Cátedra da USP recebe as “escrevivências” de Conceição Evaristo.

Por Claudia Costa

 

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

 A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

Poemas de Recordação e outros movimentos
Capa do livro Poemas da Recordação e Outros Movimentos, de Conceição Evaristo – Foto: Divulgação

Esses versos iniciam Vozes-Mulheres, poema que entremeia todo este texto e integra o livro Poemas de Recordação e Outros Movimentos (2008), de autoria da escritora mineira Conceição Evaristo. A poeta, contista, romancista e teórica da literatura foi anunciada no dia 6 passado como a nova titular da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência da USP. Ela dará início a suas atividades em junho. Homenageada como Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti de 2019 e vencedora do Prêmio Jabuti de 2015, além de ser contemplada, em 2018, com o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra, a escritora será o sétimo nome a assumir a gestão da cátedra, que foi criada em 2015 pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e pelo Instituto Itaú Cultural com o objetivo de lançar um novo e mais profundo olhar para a arte, a cultura e a ciência.

Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte (MG). De família humilde e sem conseguir emprego em sua cidade, acabou se mudando, em 1973, para o Rio de Janeiro. Lá ela se graduou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e seguiu carreira no magistério, lecionando na rede pública fluminense. Fez mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, concluído em 1996, com a dissertação Literatura Negra: Uma Poética de Nossa Afrobrasilidade, e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a tese Poemas Malungos, Cânticos Irmãos, de 2011, em que analisou a poesia dos afro-brasileiros Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira e do angolano Agostinho Neto.

Sua estreia na literatura aconteceu em 1990, quando seis de seus poemas foram incluídos na coletânea Cadernos Negros, do grupo Quilombhoje, formado por escritores afro-brasileiros de São Paulo que financiam a própria produção. Já seu interesse pela literatura, pela poesia e também pela prosa, diz ela, começou muito cedo, ainda na escola primária, quando experimentou os primeiros exercícios literários, na época chamados de composição – a atual redação. Mas, ainda segundo ela, há toda uma produção oral que marca sua escrita. “Eu não nasci rodeada de livros, eu nasci rodeada de palavras. Meu exercício com a oralidade, meu encantamento com a palavra, com os sons da palavra e com o que a palavra poderia significar, sem sombra de dúvida, marcam a minha literatura.”

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

Ponciá Vivêncio
Capa do livro Ponciá Vicêncio – Foto: Divulgação

Conceição é autora de contos, poemas e romances, parte deles traduzida para o inglês e o francês, além do árabe e do espanhol. Atualmente, está sendo produzida a tradução de Becos da Memória para a língua espanhola, com possibilidades ainda de tradução para o italiano, como ela mesma antecipa. Seu foco está nas mulheres negras, e mesmo sendo obras ficcionais têm muito da realidade vivida pelo povo negro. São retratos do cotidiano que trazem reflexões profundas acerca da desigualdade, mas que não só denunciam as opressões raciais e de gênero, mas também recuperam a ancestralidade negra.

Seu primeiro romance é Ponciá Vicêncio, publicado em 2003. Segundo Conceição, um romance que ela mesma autofinanciou, mas que fez enorme sucesso, dando-lhe visibilidade. “Esse livro é editado para leitura em um dos vestibulares da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e em outras universidades particulares de Minas Gerais”, recorda, dizendo que ele foi conquistando um público leitor ao mesmo tempo em que abriu espaço para a publicação de novos trabalhos. Apesar de ser o primeiro livro publicado, não é seu primeiro texto, e sim Becos da Memória, publicado somente em 2006. Fato curioso é que Ponciá Vicêncio é um livro do qual ela aprende a gostar “como leitora”, à medida em que seus trechos são comentados por seus leitores e ela vai relendo a obra.

Becos da Memória
Capa do livro Becos de Memória – Foto: Divulgação

A autora revela ainda seu livro preferido: Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011). “É uma antologia de contos que eu escrevo também numa hora de insubmissão, num momento em que eu estou escrevendo minha tese de doutorado, que já durava há anos, porque havia sido interrompida.” E quando ela retomou a tese, já “muito cansada da pesquisa”, sua maneira de descansar era “ir para o texto de criação”, que concluiu já no final do seu doutorado. “Talvez esse, de todos os meus livros, tenha sido o mais rápido, mas também o mais pensado.”

Outro título que ela cita é Olhos d’Água (2014), também uma antologia de contos, vencedora do Prêmio Jabuti, que a coloca em evidência na literatura brasileira. “Alguns escritores e escritoras passaram a me reconhecer, a me considerar e a me cumprimentar inclusive, depois que eu ganhei o Prêmio Jabuti. Então foi preciso o Prêmio Jabuti para legitimar a minha escrita junto aos meus pares. Ele certifica que uma mulher negra é capaz de uma autoria; que uma mulher negra é capaz de produzir literatura”, comenta. Conceição gosta de destacar que o primeiro grupo que acolheu sua obra, independente de prêmio, foi o Movimento Social Negro, que ampliou o seu público através de trabalhos acadêmicos.

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e fome.

Insubmissas Lágrimas de Mulheres
Capa de Insubmissas Lágrimas de Mulheres – Foto: Divulgação

No trabalho literário de Conceição é comum o uso da metalinguagem, e um de seus termos mais conhecidos é “escrevivência”, uma fusão das palavras escrever e vivência. Para ela, discorrer sobre “escrevivência” é uma verdadeira aula, ou um tratado particular. “Eu projeto uma literatura que está intimamente ligada a uma vivência, a uma existência”, explica. Isso, segundo ela, pode gerar conclusões de que tudo que escreve ela vive, mas Conceição afirma veementemente que não. “Não é uma vivência particularizada. Em vários textos, as experiências das personagens podem se confundir com as experiências da escritora, ou da narradora”, completa.

“Escrevivência”, para ela, é um conceito de escrita que ficcionaliza a experiência de um sujeito que está profundamente ligado à coletividade. “Nesse sentido, “escrevivência” não é uma escrita de si, não é uma autoficção; é um texto que não se esgota em um sujeito particularizado, e sim um texto que se esgota e se confunde com um sujeito coletivo”, reitera. Ainda sobre o conceito, que chama de suporte para se ler e para se produzir uma literatura, ela afirma que o núcleo dessa ideia é pautado pela experiência de mulheres negras, tanto na contemporaneidade como no processo histórico. Ou seja, é sobre as mulheres negras escravizadas que eram obrigadas a contar histórias para adormecer a casa-grande, em contraponto à situação atual, na qual a autoria de mulheres negras “não é mais para adormecer os da casa-grande, mas sim para incomodá-los em seus sonos injustos”.

Para Conceição, a literatura é um espaço onde pode se desenvolver uma crítica, uma reivindicação, uma afirmação de uma identidade negra, assim como também o texto literário pode ser um lugar de exclusão e de estereotipização dos negros, dos índios e das pessoas que não se enquadram a um paradigma ou modelo. “Há uma literatura que é um espaço de constante renovação de determinados estereótipos e há uma outra literatura que rompe com esses estereótipos. A literatura tem essa potência porque não é um discurso que pretende, por exemplo, afirmar ou confirmar determinados dados, como o discurso histórico, e é também um texto que ganha o leitor pela emoção”, acredita. Mais importante, segundo ela, é o texto literário que retira o sujeito negro do lugar de subalternidade e de exclusão, construindo um outro imaginário. Muito se fala sobre novas narrativas que, em sua opinião, só serão possíveis se apresentarem novos imaginários sobre esses sujeitos. E destaca ainda o surgimento de uma literatura escrita a partir da perspectiva indígena, onde os povos se colocam com suas experiências.

A voz de minha filha

recorre todas as nossas vozes

recolhe em si

Olhos d'água
Capa do livro Olhos d’Água – Foto: Divulgação

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

Em relação a seu trabalho à frente da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência da USP, Conceição avisa que pretende abarcar não só o público de dentro da Universidade de São Paulo, mas  também o de fora. “O que me interessa, particularmente, é pensar o exercício da linguagem”, diz. Conceição informa que, como pesquisadora da área, seu principal objetivo é pensar como as classes populares se apropriam da língua portuguesa e criam seus textos, e como esses textos acabam “perturbando” os textos canônicos. Segundo ela, é um aspecto de profunda importância para os professores que estão em sala de aula pensarem em uma educação literária mais ampla, e também para a Universidade, que deve ser pensada como um lugar de pluridiversidade. “Meu trabalho terá como base e inspiração a literatura.”

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade

 

Fonte: Jornal da USP.

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