Por Rosângela Pereira de Tugny

O livro A escola da reconquista, da mestra Mayá, é feito para aprendermos a escutar. Estruturado pela força e multiplicidade de vozes que chegam até seu povo em forma de cantos, a voz e os cantos de Mayá reverberam nele esta escuta de quem põe o ouvido na terra, escuta seu chamado, seu gemido para ver os seus caminhos.

O livro A escola da reconquista, da mestra Mayá, ou Maria José Muniz Andrade Ribeiro, publicado pela Editora da Teia dos Povos, integra um promissor acontecimento literário e científico para todo o país:  o surgimento de textos autobiográficos de mestras e mestres de comunidades tradicionais. Em A escola da reconquista, a autoria desta mestra indígena, de origem tupinambá, que nasceu e vive no Território Indígena Caramuru Catarina Paraguassu, conhecido como Território Pataxó Hã hã hãe, na Bahia, se multiplica em vários sujeitos que compõem sua história e sua comunidade: seus ancestrais, os Encantados, a juventude de sua aldeia, seus parentes e aliados de luta.

A mestra, educadora, liderança política e religiosa da luta Pataxó Hãhãhãe, Mayá viveu e andou com sua escola por 396 retomadas, enfrentando fazendeiros que invadiram o território de seu povo, com seus jagunços e os poderes militares aliados. Tão logo a Reserva Caramuru Catarina Paraguassu havia sido criada, em 1926, dando como consumada a perda de várias extensões de terras de povos indígenas da Bahia – entre os rios Colônia, o Rio Pardo, o litoral e terras que vão bem além, mais ao norte da Bahia – os invasores iniciaram novamente as expulsões violentas. Em 1950 não existiam praticamente mais famílias na Reserva Indígena Caramuru Catarina Paraguassu.  A família de Maria Muniz foi expulsa em 1952 e sua mãe passou a viver na cidade de Itaju do Colônia.

Foi no contexto de busca dos parentes esparramados entre regiões da Bahia e de Minas Gerais, de escuta e reescrita de uma história destruída, de mapas rasurados, nomes de cidades modificados, e de reconquista de uma a uma das 396 fazendas das garras dos invasores, ao longo de 30 anos, constituindo um dos mais marcantes movimentos de luta autônoma pela reconquista de terras e direitos das Américas nos tempos mais recentes, que Maria Muniz forjou seu método como escritora, educadora e líder espiritual e política de seu povo. Esta “guerrilha”, nos termos da própria autora, atravessava ao mesmo tempo o ódio aos caboclos e indígenas, tão instilado na região, e a negação daqueles “índios do Nordeste”, acusados de não serem mais índios.

Foram o conjunto das dificuldades, como a negação da existência de seu povo, o enfrentamento corpo a corpo das forças policiais e dos jagunços, a fome, as privações da luta, as ameaças, a perda de parentes na luta, mas também a constante presença dos ensinamentos de sua mãe, Lucília Muniz, que manteve viva a relação de seus filhos com os Encantados, que deram corpo e intensidade à sua teoria e ao seu método de uma escrita contra-historiográfica. Muniz teria aprendido quem é adquirido os gestos, as práticas e os recursos da espiritualidade sobre os quais se fundamentam a vida, a força e o pertencimento de seu povo, sem poder nomeá-los, sem poder se saber indígena, vivendo em estado de exceção. O longo processo de retomada do território de seu povo, o reencontro com os parentes e a terra, fizeram com que pudessem identificar como “indígenas”, ou como “tupinambás”, as práticas que nunca abandonaram.

São inúmeros os relatos destes momentos narrados por Maria Muniz. Em todos eles, é possível perceber a espiritualidade de sua mãe (que ilustra a capa do livro), própria aos homens e mulheres que lideraram este movimento, como o principal suporte nos momentos de maior tensão e conflito. É no processo permanente de nomeação desta espiritualidade que Maria Muniz funda também seu método educativo. Era necessário, junto com as famílias dispersas e expulsas do território, contar as histórias que lhes foram tomadas. A falta de espaço físico para as escolas deu ensejo a uma prática nômade da escuta de histórias que precisavam ser enunciadas e transmitidas.

Mayá se tornou educadora de toda uma geração de jovens indígenas que se formaram professores das primeiras escolas criadas a partir da Constituição de 1988, que permitiu o direito às escolas diferenciadas e bilíngues entre os povos indígenas de todo o país.

Apenas em 2012, após a retomada das 396 fazendas, o Supremo Tribunal Federal votou a nulidade dos títulos de terra atribuídos ilegalmente aos invasores do território indígena, equivalente a 54.107 hectares, reconhecendo a Terra Indígena Caramuru Catarina Paraguassu. O livro de Maria Muniz traz o aprendizado de uma história de mais de 30 anos de lutas. Mas elas não cessaram com a decisão do STF em 2012. Como ela mesma lembra no decorrer do seu livro, a guerrilha se atualiza e é preciso manter vivas as lembranças, manter vivo o espírito enlaçado pela força dos Encantados e o corpo pronto para os enfrentamentos: “A gente ainda está aí. Vocês veem: quem é que está fazendo a guerrilha? Quem é que está enfrentando a luta com o presidente da República com a cara na rua? Quem é que está gritando?”.

Longe, bem longe do subjetivismo ensimesmado das histórias que facilmente sucumbem às idiossincrasias individuais, aos fatos psicológicos, o texto biográfico de Maria Muniz atravessa as dimensões de muitas comunidades, recusa o tempo linear pela presença ativa dos Encantados e pela atualização das guerrilhas e sua presença ainda imprescindível nas frentes de luta.  Se a vida de Maria Muniz tem muita história, esta história não se tornou um passado. Aos 73 anos, mestra Mayá segue preparando jovens, aconselhando lideranças, apaziguando forças destrutivas, fazendo partos, participando de encontros, cuidando dos torés da Aldeia.

É notável que, por gerações, a etnologia indígena que se forjou nas terras baixas das Américas tenha contornado as histórias de vida, as biografias, e ainda mais dado lugar às autobiografias ditadas por personalidades tão iminentes como a mestra Mayá. O etnólogo Oscar Calávia Saez oferece uma revisão desta lacuna, deste “ângulo cego” que seria necessário focar, propondo que ela seja afinal um “bom lugar de encontro entre a estrutura e a história”:

Não se pode descartar que no meio dessa vasta produção possamos encontrar alguma breve narração em primeira pessoa, ou recompilar umas quantas autobiografias cumulativas, mas, ao que parece, nunca um indígena brasileiro decidiu-se ou foi solicitado a relatar sua vida, e não o mito ou a história do seu povo. Mesmo a geração recente de escritores indígenas que vem timidamente ganhando espaço no mundo literário ignora esse gênero — significativamente, mostra-se muito mais disposta a escrever mitos. (“Autobiografia e sujeito histórico indígena”. Novos estudos. Novembro 2006, p. 194).

Esses textos autobiográficos de mestras e mestres de comunidades tradicionais, ao mesmo tempo em que trazem as vozes de protagonistas notáveis de histórias apagadas na narrativa majoritária da História de nosso país, intervindo, rasurando, recolocando os termos e as direções desta narrativa, são textos que inauguram um novo estilo literário, em que biografia e teoria se intercambiam.

Estamos diante de autobiografias que se instalam em terrenos bem distantes daquele marcado pelo subjetivismo individualista que conhecemos na literatura moderna, contra o qual tanto advertia o teórico Claude Lévi-Strauss, sobretudo no último capítulo do seu importante livro O pensamento selvagem.

Um dos principais eventos acadêmicos, literários e culturais desta última década foi a publicação do livro de Davi Kopenawa, líder político e espiritual Yanomami em parceria com o antropólogo Bruce Albert. Este trabalho mobilizou cerca de vinte anos da vida do antropólogo que escutou, registrou, organizou, transcreveu e traduziu os relatos de vida do xamã Kopenawa. O livro, intitulado originalmente em francês La chute du ciel, foi rapidamente traduzido para o inglês, e finalmente para o português como A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami (Companhia das Letras, 2015). A publicação é paradigmática em vários sentidos. Primeiramente, pela beleza e sofisticação das narrativas de Davi Kopenawa. Em seguida, chama a atenção a urgência política e ecológica que traduzem as imagens verbais poeticamente construídas por alguém que possui uma rigorosa formação oratória, poética, musical e espiritual. Por fim, aprendemos com a construção colaborativa entre o antropólogo francês e Kopenawa:  o livro certamente existe porque Abert dedicou tempo e qualificou sua escuta, a tal ponto que pôde se ausentar do fluxo narrativo de Kopenawa, marcado por sua voz, suas imagens, sua rítmica.

Por meio de uma análise que traça paralelos entre a expressiva presença deste gênero na bibliografia da etnologia indígena dos Estados Unidos, uma mais modesta presença na bibliografia dos países hispano-americanos e a sua quase total ausência (pelo menos até a data de seu texto), Calávia Saez levanta os dilemas que podem se situar entre uma construção do sujeito ocidental que povos indígenas teriam herdado de tradições calvinistas e jesuíticas e a aparição do discurso autobiográfico nas situações que legitimam sua identidade diante dos conquistadores, mas sobretudo reconhece uma prática do discurso autobiográfico ameríndio presente nas falas dos xamãs, em gêneros das artes da palavra de alguns povos como o yamayama, que entre os povos Yaminawa são, “ao mesmo tempo, poesia lírica e história: falam dos pais e da sua ausência, das mudanças no modo de vida, dos amantes, dos encontros e das rupturas amorosas. São cantos de alguém, objeto de viva curiosidade por ser cantos de alguém.” Calávia Saez também analisa este “eu” dos discursos xamânicos e de chefes indígenas formado pela “confluência de vozes de mortos, inimigos, animais, espíritos, objetos; todos eles alheios a seu convívio habitual”. Por fim, é interessante encontrar no texto de Oscar Calávia um convite à etnologia a acompanhar os passos do movimento indígena, tão fortemente representando hoje pela mestra Mayá: “Talvez, num contexto em que a voz indígena já tenha ganhado seu espaço na arena política, promover a narração autobiográfica seja também um modo de dotar essa voz da pluralidade que as sociedades indígenas sempre têm incluído na sua constituição.”

Seu livro é um convite, porque em dezenas de situações as histórias de vida são ouvidas por aqueles que acompanham as lutas dos povos indígenas, em tantas outras são ouvidas por etnólogos, hoje bastante interessados pela política indígena. E, no entanto, pessoas como Davi Kopenawa e a mestra Maria Muniz, assim como inúmeras personalidades que atravessaram as últimas décadas de luta do movimento indígena, não disporiam de mais tempo para redigir seus livros. É algo que iria muita além de dominarem ou não a escrita alfabética dos países em que se encontram. Suas vidas estão atravessadas de urgências de toda ordem, cerimônias de cura, incursões na mata, participações em reuniões, assembleias, preparação de rituais, trabalhos na roça, enfrentamentos, mobilizações. É então necessário que a etnologia se decida a transcrever e promover as publicações autobiográficas neste cenário de lutas e visibilidade dos movimentos indígenas em tempos de cólera. Imaginemos o quanto conhecer tais histórias mudaria o currículo das instituições de ensino de todos os níveis.

Umas últimas palavras sobre a proposta de pensar em uma contra-historiografia para esta construção metodológica de Mayá. Tomo emprestada a noção de “contracolonização” de Antônio Bispo dos Santos, morador do Quilombo do Saco-Curtume no Piauí, poeta, escritor, professor, lavrador, ativista político, militante do movimento social quilombola. Em seu livro Colonização, Quilombos: modos e significações, ele apresenta a noção de contracolonização:

Assim fui formado por mestras e mestres de ofício em um dos territórios de luta contra a colonização. Por colonização, compreendemos todos os processos etnocêntricos de invasão, expropriação, etnocídio, subjugação e até de substituição de uma cultura pela outra, independentemente do território geográfico. E chamamos contracolonização todos os processos de resistência e luta em defesa dos territórios dos povos contracolonizadores, seus símbolos, significações e modos de vida. Tanto os povos que vieram da África como os originários das Américas estão assim sob as mesmas condições, isto é, independentemente de suas especificidades no processo de escravização, podem ser considerados contracolonizadores. Em contrapartida, os povos que vieram da Europa, independentemente de serem senhores ou colonos, são colonizadores.

Ao contrário de “descoloniais”, “decoloniais”, “pós-coloniais”, predicados daqueles críticos ao sistema colonial, mas que não enfrentam diariamente as lutas contra a colonização em seus territórios, Bispo demarca a situação dos povos originários e de África na história. Estes nunca deixaram de enfrentar a invasão de seus territórios.

É nesta mesma qualidade de resistência cotidiana e sem fim, contracolonizadora, que se inscreveu essa contra-historiografia praticada e ensinada por Mayá, enquanto avançava com seu povo nas retomadas.

Foi na escuta das autobiografias, este objeto ainda refugado da etnologia indígena brasileira, na atenção aos fragmentos de relatos que ecoavam a cada momento em que um pequeno grupo de parentes se reencontrava e que se planejava uma nova retomada, que Muniz construiu sua própria história, permitiu que várias vozes de seu povo fizessem o mesmo e forjou seu método e sua ferramenta de luta como educadora.

O seu livro é feito para aprendermos a escutar. Estruturado pela força e multiplicidade de vozes que chegam até seu povo em forma de cantos, a voz e os cantos de Mayá reverberam nele esta escuta de quem põe o ouvido na terra, escuta seu chamado, seu gemido para ver os seus caminhos.

Rosângela Pereira de Tugny é professora da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil | Imagem: Lucília Muniz (Foto: Augustin de Tugny).

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