Por Jean Marc Von Der Weid

A oposição vai ter que sair dos embates virtuais para ocupar as ruas e praças

Durante os quase 30 dias em que dirigi, na Escola de Química da Universidade do Brasil (hoje UFRJ), a maior greve estudantil dos anos 1960, escrevi a frase do título no quadro negro da sala em que fazíamos nossas frequentes assembleias gerais. Está na hora de repetir o exercício, depois da espetacular jornada do 11 de agosto de 2022.

Para começar, é preciso lembrar que a proposta não era levar as grandes massas para as ruas e sim levar um público qualitativamente amplo do ponto de vista político a se manifestar, isolando o energúmeno em seus muxoxos contra as Cartas pela democracia. Para quem criticou a linguagem “elitista” das Cartas, é bom lembrar quem as escreveu e a quem elas estão dirigidas. Não era para ser uma manifestação do ou para o povão, mas sobretudo do e para o “andar de cima”. Feitas estas considerações, o resultado não podia ser melhor, uma pajelança das elites com apoio de setores organizados da sociedade civil para exorcizar as ameaças de golpe.

Em segundo lugar, os atos foram totalmente pacíficos e sem disputas entre os atores presentes, representando um amplo arco de posições políticas e sociais. Os organizadores, conservadores na maior parte dos eventos mais importantes, foram abertos e plurais, chamando para falar representantes de todo o espectro político e só excluindo os abertamente identificados com os partidos políticos, garantindo o caráter não eleitoral dos eventos.

Não houve a temida disputa de identidade via bandeiras, faixas, camisas e palavras de ordem. Não houve uma invasão de vermelho, abafando o branco e o verde e amarelo. A esquerda se comportou adequadamente, embora a ampla maioria dos presentes certamente estava nessa faixa do espectro político. Em apenas duas ocasiões, no Rio e em São Paulo, o público entoou palavras de ordem que fugiam a pluralidade das identidades políticas, cantando o Lula Lá. Foi rápido e não chegou a gerar embaraços. O coro mais potente de Fora Bolsonaro não destoou, pois apenas explicitou para quem as Cartas pela democracia estavam dirigidas e isto, sem dúvida, correspondia à opinião unânime dos participantes nos atos.

Os oradores não apenas se referiram às ameaças à democracia, mas aos problemas sociais que afligem cada um dos segmentos representados e cujo enfrentamento exige a existência do Estado de Direito para poderem chegar a uma solução. Foi uma importante qualificação do significado da democracia para cada um e para todos. Não podia ser melhor inclusive na comparação com a Carta de 1977, que ficou bem mais restrita no seu conteúdo.

Jair Bolsonaro continuou atacando as Cartas e passando o recibo de que a ameaça à democracia é ele mesmo. Embora as menções críticas dos bolsominions nas redes sociais tenham sido mais numerosas do que as favoráveis, os especialistas nesta área comentam que elas se restringiram à “bolha” da extrema direita e que em um público mais amplo e disseminado, fora de qualquer “bolha”, o apoio às Cartas dominou amplamente.

O dia 11 terminou, sem qualquer dúvida, com uma derrota retumbante do presidente, cuja única resposta foi indicar que a Petrobras baixou de novo o preço do diesel. Foram 0,20 centavos a menos no preço nas refinarias, aproveitando a queda das cotações internacionais. Isto deve significar uma diminuição minúscula para os usuários, talvez sequer isto, pois os revendedores estão desesperados para recompor seus lucros e podem não fazer o repasse.

Feito o balanço, olhemos para o futuro.

Não acho que a jornada do dia 11 barrou o golpe. Apenas tornou-o mais difícil. Digo isso porque os agentes deste golpe (paremos de comparar com 1964, por favor) são as FFAA, as polícias militares, os bandos fascistóides armados e organizados nos Clubes de Tiro e o que já se convencionou de chamar de “gado”, as bases fanáticas do bolsonarismo, agitadas por uma parcela minoritária, mas muito ativa das igrejas protestantes e, ainda menor, da igreja católica. É claro que quanto mais isolado estiver Bolsonaro, mais difícil ficará para os militares e policiais atravessarem o Rubicão da ruptura da legalidade. Sem eles os bolsominions, armados ou não, são impotentes para dar o golpe.

Podemos esperar ameaças e arreganhos da generalada (incluindo nesta expressão os oficiais superiores de todas as forças) para adiar as eleições ou anulá-las no caso da perspectiva de derrota ou a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições, mas se não conseguirem coagir ou comprar o Congresso, o passo fatal de fechar Câmara e Senado é bem mais difícil de ser dado. É claro que os 6 a 7 mil oficiais empregados pelo governo, alguns deles com salários milionários, vão agir sobre seus pares da ativa, até pela promessa de que podem alcançar um dia esta bocona. Mas não é o mesmo que a situação das FFAA da Venezuela, onde os oficiais da ativa estão entranhados na administração direta e na própria economia.

Como já escrevi várias vezes em outros artigos, toda esta pressão sobre o Congresso não funcionará “a seco”, em uma situação de normalidade. Mas em uma situação de caos político e/ou social, a pressão pode funcionar, sobretudo se for assegurada a continuidade de um legislativo que só olha para seus interesses individuais.

A campanha eleitoral vai proporcionar inúmeras oportunidades para provocações, desde agressões a ativistas e eleitores de Lula e de candidatos da oposição pelas ruas e praças das cidades do país até atentados contra comícios e comitês eleitorais em uma escala mais elevada de violência. Provocar enfrentamentos nas ruas que propiciem a intervenção de polícias favoráveis ao energúmeno, com muito gás lacrimogênio, balas de borracha, espancamentos e prisões é uma tática a se esperar nas próximas semanas, até o dia 2 de outubro.

Como vão atuar os conservadores, o “andar de cima”, que se manifestaram nas Cartas? Eles são bons em preparar manifestos, mas não têm poder de convocatória e, provavelmente, tem pouca disposição para ir para as ruas enfrentar estes riscos. Podemos esperar outras declarações, mais amplas e veementes, deste setor, mas quem vai estar nas ruas se arriscando vai ser a militância da oposição. Podemos contar com a ativa atuação da mídia convencional para denunciar a violência e os abusos e isto ajuda a isolar o bolsonarismo. Isto contribui para criar um clima político contra o golpe, mas não é decisivo.

Tudo isso pode ser superado se Jair Bolsonaro recuperar competitividade nas pesquisas eleitorais, resultado da derrama de dinheiro para a massa de desesperados que constituem a maioria do eleitorado. Se Jair Bolsonaro encostar ou ultrapassar Lula nas pesquisas, ele pode passar a seguir a linha da bandidagem do Centrão, disposta a ganhar com a força da grana e não com a violência das armas. Jair Bolsonaro poderia orientar seu gado para evitar confrontos com a oposição, mas sendo quem ele é, parece difícil que isto ocorra.

A oposição não pode se intimidar e entregar as ruas e praças para os bolsominions e vai ter que correr os riscos de se manter presente e, ao mesmo tempo, não comprar as provocações. Não vai ser uma coisa fácil, pois a tendência é “partir para o pau”. Apanhar sem reagir e seguir nas ruas vai ser o maior desafio para a oposição, mas são os agressores e violentos que são condenados pela opinião pública, sejam eles black blocks ou bolsominions. A manutenção da tática mais agressiva de Jair Bolsonaro e seus asseclas pode se voltar contra o energúmeno, quando os eleitores colocarem seus votos nas urnas.

De toda forma, a oposição vai ter que sair dos embates virtuais para ocupar as ruas e praças. Vai ter que buscar o corpo a corpo miúdo, conversando muito com os eleitores e buscando convencer e não hostilizar. Defendo que a militância dos movimentos sociais e dos partidos se dedique a este convencimento, que André Janones chamou de “sentar no chão das fábricas”. Isto não impede de se fazerem grandes comícios, que tem seu lugar na campanha, mas o corpo a corpo me parece mais eficaz.

Finalmente, Lula vai ter que oferecer saídas muito concretas para o desespero em que vive o povão. Definir políticas sociais muito concretas que possam ser percebidas como esperança de dias melhores. Um programa Fome Zero bem definido e fácil de defender vai ser o pivô desta campanha.

Lula também terá que denunciar todos os descalabros do governo Jair Bolsonaro, com ênfase nos horrores da crise da pandemia de Covid, nas denúncias da corrupção rasgada da família e de seu governo e, sobretudo, na crise alimentar, melhor dizendo, na calamidade da fome que é o efeito mais evidente de seu desgoverno.

Teremos que ter a cabeça fria e os corações ardentes.

*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

 

Fonte: A Terra é Redonda.

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