Por Zélia Amador de Deus

Em O sentido da liberdade e outros diálogos difíceis, Angela Davis expõe diversas formas de discriminação – racismo, classismo, sexismo, homofobia, transfobia, xenofobia – perpassando o encarceramento daqueles que temos chamado de “deserdados da sorte”. Nos doze capítulos compostos de palestras proferidas entre 1994 e 2009, Davis nos mostra que hoje o encarceramento substitui a escravidão em termos de privação da liberdade e, mais ainda, na forma como desumaniza os escolhidos “inimigos da nação”.

Davis é certeira em mostrar o racismo como um dos pilares do sistema capitalista, pois, à medida que este avança, aquele se metamorfoseia não apenas para mascarar sua presença, mas, sobretudo, para se fortalecer e agir de maneira eficaz sobre suas vítimas. O racismo se atualiza o tempo todo para garantir sua persistência.

A autora ressalta ainda o caráter de atuação simultâneo e potente da interseccionalidade, ferramenta que torna mais complexas as relações de dominação nos países que sofreram o processo colonial, ao mesmo tempo que enfatiza a condição transnacional do racismo, afirmando que, guardadas as devidas proporções, o que acontece nos Estados Unidos ocorre em todas as sociedades geradas sob a égide desse tipo de preconceito. E no Brasil isso não é diferente.

É pelo caminho da interseccionalidade que as esquerdas brasileiras devem atualizar sua luta contra a ordem capitalista; caso contrário, falarão sozinhas, sob pena de não mais alcançarem com seus discursos os grupos que se movem em torno das lutas etnicorraciais, de gênero e de classe. Quando acrescento o étnico, refiro-me aos povos originários.

Ao ler este livro, veio-me à memória um provérbio que sempre ouvi quando morria uma criança – é importante ressaltar que nasci e cresci entre negros, na década de 1950, um tempo de mortalidade infantil bastante alta no Brasil. Para consolar a mãe pela perda do rebento, costumava-se dizer: “Antes chorar a morte que chorar a sorte”. A tradução desse terrível dito popular é: os deserdados da sorte são sempre os mais atingidos numa sociedade que hierarquiza as humanas e os humanos.

 

***

Qual é o sentido da liberdade? Ao longo de décadas de trabalho, a filósofa Angela Davis se dedica a analisar a questão que dá título a este livro e a propor caminhos para extinguir todas as formas de opressão que negam aos sujeitos liberdade política, cultural e sexual.

Publicados pela primeira vez em português, os doze textos que compõem o livro foram palestras realizadas por Angela Davis entre 1994 e 2009 e abordam a relação entre neoliberalismo, racismo, opressões de gênero e classe e o fenômeno da expansão da indústria da punição (ou complexo industrial-prisional) nos Estados Unidos. É a partir dessa inter-relação que a autora analisa fatos históricos da sociedade estadunidense, como a guerra no Iraque, o 11 de Setembro, a eleição de Barack Obama, o movimento pelos direitos civis e a importância da luta coletiva – em especial das comunidades negras, LGBTQIA+ e de mulheres – para repensar e ampliar o sentido da liberdade. Apresentando o assunto de forma ágil e acessível, a autora explora a noção radical de liberdade como um esforço coletivo em prol de uma verdadeira democracia, que exige novas formas de pensar e ser.

O sentido da liberdade e outros diálogos difíceis, de Angela Davis, tem tradução de Heci Regina Candiani, apresentação de Robin D. G. Kelley, texto de orelha de Zélia Amador de Deus, quarta capa de Erika Hilton e Jurema Werneck e capa de Ronaldo Alves.

 

“Angela Davis é uma das maiores ativistas da luta negra pela liberdade. Seu compromisso com a emancipação do povo preto em todo o mundo nos inspira a batalhar por cidadania, direitos, afirmação das nossas identidades e reconhecimento da nossa verdadeira história.”
– Erika Hilton

“Angela Davis fala com todas as pessoas que se dispõem à luta. Ler sua obra é, de certa forma, dialogar com ela e refletir sobre os fundamentos deste mundo concreto e cruel que queremos e devemos transformar. Os desafios nos unem em diferentes tempos e lugares – as palavras de Davis fazem sentido aqui, em sua reivindicação de radicalidade no confronto ao racismo em todas as suas formas. Juntemo-nos a ela para que um dia, em algum tempo, a liberdade nos faça sentido.”
 Jurema Werneck

“Muito antes de ‘raça/gênero’ se tornar a injunção que é agora, Angela Davis já desenvolvia um enquadramento analítico que colocava esses fatores em foco. Para quem só a vê como ícone público, é hora de conhecer a verdadeira Davis, possivelmente a mais importante intelectual de hoje.”
 Robin D. G. Kelley

 

Fonte: Boitempo.

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ANO XVIII – EDIÇÃO Nº 212 – NOVEMBRO 2022

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