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UM PASSADO A SERVIÇO DA NATURALIZAÇÃO DAS OPRESSÕES

A história que Bolsonaro gosta

Por Bruna Letícia de Oliveira dos Santos e Bruno Ribeiro Oliveira

Bolsonaro quer impedir qualquer combate ao legado escravista e, ao mesmo tempo, busca preservar todos os benefícios jurídicos, econômicos e políticos construídos para os brancos por meio da escravidão.

Bolsonaro é um péssimo professor de história. Certa vez, ele afirmou que os portugueses nunca pisaram em África e que os negros entregavam os seus para serem escravizados. Não poderia estar mais errado, mas sua ficção histórica encontra mentes e corações, além de servir a um propósito político.

Ao negar o papel dos europeus no tráfico e no sistema escravagista, ele busca impedir qualquer possibilidade de reparação histórica. O presidente tenta retirar o envolvimento branco e culpar os negros pela escravidão. O emprego do termo negro, em sua fala, constrói uma imagem do outro de modo genérico. Se os negros entregavam os seus (pensar-se-á: todos os negros e negras de África e todos os negros e negras da diáspora), então são culpados pela escravidão.

A afirmação do presidente trata de justificar a manutenção das relações sociais e raciais do modo em que estão. Ou seja, genocídio negro, racismo estrutural subalternização das vidas negras. Ao mesmo tempo, busca preservar todos os benefícios jurídicos, econômicos e políticos construídos para os brancos por meio da escravidão. Bolsonaro quer impedir qualquer combate ao legado escravista e faz um movimento bastante recorrente no Brasil que é culpar a vítima.

É um processo de negação de um passado que é deveras importante para a compreensão do tempo presente brasileiro. As possibilidades de criação de um presente e um futuro que enfrentem os problemas legados por esse passado são destruídas. Ao contrário, erguem-se trincheiras para que se preserve a desigualdade racial no país. Do outro lado desse campo de batalha sobre o passado está um dos grupos mais detestados pelo presidente e seus apoiadores racistas (afinal, quem apoia racista, racista é).

Os profissionais das humanidades – historiadores, sociólogos, filósofos, antropólogos, cientistas políticos – são entendidos como causadores de divisão se ousam erguer questões, narrativas, pensamentos ou se apresentam dados que mostram que o Brasil é um país cuja sociedade é extremamente dividida pelas cores de pele e fenótipos. E que essa situação é geradora de mortes, desigualdade e sofrimento nas mais diversas áreas da existência humana. Aos indivíduos que pensam, atividade que é contrária ao governo Bolsonaro, resta o exílio (ver Jean Willys e Márcia Tiburi) e a demissão (ver Ricardo Galvão).

Bolsonaristas, e o campo ideológico da direita, de modo geral, não possuem interesse em conhecimentos ou saberes que não validem o capitalismo, a supremacia branca e um amor abstrato ao Brasil. Seu objetivo é fazer com que só exista uma maneira de pensar o passado. Portanto, quando um historiador desfere uma pergunta sobre o passado e esta atinge pontos nevrálgicos das narrativas do atual governo, logo, torna-se um inimigo, um comunista, um vagabundo ou qualquer outro atributo de rebaixamento. Isso é uma tática de impedir o pensar, pois renega qualquer possibilidade de se fazer questionamentos, de se discutir certas situações e de se buscar soluções. Por outro lado, é uma forma de manter diversos problemas, como o legado da escravidão.

A história que Bolsonaro gosta não permite problematizar o passado. É uma não história, pois se colocada diante de qualquer evidência sobre a realidade passada e não se sustenta como verdade. Os métodos de compreensão da direita sobre o passado são simples. O passado serve para validar a hierarquização entre classes e naturalizar sua desigualdade; serve para justificar projetos sócio-políticos e econômicos liberais; glorifica a supremacia de uma história centrada na branquitude e no eurocentrismo em que o cristianismo é central, os brancos (principalmente homens) são os grandes indivíduos heroicos e todo pensamento liberal e conservador de origem branca e europeia é inquestionável; ao fim, é uma narrativa que tenta resguardar as vantagens e os posicionamentos dos brancos nos mais altos postos das instituições de controle do país.

A história que Bolsonaro gosta também combate. Ela ataca o comunismo, o socialismo ou qualquer outra forma de pensar não capitalista e as apresenta como genocidas, fracassadas, perigosas e totalitárias. Ao mesmo tempo, o historiador Bolsonaro fornece uma visão do mundo que é baseada no fanatismo capitalista, ainda que venda o discurso da liberdade. Existe uma clara disposição em definir liberdade dentro de termos que validem a liberdade de mercado e o poder do governo. Há, também, um interesse em se dizer portador da verdade, enquanto todo o resto é portador da mentira.

Como essa narrativa sobre o passado propõe uma supremacia branca? Quase quatro séculos de escravidão não podem ser discutidos, ao menos que seja para culpar os povos de África e seus descendentes. Qualquer tentativa de pensar o escravismo com profundidade é evitada. Ao se negar qualquer problematização desse passado tão presente em nossa atualidade, que permeia todas as relações sociais, jurídicas e econômicas, admite-se que os quase quatrocentos anos de escravidão que beneficiaram e beneficiam os brancos não deve ser combatido. É uma forma de manter a supremacia dos brancos em todas as esferas da nação.

Guiando-se pela lógica do presidente, os pensadores que afirmam o oposto são, então, causadores de rupturas em um tecido social que, supostamente, é harmônico. Isso se iguala a dizer que a superioridade econômica, política e social dos brancos não pode, de modo algum, ser alvo de críticas. Esse tipo de pensamento serve para validar a contínua subalternização e matança de qualquer ser que não seja branco em território brasileiro. Em um caso recente, podemos ver como esse passado falso e mantenedor dos nossos legados coloniais e escravistas funciona.

Ao seguir-se o assassínio de João Alberto Silveira Freitas, no supermercado Carrefour em Porto Alegre, dia 19 de novembro, o vice-presidente Hamilton Mourão não só negou a existência do racismo em solo brasileiro, como disse haver uma tentativa de importá-lo para o país. O vice-presidente opera dentro da lógica do presidente. Não há racismo, nunca houve e mencioná-lo é dividir a pátria. Ocorre que o próprio Mourão não sabe que ele é racista. Pode ser que sua mente seja tão colonizada que ele não é capaz de compreender o infeliz mundo que mora por trás de outra afirmação sua, a de que o seu neto representa o branqueamento da raça.

Após o assassinato, Bolsonaro escreveu em sua página pessoal do Twitter que somos um povo miscigenado, “uma única família brasileira”, mas que pessoas (não cita quem) estão dividindo o povo brasileiro. Ele também afirma que existem problemas mais importantes do que as questões raciais. O presidente hierarquiza o problema e afirma que o “mal do país continua sendo a corrupção moral, política e econômica.” Ou seja, combater o racismo não é importante nem é interessante para o seu governo. Ao fim, termina afirmando que “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história”.

A “uma única família brasileira” mencionada não existe e nunca existiu. Se aceitarmos essa enunciação, devemos aceitar toda a ignorância histórica que vem junto dela. Devemos aceitar que nossa miscigenação por meio de contínuos estupros através de séculos não é nenhum problema, ou devemos assumir que famílias costumam se estuprar no Brasil. Também devemos esquecer que o presidente considera a miscigenação uma falta de educação de homens brancos, caso contrário não se relacionariam com mulheres negras.

Ao se aceitar que existem questões mais importantes que as raciais, rebaixa-se todos os habitantes que são suas vítimas em duas possibilidades de existência: primeira, não acreditem em racismo mas o suportem e a segunda, aceitem o racismo mas não reclamem e o suportem. Ademais, se aceitarmos que o problema é a corrupção, temos que admitir que o presidente em algum momento mentiu. Ou a corrupção é um problema ou a corrupção acabou, como ele outrora afirmou.

Mas a frase que mais nos serve para pensar sua concepção de história é a constatação de que quem enuncia o racismo atenta contra a nação e sua história. Isso é uma forma de falsificar o passado, pois parte do princípio de que jamais existiu qualquer tipo de discriminação racial no Brasil. É mais um dado que afirma a supremacia branca em uma narrativa histórica que impede qualquer fato detrator em relação à branquitude brasileira que governa o país desde a invasão do século XVI.

A fórmula histórica de Bolsonaro ainda apresenta que a história e a nação são inseparáveis. Nada mais correto, pois toda narrativa histórica está relacionada a formas de poder. Determinadas interpretações sobre o passado podem servir para determinados fins em nosso presente e no planejamento de nosso futuro. Servem, também, para validar e justificar as mais diversas decisões que tomamos. A história de Bolsonaro busca manter os dados de nossa colonização e escravismo. Seu objetivo é preservá-los através dos silenciamentos.

Silencia-se as desigualdades raciais e sua centralidade na sociedade brasileira, e afirma-se que o contrário disso equivale à traição da pátria e sua história. Não ser racista é trair a pátria. Não ser racista é trair nosso legado escravocrata. Esse foi o modo que o presidente encontrou em defender a supremacia branca no Brasil.

O conhecedor da história brasileira que Bolsonaro não gosta vê, claramente, as ligações entre um passado terrivelmente escravocrata com o assassinato racial praticado no Carrefour. Não se pode silenciar os disparos que enchem o cotidiano, as crianças brasileiras mortas por agentes do Estado brasileiro e o pranto dos brasileiros que vivem em meio ao aniquilamento. Porém, infelizmente, pode-se falsificar o passado, persuadir sua compreensão e mascarar sua existência em nosso presente.

Bolsonaro atesta sua ignorância sobre processos históricos que constituem o país que, curiosamente, ele preside. E fornece um contributo ao campo histórico da mentira, do negacionismo e da desinformação, ou seja, da não história. Enquanto uma consciência histórica negacionista, ignorante e mentirosa persistir os brasileiros pagarão um caro preço.

 

Bruna Letícia de Oliveira dos Santos é mestra em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Bruno Ribeiro Oliveira é doutorando do Programa em História e Artes da Universidade de Granada e mestre em História com ênfase em história de África pela Universidade de Lisboa.

 

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil.
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ANO XVI – EDIÇÃO Nº190 – JANEIRO 202I

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