadêmica imediatamente ocorre uma associação às concepções mais tradicionais: sala de aula, um determinado “perfil” de docente e uma erudição que parece inacessível para a maioria da população que não obtêm a cultura e educação “mais refinada”. Para a população negra e pobre a educação do colonizador sempre foi negada, pois o não ser, conforme Frantz Fanon, não tem capacidade intelectual e cognitiva para aprender, já que lhe falta humanidade, sendo visto como coisa.

Nos últimos dez anos as ações afirmativas possibilitaram o ingresso numeroso de negros, indígenas e quilombolas nos espaços universitários. Contudo, não é só proporcionar a entrada, mas também a manutenção da permanência em um espaço que não respeita a pluralidade das culturas, dos corpos, das subjetividades, das condições sociais, nem das linguagens. A homogeneização dos sujeitos que transitam na academia, conforme o paradigma que sustenta o pacto narcísico da branquitude, desconsidera a perpetuação do racismo e do elitismo que moldam nossas instituições universitárias.

A partir de inquietações e do compromisso com a indissociabilidade do tripé ensino, pesquisa e extensão, conforme consta no marco constitucional, construímos a parceria público-público entre a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e a Universidade Federal do Rio de Janeiro através da Escola de Serviço Social, e produzimos o Curso de Extensão Direitos Humanos, Saúde Mental e Racismo: diálogos a partir do pensamento de Frantz Fanon, que se realizou nos meses de agosto e setembro de 2020, contando com transmissão pelo canal do Youtube da Defensoria Pública, com interpretação simultânea para a linguagem de libras, sendo acessado, ao vivo, em 10 países e, posteriormente tendo mais de 100 mil visualizações.

Tamanha repercussão acabou por reforçar a posição institucional da DPRJ e da ESS/UFRJ nas trincheiras das lutas antirracistas. Lutas que reivindicam o enfrentamento do racismo estrutural que se institucionaliza pelos meandros do sistema de justiça e da produção do saber. Lutas imprescindíveis para a construção “de uma sociedade livre, justa e solidária” e para a redução “das desigualdades sociais” com “erradicação da pobreza”, vez que, no sistema capitalista periférico brasileiro, racismo e classismo nascem imbricados pelas mãos da colonialidade do poder e se aprofundam ainda mais quando gênero, geração, deficiência e estigma advindo da privação de liberdade estão amarrados.

Com intuito de viabilizarmos uma formação popular, antipatriarcalista, antirracista e anticapitalista, acionamos a educação popular como estratégia, pois consideramos necessário desinstitucionalizar as práticas acadêmicas e jurídicas. Acionamos Frantz Fanon como interlocutor devido às suas contribuições teóricas e práticas na luta antirracista e anticolonial. Para isso convidamos intelectuais e juristas negros e negras para ministrarem aulas.

Devido à repercussão e à dimensão que o projeto ganhou, fez-se imperiosa a sistematização do conteúdo exposto ao longo dos encontros, em um livro. Assumimos a tarefa de organizar a coletânea homônima Direitos Humanos, Saúde Mental e Racismo: diálogos a luz do pensamento de Frantz Fanon para eternizarmos em palavras que o vento não leva as profundas discussões que foram apresentadas ao longo de sete semanas em quinze capítulos. Desse modo, devolvemos à população o conhecimento antirracista produzido pelo curso e sonhamos que em sendo replicado, quem sabe, 70 vezes 7, se multiplique indefinidamente.

O acesso ao conteúdo, seja por vídeo, tradução em libras e escrito, faz parte da acessibilidade democrática e promoção de direitos humanos que defendemos como princípio. Uma vez que é preciso colocar o dedo na ferida colonial e escarnar o pacto narcísico da branquitude, promover o debate e criar um ambiente de reflexões e transformações, queremos convidar aos interessados para estarem conosco no lançamento do livro que ocorrerá no dia 09 de dezembro, a partir das 19h, no canal do Youtube da Defensoria Pública. A publicação será disponibilizada em formato de e-book e poderá ser acessada gratuitamente por aqueles que tiverem interesse pelo tema e debate.

 

Enquanto eternas sonhadoras que somos, sonhamos que este livro provoque mais guerreiras e guerreiros antirracistas a se juntarem a nós, assim como adoraríamos receber críticas e propostas para pensar de outro modo, em constante movimento de eterna impermanência.

Banner Content
Tags: , , ,

Related Article

1 Comentário

Marilei 1 de dezembro de 2020 at 18:49

Ótimas indagações, parte textual perfeita, como discente do curso de serviço social foi um prazer participar das lives sobre racismo, obga pela oportunidade.

Deixe uma resposta para Marilei Cancelar resposta

ANO XVII – EDIÇÃO Nº195 – JUNHO 202I

Siga-nos

INSTAGRAM

Arquivo